Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
Parque nacional marinho brasileiro criado em 1988 no arquipélago de Fernando de Noronha, com cerca de 112 km² e Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001.
O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha protege a maior parte do arquipélago vulcânico situado a cerca de 545 km da costa de Pernambuco, no Oceano Atlântico equatorial. Foi criado pelo Decreto nº 96.693, de 14 de setembro de 1988, com superfície aproximada de 11.270 ha, ou 112,7 km², abrangendo cerca de 70% da terra da ilha principal, todas as ilhas e ilhotas secundárias e uma faixa de mar em torno delas. O restante do arquipélago é coberto pela Área de Proteção Ambiental criada em 1986, de modo que praticamente nenhum trecho do conjunto fica sem regime especial de proteção.
Em dezembro de 2001, o arquipélago foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em conjunto com a Reserva Biológica do Atol das Rocas, sob a designação de Ilhas Atlânticas Brasileiras. O reconhecimento apoiou-se em três argumentos: a concentração excepcional de vida marinha em um ponto isolado do Atlântico Sul, a função do arquipélago como área de alimentação e reprodução para tartarugas, atuns e tubarões, e a presença da maior agregação conhecida de golfinho-rotador no mundo, observada diariamente na Baía dos Golfinhos.
Ficha técnica
- Nome
- Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
- Também chamado de
- Parnamar de Fernando de Noronha, Arquipélago de Fernando de Noronha
- Tipo de formação
- Área marinha protegida
- Localização
- Entre 3°45' S e 3°57' S e entre 32°19' O e 32°30' O, a cerca de 545 km de Recife e 360 km do Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- América do Sul
- Países e territórios
- Brasil. O arquipélago integra o estado de Pernambuco como distrito estadual desde 1988, e a unidade de conservação é federal, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
- Área aproximada
- 112,7 km²Superfície de 11.270 ha fixada pelo decreto de criação; o cadastro atual do órgão gestor registra 10.929,47 ha após recálculo cartográfico.
- Profundidade média
- Entre 20 m e 60 m no trecho de plataforma insular protegido
- Profundidade máxima
- Cerca de 100 m no limite externo da unidadeO edifício vulcânico que sustenta o arquipélago desce a mais de 4.000 m poucos quilômetros além dos limites do parque.
- Salinidade
- 36,0 a 36,5
- Temperatura da superfície
- De 25 °C a 28 °C na superfície ao longo de todo o ano
- Linha de costa
- Cerca de 60 km somando a ilha principal e as ilhas secundárias
- Correntes principais
- Corrente Sul-Equatorial, Subcorrente Equatorial e correntes locais de contorno das ilhas, com alta transparência e pouca variação sazonal.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O parque tem duas porções articuladas. A terrestre cobre a maior parte da Ilha de Fernando de Noronha e a totalidade das ilhas secundárias, excluindo do perímetro as áreas ocupadas: a Vila dos Remédios, o Morro do Meio, o Morro do Pico, o aeroporto, a vila militar, o açude do Xaréu e a faixa de praia entre a Quixaba e Santo Antônio. A porção marinha forma um polígono descrito por quarenta vértices no decreto de criação, que envolve o arquipélago e se estende para além da plataforma insular no setor sudoeste.
A ilha principal tem cerca de 17 km² e formato alongado no sentido nordeste–sudoeste, com aproximadamente 10 km de comprimento e largura máxima de 3,5 km. As duas faces do litoral têm comportamento oposto e nomes próprios na ilha: o Mar de Dentro, a noroeste, é abrigado dos alísios e reúne enseadas de água calma como Sancho, Cacimba do Padre e Conceição; o Mar de Fora, a sudeste, recebe as ondulações do oceano aberto e abriga as praias do Leão, do Sueste e da Atalaia.
Somam-se ao conjunto as ilhas secundárias do grupo nordeste — Rata, do Meio, Sela Gineta, Rasa e Lucena —, os rochedos Dois Irmãos, ao sul do Morro do Pico, e uma série de lajes e parcéis submersos. Todo esse setor está integralmente dentro do parque e tem acesso restrito à pesquisa e a operações autorizadas.
Continentes e países próximos
A unidade é brasileira e federal. O arquipélago foi território federal entre 1942 e 1988, quando a Constituição o incorporou ao estado de Pernambuco na condição de distrito estadual. A gestão do parque cabe ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; a administração civil do distrito, a arrecadação da taxa de preservação ambiental e o ordenamento urbano cabem ao governo de Pernambuco; e a Marinha do Brasil e a Aeronáutica mantêm instalações próprias.
