Convergência Antártica
Faixa circumpolar entre 48° S e 62° S onde as águas frias antárticas afundam sob as subantárticas, formando a fronteira biológica do Oceano Antártico.
A Convergência Antártica, também chamada de Frente Polar Antártica, é a faixa circumpolar em que as águas superficiais frias vindas do sul encontram as águas subantárticas mais quentes e mergulham sob elas. Não é uma linha fixa nem uma fronteira desenhada por convenção: é o resultado do encontro de duas massas de água com densidades diferentes, e sua posição serpenteia entre aproximadamente 48° S e 62° S conforme a longitude, a topografia do fundo e a estação. Situa-se mais ao norte no Atlântico e no Índico e mais ao sul no Pacífico e na Passagem de Drake.
O que a torna notável é a nitidez. Quem cruza a frente registra uma queda de 2 °C a 3 °C na temperatura da água em poucos quilômetros, mudança perceptível por termômetro de superfície, por satélite e até pela súbita alteração na fauna de aves que acompanha o navio. Essa descontinuidade funciona como barreira biogeográfica: a comunidade de organismos ao sul dela é substancialmente distinta da que vive ao norte. Por isso o organismo internacional responsável pela gestão dos recursos vivos antárticos adota a convergência como limite de sua área de competência, em vez de um paralelo geométrico.
Ficha técnica
- Nome
- Convergência Antártica
- Também chamado de
- Frente Polar Antártica, Antarctic Convergence
- Tipo de formação
- Região polar
- Localização
- Cinturão contínuo em torno da Antártida, entre aproximadamente 48° S e 62° S, mais ao norte no Atlântico e no Índico e mais ao sul no Pacífico e na Passagem de Drake.
- Oceano de referência
- Antártico
- Continentes próximos
- Antártida
- Países e territórios
- Nenhum Estado tem costa na frente, que é uma feição oceanográfica em movimento. Ela atravessa as zonas econômicas exclusivas de ilhas subantárticas administradas por Reino Unido, França, Austrália, Nova Zelândia, Noruega e África do Sul, e cruza extensas áreas de alto-mar.
- Área aproximada
- Cerca de 35.700.000 km²Superfície oceânica ao sul da frente, correspondente à área da Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos.
- Profundidade média
- Cerca de 3.700 m
- Profundidade máxima
- 8.266 mAbismo Meteor, na Fossa Sandwich do Sul, dentro da faixa da frente; medição de 2019.
- Salinidade
- 33,8 a 34,3 na superfície, com mínimo associado à Água Intermediária Antártica
- Temperatura da superfície
- Queda de 2 °C a 3 °C ao cruzar a frente de norte para sul, de cerca de 5 °C a 8 °C para 2 °C a 4 °C
- Linha de costa
- Inexistente; o percurso circumpolar da frente aproxima-se de 30.000 km
- Correntes principais
- Corrente Circumpolar Antártica, Frente Polar Antártica, Frente Subantártica e formação de Água Intermediária Antártica.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A frente é definida por critérios hidrográficos, não geográficos. O mais tradicional localiza-a onde o mínimo de temperatura subsuperficial, situado em torno de 200 m de profundidade, deixa de ser inferior a 2 °C ao se avançar para o norte. Outros critérios usam gradientes de temperatura de superfície, de salinidade ou de altura do mar medida por satélite, e cada um produz uma posição ligeiramente diferente, com diferenças de dezenas a poucas centenas de quilômetros.
A posição varia muito com a longitude. Na Passagem de Drake, comprimida entre a América do Sul e a Península Antártica, a frente cruza em torno de 57° S a 59° S. No Atlântico Sul, ao largo da Geórgia do Sul, desloca-se para o norte e pode alcançar 50° S. No setor índico, passa perto das Ilhas Kerguelen, em torno de 49° S a 52° S, e no Pacífico Sul desce novamente, para além de 60° S. O desvio é comandado pelo relevo do fundo: grandes plataformas submarinas, como a de Kerguelen e a Dorsal Macquarie, obrigam a Corrente Circumpolar Antártica a contorná-las e arrastam as frentes junto.
