Oceano Atlântico
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m
O oceano não é um reservatório parado. Ele é atravessado por rios de água que transportam mais calor que qualquer outro mecanismo da superfície do planeta — e que definem onde chove, onde há peixe e onde o inverno é suportável.
Três forças bastam para explicar quase toda a circulação oceânica: o vento que arrasta a superfície, as diferenças de densidade que fazem a água pesada afundar e a rotação da Terra, que desvia qualquer coisa em movimento. A primeira comanda os primeiros centenas de metros da coluna d'água; a segunda governa o abismo; a terceira organiza as duas em padrões que se repetem em todas as bacias.
O desvio causado pela rotação, chamado efeito de Coriolis, empurra o movimento para a direita no hemisfério norte e para a esquerda no sul. Quando o vento sopra sobre o mar, a camada superficial não segue exatamente a direção do vento: ela se desloca em ângulo. Camadas sucessivamente mais profundas giram um pouco mais, formando a espiral descrita pelo oceanógrafo sueco Vagn Walfrid Ekman em 1905. O resultado líquido, somando toda a camada afetada, é um transporte perpendicular ao vento — e é esse transporte que empilha água no centro das bacias e a retira das costas.
O empilhamento de água no centro das bacias subtropicais cria uma elevação de até um metro no nível do mar, quase imperceptível ao olho, porém suficiente para pôr a água a circular em torno dela. Formam-se assim os cinco grandes giros subtropicais: dois no Pacífico, dois no Atlântico e um no Índico. Giram no sentido horário no hemisfério norte e anti-horário no sul.
Esses giros não são simétricos. A borda ocidental de cada bacia concentra correntes estreitas, rápidas e profundas; a borda oriental tem correntes largas, lentas e rasas. A explicação, formulada por Henry Stommel em 1948, está na variação do efeito de Coriolis com a latitude. É por isso que a Corrente do Golfo, no oeste do Atlântico Norte, atinge mais de dois metros por segundo em uma faixa de poucas dezenas de quilômetros, enquanto a Corrente das Canárias, do outro lado da mesma bacia, mal se percebe.
As grandes correntes de contorno oeste são o Golfo, no Atlântico Norte; o Kuroshio, no Pacífico Norte; a Corrente do Brasil, no Atlântico Sul; a Corrente da Austrália Oriental, no Pacífico Sul; e a Corrente das Agulhas, no Índico. Todas transportam calor tropical para latitudes mais altas. No centro de cada giro, onde a água praticamente não circula, acumulam-se algas e detritos flutuantes: é o caso do Mar dos Sargaços, único mar do mundo delimitado por correntes em vez de terras.
| Bacia | Corrente de contorno oeste | Corrente de contorno leste |
|---|---|---|
| Atlântico Norte | Corrente do Golfo | Corrente das Canárias |
| Atlântico Sul | Corrente do Brasil | Corrente de Benguela |
| Pacífico Norte | Corrente de Kuroshio | Corrente da Califórnia |
| Pacífico Sul | Corrente da Austrália Oriental | Corrente de Humboldt |
| Índico Sul | Corrente das Agulhas | Corrente da Austrália Ocidental |
Nas bordas orientais das bacias, o vento sopra paralelo à costa e o transporte de Ekman empurra a água superficial para o mar aberto. Para ocupar o lugar, sobe água de duzentos a trezentos metros de profundidade, fria e carregada de nitrato e fosfato acumulados pela decomposição de matéria orgânica. É a ressurgência costeira.
Essas regiões ocupam menos de 1% da superfície oceânica e respondem por cerca de um quinto de toda a captura pesqueira mundial. Os quatro grandes sistemas de ressurgência são o de Humboldt, ao largo do Peru e do Chile; o da Califórnia; o das Canárias, na costa noroeste africana; e o de Benguela, na Namíbia e em Angola. No Brasil, a ressurgência de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, é um caso local do mesmo mecanismo, ativada pelos ventos de nordeste do verão.
Quando o vento falha, a ressurgência para. Foi assim que o colapso da anchoveta peruana, no início da década de 1970, combinou um evento de El Niño excepcionalmente forte com uma frota superdimensionada — um dos episódios mais estudados da história da pesca.
Ao longo do equador, os ventos alísios empurram água para oeste, formando as correntes sul-equatorial e norte-equatorial, separadas por uma contracorrente que corre para leste. Logo abaixo da superfície, entre 50 m e 200 m, corre a Subcorrente Equatorial, também chamada Corrente de Cromwell — uma faixa estreita e veloz que atravessa o Pacífico de oeste para leste e aflora justamente nas ilhas Galápagos, explicando a presença de pinguins na linha do equador.
Quando os alísios enfraquecem, a água quente empilhada no Pacífico ocidental escorrega de volta para leste, a termoclina afunda na América do Sul e a ressurgência cessa: é o El Niño. Na fase oposta, La Niña, os alísios se intensificam e o Pacífico oriental fica ainda mais frio. As duas fases alteram o regime de chuvas no Brasil, na Austrália, na Indonésia e no oeste dos Estados Unidos.
