Passagem de Drake
Faixa de mar de cerca de 800 km entre o Cabo Horn e a Antártida por onde passa a Corrente Circumpolar Antártica, a maior do planeta.
A Passagem de Drake é a faixa de mar aberto que separa a América do Sul da Antártida, com cerca de 800 km entre o Cabo Horn e as Ilhas Shetland do Sul. É o ponto mais estreito de toda a volta do continente antártico e, por isso, o gargalho onde se comprime a Corrente Circumpolar Antártica, o maior transporte de água do planeta, estimado entre 134 e 173 milhões de metros cúbicos por segundo. Ali se encontram o Atlântico, o Pacífico e o Oceano Antártico.
A passagem tem duas famas justificadas. Uma é oceanográfica: sua abertura, entre cerca de 40 e 30 milhões de anos atrás, permitiu que a corrente circumpolar se fechasse em torno da Antártida e contribuiu para o isolamento térmico do continente. A outra é náutica: sem terras que freiem os ventos de oeste em toda a latitude, a região gera vagas que passam frequentemente de 6 m e alcançam mais de 15 m em tempestades, o que a tornou o trecho de mar mais temido pelos navegantes da era da vela.
Ficha técnica
- Nome
- Passagem de Drake
- Também chamado de
- Mar de Hoces, Estreito de Drake
- Tipo de formação
- Estreito
- Localização
- Entre 55° S e 62° S e entre 70° O e 55° O, entre o arquipélago do Cabo Horn e o arco das Shetland do Sul.
- Oceano de referência
- Antártico, Atlântico, Pacífico
- Continentes próximos
- América do Sul, Antártida
- Países e territórios
- Não há Estados costeiros na passagem: ao norte estão o Chile e a Argentina; ao sul, a Península Antártica, regida pelo Tratado da Antártida, que suspende reivindicações territoriais.
- Área aproximada
- Aproximadamente 700.000 km²Estimativa para a faixa entre o Cabo Horn e as Shetland do Sul; não existe delimitação oficial única.
- Profundidade média
- Cerca de 3.400 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 4.800 mBacias abissais do setor central; a Zona de Fratura de Shackleton sobe a menos de 1.000 m.
- Salinidade
- 33,9 a 34,7 conforme a frente atravessada
- Temperatura da superfície
- De cerca de 6 °C no norte a menos de 1 °C no sul, com queda abrupta na Frente Polar
- Correntes principais
- Corrente Circumpolar Antártica, com transporte estimado entre 134 Sv e 173 Sv, organizada em jatos associados à Frente Subantártica e à Frente Polar Antártica.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A passagem é delimitada ao norte pelo arquipélago do Cabo Horn e pelas Ilhas Diego Ramírez e ao sul pelas Shetland do Sul e pela ponta da Península Antártica. A leste abre-se para o Mar de Escócia; a oeste, para o Pacífico Sul. Não há costas laterais nem soleiras que a fechem: é um estreito no sentido oceanográfico, definido pela geometria dos continentes.
O fundo é acidentado e geologicamente jovem, resultado da fragmentação de um antigo istmo que unia a América do Sul à Antártida. A Zona de Fratura de Shackleton atravessa a passagem em diagonal e sobe a menos de 1.000 m, desviando a corrente e gerando turbulência intensa; as bacias abissais dos dois lados chegam a cerca de 4.800 m.
Continentes e países próximos
Nenhum Estado tem costa na passagem propriamente dita. A margem norte é chilena, com o Cabo Horn e as Ilhas Diego Ramírez, e a Argentina controla as terras vizinhas a leste; a margem sul integra a área do Tratado da Antártida, em vigor desde 1961, que congela reivindicações territoriais. As águas ao sul da Convergência Antártica estão sob a competência da Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos.
- Chile — Cabo Horn, Ilhas Diego Ramírez e Puerto Williams na margem norte.
- Argentina — Ushuaia, principal porto de partida das travessias de expedição.
- Antártida — Shetland do Sul e Península Antártica, com estações de mais de uma dezena de países.
Área e profundidade
As grandezas relevantes da passagem são o transporte de água e a energia das ondas, não a área. A largura de cerca de 800 km é o menor obstáculo em todo o percurso circumpolar, o que concentra o fluxo e faz do local o ponto de referência para medir a corrente.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Largura | Cerca de 800 km | Cabo Horn às Shetland do Sul |
| Profundidade máxima | Cerca de 4.800 m | Bacias abissais do setor central |
| Zona de Fratura de Shackleton | Menos de 1.000 m | Relevo que desvia a corrente |
| Transporte da corrente | 134 Sv a 173 Sv | Maior do planeta; 1 Sv equivale a 1 milhão de m³/s |
| Altura de onda comum | 6 m a 9 m | Extremos acima de 15 m em tempestades |
| Abertura geológica | 40 a 30 milhões de anos | Faixa de estimativas, com datas em debate |
Principais correntes
A Corrente Circumpolar Antártica atravessa a passagem de oeste para leste, impulsionada pelos ventos mais persistentes do planeta e livre de barreiras continentais. Não é um fluxo uniforme: organiza-se em jatos estreitos associados a frentes, sobretudo a Frente Subantártica, ao norte, e a Frente Polar Antártica, ao sul, cuja travessia faz a temperatura superficial cair vários graus em poucas dezenas de quilômetros.