A categoria é a de parque nacional, grupo de proteção integral no sistema nacional de unidades de conservação instituído pela Lei nº 9.985, de 2000. Isso significa uso indireto dos recursos: pesca, coleta e extração são proibidas, e a visitação é permitida somente nas condições do plano de manejo, cuja última revisão pontual foi aprovada em 2024. Ao redor, a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha – Rocas – São Pedro e São Paulo, criada pelo Decreto nº 92.755, de 5 de junho de 1986, é de uso sustentável e abrange 79.706 ha distribuídos por três setores do Atlântico equatorial.
- Instrumento de criação — Decreto nº 96.693, de 14 de setembro de 1988, que também excluiu a área do parque dos limites da Área de Proteção Ambiental criada dois anos antes.
- Categoria de proteção — Parque nacional, de proteção integral, correspondente à categoria II da classificação internacional de áreas protegidas.
- Reconhecimento internacional — Patrimônio Mundial Natural da UNESCO desde 2001, em bem compartilhado com a Reserva Biológica do Atol das Rocas.
- Unidade complementar — Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha – Rocas – São Pedro e São Paulo, de 1986, com 79.706 ha, que cobre a área urbana da ilha e os demais setores.
- Órgãos com atuação simultânea — Instituto Chico Mendes, governo de Pernambuco, Marinha do Brasil, Força Aérea Brasileira e a Fundação Projeto Tamar, esta última em convênio para o manejo de tartarugas.
Área e profundidade
O decreto de 1988 fixou a área do parque em 11.270 ha, cerca de 112,7 km², dos quais aproximadamente 85% correspondem a mar e o restante a terra emersa. A ilha principal contribui com cerca de 12 km² dentro do perímetro, e as ilhas secundárias somam menos de 3 km². Para efeito de comparação, todo o arquipélago tem cerca de 26 km² de terra, área menor que a de muitos bairros de capitais brasileiras.
As profundidades cobertas são modestas em termos absolutos e decisivas em termos ecológicos. A plataforma insular é estreita: em boa parte do contorno, a isóbata de 50 m está a menos de 1 km da costa, e o limite externo do parque situa-se em torno de 100 m. Logo adiante, o talude cai abruptamente, e o edifício vulcânico que sustenta o arquipélago prossegue por mais de 4.000 m até o assoalho da Bacia do Brasil. Essa parede submersa é o que produz, a poucas centenas de metros da praia, o encontro entre fauna de recife e fauna oceânica.
A ilha é a porção emersa de um edifício vulcânico com cerca de 4.300 m de altura medidos do assoalho oceânico — mais alto, portanto, que qualquer montanha do território continental brasileiro. Sua estrutura mais visível é o Morro do Pico, um pescoço vulcânico de fonólito com 321 m de altitude, remanescente do conduto por onde subia magma há alguns milhões de anos.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área do parque (decreto) | 11.270 ha | Equivalente a 112,7 km², em 1988 |
| Área no cadastro atual | 10.929,47 ha | Recálculo cartográfico do órgão gestor |
| Área da Área de Proteção Ambiental | 79.706 ha | Criada em 1986, cobre o restante do arquipélago e outros dois setores |
| Terra emersa do arquipélago | Cerca de 26 km² | Ilha principal com cerca de 17 km² |
| Altitude máxima | 321 m | Morro do Pico, pescoço vulcânico de fonólito |
| Altura do edifício vulcânico | Cerca de 4.300 m | Medida do assoalho oceânico ao topo do Morro do Pico |
Principais correntes
O arquipélago está no caminho da Corrente Sul-Equatorial, que atravessa o Atlântico de leste para oeste na faixa equatorial e chega a Noronha com temperatura entre 25 °C e 28 °C. Ao encontrar a barreira submersa do edifício vulcânico, o fluxo se divide, acelera nos canais entre as ilhas e gera turbulência a sotavento, mecanismo que concentra plâncton e atrai peixes pelágicos para as proximidades das lajes.
Alguns quilômetros a oeste, essa corrente se bifurca e alimenta a Corrente Norte do Brasil, que segue para noroeste, e a Corrente do Brasil, que desce ao longo do litoral brasileiro. Noronha situa-se, portanto, sobre um dos nós da circulação do Atlântico Sul. Em profundidade, a Subcorrente Equatorial flui em sentido oposto, para leste, entre cerca de 50 m e 200 m.
