Bacia do Brasil
Grande bacia abissal do Atlântico Sul ocidental, com planícies acima de 5.500 m, alimentada por Água de Fundo Antártica que entra pelo Canal de Vema.
A Bacia do Brasil é a maior depressão abissal do Oceano Atlântico sul. Não é um recorte da linha de costa, mas uma feição do leito oceânico delimitada por relevo submarino: a leste, o flanco da Dorsal Meso-Atlântica; ao norte, a Cadeia Vitória–Trindade e as zonas de fratura equatoriais; ao sul, a Elevação do Rio Grande, platô que se ergue mais de 2.000 m acima do fundo e quase isola as águas mais densas da bacia.
O interior é uma planície de topografia suave, com trechos extensos abaixo de 5.500 m, interrompida por montes submarinos isolados. Por suas gargantas circula parte da engrenagem térmica do planeta: a Água de Fundo Antártica entra pelo estreito Canal de Vema e avança para o norte por baixo da Água Profunda do Atlântico Norte, que segue em sentido oposto. É também onde o Brasil pleiteia a extensão de sua plataforma continental.
Ficha técnica
- Nome
- Bacia do Brasil
- Também chamado de
- Bacia Brasileira
- Tipo de formação
- Bacia oceânica
- Localização
- Atlântico Sul ocidental, aproximadamente entre 5° S e 30° S e entre 38° O e 14° O, do sopé continental brasileiro até o flanco ocidental da Dorsal Meso-Atlântica.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- América do Sul, África
- Países e territórios
- Nenhum Estado tem costa na bacia, que é feição do fundo do mar. Alcançam-na as zonas econômicas exclusivas brasileiras geradas pelo continente e pelas ilhas oceânicas de Fernando de Noronha, Rocas, São Pedro e São Paulo e Trindade e Martim Vaz. O setor central e oriental é alto-mar.
- Área aproximada
- Entre 3.500.000 km² e 5.000.000 km²A amplitude reflete a escolha do limite norte e a inclusão ou não do sopé continental.
- Profundidade média
- Cerca de 4.500 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 6.000 mSetores centrais da planície abissal; compilações indicam valores entre 5.800 m e 6.000 m.
- Salinidade
- 34,7 no fundo a 37,2 na superfície tropical
- Temperatura da superfície
- De 26 °C a 28 °C na superfície e entre −0,2 °C e 0,8 °C abaixo de 4.000 m
- Correntes principais
- Corrente do Brasil, Subcorrente Norte do Brasil, Água Profunda do Atlântico Norte e Água de Fundo Antártica, canalizada pelo Canal de Vema.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A bacia é definida por relevo, não por costas. O limite leste é o flanco da Dorsal Meso-Atlântica, cujo eixo corre entre 13° O e 16° O; o oeste é o sopé da margem brasileira, na isóbata de 3.500 m; o sul é a Elevação do Rio Grande, platô de cerca de 150.000 km² entre 28° S e 34° S. Ao norte, a Cadeia Vitória–Trindade estende-se por 1.200 km a partir do Espírito Santo, com bancos que sobem de fundos de 4.000 m até 20 m ou 100 m de profundidade.
Zonas de fratura a atravessam de leste a oeste: a Zona de Fratura de São Paulo e a de Romanche, ao norte, e as de Rio Grande e Vema, ao sul. Essas cicatrizes da abertura do Atlântico funcionam como corredores por onde as massas de água densas transpõem obstáculos de outro modo intransponíveis.
Continentes e países próximos
Não existem cidades nem populações na bacia: no setor central, a superfície do mar acima dela está a mais de mil quilômetros de terra firme. O que se projeta sobre ela são jurisdições. O conjunto de águas brasileiras, chamado Amazônia Azul, soma cerca de 3.600.000 km² de zona econômica exclusiva e pode alcançar aproximadamente 5.700.000 km² de fundo marinho se as submissões de plataforma continental estendida forem acolhidas. O Brasil apresentou proposta inicial em 2004 e a reapresentou em parcelas entre 2015 e 2018.
