Oceano Antártico
Oceano que circunda a Antártida, sede da Corrente Circumpolar Antártica e do krill, e o único cujo próprio reconhecimento como oceano é contestado.
O Oceano Antártico é o cinturão de água que circunda por inteiro o continente antártico, ligando as bacias do Atlântico, do Índico e do Pacífico em um anel sem obstáculos continentais. Ao sul do paralelo 60° S ocupa cerca de 20.327.000 km², o que o torna o segundo menor dos cinco oceanos. Sua identidade não vem da forma da bacia, mas de um sistema físico: o cinturão de ventos de oeste e a corrente que eles acionam separam a água antártica, fria e densa, das águas subtropicais ao norte.
É o único dos cinco cujo próprio reconhecimento como oceano permanece em disputa. A proposta formal de tratá-lo como bacia autônoma não foi ratificada, e cartas de diferentes países continuam a dividir a mesma faixa de água entre Atlântico, Índico e Pacífico. Ainda assim, ele abriga a corrente mais caudalosa do planeta, produz a massa de água mais densa do oceano mundial e sustenta, com o krill, uma das maiores biomassas já atribuídas a uma única espécie animal.
Ficha técnica
- Nome
- Oceano Antártico
- Também chamado de
- Antártico, Oceano Austral, Oceano Glacial Antártico
- Tipo de formação
- Oceano
- Localização
- Faixa circumpolar entre o litoral da Antártida e o paralelo 60° S, conectando os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.
- Oceano de referência
- Antártico
- Continentes próximos
- Antártida
- Países e territórios
- Nenhum Estado possui costa reconhecida no oceano. Sete países mantêm reivindicações territoriais sobre setores do continente — Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido —, todas suspensas pelo Tratado da Antártida. Trinta países operam estações permanentes ou de verão, entre eles o Brasil, com a Estação Antártica Comandante Ferraz.
- Área aproximada
- 20.327.000 km²Área ao sul do paralelo 60° S. Quando o limite adotado é a Convergência Antártica, a superfície passa de 34.000.000 km².
- Profundidade média
- 3.270 m
- Profundidade máxima
- 7.434 mAbismo Factorian, na Fossa das Sandwich do Sul. Cartas anteriores registravam 7.235 m no mesmo sistema.
- Volume
- Cerca de 71,8 milhões de km³
- Salinidade
- 33,5 a 34,7
- Temperatura da superfície
- De −1,9 °C sob o gelo a cerca de 5 °C na borda norte no verão
- Linha de costa
- Aproximadamente 17.970 km
- Correntes principais
- Corrente Circumpolar Antártica, Corrente Costeira Antártica, giros de Weddell e de Ross e formação de Água de Fundo Antártica.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O limite norte é a questão central. A definição mais usada por agências oceanográficas é geométrica: o paralelo 60° S, que coincide com o limite de aplicação do Tratado da Antártida. A alternativa é oceanográfica: a Convergência Antártica, ou Frente Polar, faixa onde a água superficial antártica mergulha sob a subantártica, marcada por queda brusca de temperatura em poucas dezenas de quilômetros.
As duas linhas não coincidem. A Convergência oscila entre cerca de 48° S e 62° S conforme o setor e a estação, e a Geórgia do Sul fica em água nitidamente antártica apesar de estar ao norte de 55° S. Adotá-la aumenta a área do oceano em mais de 14 milhões de km², mas produz um limite que se desloca de ano para ano — inconveniente para a cartografia, ainda que mais fiel à física.
Ao sul, o oceano encontra o continente ou as plataformas de gelo que o prolongam sobre o mar. A bacia comporta mares marginais amplos, entre eles o Mar de Weddell, o Mar de Ross, o Mar de Amundsen e o Mar de Bellingshausen, e comunica-se com o Atlântico pela Passagem de Drake, entre a América do Sul e a Península Antártica.
Continentes e países próximos
Nenhum Estado tem costa reconhecida neste oceano. Sete países reivindicam setores do continente, com sobreposições na Península Antártica, mas o Tratado da Antártida, em vigor desde 1961, congelou todas elas: nada do que se faça na região reforça ou enfraquece qualquer pretensão de soberania.