A convergência é apenas uma das frentes do sistema circumpolar. Ao norte dela está a Frente Subantártica e, mais além, a Frente Subtropical; ao sul, a Frente Sul da Corrente Circumpolar Antártica e o limite sul propriamente dito. Cada uma marca a transição entre massas de água distintas, e o conjunto forma um sistema de faixas paralelas que dá a volta ao planeta sem interrupção.
Continentes e países próximos
Nenhum Estado tem costa na convergência, porque ela é uma feição de água em movimento sobre o oceano aberto. O que ela cruza são zonas econômicas exclusivas geradas por ilhas subantárticas e vastas extensões de alto-mar. Essas ilhas ficam ao norte de 60° S, e portanto fora da área do Tratado da Antártida, o que faz delas os únicos pontos da faixa sujeitos a soberania estatal plena e não contestada, com a exceção conhecida do Atlântico Sudoeste.
A governança dos recursos vivos é exercida pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, criada por convenção assinada em 1980 e em funcionamento desde 1982, com sede em Hobart. Sua área de aplicação não é o paralelo 60° S, e sim uma linha escalonada de latitudes e longitudes que acompanha a posição média da convergência. A escolha foi deliberada: como o ecossistema baseado no krill se estende ao norte do paralelo em vários setores, uma fronteira geométrica deixaria de fora justamente as áreas de maior concentração de predadores e de pesca.
- Reino Unido — Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, administradas como território de ultramar e reivindicadas pela Argentina, que contesta a soberania britânica sobre o arquipélago.
- França — Ilhas Kerguelen e Crozet, integrantes das Terras Austrais e Antárticas Francesas, com reserva natural nacional criada em 2006 e ampliada em 2016.
- Austrália — Ilhas Heard e McDonald, Patrimônio Mundial Natural desde 1997, e a Ilha Macquarie, no setor pacífico.
- Nova Zelândia — Ilhas subantárticas da Nova Zelândia, entre elas Auckland e Campbell, reconhecidas como Patrimônio Mundial em 1998.
- Noruega e África do Sul — Ilha Bouvet, a terra emersa mais isolada do planeta, e as Ilhas Príncipe Eduardo e Marion, respectivamente.
- Alto-mar — A maior parte do percurso circumpolar da frente está fora de jurisdição nacional, com a pesca gerida pela comissão de conservação antártica.
Área e profundidade
A frente dá a volta completa ao planeta, e seu percurso aproxima-se de 30.000 km. A largura da zona de transição, em que o gradiente térmico é acentuado, varia entre 30 km e algumas centenas de quilômetros, mas a mudança mais brusca concentra-se frequentemente em faixas de menos de 50 km. A área oceânica ao sul dela, correspondente à área da convenção antártica de conservação, é de cerca de 35.700.000 km², aproximadamente um décimo da superfície oceânica do planeta.
A profundidade sob a frente varia conforme o relevo que ela cruza: planícies abissais entre 4.000 m e 5.000 m no setor índico, o platô raso de Kerguelen, com trechos abaixo de 1.000 m, e a Fossa Sandwich do Sul, no Atlântico, onde o Abismo Meteor alcança 8.266 m. Esse é o ponto mais profundo do Oceano Antártico, medido em 2019 por sondagem multifeixe e por descida tripulada.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Faixa de latitude | De 48° S a 62° S | Mais ao norte no Atlântico e Índico, mais ao sul no Pacífico |
| Percurso circumpolar | Cerca de 30.000 km | Volta completa ao planeta sem interrupção continental |
| Salto térmico | De 2 °C a 3 °C | Registrado ao longo de poucos quilômetros de travessia |
| Área ao sul da frente | Cerca de 35.700.000 km² | Área da convenção antártica de conservação |
| Profundidade máxima | 8.266 m | Abismo Meteor, Fossa Sandwich do Sul |
| Transporte da corrente circumpolar | Cerca de 173 Sv | Estimativa a partir de fundeios na Passagem de Drake |
Principais correntes
A convergência é uma das frentes internas da Corrente Circumpolar Antártica, a maior corrente do planeta, com transporte estimado em cerca de 173 Sv na Passagem de Drake. Essa corrente não é um fluxo uniforme: concentra-se em jatos estreitos e rápidos, e cada jato coincide com uma frente. A frente polar é o jato associado ao limite entre a água superficial antártica e a subantártica.
