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DatingYes Oceanos e Mares
Leitura de fundo

Correntes oceânicas

O oceano não é um reservatório parado. Ele é atravessado por rios de água que transportam mais calor que qualquer outro mecanismo da superfície do planeta — e que definem onde chove, onde há peixe e onde o inverno é suportável.

O que move a água do mar

Três forças bastam para explicar quase toda a circulação oceânica: o vento que arrasta a superfície, as diferenças de densidade que fazem a água pesada afundar e a rotação da Terra, que desvia qualquer coisa em movimento. A primeira comanda os primeiros centenas de metros da coluna d'água; a segunda governa o abismo; a terceira organiza as duas em padrões que se repetem em todas as bacias.

O desvio causado pela rotação, chamado efeito de Coriolis, empurra o movimento para a direita no hemisfério norte e para a esquerda no sul. Quando o vento sopra sobre o mar, a camada superficial não segue exatamente a direção do vento: ela se desloca em ângulo. Camadas sucessivamente mais profundas giram um pouco mais, formando a espiral descrita pelo oceanógrafo sueco Vagn Walfrid Ekman em 1905. O resultado líquido, somando toda a camada afetada, é um transporte perpendicular ao vento — e é esse transporte que empilha água no centro das bacias e a retira das costas.

Os giros e a estranha assimetria das bacias

O empilhamento de água no centro das bacias subtropicais cria uma elevação de até um metro no nível do mar, quase imperceptível ao olho, porém suficiente para pôr a água a circular em torno dela. Formam-se assim os cinco grandes giros subtropicais: dois no Pacífico, dois no Atlântico e um no Índico. Giram no sentido horário no hemisfério norte e anti-horário no sul.

Esses giros não são simétricos. A borda ocidental de cada bacia concentra correntes estreitas, rápidas e profundas; a borda oriental tem correntes largas, lentas e rasas. A explicação, formulada por Henry Stommel em 1948, está na variação do efeito de Coriolis com a latitude. É por isso que a Corrente do Golfo, no oeste do Atlântico Norte, atinge mais de dois metros por segundo em uma faixa de poucas dezenas de quilômetros, enquanto a Corrente das Canárias, do outro lado da mesma bacia, mal se percebe.

As grandes correntes de contorno oeste são o Golfo, no Atlântico Norte; o Kuroshio, no Pacífico Norte; a Corrente do Brasil, no Atlântico Sul; a Corrente da Austrália Oriental, no Pacífico Sul; e a Corrente das Agulhas, no Índico. Todas transportam calor tropical para latitudes mais altas. No centro de cada giro, onde a água praticamente não circula, acumulam-se algas e detritos flutuantes: é o caso do Mar dos Sargaços, único mar do mundo delimitado por correntes em vez de terras.

Correntes de contorno oeste e leste de cada bacia
BaciaCorrente de contorno oesteCorrente de contorno leste
Atlântico NorteCorrente do GolfoCorrente das Canárias
Atlântico SulCorrente do BrasilCorrente de Benguela
Pacífico NorteCorrente de KuroshioCorrente da Califórnia
Pacífico SulCorrente da Austrália OrientalCorrente de Humboldt
Índico SulCorrente das AgulhasCorrente da Austrália Ocidental

Ressurgência: onde o oceano alimenta o mundo

Nas bordas orientais das bacias, o vento sopra paralelo à costa e o transporte de Ekman empurra a água superficial para o mar aberto. Para ocupar o lugar, sobe água de duzentos a trezentos metros de profundidade, fria e carregada de nitrato e fosfato acumulados pela decomposição de matéria orgânica. É a ressurgência costeira.

Essas regiões ocupam menos de 1% da superfície oceânica e respondem por cerca de um quinto de toda a captura pesqueira mundial. Os quatro grandes sistemas de ressurgência são o de Humboldt, ao largo do Peru e do Chile; o da Califórnia; o das Canárias, na costa noroeste africana; e o de Benguela, na Namíbia e em Angola. No Brasil, a ressurgência de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, é um caso local do mesmo mecanismo, ativada pelos ventos de nordeste do verão.

