Área Marinha Protegida do Mar de Ross
Maior área marinha protegida do mundo, com 1.550.000 km² no setor pacífico da Antártida, criada pela CCAMLR em 2016 e vigente desde dezembro de 2017.
A Área Marinha Protegida da Região do Mar de Ross é a maior área marinha protegida já estabelecida, com aproximadamente 1.550.000 km² no setor pacífico do Oceano Antártico. Foi adotada por consenso na 35ª reunião anual da Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, encerrada em 28 de outubro de 2016 em Hobart, a partir de proposta conjunta apresentada por Nova Zelândia e Estados Unidos em 2012. A Medida de Conservação 91-05, que a institui, entrou em vigor em 1º de dezembro de 2017 e delimita a proteção entre os meridianos 160° L e 150° O, da costa antártica ao paralelo 60° S.
O que justifica o esforço não é o tamanho, mas o estado de conservação. O Mar de Ross não sofreu caça comercial de baleias na escala aplicada ao Mar de Weddell nem pesca industrial antes da década de 1990, e sua rede alimentar preserva predadores de topo em abundância rara no restante do planeta. Essa condição rendeu ao lugar o apelido de "último oceano", cunhado por pesquisadores que documentaram ali orcas, focas, pinguins e peixes em proporções próximas às de antes da expansão pesqueira global.
Ficha técnica
- Nome
- Área Marinha Protegida do Mar de Ross
- Também chamado de
- AMP da Região do Mar de Ross, Ross Sea Region MPA
- Tipo de formação
- Área marinha protegida
- Localização
- Entre os meridianos 160° L e 150° O e entre a costa antártica e o paralelo 60° S, abrangendo o Mar de Ross e as águas oceânicas ao norte da quebra da plataforma.
- Oceano de referência
- Antártico
- Continentes próximos
- Antártida
- Países e territórios
- Nenhum Estado exerce soberania reconhecida sobre a área. A Nova Zelândia mantém reivindicação sobre a Dependência de Ross, contestada ou não reconhecida pela maioria dos países, e a gestão é exercida coletivamente pelos 27 membros da Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos.
- Área aproximada
- 1.550.000 km²Sobe a cerca de 2.090.000 km² quando se soma a área sob as plataformas de gelo de Ross e McMurdo.
- Profundidade média
- Cerca de 500 m na plataforma continental do Mar de Ross
- Profundidade máxima
- Mais de 4.000 mPlanícies abissais do setor norte da área protegida, além da quebra da plataforma; o valor depende da grade batimétrica adotada.
- Salinidade
- 34,0 na camada superficial de verão a mais de 34,8 na Água de Plataforma de Alta Salinidade
- Temperatura da superfície
- De −1,9 °C sob o gelo a cerca de 1 °C nas águas superficiais de verão ao norte
- Correntes principais
- Giro de Ross, Corrente Circumpolar Antártica ao norte, Corrente de Talude Antártica e circulação das polínias de Terra Nova e do Mar de Ross.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A unidade ocupa um quadrante inteiro do continente antártico: do meridiano 160° L ao 150° O e da costa antártica ao paralelo 60° S, fronteira de aplicação do Tratado da Antártica. É uma área maior que o mar em sentido hidrográfico, delimitado entre o Cabo Adare e o Cabo Colbeck: inclui águas oceânicas ao norte da quebra da plataforma, montes submarinos, o arco vulcânico das Ilhas Balleny e a Ilha Scott.
Internamente, divide-se em três regimes: a Zona de Proteção Geral, em três blocos fechados a qualquer pesca comercial; a Zona de Pesquisa Especial, no sul da plataforma, que admite pesca de pesquisa de merluza-negra; e a Zona de Pesquisa de Krill, no noroeste. As duas últimas existem para gerar séries comparáveis entre áreas exploradas e fechadas.
Continentes e países próximos
Nenhum Estado exerce soberania reconhecida sobre essas águas: o artigo IV do Tratado da Antártica congela as reivindicações existentes sem reconhecê-las nem negá-las. A Nova Zelândia reivindica a Dependência de Ross, cujos limites coincidem com os da área protegida; Estados Unidos e Rússia reservam-se o direito de reivindicar sem fazê-lo. A proteção não decorre, portanto, de legislação nacional, e sim de um instrumento internacional aplicado pelos Estados de bandeira.