O processo que dá nome ao fenômeno é o afundamento. Ao encontrar a água subantártica menos densa, a água superficial antártica — fria, relativamente pouco salgada por causa do degelo e rica em oxigênio — mergulha e passa a se espalhar para o norte entre aproximadamente 700 m e 1.200 m de profundidade. Essa massa, chamada Água Intermediária Antártica, é reconhecível por um mínimo de salinidade que se estende por todos os oceanos e chega ao hemisfério norte, e é um dos principais mecanismos de transporte de oxigênio e de carbono para o interior do oceano mundial.
A frente é também uma máquina de turbilhões. O cisalhamento entre jatos gera instabilidades que se desprendem como anéis de dezenas a centenas de quilômetros, responsáveis por boa parte da transferência de calor para o sul. Sem esses turbilhões, o calor não atravessaria a corrente circumpolar, porque ela flui paralelamente às isotermas. A região é, por isso, um dos principais sumidouros de calor e de dióxido de carbono do planeta: o Oceano Antártico absorve parcela desproporcional do excesso de calor acumulado pelo sistema climático.
Clima
A faixa está sob o domínio permanente dos ventos de oeste do hemisfério sul, cinturão conhecido pelos navegantes como cinquentas furiosos e sessentas estridentes. Sem barreiras continentais para freá-los, esses ventos sopram continuamente e geram o mar mais severo do planeta: ondas significativas de 5 m a 8 m são rotina, e registros de altura máxima superior a 20 m foram obtidos por boias na região. A nebulosidade é quase constante e a precipitação cai como chuva, neve molhada ou granizo, conforme o lado da frente.
Ao cruzar a convergência, muda o regime térmico da superfície: as temperaturas caem de 5 °C a 8 °C no lado subantártico para 2 °C a 4 °C no lado antártico, e no inverno o limite do gelo marinho aproxima-se dela em alguns setores do Atlântico, sem em geral ultrapassá-la. Nevoeiros densos formam-se com frequência sobre a linha, quando o ar mais quente do norte atravessa a água fria.
A variabilidade da posição da frente responde ao Modo Anular do Sul, padrão que descreve o deslocamento norte-sul do cinturão de ventos de oeste. Desde a década de 1970, esse modo tem apresentado tendência positiva, associada tanto à destruição do ozônio estratosférico quanto ao aumento dos gases de efeito estufa, e essa tendência corresponde a ventos mais intensos e deslocados para o sul.
Ecossistemas
A convergência funciona como uma parede biológica. Ao sul dela, o sistema é dominado pelo krill antártico, Euphausia superba, espécie que depende do gelo marinho na fase juvenil e sustenta quase toda a cadeia alimentar da região. Ao norte, o krill antártico praticamente desaparece e é substituído por outros eufausiáceos, como Euphausia vallentini e espécies do gênero Thysanoessa, e por comunidades de composição temperada.
A separação vale para muitos grupos. Os peixes nototeniídeos, portadores de glicoproteínas anticongelantes, restringem-se ao lado sul; ao norte, predominam famílias de afinidade temperada. Entre os organismos de fundo, a fauna antártica apresenta traços característicos, como gigantismo em picnogonídeos e isópodes e ausência de caranguejos braquiúros e de tubarões, e essas particularidades diluem-se ao norte da frente.
A própria frente é área de alimentação privilegiada. O afundamento e os turbilhões concentram plâncton em faixas estreitas, e albatrozes, petréis, pinguins, focas e cetáceos seguem essas concentrações. Colônias reprodutivas das ilhas subantárticas dependem diretamente dessa disponibilidade: aves que nidificam na Geórgia do Sul, em Kerguelen ou em Crozet realizam viagens de forrageio que alcançam a frente e retornam, percursos de centenas a milhares de quilômetros.
