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DatingYes Oceanos e Mares
Leitura de fundo

Conservação marinha

Nenhum ecossistema do planeta mudou tanto em tão pouco tempo quanto o oceano. Esta é uma síntese das pressões que ele enfrenta, dos instrumentos criados para contê-las e do que a evidência mostra sobre o que funciona.

O estado do oceano

O mar cobre pouco mais de 70% da superfície terrestre, guarda cerca de 97% da água do planeta e absorveu mais de 90% do calor excedente acumulado pelo sistema climático desde a metade do século XX. Também retirou da atmosfera perto de um quarto do dióxido de carbono emitido por atividades humanas. Esses dois serviços — armazenar calor e absorver carbono — atenuaram enormemente o aquecimento sentido em terra, e ambos têm um custo que aparece na própria água.

Esse custo se expressa em três processos simultâneos, muitas vezes chamados de tríade do estresse oceânico: o aquecimento, que altera a distribuição de espécies e provoca mortalidades em massa; a acidificação, resultado da reação do dióxido de carbono com a água, que dificulta a formação de conchas e esqueletos calcários; e a desoxigenação, a perda de oxigênio dissolvido, tanto por causas físicas quanto pelo excesso de nutrientes despejados pelos rios.

As pressões, uma a uma

Pesca acima da capacidade de reposição

Segundo os levantamentos periódicos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a fração de estoques pesqueiros marinhos explorados dentro de níveis biologicamente sustentáveis caiu de cerca de 90%, no final da década de 1970, para pouco mais de 60% nas avaliações mais recentes. O quadro varia muito por região: o Atlântico Nordeste e o Pacífico Nordeste mostram recuperação sustentada, enquanto o Mediterrâneo segue entre os mais pressionados.

A pesca ilegal, não declarada e não regulamentada agrava o problema porque distorce as próprias estatísticas com que se calcula a captura sustentável. Artes de pesca abandonadas continuam capturando por anos, e a captura acidental de tartarugas, aves e cetáceos permanece como a principal causa de declínio de várias espécies ameaçadas.

Poluição

O plástico é a face mais visível, com estimativas da ordem de milhões de toneladas ingressando no mar a cada ano e acumulando-se sobretudo nos centros dos giros subtropicais. Menos visível e provavelmente mais danoso em escala regional é o excesso de nitrogênio e fósforo de origem agrícola e urbana, responsável pela expansão de zonas mortas em áreas como o norte do Golfo do México e o Mar Báltico.

Somam-se a esses o ruído submarino produzido por navios, prospecção sísmica e obras costeiras, que interfere na comunicação de cetáceos; os poluentes orgânicos persistentes, que se concentram ao longo da cadeia alimentar; e derramamentos de petróleo, cujos efeitos podem durar décadas em ambientes abrigados.

Destruição de habitat

Estima-se que metade dos manguezais existentes há um século tenha desaparecido, e a perda de pradarias marinhas e de recifes de coral segue ritmos comparáveis. A pesca de arrasto de fundo revolve grandes extensões de sedimento e destrói comunidades bentônicas que levam décadas para se reconstituir. Na costa, a artificialização por muros, aterros e portos elimina justamente as áreas de berçário.

Espécies introduzidas e novas fronteiras

Água de lastro e canais artificiais transportam organismos entre bacias que estiveram isoladas por milhões de anos. O caso mais documentado é a chegada de mais de mil espécies indo-pacíficas ao Mediterrâneo oriental pelo Canal de Suez. Na fronteira oposta, a mineração de nódulos polimetálicos em planícies abissais avança em fase exploratória, com regras internacionais ainda em negociação e forte controvérsia científica sobre a capacidade de recuperação desses fundos.

Os instrumentos de proteção

A base jurídica é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982, que define zonas marítimas e impõe aos Estados o dever de proteger o meio marinho. Sobre ela foram construídos regimes específicos: a MARPOL, contra a poluição por navios; a convenção de gestão de água de lastro; os acordos regionais de pesca; e, em 2023, o Acordo sobre Biodiversidade Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional, que pela primeira vez permite criar áreas protegidas em alto-mar.