Quando o vento falha, a ressurgência para. Foi assim que o colapso da anchoveta peruana, no início da década de 1970, combinou um evento de El Niño excepcionalmente forte com uma frota superdimensionada — um dos episódios mais estudados da história da pesca.

O equador e o Pacífico que respira

Ao longo do equador, os ventos alísios empurram água para oeste, formando as correntes sul-equatorial e norte-equatorial, separadas por uma contracorrente que corre para leste. Logo abaixo da superfície, entre 50 m e 200 m, corre a Subcorrente Equatorial, também chamada Corrente de Cromwell — uma faixa estreita e veloz que atravessa o Pacífico de oeste para leste e aflora justamente nas ilhas Galápagos, explicando a presença de pinguins na linha do equador.

Quando os alísios enfraquecem, a água quente empilhada no Pacífico ocidental escorrega de volta para leste, a termoclina afunda na América do Sul e a ressurgência cessa: é o El Niño. Na fase oposta, La Niña, os alísios se intensificam e o Pacífico oriental fica ainda mais frio. As duas fases alteram o regime de chuvas no Brasil, na Austrália, na Indonésia e no oeste dos Estados Unidos.

A corrente que dá a volta no mundo

Ao sul de todos os continentes, sem nenhuma barreira de terra pela frente, a Corrente Circumpolar Antártica circula de oeste para leste em torno da Antártida. Transporta em torno de 130 a 150 milhões de metros cúbicos por segundo, mais do que qualquer outra corrente do planeta e mais de cem vezes a vazão somada de todos os rios.

Ela se estabeleceu quando a Passagem de Drake se abriu, entre 40 e 30 milhões de anos atrás, isolando termicamente a Antártida e permitindo a formação do manto de gelo. Hoje funciona como conexão entre as três grandes bacias oceânicas e como fronteira biológica: a norte dela, a Convergência Antártica marca a transição abrupta para águas subantárticas mais quentes.

A circulação profunda e seus mil anos

Abaixo dos poucos centenas de metros movidos pelo vento, a água se desloca por diferença de densidade. Só em alguns pontos do planeta a água superficial fica fria e salgada o bastante para afundar até o fundo: os mares nórdicos e o Mar do Labrador, no Atlântico Norte, e o Mar de Weddell e o Mar de Ross, na Antártida.

No norte, forma-se a Água Profunda do Atlântico Norte, que escorre para o sul entre 1.500 m e 4.000 m. No sul, a Água de Fundo Antártica, mais densa ainda, desliza pelo assoalho e preenche as bacias abissais dos três oceanos, inclusive a Bacia do Brasil, aonde chega pela Passagem Vema. O conjunto, somado ao retorno lento em superfície, é frequentemente chamado de esteira transportadora oceânica. Uma parcela de água que afunda na Groenlândia pode levar cerca de mil anos para voltar à superfície no Pacífico Norte.

No Atlântico, o ramo mais estudado desse sistema é a Circulação de Revolvimento Meridional, conhecida pela sigla inglesa AMOC. Ela transporta em torno de 1,3 petawatt de calor para o norte, o equivalente a cerca de um milhão de grandes usinas termelétricas, e é a razão pela qual o noroeste europeu é muito mais ameno que regiões americanas na mesma latitude.

Um detalhe pouco intuitivo

Nem toda água densa vem do frio. No Mediterrâneo e no Mar Vermelho, a evaporação intensa deixa a água tão salgada que ela afunda mesmo estando quente. A água mediterrânea sai pelo Estreito de Gibraltar por baixo e se espalha pelo Atlântico em torno de mil metros de profundidade, ainda detectável a milhares de quilômetros de distância.