Biodiversidade
A faixa concentra algumas das maiores agregações de vida do planeta, sustentadas por uma produção primária que responde ao fornecimento de ferro pelas ilhas e pelos montes submarinos. Em muitos setores do Oceano Antártico a produtividade é limitada não pela falta de nitrato ou fosfato, que sobram, mas pela escassez de ferro; onde a corrente circumpolar passa junto a uma ilha, o enriquecimento produz florações visíveis por satélite e ecossistemas de densidade excepcional.
- Krill antártico — Euphausia superba forma cardumes de milhares de indivíduos por metro cúbico ao sul da frente e é o elo central da cadeia alimentar antártica.
- Albatroz-errante — Diomedea exulans, com envergadura de até 3,5 m, nidifica em Geórgia do Sul, Crozet, Kerguelen e Príncipe Eduardo e percorre a frente em viagens de forrageio de milhares de quilômetros.
- Pinguim-rei — Aptenodytes patagonicus reproduz-se nas ilhas subantárticas e mergulha atrás de peixes-lanterna concentrados junto à frente.
- Elefante-marinho-do-sul — Mirounga leonina realiza migrações de alimentação que cruzam repetidamente a convergência, com mergulhos que passam de 1.000 m.
- Merluza-negra — Dissostichus eleginoides é pescada por espinhel nos taludes das ilhas subantárticas e responde pela pescaria de maior valor da região.
- Baleia-jubarte e baleia-fin — Megaptera novaeangliae e Balaenoptera physalus alimentam-se de krill ao sul da frente no verão austral e migram para águas tropicais no inverno.
Ilhas
A frente não tem ilhas próprias, mas cruza ou passa perto de praticamente todos os arquipélagos subantárticos do planeta, e é justamente a proximidade dela que explica a riqueza biológica desses lugares. Todos são de origem vulcânica ou tectônica, todos ficam ao norte de 60° S e portanto fora da área do Tratado da Antártida, e quase todos são desabitados, à exceção de bases científicas e de estações de pesca.
- Geórgia do Sul — 3.528 km² junto ao ramo norte da frente no Atlântico; abriga colônias de milhões de pinguins-reis e a antiga estação baleeira de Grytviken.
- Ilhas Sandwich do Sul — Arco vulcânico ativo de onze ilhas sobre a Fossa Sandwich do Sul, onde está o Abismo Meteor, com 8.266 m.
- Ilhas Kerguelen — 7.215 km² sobre o platô homônimo, no setor índico; a base de Port-aux-Français é a única ocupação permanente.
- Ilhas Heard e McDonald — Território australiano com o vulcão ativo Big Ben, de 2.745 m; Patrimônio Mundial Natural desde 1997.
- Ilha Macquarie — 128 km² no setor pacífico, sobre a dorsal homônima; reconhecida como Patrimônio Mundial em 1997 por expor crosta oceânica emersa.
- Ilha Bouvet — 49 km² a 54°26′ S, coberta em 93% por gelo; é a terra emersa mais distante de qualquer outra no planeta.
Portos e rotas relevantes
Não existem portos na convergência, e as instalações mais próximas são pequenas bases insulares. Grytviken e King Edward Point, na Geórgia do Sul, oferecem fundeadouro e apoio administrativo; Port-aux-Français, em Kerguelen, é reabastecida quatro vezes por ano por navio vindo da Reunião; Macquarie e as ilhas neozelandesas contam apenas com desembarque por bote. A logística real depende de portos continentais: Ushuaia, Punta Arenas, Cidade do Cabo, Hobart e Christchurch.
A faixa é atravessada por três tipos de tráfego. O primeiro é o das rotas antárticas, que a cruzam a caminho das estações de pesquisa e dos sítios de turismo de expedição. O segundo é o das frotas de pesca, concentradas em torno da Geórgia do Sul, das Kerguelen e de Heard e McDonald. O terceiro, de volume muito menor que no passado, é o das rotas de circum-navegação pelo Cabo Horn e pelo Cabo da Boa Esperança, hoje usadas sobretudo por navios grandes demais para os canais do Panamá e de Suez e por regatas oceânicas.
