Estreito de Gibraltar
Passagem de cerca de 58 km entre a Europa e a África, com 14 km no trecho mais estreito, que liga o Mar Mediterrâneo ao Atlântico em duas camadas.
O Estreito de Gibraltar é a única ligação natural entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, e o ponto em que a Europa e a África mais se aproximam. Tem cerca de 58 km de extensão e apenas 14 km de largura entre a Ponta de Tarifa, na Espanha, e a Ponta Cires, em Marrocos. É raso em relação aos mares que conecta: a soleira de Camarinal, seu limiar mais elevado, fica em torno de 290 m a 300 m.
Essa geometria explica quase tudo o que ali acontece. Como o Mediterrâneo evapora mais do que recebe, o estreito funciona como comporta de duas camadas: água atlântica menos salgada entra pela superfície e água mediterrânea densa sai pelo fundo. O atrito entre elas, somado às marés, gera ondas internas de grande amplitude. Sobre esse cenário passa um dos maiores fluxos de navios do planeta e um corredor de migração de aves e cetáceos dos mais concentrados do hemisfério norte.
Ficha técnica
- Nome
- Estreito de Gibraltar
- Também chamado de
- Bab al-Zaqaq, Colunas de Hércules
- Tipo de formação
- Estreito
- Localização
- Entre 35,7° N e 36,2° N e entre 6,1° O e 5,2° O, separando o extremo sul da Península Ibérica da costa marroquina.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- Europa, África
- Países e territórios
- Espanha e Marrocos nas duas margens, além do território britânico de Gibraltar e da cidade autônoma espanhola de Ceuta.
- Área aproximada
- Aproximadamente 1.400 km²Polígono entre o Cabo Trafalgar, o Cabo Espartel, a Ponta Europa e a Ponta Almina; delimitações mais restritas chegam a cerca de 900 km².
- Profundidade média
- Cerca de 365 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 900 mCanal oriental; a soleira de Camarinal reduz a passagem a cerca de 290 m.
- Salinidade
- 36,2 na entrada atlântica e 38,4 na água mediterrânea que sai pelo fundo
- Temperatura da superfície
- De 15 °C a 17 °C no inverno e de 21 °C a 23 °C no verão à superfície
- Linha de costa
- Cerca de 130 km somando as duas margens
- Correntes principais
- Jato Atlântico à superfície, saída de Água Mediterrânea pelo fundo, correntes de maré de até 3 nós e ondas internas geradas na soleira de Camarinal.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A oeste, o estreito abre-se para o Golfo de Cádiz na linha convencional entre o Cabo Trafalgar e o Cabo Espartel, onde a largura chega a cerca de 44 km. A leste, o limite adotado pelas cartas náuticas vai da Ponta Europa, no extremo sul do Rochedo de Gibraltar, à Ponta Almina, em Ceuta, com aproximadamente 24 km, já na entrada do Mar de Alborán.
O fundo tem duas soleiras em série: a de Espartel, entre 340 m e 360 m, e a de Camarinal, o verdadeiro limiar, com cerca de 290 m no canal principal. Depois dela o leito ultrapassa 800 m. A passagem ocupa uma depressão do Arco de Gibraltar, formado pelas cordilheiras Bética e do Rife na convergência ainda ativa entre as placas africana e euroasiática.
Continentes e países próximos
Duas margens continentais e três administrações se encontram em menos de 60 km de canal. A navegação é garantida pelo regime de passagem em trânsito da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e o dispositivo de separação de tráfego é fixado pela Organização Marítima Internacional. O território de Gibraltar é administrado pelo Reino Unido desde o Tratado de Utrecht, de 1713, e consta da lista de territórios não autônomos das Nações Unidas: a Espanha reivindica a soberania, o Reino Unido sustenta seu título e a população local rejeitou propostas de soberania compartilhada em consultas de 1967 e 2002. Ceuta, administrada pela Espanha, é reivindicada por Marrocos.