- Categoria de proteção — Área marinha protegida de alto-mar, com 72% da superfície em proteção integral.
- Acordos de sustentação — Tratado da Antártica (1961), Protocolo de Madri (1998) e a Convenção de 1980 sobre os recursos vivos marinhos antárticos, cuja comissão reúne 26 países e a União Europeia.
- Exigência de consenso — Toda decisão depende de unanimidade: um único membro pode bloquear a criação, a alteração ou a renovação da medida.
- Fiscalização — Rastreamento por satélite, observadores internacionais a bordo, documentação de captura e inspeções em porto.
Área e profundidade
A unidade tem cerca de 1.550.000 km², dos quais aproximadamente 1.120.000 km² — em torno de 72% — estão na Zona de Proteção Geral. A Zona de Pesquisa de Krill soma cerca de 322.000 km² e a Zona de Pesquisa Especial, cerca de 110.000 km². Incluindo as águas sob as plataformas de gelo, também protegidas, o total citado sobe para cerca de 2.090.000 km².
O trecho de mar coberto tem batimetria incomum: a plataforma antártica é profunda e invertida, aprofundando-se em direção à costa por efeito da erosão glacial e do afundamento isostático. As profundidades vão de cerca de 300 m nos bancos a mais de 1.200 m na Fossa de Drygalski, com média em torno de 500 m, e passam de 4.000 m nas planícies abissais ao norte. Ao sul, a Plataforma de Gelo de Ross, a maior do mundo, cobre entre 470.000 km² e 500.000 km².
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área total da unidade | 1.550.000 km² | Sem as águas sob as plataformas de gelo |
| Zona de Proteção Geral | 1.120.000 km² | Cerca de 72% do total, sem pesca comercial |
| Zonas de pesquisa | 432.000 km² | Krill, no noroeste, e pesquisa especial, no sul da plataforma |
| Vigência | 35 anos | Expira ao fim da temporada de 2051/52 |
Principais correntes
A circulação regional é organizada pelo Giro de Ross, célula ciclônica que traz água circumpolar profunda relativamente quente para o sul, enquanto a Corrente Circumpolar Antártica, ao norte, isola termicamente o continente. Entre as duas, a Corrente de Talude Antártica controla a troca de calor e nutrientes com o oceano aberto.
O motor da coluna d'água está em terra. Ventos catabáticos descem do platô antártico com rajadas superiores a 150 km/h e mantêm abertas polínias na Baía Terra Nova e no centro do mar. O congelamento contínuo nessas janelas expele sal e gera a Água de Plataforma de Alta Salinidade, com salinidade acima de 34,8, que escoa pelas fossas e derrama pelo talude formando parte da Água de Fundo Antártica. Sondagens indicam que essa água perdeu salinidade entre a década de 1950 e os anos 2000, com recuperação parcial depois.
Clima
O clima é polar extremo, com médias anuais em torno de −18 °C na Ilha de Ross e água superficial perto de −1,9 °C na maior parte do ano. O gelo marinho comanda o calendário biológico: a cobertura atinge o máximo entre setembro e outubro e o mínimo em fevereiro, quando o degelo abre corredores navegáveis até a frente da plataforma. Diferentemente do Ártico, o setor de Ross ganhou extensão de gelo até 2015, tendência revertida desde então — os mínimos circumpolares de 2022, 2023 e 2024 ficaram entre os mais baixos da série iniciada em 1979.
Ecossistemas
O ecossistema é estruturado pelo gelo. A face inferior do gelo marinho abriga algas que, ao se desprenderem na primavera, alimentam o zooplâncton; o krill-de-cristal Euphausia crystallorophias domina a plataforma e o krill-antártico Euphausia superba, o setor oceânico. Nas polínias, florações de Phaeocystis antarctica e de diatomáceas produzem alguns dos maiores picos de produtividade primária do Oceano Antártico.