- Brasil — Único Estado com zona econômica exclusiva sobre a bacia, a partir do litoral do Nordeste e do Sudeste e das quatro ilhas oceânicas.
- Reino Unido — As águas de Santa Helena e de Ascensão limitam a área a nordeste, do lado africano da dorsal.
- Alto-mar — O setor central fica fora de jurisdição nacional; o leito é área internacional sob a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos.
- Margem africana — Além da dorsal ficam as bacias de Angola e do Cabo, contraparte oriental do mesmo sistema.
Área e profundidade
A extensão norte–sul aproxima-se de 3.000 km e a largura varia entre 1.800 km e 2.500 km. O Canal de Vema, que corta a Elevação do Rio Grande em torno de 31° S e 39° O, tem 15 km a 20 km de largura no fundo e soleira próxima de 4.600 m; por essa garganta passam entre 2 Sv e 4 Sv de água antártica.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | De 3.500.000 km² a 5.000.000 km² | Depende do limite norte |
| Profundidade máxima | Cerca de 6.000 m | Setor central |
| Soleira do Canal de Vema | Cerca de 4.600 m | Entrada da água antártica |
Principais correntes
Na superfície, o ramo sul da Corrente Sul Equatorial divide-se ao encontrar a saliência do Nordeste: a porção que segue para sul forma a Corrente do Brasil, quente e pobre em nutrientes; a que segue para norte forma a Subcorrente Norte do Brasil. Entre 1.500 m e 3.500 m avança para o sul a Água Profunda do Atlântico Norte, e sob ela a Água de Fundo Antártica entra pelo Canal de Vema com temperatura potencial inferior a 0 °C, preenchendo tudo abaixo de 4.000 m.
A bacia é referência no estudo da mistura abissal, e os resultados obtidos ali mudaram a forma como os modelos climáticos representam o retorno das águas profundas à superfície.
Clima
A superfície está sob o anticiclone subtropical do Atlântico Sul, com alísios de sudeste na borda norte e ventos de oeste no extremo sul. A água superficial varia entre 26 °C e 28 °C nas latitudes tropicais e cai a 18 °C ou 20 °C perto de 30° S no inverno austral. Ciclones tropicais são raros, porque o cisalhamento do vento é alto, mas o setor sudoeste registrou eventos excepcionais, como o ciclone Catarina, em março de 2004.
O fundo tem clima próprio, imune às estações: abaixo de 4.000 m a temperatura fica entre −0,2 °C e 0,8 °C e a luz é inexistente. As variações relevantes são os pulsos de água antártica que atravessam a soleira de Vema e as tempestades bênticas, que ressuspendem sedimento fino.
Ecossistemas
A planície abissal é o ambiente dominante, com lama calcária nas áreas rasas e argila vermelha abaixo da profundidade de compensação de carbonato, em torno de 4.500 m. A comunidade de fundo depende da chuva de partículas orgânicas da superfície, fluxo correspondente a menos de 5% do carbono fixado na camada iluminada.
Os montes submarinos são os oásis desse deserto: geram turbulência e retenção de larvas, e concentram esponjas, gorgônias, corais de água fria e peixes de agregação. Nos topos rasos da Cadeia Vitória–Trindade ocorrem fundos de algas calcárias e rodolitos, e as ilhas acrescentam ambientes de água clara, como o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas.
Biodiversidade
A fauna pelágica é típica de giro subtropical: biomassa baixa por unidade de volume e predadores de topo que percorrem longas distâncias. Atuns, agulhões, tubarões e tartarugas usam os montes submarinos como pontos de agregação, o que faz dessas elevações alvos preferenciais da pesca industrial.
- Baleia-jubarte — Megaptera novaeangliae cruza a borda oeste entre julho e novembro, rumo às áreas de reprodução dos Abrolhos.