Como se mede uma corrente

Até meados do século XX, a circulação era inferida de registros de navios, garrafas lançadas ao mar e da posição de icebergs. Benjamin Franklin publicou em 1770 uma das primeiras cartas da Corrente do Golfo, desenhada a partir de relatos de baleeiros de Nantucket que sabiam evitá-la para acelerar a travessia.

Hoje o sistema é outro. Cerca de quatro mil boias autônomas do programa Argo mergulham a dois mil metros, derivam por dez dias e voltam à superfície medindo temperatura e salinidade. Fundeios instrumentados atravessam o Atlântico em latitudes escolhidas para vigiar a AMOC de forma contínua desde 2004. Satélites altimétricos medem a altura da superfície do mar com precisão de centímetros, e dela se calcula a velocidade das correntes. Modelos operacionais combinam tudo isso e produzem estimativas diárias da circulação global.

O que está mudando

O derretimento do gelo da Groenlândia e o aumento das chuvas em altas latitudes despejam água doce justamente onde a água precisa ficar densa para afundar. Reconstruções indiretas sugerem que a AMOC está mais fraca hoje do que em qualquer momento do último milênio, embora a magnitude e o ritmo dessa mudança sejam objeto de debate científico ativo — as séries de medição direta têm apenas duas décadas, curtas demais para separar tendência de variabilidade natural.

Outras mudanças já são mensuráveis com mais segurança: as grandes correntes de contorno oeste estão se deslocando em direção aos polos e se intensificando; a estratificação da camada superficial aumentou, dificultando a chegada de nutrientes à zona iluminada; e as zonas de mínimo de oxigênio se expandiram em várias bacias. Todas essas alterações repercutem em pesca, clima costeiro e distribuição de espécies.

Fontes

  1. NOAA Ocean Service. Currents: an educational and reference resource, 2024. Consultar publicação
  2. Programa Argo. International Argo Program — rede global de perfiladores, 2025. Consultar publicação
  3. RAPID-AMOC. Monitoramento contínuo da circulação meridional do Atlântico, 2024. Consultar publicação
  4. Copernicus Marine Service. Ocean State Report, 2024. Consultar publicação
  5. IPCC. Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate, 2019. Consultar publicação
  6. NASA Earth Observatory. Ocean circulation and heat transport, 2024. Consultar publicação

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Verbetes onde essas correntes aparecem

  • Mapa de localização: Oceano Atlântico Oceano

    Oceano Atlântico

    Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.

    Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m

  • Mapa de localização: Oceano Antártico Oceano

    Oceano Antártico

    Cinturão de água que circunda a Antártida, abriga a corrente mais poderosa do planeta e tem o próprio estatuto de oceano em disputa.

    Área 20.327.000 km² Máx. 7.434 m

  • Mapa de localização: Passagem de Drake Estreito

    Passagem de Drake

    O trecho de mar mais tempestuoso do mundo, com 800 km entre a América do Sul e a Antártida e o maior transporte de água do planeta.

    Área Aproximadamente 700.000 km² Máx. Cerca de 4.800 m

  • Mapa de localização: Mar dos Sargaços Mar

    Mar dos Sargaços

    Mar sem costas no centro do giro do Atlântico Norte, coberto por algas flutuantes e sem estatuto jurídico próprio.

    Área Cerca de 4.000.000 km² Máx. Cerca de 6.000 m

  • Mapa de localização: Estreito de Gibraltar Estreito

    Estreito de Gibraltar

    Única ligação natural entre o Mediterrâneo e o Atlântico, com 14 km de largura mínima e uma soleira de cerca de 300 m.

    Área Aproximadamente 1.400 km² Máx. Cerca de 900 m

  • Mapa de localização: Convergência Antártica Região polar

    Convergência Antártica

    Cinturão oceânico onde a água antártica mergulha sob a subantártica, com salto térmico de 2 °C a 3 °C em poucos quilômetros.

    Área Cerca de 35.700.000 km² Máx. 8.266 m