Ir para o conteúdo
DatingYes Oceanos e Mares
Mar Oceano Atlântico

Mar dos Sargaços

Único mar do planeta delimitado por correntes e não por terras, formado pelo giro subtropical do Atlântico Norte e berço de desova das enguias.

Mapa de localização de Mar dos Sargaços, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte do interior do giro subtropical do Atlântico Norte, delimitado por correntes e tendo as Bermudas como única terra emersa.

O Mar dos Sargaços é o único mar reconhecido do planeta cujos limites não são costas, mas correntes oceânicas. Ocupa o interior do giro subtropical do Oceano Atlântico Norte, entre a Corrente do Golfo, a oeste, a Corrente do Atlântico Norte, ao norte, a Corrente das Canárias, a leste, e a Corrente Norte-Equatorial, ao sul. Sua área é estimada em torno de 4.000.000 km², cifra necessariamente aproximada porque as fronteiras se deslocam com as estações e com a variabilidade climática.

O nome vem das algas do gênero Sargassum que flutuam em suas águas e que os navegadores portugueses associaram ao sargaço do litoral ibérico. Duas dessas espécies completam todo o ciclo de vida sem nunca se fixar ao fundo, formando um ecossistema flutuante sem equivalente em outro oceano. As mesmas correntes que retêm as algas concentram também detritos plásticos, o que faz do mar um dos acúmulos de resíduos mais estudados do Atlântico.

Ficha técnica

Nome
Mar dos Sargaços
Também chamado de
Sargaços, Mar de Sargaço
Tipo de formação
Mar
Localização
Aproximadamente entre 20° N e 35° N e entre 70° O e 35° O, no interior do giro subtropical do Atlântico Norte, tendo as Bermudas como única terra emersa.
Oceano de referência
Atlântico
Continentes próximos
América do Norte
Países e territórios
Nenhum Estado possui costa no Mar dos Sargaços. A única jurisdição nacional sobrejacente é a zona econômica exclusiva das Bermudas, território britânico de ultramar; o restante é alto-mar, e o leito corresponde a área internacional dos fundos marinhos.
Área aproximada
Cerca de 4.000.000 km²Estimativas variam entre 2 e 5,2 milhões de km² porque os limites são correntes móveis.
Profundidade média
Cerca de 4.500 m
Profundidade máxima
Cerca de 6.000 mPlanície Abissal de Nares, na porção sudoeste; o valor depende do limite adotado.
Salinidade
36,5 a 37
Temperatura da superfície
De 18 °C a 22 °C no inverno e de 26 °C a 28 °C no verão
Correntes principais
Corrente do Golfo a oeste, Corrente do Atlântico Norte ao norte, Corrente das Canárias a leste e Corrente Norte-Equatorial ao sul.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A delimitação usual estende-se por aproximadamente 3.200 km no sentido leste–oeste e 1.100 km no sentido norte–sul. A fronteira ocidental é a mais nítida, marcada pela borda da Corrente do Golfo, onde a temperatura da superfície varia vários graus em poucos quilômetros. As demais são transições graduais, definidas por critérios de temperatura, salinidade e nutrientes, e não por linhas cartográficas.

Nenhuma publicação de referência sobre limites de mares fixa contornos para os Sargaços do mesmo modo como o faz para mares marginais. O que existe é uma definição oceanográfica funcional, adotada pela comunidade científica, que nas versões mais amplas situa o mar entre os meridianos de 65° O e 35° O e os paralelos de 22° N e 38° N.

Sob a superfície, o mar recobre a Bacia Norte-Americana, com as planícies abissais de Nares e de Sohm, o pedestal vulcânico das Bermudas e cadeias de montes submarinos.

Continentes e países próximos

Por não ter costas, o Mar dos Sargaços não confina com nenhum Estado. A única jurisdição nacional presente é a zona econômica exclusiva das Bermudas, administrada pelo Reino Unido. Todo o restante é alto-mar, regime em que a pesca, a navegação e a pesquisa são livres nos termos da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

A governança é, assim, fragmentada entre organismos setoriais cujos mandatos não coincidem. Nenhum deles tem competência para proteger o ecossistema como um todo, o que explica por que o mar é citado como exemplo das lacunas de proteção da biodiversidade em alto-mar.