A peça central da rede alimentar é o peixe-prata-antártico Pleuragramma antarcticum, único peixe pelágico abundante da plataforma. Acima dele está a merluza-negra Dissostichus mawsoni, que ocupa o nicho normalmente reservado a grandes tubarões. No fundo, temperaturas estáveis e ausência de perturbação física por milênios produziram campos de esponjas vítreas, gorgônias e corais de água fria de crescimento lentíssimo.
Biodiversidade
A concentração de predadores de topo é o traço mais citado da região. Estimativas reunidas pela comissão gestora indicam que ali vivem cerca de 38% dos pinguins-de-adélia do mundo, aproximadamente 26% dos pinguins-imperadores e parcela expressiva das focas-de-weddell do setor pacífico, além de praticamente toda a população conhecida de um ecótipo próprio de orca.
- Orca do tipo C — Orcinus orca do ecótipo do Mar de Ross, o menor de todos, com fêmeas em torno de 5 m, especializado em peixes e observado em fendas do gelo de McMurdo.
- Foca-de-weddell — Leptonychotes weddellii mantém buracos de respiração no gelo com os caninos e mergulha a até 600 m.
- Pinguim-de-adélia — Pygoscelis adeliae forma no Cabo Crozier uma das maiores colônias conhecidas, com centenas de milhares de casais.
Ilhas
As terras emersas são poucas e todas vulcânicas. A maior é a Ilha de Ross, dominada pelo Monte Erebus, de 3.794 m, vulcão ativo mais austral do planeta. Ao norte, o arquipélago das Balleny marca um alinhamento vulcânico em pleno oceano, e a Ilha Roosevelt é uma elevação de gelo encravada na própria plataforma.
- Ilha de Ross — Cerca de 2.460 km²; abriga o Monte Erebus, as estações McMurdo e Scott e as colônias dos cabos Crozier, Royds e Bird.
- Ilhas Balleny — Cadeia vulcânica em torno de 66,5° S, com colônias de pinguins-de-barbicha.
- Ilha Coulman — Vulcão-escudo na Terra Vitória, com uma das maiores colônias de pinguim-imperador do mar.
Portos e rotas relevantes
Não há portos na acepção comum: nenhum cais permanente, nenhuma cidade, nenhuma alfândega. O acesso concentra-se na Baía Winter Quarters, junto à Estação McMurdo, onde os Estados Unidos constroem a cada temporada um píer de gelo capaz de receber um navio de carga e um petroleiro, sempre precedidos por quebra-gelo; a mesma operação sustenta a Base Scott, em Pram Point. Os demais fundeadouros são sazonais: a Baía Terra Nova recebe as estações Mario Zucchelli, Jang Bogo e a chinesa Qinling, inaugurada em fevereiro de 2024.
O tráfego divide-se em três fluxos. Navios de pesquisa e logística chegam de Lyttelton, Christchurch e Hobart. A frota de espinhel autorizada opera entre dezembro e março, sob bandeira de países como Nova Zelândia, Rússia, Coreia do Sul e Reino Unido, com rastreamento por satélite e observadores a bordo. Navios de expedição turística fazem algumas dezenas de visitas por temporada.
| Ponto de apoio | Operador | Função |
|---|---|---|
| Baía Winter Quarters | Estados Unidos | Píer de gelo temporário e reabastecimento anual de McMurdo |
| Pram Point | Nova Zelândia | Base Scott, apoiada pela mesma operação logística |
| Baía Terra Nova | Itália, Coreia do Sul e China | Fundeadouros de verão e estações |
| Lyttelton e Hobart | Nova Zelândia e Austrália | Portos de origem das viagens |
Importância econômica
A única atividade extrativa permitida é a pesca de pesquisa de merluza-negra e de krill nas duas zonas de pesquisa. A pescaria exploratória de espinhel começou na temporada 1996/97 e opera com limite da ordem de poucos milhares de toneladas por ano; o valor unitário é alto, e o peixe é vendido em mercados asiáticos e norte-americanos como produto de luxo. A economia dominante, porém, é a da ciência: McMurdo é a maior instalação humana da Antártida, com mais de mil pessoas no verão austral. O turismo é marginal.