- Tartaruga-verde — Chelonia mydas tem em Trindade a maior área de desova do Brasil, com milhares de ninhos por temporada.
- Aves oceânicas — Atobás, pássaros-bobos e fragatas nidificam em São Pedro e São Paulo e forrageiam sobre a planície.
- Corais de água fria — Lophelia pertusa e Madrepora oculata recobrem os guyots entre 200 m e 1.000 m.
Ilhas
Uma bacia abissal quase não tem ilhas, e as que existem são cumes que venceram milhares de metros de coluna de água. Sobre a bacia e em suas bordas emergem quatro conjuntos, todos brasileiros e vulcânicos, exceto São Pedro e São Paulo.
- Trindade e Martim Vaz — 10,1 km² e 0,3 km² no extremo leste da Cadeia Vitória–Trindade, a 1.170 km de Vitória; estação da Marinha desde 1957.
- Fernando de Noronha e Rocas — 26 km² emersos de um vulcão de 4.000 m de altura e 7,5 km² de anel recifal, o único atol do Atlântico Sul ocidental.
- São Pedro e São Paulo — Cerca de 0,017 km² a 1.010 km de Natal, sobre a Zona de Fratura de São Paulo; expõe peridotitos do manto e tem estação científica ocupada desde 1998.
- Montes submersos — Vitória, Montague, Jaseur, Davis, Dogaressa e Columbia, com topos entre 20 m e 600 m, além do platô da Elevação do Rio Grande.
Portos e rotas relevantes
Não há portos na bacia, nem poderia haver: no setor central, o ponto mais próximo de terra firme está a mais de 1.500 km de qualquer cais. Os terminais que servem a área ficam na margem continental — Santos, Rio de Janeiro, Itaguaí, Vitória, Salvador e Suape — e dali partem as cargas que cruzam a planície abissal rumo à Europa, à África e à Ásia.
Sobre o fundo passa um corredor de cabos submarinos. O EllaLink, ativo desde 2021, liga Fortaleza a Sines, em Portugal, ao longo de cerca de 6.000 km; foi o primeiro sistema de alta capacidade a conectar a América do Sul à Europa sem escala no hemisfério norte, e reduziu a latência entre os dois continentes para menos de 60 ms. O SACS, rumo a Angola, e o SAIL, rumo a Camarões, partem da mesma região.
| Elemento | Natureza | Função |
|---|---|---|
| EllaLink | Cabo submarino | Fortaleza a Sines, ativo desde 2021 |
| SACS e SAIL | Cabos submarinos | Fortaleza a Luanda e a Kribi, desde 2018 |
| Santos e Itaguaí | Portos continentais | Contêineres e minério |
| Trindade e São Pedro e São Paulo | Postos avançados | Apoio científico e sustentação da zona econômica exclusiva |
Importância econômica
A atividade econômica direta é pequena em volume e alta em valor estratégico. A pesca oceânica de atuns opera sobre os montes submarinos e ao longo das frentes térmicas, com albacoras, bonito-listrado, espadarte e agulhões como espécies de maior interesse.
O interesse mineral concentra-se na Elevação do Rio Grande, onde o Serviço Geológico do Brasil assinou, em 2015, contrato de quinze anos com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para crostas de ferro-manganês ricas em cobalto em 3.000 km². As crostas crescem alguns milímetros por milhão de anos e concentram cobalto, níquel, platina e terras raras; nódulos polimetálicos ocorrem na planície em densidades inferiores às das grandes províncias do Pacífico.
Importância ambiental
A bacia é reservatório térmico e de carbono do hemisfério sul. A água que entra por Vema carrega oxigênio e carbono absorvidos na superfície do Oceano Antártico décadas ou séculos antes, e as séries de temperatura medidas na soleira do canal, entre as mais longas do oceano profundo, mostram aquecimento sustentado desde a década de 1970.