  • Bermudas — Território britânico de ultramar e única jurisdição costeira, com zona econômica exclusiva de cerca de 450.000 km².
  • Recursos vivos migratórios — Atuns, espadartes e tubarões pelágicos são geridos pela Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico.
  • Leito oceânico — Sob administração da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.
  • Navegação e poluição — Reguladas pela Organização Marítima Internacional.

Área e profundidade

As estimativas de área situam-se entre 2 e 5,2 milhões de km², com valor de referência em torno de 4.000.000 km². A superfície repousa sobre bacias abissais com média próxima de 4.500 m, e os pontos mais fundos, na Planície Abissal de Nares, aproximam-se de 6.000 m.

A transparência é a característica física mais notável. Medições com disco de Secchi registraram visibilidade entre 60 m e 66 m, entre as maiores já obtidas em mar aberto, e a clorofila superficial é uma das mais baixas do Atlântico.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área4.000.000 km²Faixa de 2 a 5,2 milhões conforme o critério
Profundidade média4.500 mBacia Norte-Americana
Profundidade máxima6.000 mPlanície Abissal de Nares
Salinidade36,5 a 37Entre as mais altas do Atlântico aberto
Transparência60 m a 66 mVisibilidade medida com disco de Secchi

Principais correntes

O mar é o núcleo do giro subtropical do Atlântico Norte, sistema anticiclônico que gira no sentido dos ponteiros do relógio. Os alísios, ao sul, e os ventos de oeste, ao norte, impõem à camada superficial um transporte convergente para o centro do giro, processo conhecido como transporte de Ekman. A água acumulada afunda lentamente, criando uma depressão de nutrientes e uma elevação da superfície de cerca de 1 m em relação às bordas.

Essa convergência explica ao mesmo tempo a pobreza biológica das águas abertas e a retenção do que flutua: algas, larvas, madeira e plástico circulam por anos no interior do giro.

A estrutura vertical é marcada pela chamada Água de Dezoito Graus, camada de mistura invernal com temperatura uniforme em torno de 18 °C, que ocupa os primeiros 200 m a 400 m e é reconhecida como massa de água própria. A oeste, a Corrente do Golfo desprende vórtices que injetam periodicamente água fria e rica em nutrientes no interior do mar.

Clima

O clima é subtropical oceânico, dominado pelo Anticiclone dos Açores. Ventos fracos e céu predominantemente limpo caracterizam o verão, e a evaporação supera a precipitação durante a maior parte do ano, o que explica a salinidade elevada. A temperatura da superfície oscila entre 18 °C e 22 °C no inverno e entre 26 °C e 28 °C no fim do verão.

A porção oeste e sul do mar está na rota dos ciclones tropicais do Atlântico entre junho e novembro, e as Bermudas são atingidas com regularidade. A posição e a intensidade do Anticiclone dos Açores determinam em boa medida a trajetória desses sistemas, e a estação Hydrostation S, mantida ao largo das Bermudas desde 1954, fornece a mais longa série de observações de mar aberto já reunida, documentando aquecimento, acidificação e perda de oxigênio na camada superior.

Ecossistemas

O ecossistema central é formado por tapetes flutuantes de Sargassum natans e Sargassum fluitans, as duas únicas espécies holopelágicas do gênero: reproduzem-se por fragmentação e nunca se fixam ao substrato. Flutuam por meio de vesículas cheias de gás e formam agregações que vão de manchas de poucos metros a faixas contínuas de quilômetros, alinhadas pelo vento.

Essas algas constituem o único habitat estruturado disponível em milhões de quilômetros quadrados de mar aberto, e funcionam simultaneamente como abrigo, área de alimentação e berçário. Estima-se que mais de cem espécies de peixes e dez espécies de invertebrados dependam delas em alguma fase do ciclo de vida. Abaixo da camada iluminada, a fauna mesopelágica realiza migração vertical diária de centenas de metros, um dos maiores deslocamentos de biomassa do planeta.

Biodiversidade

A fauna associada ao Sargassum inclui um conjunto de espécies endêmicas com camuflagem especializada, imitando a cor e o recorte das frondes. Somam-se a elas grandes migradores que atravessam o mar e as populações de enguias que nele se reproduzem.