A presença humana é científica e sazonal. Cerca de trinta países operam bases permanentes ou de verão, com população que oscila entre mil pessoas no inverno e mais de quatro mil no verão austral. O Brasil mantém desde 1984 a Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, reinaugurada em 2020.
- Reivindicações congeladas — Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido, com sobreposição no setor da Península.
- Tratado da Antártida — Em vigor desde 1961, destina a região a fins pacíficos e à pesquisa e suspende disputas territoriais.
- Protocolo de Madri — Assinado em 1991 e em vigor desde 1998, proíbe qualquer atividade mineral não científica por prazo indeterminado.
Área e profundidade
A maior parte do leito antártico fica entre 4.000 m e 5.000 m de profundidade, mas a média geral, de 3.270 m, é puxada para baixo pelas plataformas continentais de Weddell e de Ross. Essas plataformas têm uma peculiaridade: o peso da calota de gelo afunda a crosta e as mantém entre 400 m e 800 m, várias vezes mais fundas que as de outros continentes.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área ao sul de 60° S | 20.327.000 km² | Definição geométrica mais usada |
| Área até a Convergência | Mais de 34.000.000 km² | Definição oceanográfica |
| Volume | 71,8 milhões de km³ | Cerca de 5% da água marinha |
| Profundidade média | 3.270 m | Reduzida pelas plataformas de Weddell e Ross |
| Profundidade máxima | 7.434 m | Fossa das Sandwich do Sul |
| Linha de costa | 17.970 km | Inclui frentes de plataformas de gelo |
Principais correntes
A Corrente Circumpolar Antártica é a maior corrente oceânica conhecida. Percorre cerca de 21.000 km em torno do continente, impulsionada pelos ventos de oeste que sopram sem obstrução em todas as longitudes, e transporta entre 130 e 170 milhões de m³ por segundo através da Passagem de Drake. Como conecta as três grandes bacias, funciona como a principal via de mistura das águas do oceano mundial.
A corrente organiza-se em frentes estreitas e intensas, entre elas a Frente Subantártica e a Frente Polar. Junto ao continente, em sentido oposto, corre a Corrente Costeira Antártica, e nos mares de Weddell e de Ross giram vórtices ciclônicos que aproximam água profunda quente da borda das plataformas de gelo.
A Água de Fundo Antártica é a massa de água mais densa do oceano mundial. Forma-se quando o congelamento do mar sobre as plataformas de Weddell, de Ross, da Terra de Adélie e da Baía de Prydz expulsa sal da estrutura do gelo e torna a água subjacente muito fria e salgada. Ela desce o talude continental e se espalha pelo fundo dos três oceanos, alimentando a circulação abissal global. Medições feitas desde a década de 1990 indicam que vem aquecendo, perdendo sal e diminuindo de volume.
Clima
O cinturão dos ventos de oeste produz o mar mais agitado do planeta. Entre 40° S e 60° S — as latitudes conhecidas por rugidores dos quarenta, uivantes dos cinquenta e estridentes dos sessenta — as ondas ultrapassam rotineiramente 10 m. Sobre o continente, o ar frio e denso desliza das calotas para o mar em ventos catabáticos que podem exceder 300 km/h.
O gelo marinho é a variável de maior amplitude sazonal do planeta: a cobertura passa de cerca de 3 milhões de km² em fevereiro para 18 a 19 milhões de km² em setembro. Ao contrário do Ártico, a extensão antártica oscilou sem tendência clara até 2015; desde então registrou mínimos sucessivos, com o recorde de 1,79 milhão de km² em fevereiro de 2023, segundo a série de satélites mantida desde 1978.
Ecossistemas
A cadeia alimentar antártica é curta e dominada por uma única espécie. O krill antártico, Euphausia superba, alimenta-se do fitoplâncton que floresce na borda do gelo em degelo e serve de alimento direto a baleias, focas, pinguins, lulas e peixes. Sua biomassa é estimada em centenas de milhões de toneladas, uma das maiores já atribuídas a uma espécie animal, e acompanha de perto a extensão do gelo de inverno, essencial para as larvas.