- Espanha — Margem norte, de Tarifa a Algeciras, mais Ceuta na margem africana.
- Marrocos — Margem sul, do Cabo Espartel a Jbel Musa, com Tânger e Tânger-Med.
- Gibraltar — Território britânico de 6,8 km² na entrada oriental.
Área e profundidade
A seção transversal mínima do canal, estimada em cerca de 5 km², limita a troca de água entre os dois mares a algo em torno de 0,8 a 1 milhão de metros cúbicos por segundo em cada sentido.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Extensão | Cerca de 58 km | Do Cabo Espartel à Ponta Europa |
| Largura mínima | 14 km | Ponta de Tarifa a Ponta Cires |
| Largura máxima | Cerca de 44 km | Entrada atlântica |
| Soleira de Camarinal | 290 m a 300 m | Limiar que controla a troca |
| Profundidade máxima | Cerca de 900 m | Canal oriental |
| Troca de água | 0,8 a 1 Sv por sentido | 1 Sv equivale a 1 milhão de m³/s |
Principais correntes
O padrão dominante é a circulação antiestuarina. À superfície, o Jato Atlântico entra no Mediterrâneo com salinidade próxima de 36,2 e velocidade de 1 a 2 nós, alimentando os giros do Mar de Alborán. Abaixo de uma interface situada entre 100 m e 200 m, a Água Mediterrânea sai no sentido oposto, com salinidade em torno de 38,4 e temperatura estável perto de 13 °C. A saída é ligeiramente menor que a entrada, e a diferença corresponde ao déficit de evaporação da bacia.
As marés atlânticas impõem correntes alternadas de até 3 nós. Quando a vazante empurra a água densa por cima da soleira de Camarinal, forma-se um salto hidráulico que se desprende e viaja para leste como onda interna, com amplitudes que chegam a 100 m. Já no Atlântico, a água que sai pelo fundo se estabiliza entre 800 m e 1.200 m, formando a Água de Saída do Mediterrâneo, que se organiza em vórtices lenticulares duradouros.
Clima
O clima é mediterrâneo com forte influência oceânica, e o regime de ventos é dominado por dois fluxos opostos canalizados pelo relevo: o levante, de leste, quente e capaz de soprar por dias com mar cruzado, e o poniente, de oeste, mais húmido. A canalização entre montanhas faz do estreito um dos trechos mais ventosos da Europa, condição aproveitada pelos parques eólicos de Tarifa desde a década de 1980. Nevoeiros de advecção são frequentes na primavera e reduzem a visibilidade a poucas centenas de metros.
Ecossistemas
Os ecossistemas do estreito são moldados pela corrente. Nos fundos rochosos batidos por fluxo permanente instalam-se comunidades de filtradores que dependem dessa energia: jardins de gorgônias, esponjas de grande porte, briozoários e corais laminares alimentados pelo transporte contínuo de partículas. São formações de cobertura baixa, diversidade alta e grande sensibilidade ao arrasto.
Nos trechos rasos e iluminados há florestas de algas pardas de Laminaria ochroleuca e Saccorhiza polyschides, entre as mais meridionais da Europa, e bancos de Cymodocea nodosa nas enseadas abrigadas. A própria descontinuidade oceanográfica funciona como ecossistema: o contraste entre a água atlântica e a mediterrânea concentra plâncton e pequenos pelágicos em frentes móveis, e é essa concentração que sustenta a passagem contínua de predadores.
Biodiversidade
O estreito é sobretudo um corredor: espécies que não vivem nele o atravessam em números elevados e em datas previsíveis. Sete espécies de cetáceos são registradas com regularidade, e a passagem funciona como gargalho para as populações de atum que entram no Mediterrâneo para desovar.
- Orca — Um grupo reduzido de Orcinus orca frequenta a entrada atlântica entre maio e agosto, seguindo o atum-rabilho.
- Boto-preto e cachalote — Globicephala melas é residente; o cachalote atravessa o canal e é vulnerável a colisões.