Ao sul das frentes principais corre, em sentido contrário, a Corrente Costeira Antártica, e a interação entre as duas produz vórtices e afloramentos junto à península. A passagem é também o corredor por onde a água densa formada no Mar de Weddell começa a se espalhar pelo oceano mundial como Água de Fundo Antártica.
Clima
O clima é oceânico frio e extremamente ventoso. As latitudes atravessadas correspondem à faixa dos ventos de oeste mais fortes do planeta, e a passagem de sistemas de baixa pressão é quase contínua. Sem terras que interrompam a pista do vento, a energia se acumula nas ondas: alturas significativas de 6 m a 9 m são rotina e tempestades produzem vagas acima de 15 m. A temperatura do ar raramente sobe de 10 °C no verão. Icebergs desprendidos das plataformas antárticas derivam pela borda sul, e o nevoeiro é frequente na transição entre massas de água contrastantes.
Ecossistemas
Não há plataforma continental na maior parte da passagem, e por isso os ecossistemas dominantes são pelágicos. A produtividade é limitada pela escassez de ferro em mar aberto, mas aumenta a jusante de relevos submarinos e das ilhas, onde o contato da corrente com o fundo fornece esse nutriente. Essas manchas férteis concentram plâncton, krill e predadores.
Nas plataformas rasas das Shetland do Sul e do arquipélago do Cabo Horn dominam comunidades bentônicas de crescimento lento, com esponjas, briozoários, gorgônias e ofiuroides que levam décadas a se reconstituir. As florestas de Macrocystis pyrifera junto ao Cabo Horn formam o limite austral desse ecossistema no continente americano.
Biodiversidade
A cadeia alimentar da região gira em torno do krill antártico, que converte a produção de plâncton em alimento para praticamente todos os vertebrados de grande porte do ecossistema. A passagem também é a rota de ida e volta das baleias que se alimentam no verão austral.
- Krill antártico — Euphausia superba forma cardumes de biomassa enorme e é a base do ecossistema.
- Baleias-de-barbatana — Jubarte, baleia-comum, minke-antártica e franca-austral alimentam-se no verão e cruzam a passagem.
- Albatrozes e petréis — Albatroz-errante e albatroz-de-sobrancelha-preta nidificam nas Diego Ramírez.
- Pinguins — Pinguim-gentoo, de-barbicha e de-adélia reproduzem-se nas Shetland do Sul.
- Focas — Foca-leopardo, lobo-marinho-antártico e foca-de-weddell ocupam as praias da margem sul.
Ilhas
A passagem em si é mar aberto: sua característica definidora é a ausência de terras que interrompam o vento e a corrente, e as ilhas relevantes estão nas duas bordas. Ao norte, o arquipélago do Cabo Horn termina na Ilha Hornos e, mais ao sul, nas Ilhas Diego Ramírez, rochedos que constituem o ponto mais austral do território sul-americano do Chile. Ao sul, o arco das Shetland do Sul separa a passagem do Estreito de Bransfield.
- Ilha Hornos — Abriga o Cabo Horn, marco tradicional da entrada norte.
- Ilhas Diego Ramírez — Rochedos a cerca de 100 km a sudoeste do Cabo Horn, com colônias de albatrozes.
- Ilha Livingston — Uma das maiores das Shetland do Sul, na borda sul da passagem.
- Ilha Rei George — Concentra o maior número de estações do continente, incluindo a brasileira Comandante Ferraz.
- Ilha Elefante — Refúgio dos náufragos da expedição de Shackleton em 1916.
Portos e rotas relevantes
A passagem não tem portos, e os que a servem ficam nas duas bordas. Ao norte, Ushuaia é o principal ponto de partida de navios de expedição para a Antártida, seguida por Punta Arenas e Puerto Williams, no Chile, que atendem também a logística de programas científicos. Ao sul não há terminais comerciais: as estações das Shetland do Sul operam com fundeadouros, barcaças e pistas de pouso, como a da Ilha Rei George.
Nas rotas mundiais, a função da passagem mudou por completo em 1914, quando o Canal do Panamá tornou obsoleta a travessia do Cabo Horn para o comércio regular. O tráfego atual é dominado por navios de expedição que levam mais de cem mil visitantes por temporada à Península Antártica, além de navios de pesquisa, embarcações de pesca de krill e cargueiros de grande porte que não caberiam nas eclusas dos canais artificiais.
| Local | País | Função |
|---|---|---|
| Ushuaia | Argentina | Principal porto de partida para a Antártida |
| Punta Arenas | Chile | Logística antártica e apoio científico |
| Puerto Williams | Chile | Base naval e apoio ao arquipélago do Cabo Horn |
| Ilha Rei George | Antártida | Estações de pesquisa e pista de pouso |
| Base Frei e Comandante Ferraz | Antártida | Instalações permanentes na borda sul |
| Ilha Elefante | Antártida | Fundeadouro histórico, sem instalações |
Importância econômica
A atividade econômica da passagem se resume ao transporte de pessoas e à pesca regulada. O turismo antártico cresceu de algumas centenas de visitantes na década de 1960 para mais de cem mil por temporada, e a maior parte deles atravessa a passagem a bordo de navios de expedição saídos de Ushuaia, operação que sustenta empregos e serviços em toda a região austral.