Os montes submarinos concentram valor ambiental desproporcional à área: por serem ilhas ecológicas isoladas, têm alto endemismo e comunidades de crescimento lentíssimo, em que uma colônia de coral pode ter séculos. A superfície integra o giro subtropical, onde detritos flutuantes se acumulam por convergência, com densidades de microplástico inferiores às do Mar dos Sargaços, mas em aumento.
Problemas de conservação
O desafio em alto-mar é jurídico antes de técnico: até o acordo de 2023 sobre biodiversidade marinha em áreas além das jurisdições nacionais, não havia instrumento capaz de criar áreas protegidas ali. Nas águas brasileiras, a proteção avançou em 2018 com o Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e o do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, que somam cerca de 91.000.000 ha, embora a proteção integral se restrinja a faixas próximas das ilhas.
- Pesca de fundo em montes submarinos — Arrasto e espinhel removem corais e esponjas de crescimento secular, com recuperação estimada em décadas ou séculos.
- Mineração de crostas — Remover a camada mineralizada da Elevação do Rio Grande sem destruir a comunidade bêntica que vive sobre ela é o desafio central.
- Resíduos flutuantes — Artes de pesca perdidas e plástico acumulado pelo giro chegam a Trindade e a Noronha de milhares de quilômetros.
- Aquecimento e ruído — O aquecimento da água de fundo medido em Vema e o ruído do tráfego de longo curso alteram habitats antes estáveis.
Curiosidades
- Os rochedos de São Pedro e São Paulo não são vulcânicos: são peridotitos do manto terrestre, empurrados para cima ao longo da Zona de Fratura de São Paulo, um dos raros lugares do mundo onde se pisa em rocha mantélica.
- Em 2015, o Serviço Geológico do Brasil obteve contrato de quinze anos da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos para crostas de ferro-manganês ricas em cobalto em 3.000 km² da Elevação do Rio Grande.
- Toda a água que preenche a bacia abaixo de 4.000 m passou por uma garganta de 15 km a 20 km de largura, o Canal de Vema. Fundeios ali instalados desde a década de 1970 registram aquecimento contínuo dessa água.
- Um experimento de traçador feito entre 1996 e 1997 mostrou que a mistura vertical sobre o flanco rugoso da Dorsal Meso-Atlântica chega a ser cem vezes mais intensa do que sobre a planície lisa.
- A plataforma continental estendida pleiteada pelo Brasil desde 2004 pode elevar o fundo marinho sob jurisdição nacional de 3.600.000 km² para cerca de 5.700.000 km².
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- NOAA — National Ocean Service. Ocean floor features and abyssal plains, 2024. Consultar publicação
- Marinha do Brasil — Centro de Hidrografia. Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira e Amazônia Azul, 2024. Consultar publicação
- Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. Exploration contracts for cobalt-rich ferromanganese crusts, 2023. Consultar publicação
- ICMBio. Monumentos Naturais de Trindade e Martim Vaz e do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, 2023. Consultar publicação
- Polzin, K. L. e colaboradores — Science. Spatial Variability of Turbulent Mixing in the Abyssal Ocean, 1997. Consultar publicação
- Copernicus Marine Service. Global Ocean Physics Analysis and Forecast, 2025. Consultar publicação
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Oceano
Oceano Atlântico
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
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Bacia oceânica
Bacia Argentina
Planície abissal ao largo da Patagônia, drenada pelo Canal de Vema e marcada pelo encontro entre a Corrente do Brasil e a das Malvinas.
Área Entre 2.000.000 km² e 3.000.000 km² Máx. Cerca de 6.000 m
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Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz
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Área 69.155 km² Máx. Cerca de 5.000 m
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Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
Arquipélago vulcânico protegido desde 1988, com a maior concentração conhecida de golfinhos-rotadores e visitação sob limite rígido.
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Mar dos Sargaços
Mar sem costas no centro do giro do Atlântico Norte, coberto por algas flutuantes e sem estatuto jurídico próprio.
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Maior baía navegável do Brasil, com 56 ilhas, recifes de coral, manguezais e os portos de Salvador e Aratu no Recôncavo.
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