- Golfinhos — Golfinho-comum, golfinho-riscado e roaz ocorrem em bandos de centenas de indivíduos nas frentes de corrente.
- Aves planadoras — Cegonhas, abutres, milhafres e águias-calçadas cruzam a passagem às centenas de milhares por ano.
- Atum-rabilho — Thunnus thynnus passa em duas ondas anuais e é capturado por armações fixas nas duas margens desde a Antiguidade.
Ilhas
O estreito quase não tem ilhas, e as que existem são rochedos costeiros mínimos. A mais notável é a Ilha das Palomas, ou Ilha de Tarifa, ligada ao continente por um molhe e considerada o ponto mais meridional da Europa continental. Do lado africano, o Ilhéu de Perejil é um rochedo desabitado de cerca de 0,15 km², com soberania objeto de reivindicações concorrentes de Espanha e Marrocos. O que substitui as ilhas na paisagem são os promontórios e os bancos submersos das soleiras.
- Ilha das Palomas — Ponto mais ao sul da Europa continental, unida à costa de Tarifa por um molhe artificial.
- Ilhéu de Perejil — Rochedo desabitado de cerca de 0,15 km² junto à costa marroquina.
- Bancos de Camarinal e Espartel — Soleiras submersas que controlam a troca de água entre os dois mares.
- Rochedo de Gibraltar e Monte Hacho — 426 m e 204 m de altura, as elevações identificadas como Colunas de Hércules.
- Ilha de Alborán — 0,07 km² de origem vulcânica, primeira ilha verdadeira a leste da passagem.
Portos e rotas relevantes
As duas margens concentram capacidade portuária desproporcional ao tamanho da região, porque o estreito é o encontro entre a rota Europa–Ásia, o comércio atlântico e o abastecimento do norte da África. Algeciras e Tânger-Med são grandes centros de transbordo: navios de porte máximo deixam contêineres que seguem em embarcações menores. Somam-se o fornecimento de combustível, em que Gibraltar e Ceuta figuram entre os principais pontos do Mediterrâneo ocidental, e um tráfego de balsas de milhões de passageiros por ano. Estima-se que mais de 100 mil navios cruzem o estreito anualmente.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Tânger-Med | Marrocos | Maior terminal de transbordo do Mediterrâneo |
| Algeciras | Espanha | Transbordo e abastecimento de combustível |
| Gibraltar | Gibraltar | Abastecimento e serviços a navios |
| Ceuta | Espanha | Combustível, pesca e ligação com a Península |
| Tarifa | Espanha | Balsas rápidas para Tânger |
| Tânger Ville | Marrocos | Passageiros e cruzeiros |
Importância econômica
A economia do estreito é a economia da passagem: transbordo de contêineres, abastecimento de combustível, reparação naval, logística industrial de Algeciras e da zona franca de Tânger-Med e transporte de passageiros. O trânsito de veículos e trabalhadores entre a Europa e o Magrebe, concentrado em poucas semanas do verão, é uma operação anual de grande escala.
A pesca mantém peso econômico e cultural. As armações de atum de Barbate, Zahara de los Atunes, Conil e Tarifa capturam rabilho em rotas fixas sob quotas internacionais, e a frota artesanal de Tânger explora sardinha e cavala. Projetos de ligação fixa entre os dois continentes são estudados por Espanha e Marrocos desde 1979, com foco em um túnel ferroviário submarino no eixo Punta Paloma–Malabata, sem decisão de construção.
Importância ambiental
A importância ambiental do estreito decorre de sua função de comporta: toda a renovação de água do Mediterrâneo passa por esse canal, e o tempo de residência da bacia, estimado entre 80 e 100 anos, é consequência direta da seção reduzida em Camarinal. A salinidade e a temperatura da água que sai por Gibraltar são acompanhadas como indicador do estado de todo o mar interior. A passagem é também um dos dois grandes gargalhos migratórios do Paleártico ocidental, ao lado do Bósforo. O Parque Natural do Estreito protege cerca de 189 km² desde 2003 e, com o sítio marroquino de Jbel Musa, integra uma reserva da biosfera intercontinental reconhecida pela Unesco em 2006.