A ferramenta espacial mais usada é a área marinha protegida. O Quadro Global de Biodiversidade adotado em 2022 estabeleceu a meta de proteger efetivamente 30% das áreas marinhas até 2030. O percentual global atualmente sob alguma forma de proteção declarada gira em torno de 8%, mas a parcela sob proteção integral, sem extração, é bem menor — algo próximo de 3%.

Nem toda área protegida protege

A literatura científica distingue as áreas efetivamente protegidas dos chamados parques de papel, criados por decreto mas sem regras restritivas, sem fiscalização ou sem orçamento. Estudos comparativos mostram que reservas de proteção integral bem fiscalizadas acumulam, em média, várias vezes mais biomassa de peixes que áreas equivalentes sem proteção, enquanto zonas apenas parcialmente restritas apresentam ganhos pequenos ou nulos. Por isso o número que realmente importa não é quanto foi declarado, e sim quanto é fiscalizado.

Amazônia Azul

No Atlântico Sul ocidental, a faixa marinha sob jurisdição brasileira se aproxima de 3,6 milhões de quilômetros quadrados, e pode ultrapassar 5,7 milhões com o reconhecimento integral da plataforma continental estendida em análise nas Nações Unidas — o conjunto que a hidrografia oficial chama de Amazônia Azul, maior que a Amazônia terrestre.

A criação, em 2018, de grandes unidades de conservação em torno do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz e de São Pedro e São Paulo elevou de forma abrupta o percentual protegido dessas águas, de menos de 2% para cerca de 26%. A crítica recorrente da comunidade científica é de que a maior parte dessa área ficou sob a categoria de proteção de uso sustentável, em regiões oceânicas com baixa pressão pesqueira, enquanto trechos costeiros de alta biodiversidade seguem pouco cobertos.

Entre as áreas costeiras, destacam-se o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o Atol das Rocas e a Reserva Extrativista Marinha de Corumbau, esta última um exemplo estudado de cogestão com comunidades pesqueiras. Há ainda presença permanente na Antártida e participação nas decisões da comissão que administra o Oceano Antártico.

O que a evidência mostra que funciona

  • Proteção integral com fiscalização — reservas onde nenhuma extração é permitida e cuja regra é efetivamente aplicada apresentam recuperação consistente de biomassa, tamanho médio e diversidade, com transbordamento para áreas vizinhas.
  • Gestão pesqueira baseada em avaliação de estoque — onde há quotas ajustadas a avaliações periódicas, controle de esforço e rastreamento de embarcações, estoques colapsados voltaram a níveis saudáveis em uma ou duas décadas.
  • Cogestão com comunidades locais — regras construídas junto a pescadores artesanais têm taxa de cumprimento muito superior às impostas de fora.
  • Restauração de habitat — replantio de manguezais, recuperação de bancos de ostras e transplante de corais funcionam quando a causa original da degradação foi removida; sem isso, tornam-se investimentos perdidos.
  • Redução de aportes de nutrientes — o Báltico e o Mar Negro mostram que zonas mortas retrocedem quando a carga de nitrogênio e fósforo cai de forma sustentada, ainda que a recuperação leve décadas.

Nenhuma dessas medidas resolve o aquecimento e a acidificação, que dependem da redução das emissões de gases de efeito estufa. O que elas fazem é reduzir as pressões acumuladas e dar aos ecossistemas alguma margem para atravessar as mudanças que já estão contratadas.

Fontes

  1. FAO. The State of World Fisheries and Aquaculture (SOFIA), 2024. Consultar publicação
  2. Protected Planet — PNUMA-WCMC e UICN. Base de dados mundial de áreas protegidas marinhas, 2025. Consultar publicação
  3. IPCC. Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate, 2019. Consultar publicação
  4. Nações Unidas. Acordo sobre a conservação da biodiversidade marinha além das jurisdições nacionais, 2023. Consultar publicação
  5. ICMBio. Unidades de conservação marinhas e costeiras do Brasil, 2025. Consultar publicação
  6. Marinha do Brasil. Amazônia Azul e a plataforma continental brasileira, 2025. Consultar publicação
  7. UICN. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação

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