  • Peixe-sargaçoHistrio histrio, peixe-sapo que vive exclusivamente entre as algas, com apêndices que reproduzem o contorno das frondes.
  • Enguias do AtlânticoAnguilla anguilla e Anguilla rostrata desovam no mar e só ali; a enguia europeia está classificada como criticamente ameaçada.
  • Tartaruga-cabeçuda — Os juvenis de Caretta caretta passam os chamados anos perdidos abrigados nos tapetes flutuantes, período que pode durar mais de uma década.
  • Caranguejo-do-sargaçoPlanes minutus, que vive sobre as algas e também sobre cascos de tartarugas.
  • Grandes pelágicos — Atum-rabilho, espadarte, agulhão-branco, cachalote e o tubarão-raposa usam o mar como área de passagem ou desova.

Ilhas

As Bermudas são a única terra emersa do Mar dos Sargaços. O arquipélago reúne cerca de 138 ilhas e ilhotas de calcário assentadas sobre um monte submarino vulcânico formado há aproximadamente 33 milhões de anos, com pouco mais de 54 km² de área total e ponto culminante de 76 m. Em torno dele desenvolvem-se os recifes de coral mais setentrionais do Atlântico, sustentados pelo calor transportado pela Corrente do Golfo.

  • Bermudas — 54 km² distribuídos por cerca de 138 ilhas, com plataforma de aproximadamente 750 km².
  • Recifes das Bermudas — Os mais ao norte do Atlântico, com cerca de 20 espécies de corais construtores.
  • Montes da Nova Inglaterra — Cadeia de mais de trinta edifícios vulcânicos extintos na borda noroeste.
  • Corner Rise — Montes submarinos a leste das Bermudas, com corais de água fria.

Portos e rotas relevantes

O mar não tem portos, porque não tem costas. O único ancoradouro disponível é o das Bermudas, cujos portos de Hamilton e de St. George abastecem o arquipélago e recebem navios de cruzeiro e veleiros de travessia.

As rotas comerciais que cruzam a região ligam o nordeste dos Estados Unidos ao Mediterrâneo e ao norte da Europa, e o Canal do Panamá à Europa Ocidental. Sobrepõe-se a elas um denso feixe de cabos submarinos transatlânticos, além da regata entre Newport e as Bermudas, disputada desde 1906.

Acessos e rotas
ElementoLocalizaçãoFunção
HamiltonBermudasPorto principal do arquipélago
St. GeorgeBermudasCruzeiros e navegação de recreio
Rota norte-atlânticaBorda noroesteEstados Unidos à Europa
Rota do PanamáBorda sudoesteCanal do Panamá à Europa
Cabos transatlânticosEixo leste-oesteTelecomunicações intercontinentais

Importância econômica

A economia direta do mar é modesta. A pesca de grandes pelágicos, sobretudo atuns e espadartes, é praticada por frotas de longa distância sob regras da Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico; as Bermudas exploram pesca artesanal e turismo náutico; e a passagem de cabos submarinos confere à região valor estratégico desproporcional à sua atividade visível.

As enguias acrescentam uma dimensão econômica indireta e notável: espécies que desovam no mar sustentam pescarias de milhões de euros anuais na Europa, na América do Norte e no norte da África, além de uma cadeia de engorda em viveiros asiáticos. A dependência de um único local de desova torna essas pescarias estruturalmente vulneráveis a qualquer alteração das condições oceanográficas do giro.

Importância ambiental

O mar desempenha papel relevante no ciclo do carbono. A Água de Dezoito Graus, formada por mistura invernal, transporta carbono dissolvido para dentro do oceano subtropical, e as séries de longo prazo mantidas junto às Bermudas documentaram de forma inequívoca a queda progressiva do pH da água superficial em resposta ao aumento do dióxido de carbono atmosférico.

Os tapetes de Sargassum constituem uma bomba biológica peculiar: parte das algas afunda ao perder flutuabilidade e leva carbono ao fundo abissal. A sobreposição de habitat flutuante, corredor migratório e centro de acumulação de resíduos num mesmo espaço torna a região um caso de referência na discussão sobre proteção de ecossistemas em alto-mar.

Problemas de conservação

A convergência do giro acumula plástico. Levantamentos com redes de superfície feitos ao longo de mais de duas décadas identificaram no Atlântico Norte subtropical concentrações máximas superiores a 200.000 fragmentos por quilômetro quadrado, formando a chamada mancha de resíduos do Atlântico Norte. Não se trata de uma ilha de lixo, mas de microfragmentos dispersos que se misturam às algas e são ingeridos por peixes, aves e tartarugas.

A segunda ameaça é a exploração dos recursos vivos. Ambas as espécies de enguia sofreram declínio acentuado no recrutamento ao longo do século XX, atribuído a barragens em rios, pesca de juvenis, parasitas e alterações na circulação oceânica. A captura acidental em espinhel, a proposta recorrente de colheita industrial de Sargassum e a possibilidade de mineração em montes submarinos completam o quadro.