Não há cabos submarinos cruzando a frente, e a comunicação depende inteiramente de satélites. A ausência de infraestrutura, a distância de qualquer base de busca e salvamento e a severidade do mar fazem da região uma das áreas de navegação mais exigentes do planeta, o que motivou a adoção do Código Polar pela Organização Marítima Internacional, em vigor desde 2017.
| Elemento | Localização | Função |
|---|---|---|
| King Edward Point | Geórgia do Sul | Base administrativa e científica britânica, junto a Grytviken |
| Port-aux-Français | Ilhas Kerguelen | Única ocupação permanente do arquipélago, reabastecida por navio da Reunião |
| Ushuaia e Punta Arenas | América do Sul | Portas de entrada para a travessia da Passagem de Drake |
| Hobart | Austrália | Sede da comissão de conservação antártica e base logística do setor índico |
| Cidade do Cabo | África do Sul | Acesso ao setor atlântico oriental e às Ilhas Príncipe Eduardo |
| Pesqueiros de merluza-negra | Taludes insulares | Espinhel entre 700 m e 2.000 m sob licença e observação obrigatória |
Importância econômica
Duas pescarias sustentam a economia da faixa. A de krill concentra-se ao sul da frente, sobretudo no setor atlântico, e produz farinha, óleo rico em ácidos graxos e ração para aquicultura; os desembarques situam-se na ordem de 400 a 500 mil toneladas anuais, abaixo do limite de precaução fixado pela comissão de conservação. A de merluza-negra ocorre nos taludes das ilhas subantárticas, com espinhel operando entre 700 m e 2.000 m, e é a de maior valor unitário da região.
O turismo de expedição atravessa a frente a caminho da Península Antártica e da Geórgia do Sul. As travessias da Passagem de Drake, com dois a três dias de mar aberto em cada sentido, são parte incontornável do roteiro, e o número de visitantes ultrapassou 100 mil por temporada a partir de 2022 e 2023. A Geórgia do Sul, com suas colônias de pinguins-reis e elefantes-marinhos, é um dos destinos mais procurados.
A história econômica da região, no entanto, foi escrita pela caça. Focas-de-pelo foram exterminadas comercialmente na Geórgia do Sul no início do século XIX, e as estações baleeiras instaladas a partir de 1904 processaram centenas de milhares de baleias antes de fecharem na década de 1960. A atividade acabou por esgotar a própria base e deixou como legado ruínas industriais e populações de grandes cetáceos que só agora se recuperam.
Importância ambiental
A convergência é uma das regiões mais importantes do planeta para a regulação do clima. O afundamento da água antártica transporta para o interior do oceano calor e carbono absorvidos na superfície, e estimativas indicam que o Oceano Antártico responde por parcela desproporcional da absorção global de calor excedente e de dióxido de carbono antropogênico. A Água Intermediária Antártica formada ali carrega oxigênio para camadas médias de todos os oceanos.
A frente vem se deslocando para o sul. Análises de altimetria por satélite e de séries hidrográficas indicam migração de algumas décimas de grau por década em vários setores, acompanhando o fortalecimento e o deslocamento dos ventos de oeste associados à tendência positiva do Modo Anular do Sul. Nem todos os estudos concordam sobre a magnitude: parte deles encontra deslocamentos pequenos e localizados, dependentes fortemente da topografia do fundo, que ancora as frentes em posições preferenciais.
O significado do deslocamento, quando ocorre, é considerável. Uma frente mais ao sul comprime o habitat das espécies antárticas contra o continente, aproxima competidores de águas mais quentes das colônias subantárticas e altera o local onde a água intermediária se forma. Os efeitos mais documentados até agora aparecem na Geórgia do Sul, onde anos de água anomalamente quente coincidiram com quedas de abundância de krill e com falhas reprodutivas em colônias de pinguins e focas.
Problemas de conservação
O instrumento central é a Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, cuja abordagem de ecossistema foi pioneira: as cotas não consideram apenas a biomassa capturável, mas as necessidades alimentares dos predadores que dependem do recurso. No caso do krill, além do limite de precaução para toda a área, existe um gatilho bem inferior, subdividido entre subáreas justamente para evitar que a frota se concentre onde os predadores se alimentam.