Problemas de conservação
O principal risco é o próprio tráfego. Mais de uma centena de milhares de travessias anuais em um canal de poucos quilômetros úteis produz risco permanente de colisão, encalhe e derramamento de hidrocarbonetos, agravado por correntes fortes e nevoeiro. As transferências de combustível entre embarcações fundeadas na baía de Algeciras são ponto de atenção recorrente, e a gestão do conjunto depende de coordenação entre jurisdições distintas.
- Risco de acidentes — Canal estreito, correntes de até 3 nós e nevoeiro frequente com tráfego superior a 100 mil navios por ano.
- Ruído e colisões — Cachalotes e botos-pretos apresentam marcas de colisão e alteração de comportamento.
- Poluição crônica — Descargas operacionais, resíduos de abastecimento e efluentes urbanos da baía de Algeciras.
- Pesca não seletiva — Captura acidental em redes de emalhe e impacto do arrasto sobre jardins de gorgônias.
- Espécies exóticas — A alga Rugulopteryx okamurae expandiu-se de forma explosiva pelas duas margens a partir de 2015.
Curiosidades
- Entre 5,96 e 5,33 milhões de anos atrás, a interrupção da ligação com o Atlântico levou o Mediterrâneo à quase dessecação, a Crise de Salinidade Messiniana, registrada em camadas de sal com quilômetros de espessura sob o leito atual.
- O reenchimento, a inundação zancleana, ocorreu há cerca de 5,33 milhões de anos e escavou um canal erosivo de aproximadamente 200 km, com vazões capazes de encher a bacia em poucos anos.
- As ondas internas geradas na soleira de Camarinal deixam faixas alternadas de rugosidade na superfície do mar visíveis em imagens orbitais.
- A água mediterrânea que sai pelo fundo é tão densa que se estabiliza perto de 1.000 m de profundidade no Atlântico e forma vórtices que mantêm suas propriedades por anos.
- A coluna africana das Colunas de Hércules é atribuída pela maior parte das fontes ao Monte Hacho, de 204 m, em Ceuta, e por outras ao maciço de Jbel Musa, de 842 m.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Internal Waves, Strait of Gibraltar, 2024. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- Organização Marítima Internacional. Ships routeing — dispositivos de separação de tráfego, 2023. Consultar publicação
- Unesco. Programa Homem e Biosfera — reservas da biosfera transfronteiriças, 2006. Consultar publicação
- Copernicus Marine Service. Mediterranean Sea Physics Analysis and Forecast, 2025. Consultar publicação
- PNUMA / Plano de Ação para o Mediterrâneo. State of the Environment and Development in the Mediterranean, 2020. Consultar publicação
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Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Estreito de Gibraltar no conjunto das formações marinhas.
-
Mar
Mar Mediterrâneo
Mar semifechado entre três continentes, ligado ao Atlântico por Gibraltar e responsável por parte decisiva do comércio marítimo mundial.
Área 2.500.000 km² Máx. 5.109 m
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Oceano
Oceano Atlântico
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m
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Mar
Mar Egeu
Mar de arquipélagos entre a Grécia e a Turquia, com vulcões ativos, sítios antigos e fronteiras marítimas contestadas.
Área 214.000 km² Máx. 3.543 m
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Mar de Mármara
Mar interior entre a Europa e a Ásia, atravessado por Istambul, pela falha norte-anatoliana e por um dos maiores tráfegos navais do mundo.
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Estreito de Bab el-Mandeb
Porta sul do Mar Vermelho, dividida em dois canais pela Ilha de Perim e essencial para a rota entre a Ásia e a Europa.
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Canal da Mancha
Passagem rasa entre a Grã-Bretanha e a França, aberta por megainundações glaciais e hoje a rota marítima mais movimentada do planeta.
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