A ausência de rios e de aporte continental mantém a água extraordinariamente transparente, com visibilidade que ultrapassa 30 m em boa parte do ano. Essa clareza é consequência da baixa concentração de nutrientes: a produtividade da coluna d'água aberta é baixa, e a vida concentra-se onde o relevo submarino força a mistura vertical — o chamado efeito de ilha, responsável por transformar um ponto isolado em oásis biológico.
Clima
O clima é tropical marítimo, com temperatura do ar entre 24 °C e 31 °C e média anual em torno de 26 °C. Duas estações se distinguem: a chuvosa, de fevereiro a julho, com precipitação concentrada em março e abril, e a seca, de agosto a janeiro, quando a vegetação perde folhas e vários riachos temporários desaparecem. A precipitação anual gira em torno de 1.300 mm, insuficiente para sustentar cursos d'água permanentes em uma ilha sem aquífero de grande porte.
Os alísios de sudeste sopram o ano inteiro e determinam a assimetria do litoral. No verão do hemisfério norte, ondulações geradas por tempestades no Atlântico Norte chegam ao Mar de Dentro entre dezembro e março, produzindo as ondas grandes de Cacimba do Padre; no restante do ano, esse mesmo litoral permanece calmo, enquanto o Mar de Fora recebe agitação constante.
A escassez de água doce é uma restrição estrutural. O abastecimento combina açudes, poços e dessalinização, e o consumo é limitado tanto pela população residente, superior a três mil pessoas, quanto pelo fluxo turístico. Episódios de aquecimento anômalo do Atlântico equatorial, como os de 2010, 2019 e 2024, provocaram branqueamento em corais rasos do arquipélago, ainda que em intensidade menor que a registrada em recifes do Indo-Pacífico.
Ecossistemas
O ambiente submerso não é um recife de coral no sentido estrito: predominam fundos rochosos vulcânicos colonizados por algas calcárias, corais e gorgônias, entremeados por bancos de areia calcária e por formações de coral-de-fogo Millepora alcicornis. Corais construtores como Montastraea cavernosa e Siderastrea stellata formam colônias dispersas em vez de estruturas contínuas, arranjo típico dos recifes do Atlântico Sul ocidental.
Nas enseadas do Mar de Fora, piscinas naturais como as da Atalaia e do Sueste formam-se na maré baixa sobre plataformas de abrasão e funcionam como berçário para dezenas de espécies. A Baía do Sueste reúne o único trecho de manguezal do arquipélago, com Laguncularia racemosa, o mangue mais isolado do Atlântico Sul, e serve de área de criação para o tubarão-limão e de alimentação para tartarugas-verdes.
Em terra, a vegetação original de mata seca insular foi profundamente alterada por séculos de ocupação, desmatamento para evitar fugas de presos e introdução de espécies exóticas. Restam manchas de mata na Ilha Rata e em encostas de difícil acesso, com espécies como a burra-leiteira Sapium e o mulungu, e é nessas manchas que sobrevivem as aves e os répteis endêmicos.
Biodiversidade
O isolamento produziu endemismos em vários grupos, apesar da área minúscula. Registram-se cerca de 230 espécies de peixes recifais e pelágicos, dezenas de espécies de corais e gorgônias, quatro espécies de tartarugas marinhas em uso da área e uma avifauna que combina aves marinhas em colônias numerosas com aves terrestres exclusivas do arquipélago.
- Golfinho-rotador — Stenella longirostris entra diariamente na Baía dos Golfinhos para descansar, em grupos que podem passar de mil indivíduos; é a maior concentração conhecida da espécie e o objeto de um programa de monitoramento contínuo iniciado em 1990.
- Tartaruga-verde — Chelonia mydas é a principal desovante do arquipélago, com a Praia do Leão como área preferencial; a tartaruga-de-pente, a cabeçuda e a oliva também ocorrem.
- Tubarão-limão — Negaprion brevirostris usa a Baía do Sueste como área de criação; a espécie consta da lista brasileira de fauna ameaçada de extinção.
- Aves terrestres endêmicas — A juruviara-de-noronha Vireo gracilirostris e o cocoruta Elaenia ridleyana ocorrem apenas neste arquipélago.
- Répteis endêmicos — O lagarto Trachylepis atlantica e a cobra-cega Amphisbaena ridleyi são exclusivos das ilhas.
- Aves marinhas — Atobás, viuvinhas, trinta-réis, rabos-de-junco e fregatas nidificam nas ilhas secundárias, sobretudo na Rata e nos Dois Irmãos.
- Caranguejo-amarelo — Johngarthia lagostoma vive em terra e retorna ao mar apenas para liberar larvas; ocorre em pouquíssimas ilhas do Atlântico Sul.