A proteção espacial avançou menos. A área marinha protegida da plataforma sul das Órcades do Sul, criada em 2009 com cerca de 94.000 km², foi a primeira inteiramente em alto-mar do mundo, e a Área Marinha Protegida da Região do Mar de Ross, adotada em 2016 com 1.550.000 km², é a maior. Propostas para o Mar de Weddell, para a Península e para o setor leste aguardam o consenso exigido há vários anos. Fora da área da convenção, as ilhas subantárticas contam com reservas nacionais extensas, como a das Terras Austrais Francesas, ampliada em 2016.
- Concentração da pesca de krill — A frota agrupa-se em poucas áreas do setor atlântico, coincidentes com zonas de alimentação de pinguins e focas durante a criação dos filhotes.
- Captura incidental de aves — Albatrozes e petréis enganchados em anzóis de espinhel foram a principal causa do declínio de várias populações; medidas de mitigação reduziram a mortalidade nas frotas licenciadas.
- Pesca ilegal, não declarada e não regulamentada — A pesca clandestina de merluza-negra atingiu volumes elevados nas décadas de 1990 e 2000 e foi contida por sistemas de documentação de captura e patrulhamento.
- Deslocamento da frente para o sul — A migração da frente comprime o habitat das espécies antárticas e aproxima competidores temperados das colônias subantárticas.
- Acidificação do oceano — Águas frias absorvem mais dióxido de carbono, e o Oceano Antártico está entre as primeiras regiões onde se projeta subsaturação de carbonato, com efeito sobre pterópodes e organismos calcificadores.
- Espécies introduzidas em ilhas — Ratos, gatos e renas introduzidos devastaram aves nidificantes; campanhas de erradicação na Geórgia do Sul, concluída em 2018, e em Macquarie, em 2014, permitiram recuperação expressiva.
Curiosidades
- A travessia da Convergência Antártica é perceptível a olho nu e por termômetro: a temperatura da água cai de 2 °C a 3 °C em poucos quilômetros, e a fauna de aves que acompanha o navio muda de composição em questão de horas.
- A comissão que administra os recursos vivos antárticos não usa o paralelo 60° S como fronteira, e sim uma linha escalonada que acompanha a posição média da convergência. Foi a primeira organização internacional de pesca a adotar um limite ecológico em lugar de um limite geométrico.
- O ponto mais profundo do Oceano Antártico fica dentro da faixa da frente: o Abismo Meteor, na Fossa Sandwich do Sul, com 8.266 m, medido em 2019 por sondagem multifeixe e confirmado por descida tripulada.
- A água que afunda na convergência reaparece como Água Intermediária Antártica entre 700 m e 1.200 m de profundidade e pode ser rastreada, por seu mínimo de salinidade, até o hemisfério norte, milhares de quilômetros e décadas depois.
- A Geórgia do Sul concluiu em 2018 a maior campanha de erradicação de roedores já realizada em uma ilha, cobrindo cerca de 1.000 km². Aves terrestres endêmicas, como o pintassilgo e a narceja da ilha, voltaram a ocupar áreas de onde haviam desaparecido havia dois séculos.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- CCAMLR. Convention Area, ecosystem approach and krill fishery management, 2024. Consultar publicação
- NOAA — National Ocean Service. Is there a Southern Ocean? Boundaries and definitions, 2024. Consultar publicação
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, e a proposta de revisão de 2000, 1953. Consultar publicação
- Copernicus Marine Service. Southern Ocean fronts and Antarctic Circumpolar Current monitoring, 2025. Consultar publicação
- UNESCO — Patrimônio Mundial. Heard and McDonald Islands, Macquarie Island e French Austral Lands and Seas, 2023. Consultar publicação
- IUCN Red List. Diomedea exulans e Dissostichus eleginoides, 2023. Consultar publicação
- NSIDC — National Snow and Ice Data Center. Antarctic sea ice extent and Southern Annular Mode, 2025. Consultar publicação
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