Importância ambiental
O valor ambiental da área decorre de uma raridade: é um dos poucos grandes ecossistemas marinhos cuja estrutura trófica permaneceu essencialmente completa, o que o torna referência para medir o que se perdeu em outras partes do mundo. A região importa também além de seus limites, porque a Água de Fundo Antártica formada em suas polínias abastece os ramos profundos da circulação global e leva oxigênio a bacias abissais de todos os oceanos, inclusive do Oceano Pacífico. As séries colhidas em McMurdo desde a década de 1960 estão entre os poucos registros capazes de separar o efeito da pesca do efeito do clima em um ecossistema polar.
Problemas de conservação
O problema mais discutido é a durabilidade da unidade. A medida caduca ao fim da temporada 2051/52 se a comissão não a renovar por consenso. A cláusula foi a concessão que viabilizou a adoção em 2016, mas cria um horizonte incomum em conservação: uma área protegida com data de validade, cuja renovação depende do acordo unânime de 27 membros, entre eles países que já bloquearam medidas semelhantes.
Desde 2016, nenhuma nova área marinha protegida foi criada no Oceano Antártico: as propostas para a Antártica Oriental, o Mar de Weddell e a Península Antártica são reapresentadas anualmente e obstruídas por Rússia e China, o que mantém inacabada a rede prevista desde 2002.
- Pesca ilegal e não declarada — Embarcações sem autorização foram flagradas no setor antártico em décadas anteriores; rastreamento e documentação de captura reduziram, mas não eliminaram, o risco.
- Perda de gelo marinho — O gelo do setor recuou abruptamente a partir de 2016, ameaçando o hábitat de reprodução de pinguins-imperadores e focas.
- Acidificação — A subsaturação de carbonato de cálcio deve atingir as águas antárticas antes de qualquer outra latitude.
- Poluentes remotos — Microplásticos e compostos orgânicos persistentes já foram detectados em gelo, sedimento e organismos da região.
Curiosidades
- Os limites da área protegida, nos meridianos 150° O e 160° L, coincidem exatamente com os da Dependência de Ross, reivindicada pela Nova Zelândia desde 1923.
- O Monte Erebus mantém um lago de lava permanente a 3.794 m de altitude e é o vulcão ativo mais austral conhecido.
- As orcas do tipo C do Mar de Ross são as menores do mundo; alguns pesquisadores defendem que constituem espécie distinta.
- A plataforma continental do Mar de Ross é mais funda junto à costa do que na borda externa, inversão provocada pela erosão glacial e pelo peso do gelo sobre o continente.
- A colônia de pinguins-imperadores do Cabo Crozier foi a primeira do mundo a ter a reprodução documentada, em 1902; em 1911, três homens atravessaram o inverno antártico a pé até lá.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- CCAMLR — Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos. Medida de Conservação 91-05 (2016): Ross Sea region marine protected area, 2016. Consultar publicação
- Ministério de Relações Exteriores e Comércio da Nova Zelândia. Ross Sea region Marine Protected Area, 2024. Consultar publicação
- Secretaria do Tratado da Antártica. Tratado da Antártica e Protocolo sobre Proteção do Meio Ambiente, 2023. Consultar publicação
- NSIDC — Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo. Antarctic sea ice and ice shelves, 2025. Consultar publicação
- Brooks, C. M. e colaboradores — Conservation Letters. Building a coordinated framework for research and monitoring in large-scale international marine protected areas: The Ross Sea region as a model system, 2024. Consultar publicação
- Protected Planet — PNUMA-WCMC e UICN. Base mundial de áreas protegidas: Ross Sea Region MPA, 2025. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Ross Ice Shelf and the Ross Sea polynya, 2024. Consultar publicação
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Mar de Weddell
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Área 2.800.000 km² Máx. Cerca de 5.000 m
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Oceano Antártico
Cinturão de água que circunda a Antártida, abriga a corrente mais poderosa do planeta e tem o próprio estatuto de oceano em disputa.
Área 20.327.000 km² Máx. 7.434 m
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Continente gelado sem população permanente, governado por tratado internacional e detentor de cerca de 70% da água doce do planeta.
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Passagem de Drake
O trecho de mar mais tempestuoso do mundo, com 800 km entre a América do Sul e a Antártida e o maior transporte de água do planeta.
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