As plataformas de gelo flutuantes criam um ambiente sem paralelo. A de Ross, com cerca de 500.000 km², e o conjunto Filchner-Ronne, com 430.000 km², mantêm cavidades de água marinha permanentemente escuras sob centenas de metros de gelo, onde já foram encontradas esponjas e organismos filtradores. Nos fundos da plataforma continental prosperam jardins de esponjas vítreas, briozoários e crinoides de crescimento lentíssimo.
Biodiversidade
O isolamento imposto pela Corrente Circumpolar há cerca de 30 milhões de anos produziu fauna altamente especializada. Muitos peixes antárticos têm proteínas anticongelantes no sangue, e a família dos peixes-de-gelo é a única entre os vertebrados a não produzir hemoglobina.
- Krill antártico — Euphausia superba forma cardumes que podem ultrapassar 10.000 indivíduos por metro cúbico e sustenta praticamente toda a cadeia alimentar da região.
- Pinguim-imperador — Aptenodytes forsteri reproduz-se sobre o gelo marinho durante o inverno austral e depende de sua estabilidade até o fim da muda dos filhotes.
- Foca-caranguejeira — Lobodon carcinophagus é provavelmente o pinípede mais abundante do mundo e filtra krill com dentes lobulados.
- Merluza-negra — Dissostichus mawsoni e D. eleginoides são os peixes de maior valor comercial da região e alvo histórico de pesca ilegal.
- Baleia-azul — A subespécie antártica de Balaenoptera musculus foi reduzida a menos de 1% da população original pela caça industrial.
Ilhas
As ilhas antárticas e subantárticas são poucas, quase todas vulcânicas e de importância desproporcional: concentram colônias reprodutivas gigantescas de aves e pinípedes e servem de apoio à navegação e à ciência. Várias integram a lista do Patrimônio Mundial.
- Geórgia do Sul — Cerca de 3.500 km², abriga milhões de pinguins-reis e focas e foi o principal centro baleeiro do hemisfério sul até meados do século XX.
- Ilhas Sandwich do Sul — Arco vulcânico ativo associado à fossa homônima, sem ocupação humana.
- Ilhas Shetland do Sul — Conjunto ao norte da Península que concentra estações científicas, entre elas a brasileira, na Ilha Rei George.
- Ilha Bouvet — Ilha vulcânica norueguesa coberta de gelo, tida como uma das terras mais isoladas do planeta.
Portos e rotas relevantes
Não existem portos comerciais no Oceano Antártico. O acesso depende de terminais nos continentes vizinhos, que funcionam como portas de entrada logística: Ushuaia e Punta Arenas, na América do Sul, Hobart, na Tasmânia, Christchurch, na Nova Zelândia, e Cidade do Cabo. Deles partem navios de pesquisa, de reabastecimento de estações e de turismo de expedição.
Nas estações, a operação ocorre em fundeadouros, cais rudimentares e pistas de gelo, e McMurdo, no Mar de Ross, é a maior instalação do continente. O turismo passou a mobilizar mais de cem mil visitantes por temporada na década de 2020, concentrados na Península entre novembro e março, o que impôs regras específicas de desembarque e biossegurança.
| Local | País ou setor | Função |
|---|---|---|
| Ushuaia | Argentina | Principal porto de partida para a Península |
| Punta Arenas | Chile | Apoio logístico e aéreo |
| Hobart | Austrália | Acesso ao setor da Terra de Adélie |
| Cidade do Cabo | África do Sul | Acesso à Terra da Rainha Maud |
| McMurdo | Mar de Ross | Maior estação do continente |
| Comandante Ferraz | Ilha Rei George | Estação brasileira, reinaugurada em 2020 |
Importância econômica
A atividade econômica é limitada por tratado e por logística. A pesca é regulada pela comissão criada pela convenção sobre recursos vivos marinhos antárticos, a CCAMLR, que adota gestão baseada no ecossistema: os limites de captura consideram as necessidades de predadores como pinguins e focas, e não apenas a manutenção do estoque explorado.
A pesca do krill concentra-se no setor atlântico, ao norte da Península, com limite de precaução de 620.000 toneladas anuais e capturas efetivas em torno de 400.000 a 500.000 toneladas, destinadas sobretudo à farinha para aquicultura e a suplementos de óleo. A merluza-negra é o outro alvo relevante, com certificação de origem criada para conter a pesca ilegal que marcou os anos 1990. O turismo de expedição é a terceira atividade e a que mais cresce.