A pesca de krill e de peixes austrais na área das Shetland do Sul é conduzida sob quotas e observação da Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, com limites bem abaixo da biomassa estimada. Somam-se a logística dos programas antárticos nacionais e a pesquisa científica, na prática a principal atividade organizada da margem sul.
Importância ambiental
A passagem é o ponto de medição mais importante do sistema de correntes do hemisfério sul. A Corrente Circumpolar Antártica conecta as três grandes bacias oceânicas, redistribui calor, sal e carbono e é o principal mecanismo pelo qual o oceano profundo comunica-se com a superfície. As séries mantidas nessa seção desde a década de 1970 estão entre as mais valiosas da oceanografia física.
A região é ainda um dos pontos onde o oceano absorve mais dióxido de carbono da atmosfera, por causa da mistura vertical intensa e das águas frias. Por isso as alterações na extensão do gelo marinho, na temperatura e na acidez da água ao sul da passagem são acompanhadas como indicadores de mudança global.
Problemas de conservação
A pressão sobre o krill é o problema de conservação mais discutido, porque a pesca se concentra nas áreas costeiras onde pinguins e focas se alimentam durante a reprodução. O crescimento rápido do turismo trouxe risco de introdução de espécies exóticas, perturbação de colônias e acidentes em águas com gelo e sem infraestrutura de resgate.
- Concentração da pesca de krill — A captura se agrupa em poucas áreas costeiras e pode competir localmente com predadores.
- Aquecimento regional — A Península Antártica aquece entre as áreas mais rápidas do planeta, com recuo de geleiras.
- Turismo em expansão — Mais de cem mil visitantes por temporada exigem regras estritas de desembarque.
- Espécies introduzidas — Sementes, insetos e patógenos trazidos em roupas e equipamentos ameaçam ambientes sem defesas.
- Risco de acidentes — Mar tempestuoso, gelo à deriva e ausência de portos complicam qualquer emergência.
Curiosidades
- A Corrente Circumpolar Antártica transporta mais água que qualquer outra da Terra: as estimativas na seção da passagem vão de 134 Sv a 173 Sv, contra cerca de 30 Sv da Corrente do Golfo em seu trecho mais intenso.
- A Zona de Fratura de Shackleton atravessa a passagem em diagonal e chega a menos de 1.000 m de profundidade, gerando turbulência que se estende por centenas de quilômetros.
- O nome homenageia Francis Drake, empurrado por tempestades para sul do Estreito de Magalhães em 1578; a primeira travessia documentada, no entanto, foi feita em 1616 por Willem Schouten e Jacob Le Maire.
- A Frente Polar Antártica marca uma queda de vários graus na temperatura da superfície em poucas dezenas de quilômetros, com mudança correspondente na fauna de plâncton.
- As Ilhas Diego Ramírez, cerca de 100 km a sudoeste do Cabo Horn, são o ponto mais austral do território sul-americano do Chile e abrigam colônias de albatrozes monitoradas há décadas.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- CCAMLR. Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, 2025. Consultar publicação
- NOAA. Southern Ocean observations and World Ocean Atlas, 2023. Consultar publicação
- National Snow and Ice Data Center. Antarctic Sea Ice News and Analysis, 2025. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco. Global Ocean Observing System, 2025. Consultar publicação
- União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação
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Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Passagem de Drake no conjunto das formações marinhas.
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Oceano
Oceano Antártico
Cinturão de água que circunda a Antártida, abriga a corrente mais poderosa do planeta e tem o próprio estatuto de oceano em disputa.
Área 20.327.000 km² Máx. 7.434 m
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Região polar
Convergência Antártica
Cinturão oceânico onde a água antártica mergulha sob a subantártica, com salto térmico de 2 °C a 3 °C em poucos quilômetros.
Área Cerca de 35.700.000 km² Máx. 8.266 m
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Mar
Mar de Weddell
Mar antártico com a maior cobertura de gelo perene do sul, onde se forma a água mais densa do oceano mundial.
Área 2.800.000 km² Máx. Cerca de 5.000 m
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Estreito
Estreito de Magalhães
Rota interoceânica descoberta em 1520, com 570 km de canais entre a estepe patagônica e os fiordes do Pacífico.
Área Aproximadamente 19.000 km² Máx. Cerca de 1.170 m
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Região polar
Região Antártica
Continente gelado sem população permanente, governado por tratado internacional e detentor de cerca de 70% da água doce do planeta.
Área 14.000.000 km² Máx. 8.266 m
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Canal natural
Canal de Beagle
Passagem glacial entre a Argentina e o Chile, com a Avenida das Geleiras, florestas de algas gigantes e os portos mais austrais do planeta.
Área Cerca de 1.000 km² Máx. Entre 300 m e 400 m