Ao sul de todos os continentes, sem nenhuma barreira de terra pela frente, a Corrente Circumpolar Antártica circula de oeste para leste em torno da Antártida. Transporta em torno de 130 a 150 milhões de metros cúbicos por segundo, mais do que qualquer outra corrente do planeta e mais de cem vezes a vazão somada de todos os rios.
Ela se estabeleceu quando a Passagem de Drake se abriu, entre 40 e 30 milhões de anos atrás, isolando termicamente a Antártida e permitindo a formação do manto de gelo. Hoje funciona como conexão entre as três grandes bacias oceânicas e como fronteira biológica: a norte dela, a Convergência Antártica marca a transição abrupta para águas subantárticas mais quentes.
Abaixo dos poucos centenas de metros movidos pelo vento, a água se desloca por diferença de densidade. Só em alguns pontos do planeta a água superficial fica fria e salgada o bastante para afundar até o fundo: os mares nórdicos e o Mar do Labrador, no Atlântico Norte, e o Mar de Weddell e o Mar de Ross, na Antártida.
No norte, forma-se a Água Profunda do Atlântico Norte, que escorre para o sul entre 1.500 m e 4.000 m. No sul, a Água de Fundo Antártica, mais densa ainda, desliza pelo assoalho e preenche as bacias abissais dos três oceanos, inclusive a Bacia do Brasil, aonde chega pela Passagem Vema. O conjunto, somado ao retorno lento em superfície, é frequentemente chamado de esteira transportadora oceânica. Uma parcela de água que afunda na Groenlândia pode levar cerca de mil anos para voltar à superfície no Pacífico Norte.
No Atlântico, o ramo mais estudado desse sistema é a Circulação de Revolvimento Meridional, conhecida pela sigla inglesa AMOC. Ela transporta em torno de 1,3 petawatt de calor para o norte, o equivalente a cerca de um milhão de grandes usinas termelétricas, e é a razão pela qual o noroeste europeu é muito mais ameno que regiões americanas na mesma latitude.
Um detalhe pouco intuitivo
Nem toda água densa vem do frio. No Mediterrâneo e no Mar Vermelho, a evaporação intensa deixa a água tão salgada que ela afunda mesmo estando quente. A água mediterrânea sai pelo Estreito de Gibraltar por baixo e se espalha pelo Atlântico em torno de mil metros de profundidade, ainda detectável a milhares de quilômetros de distância.
Até meados do século XX, a circulação era inferida de registros de navios, garrafas lançadas ao mar e da posição de icebergs. Benjamin Franklin publicou em 1770 uma das primeiras cartas da Corrente do Golfo, desenhada a partir de relatos de baleeiros de Nantucket que sabiam evitá-la para acelerar a travessia.
Hoje o sistema é outro. Cerca de quatro mil boias autônomas do programa Argo mergulham a dois mil metros, derivam por dez dias e voltam à superfície medindo temperatura e salinidade. Fundeios instrumentados atravessam o Atlântico em latitudes escolhidas para vigiar a AMOC de forma contínua desde 2004. Satélites altimétricos medem a altura da superfície do mar com precisão de centímetros, e dela se calcula a velocidade das correntes. Modelos operacionais combinam tudo isso e produzem estimativas diárias da circulação global.
O derretimento do gelo da Groenlândia e o aumento das chuvas em altas latitudes despejam água doce justamente onde a água precisa ficar densa para afundar. Reconstruções indiretas sugerem que a AMOC está mais fraca hoje do que em qualquer momento do último milênio, embora a magnitude e o ritmo dessa mudança sejam objeto de debate científico ativo — as séries de medição direta têm apenas duas décadas, curtas demais para separar tendência de variabilidade natural.
Outras mudanças já são mensuráveis com mais segurança: as grandes correntes de contorno oeste estão se deslocando em direção aos polos e se intensificando; a estratificação da camada superficial aumentou, dificultando a chegada de nutrientes à zona iluminada; e as zonas de mínimo de oxigênio se expandiram em várias bacias. Todas essas alterações repercutem em pesca, clima costeiro e distribuição de espécies.
Atualizado em Sugerir uma correção
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m
Cinturão de água que circunda a Antártida, abriga a corrente mais poderosa do planeta e tem o próprio estatuto de oceano em disputa.
Área 20.327.000 km² Máx. 7.434 m
O trecho de mar mais tempestuoso do mundo, com 800 km entre a América do Sul e a Antártida e o maior transporte de água do planeta.
Área Aproximadamente 700.000 km² Máx. Cerca de 4.800 m
Mar sem costas no centro do giro do Atlântico Norte, coberto por algas flutuantes e sem estatuto jurídico próprio.
Área Cerca de 4.000.000 km² Máx. Cerca de 6.000 m
Única ligação natural entre o Mediterrâneo e o Atlântico, com 14 km de largura mínima e uma soleira de cerca de 300 m.
Área Aproximadamente 1.400 km² Máx. Cerca de 900 m
Cinturão oceânico onde a água antártica mergulha sob a subantártica, com salto térmico de 2 °C a 3 °C em poucos quilômetros.
Área Cerca de 35.700.000 km² Máx. 8.266 m