Importância ambiental
O Oceano Antártico é o principal sumidouro oceânico de calor e de carbono do planeta: a ele se atribuem a maior parte da absorção do excesso de calor acumulado pelo oceano global e cerca de 40% da captação oceânica do dióxido de carbono de origem humana, desempenho desproporcional à sua área. A contrapartida é que deve ser a primeira região a apresentar subsaturação de aragonita, o que dificulta a formação de conchas e esqueletos calcários.
As plataformas de gelo funcionam como freio da calota continental: ao se apoiarem no leito e nas margens, retardam o escoamento do gelo terrestre para o mar, e quando colapsam os glaciares que as alimentavam aceleram. O desmembramento da plataforma Larsen B, em 2002, é o exemplo mais documentado, e os glaciares Thwaites e Pine Island, no Mar de Amundsen, concentram hoje a maior preocupação por serem capazes de alterar o nível global do mar.
A Área Marinha Protegida do Mar de Ross, adotada em 2016 e em vigor desde dezembro de 2017, cobre cerca de 2.060.000 km² e é a maior do mundo. Propostas de reservas equivalentes no Mar de Weddell, no leste antártico e na Península vêm sendo apresentadas há anos sem obter o consenso exigido.
Problemas de conservação
A caça à baleia deixou a marca mais profunda: ao longo do século XX, mais de dois milhões de cetáceos foram mortos nas águas antárticas, e a baleia-azul foi reduzida a uma fração mínima do tamanho original. A moratória da comissão baleeira internacional, em vigor desde 1986, e o santuário do oceano austral, criado em 1994, interromperam a atividade comercial, mas a recuperação de algumas espécies segue lenta.
As pressões atuais são outras. A pesca de krill concentra-se em poucas áreas costeiras que coincidem com zonas de alimentação de colônias reprodutivas, e a redução do gelo de inverno na Península compromete o recrutamento das larvas. Espécies exóticas transportadas em cascos, o aumento do tráfego turístico e a chegada de patógenos aviários completam o quadro.
- Perda de gelo marinho — A extensão mínima de verão caiu a 1,79 milhão de km² em fevereiro de 2023, o menor valor da série iniciada em 1978.
- Pinguins-imperadores — A ruptura precoce do gelo marinho causou falha reprodutiva total em várias colônias do Mar de Bellingshausen em 2022.
- Gripe aviária — A chegada do vírus altamente patogênico à Geórgia do Sul e à Península, a partir de 2023, ameaça colônias sem contato prévio com o agente.
- Acidificação — A água fria absorve mais dióxido de carbono, e o setor antártico deve ser o primeiro a tornar-se corrosivo para organismos calcários.
Curiosidades
- A Corrente Circumpolar Antártica transporta mais água que todos os rios do planeta somados, com estimativas entre 130 e 170 milhões de m³ por segundo na Passagem de Drake.
- O peixe-de-gelo da família Channichthyidae é o único vertebrado conhecido sem hemoglobina: seu sangue é translúcido e transporta oxigênio dissolvido no plasma.
- A Água de Fundo Antártica formada no Mar de Weddell leva séculos para atravessar o leito do Atlântico e ainda é identificável por sua densidade ao cruzar o Equador.
- A plataforma de gelo Larsen B, estável havia mais de dez mil anos, desintegrou-se em cerca de cinco semanas no início de 2002, liberando 3.250 km² de gelo flutuante.
- O Protocolo de Madri proíbe qualquer atividade mineral na região desde 1998, e sua revisão depende de consenso entre as partes consultivas do Tratado da Antártida.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- NOAA — National Ocean Service. Is there a fifth ocean? e dados oceanográficos do setor austral, 2021. Consultar publicação
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- CCAMLR. Convenção sobre a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, 2025. Consultar publicação
- National Snow and Ice Data Center. Antarctic sea ice extent — série de satélites desde 1978, 2026. Consultar publicação
- GEBCO. International Bathymetric Chart of the Southern Ocean, 2024. Consultar publicação
- UNESCO — Patrimônio Mundial. Ilhas subantárticas inscritas na lista do Patrimônio Mundial, 2024. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Plataformas de gelo antárticas e monitoramento por satélite, 2025. Consultar publicação
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