  • Aliança do Mar dos Sargaços — Iniciativa liderada pelas Bermudas que resultou na Declaração de Hamilton, assinada em 11 de março de 2014 por cinco governos, e na criação da Comissão do Mar dos Sargaços.
  • Ausência de estatuto jurídico — A Declaração de Hamilton não é vinculante e não cria área protegida: o mar segue sem regime próprio.
  • Acordo sobre alto-mar — O tratado adotado em 19 de junho de 2023 sobre biodiversidade além das jurisdições nacionais abre caminho jurídico para criar áreas protegidas na região.
  • Aquecimento do giro — As séries de longo prazo das Bermudas registram aumento da temperatura e da estratificação, com redução do oxigênio dissolvido.
  • Captura acidental — Espinhéis dirigidos a atuns e espadartes capturam tartarugas e tubarões concentrados junto aos tapetes de algas.

Curiosidades

  1. A desova das enguias europeias foi localizada pelo dinamarquês Johannes Schmidt, que entre 1904 e 1922 percorreu o Atlântico coletando larvas: quanto mais a oeste, menores elas eram, e o rastro de tamanhos apontou para o Mar dos Sargaços.
  2. Apesar de mais de um século de pesquisa, nunca se capturou um ovo de enguia europeia nem se observou um adulto desovando; a prova mais direta veio em 2022, com marcadores eletrônicos que acompanharam adultos dos Açores até a região de desova.
  3. A estação Hydrostation S, ao largo das Bermudas, é operada desde 1954 e constitui a mais longa série contínua de medições oceanográficas em mar aberto do mundo.
  4. A camada conhecida como Água de Dezoito Graus mantém temperatura quase invariável ao longo de centenas de metros de profundidade e de milhões de quilômetros quadrados.
  5. O chamado Triângulo das Bermudas sobrepõe-se em boa parte ao Mar dos Sargaços, e a calmaria no centro do giro, que imobilizava veleiros por dias, está na origem de parte das narrativas sobre navios abandonados.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. NOAA — Ocean Service. Sargassum and the Sargasso Sea — fichas oceanográficas, 2024. Consultar publicação
  2. Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Governança de biodiversidade em áreas além das jurisdições nacionais, 2023. Consultar publicação
  3. União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha — avaliação de <em>Anguilla anguilla</em> e <em>Anguilla rostrata</em>, 2024. Consultar publicação
  4. FAO. Estado dos recursos pesqueiros do Atlântico Centro-Norte, 2024. Consultar publicação
  5. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  6. NASA Earth Observatory. North Atlantic Subtropical Gyre e monitoramento de <em>Sargassum</em>, 2023. Consultar publicação
  7. Copernicus Marine Service. Global Ocean Physics Analysis — Atlântico Norte subtropical, 2025. Consultar publicação

Publicado por DatingYes · Atualizado em Sugerir uma correção

Conteúdos relacionados

Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Mar dos Sargaços no conjunto das formações marinhas.

  • Mapa de localização: Oceano Atlântico Oceano

    Oceano Atlântico

    Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.

    Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m

  • Mapa de localização: Mar do Caribe Mar

    Mar do Caribe

    Mar tropical entre as Antilhas e o istmo americano, berço da Corrente do Golfo e palco da temporada anual de furacões.

    Área 2.754.000 km² Máx. 7.686 m

  • Mapa de localização: Golfo do México Golfo

    Golfo do México

    Bacia semifechada entre Estados Unidos, México e Cuba, moldada pela Corrente do Laço, por furacões e pela extração de petróleo.

    Área 1.550.000 km² Máx. 4.384 m

  • Mapa de localização: Mar do Norte Mar

    Mar do Norte

    Plataforma rasa entre as Ilhas Britânicas e a Escandinávia, com petróleo, gás, parques eólicos e séculos de pesca intensa.

    Área 570.000 km² Máx. 700 m

  • Mapa de localização: Bacia do Brasil Bacia oceânica

    Bacia do Brasil

    Depressão abissal entre a margem brasileira e a Dorsal Meso-Atlântica, limitada pela Elevação do Rio Grande e pela Cadeia Vitória–Trindade.

    Área Entre 3.500.000 km² e 5.000.000 km² Máx. Cerca de 6.000 m