Ilhas
O arquipélago reúne 21 ilhas, ilhotas e rochedos, todos de origem vulcânica e todos incluídos no parque, com exceção das áreas urbanas da ilha principal. A Ilha de Fernando de Noronha responde por cerca de dois terços da área emersa; as demais formam dois conjuntos: o grupo nordeste, alinhado a partir da Ponta das Caracas, e os rochedos isolados a sudoeste.
O contraste de conservação entre a ilha principal e as secundárias é marcante. Enquanto a maior sofreu desmatamento, introdução de animais e ocupação contínua desde o século XVIII, ilhas como a Rata mantiveram trechos de vegetação nativa e colônias de aves praticamente intocadas, o que as torna referência para projetos de restauração na ilha grande.
- Ilha de Fernando de Noronha — Cerca de 17 km²; concentra a população, o aeroporto e as áreas excluídas do parque.
- Ilha Rata — Segunda maior, com cerca de 0,7 km²; abriga remanescentes de mata insular e importantes colônias de aves marinhas.
- Ilha do Meio e Ilha Rasa — Do grupo nordeste, com acesso restrito e recifes rochosos de alta densidade de peixes.
- Ilha Sela Gineta — Rochedo com perfil característico, usado como referência de navegação desde o período colonial.
- Dois Irmãos — Par de rochedos a oeste da Baía dos Porcos, com colônias de aves e um dos pontos de mergulho mais procurados.
- Ilha do Frade e Ilha da Conceição — Pequenos afloramentos próximos ao litoral norte, integralmente protegidos.
Portos e rotas relevantes
Não existe porto de carga geral no arquipélago. O único acesso marítimo estruturado é o Porto de Santo Antônio, no extremo nordeste da ilha principal, com um cais de pequeno porte capaz de receber embarcações de abastecimento e barcos de mergulho. Todo o suprimento de combustível, alimentos e materiais chega por navios que operam a partir de Recife e de Cabedelo, e a carga é transferida em operações condicionadas ao estado do mar. A ilha depende, além disso, do aeroporto construído durante a Segunda Guerra Mundial, hoje o principal canal de entrada de visitantes.
A Baía de Santo Antônio e a Baía do Sueste concentram os fundeadouros autorizados. Como todo o entorno é área protegida, o fundeio é regulado: há boias fixas em pontos determinados para evitar que âncoras destruam formações de coral e gorgônias, e a permanência de embarcações de recreio depende de autorização. Nas áreas de uso restrito do parque, como o grupo de ilhas nordeste e a Baía dos Golfinhos, a navegação é proibida ou fortemente limitada.
A fiscalização é compartilhada. A Marinha do Brasil responde pela segurança da navegação e mantém uma capitania na ilha; o Instituto Chico Mendes fiscaliza o uso do parque e a visitação; o Ibama e o comando ambiental estadual atuam contra pesca ilegal. O tráfego no entorno é composto por embarcações de pesca oceânica que operam fora dos limites, atrás de atum e dourado, e por veleiros em travessia transatlântica, para os quais o arquipélago é escala tradicional na rota entre a África e o Caribe. Cruzeiros de médio porte fundeiam ao largo em algumas temporadas, com desembarque por embarcações menores.
| Ponto | Função | Observação |
|---|---|---|
| Porto de Santo Antônio | Abastecimento e embarque de mergulho | Cais de pequeno porte, operação dependente do estado do mar |
| Baía de Santo Antônio | Fundeadouro principal | Boias fixas para evitar dano por âncora |
| Baía do Sueste | Fundeadouro secundário e área de visitação | Navegação restrita por ser área de criação de tubarão-limão |
| Aeroporto de Fernando de Noronha | Entrada de visitantes e carga leve | Pista de origem militar da Segunda Guerra Mundial |
| Baía dos Golfinhos | Área de proteção máxima | Entrada de embarcações e de pessoas proibida |
Importância econômica
A economia do arquipélago é quase inteiramente turística, e o parque é seu ativo central. O fluxo é da ordem de cem mil visitantes por ano, controlado por dois mecanismos: a taxa de preservação ambiental, cobrada pelo governo de Pernambuco de forma proporcional ao número de dias de permanência, e o ingresso do parque nacional, com validade de dez dias, cuja receita é aplicada na gestão da unidade. A capacidade de carga fixada no plano de manejo estabelece limites por trilha, praia e ponto de mergulho, e várias áreas exigem acompanhamento de condutor credenciado.
A pesca comercial é proibida dentro do parque e permitida de forma regulada na Área de Proteção Ambiental, em escala artesanal, com foco em atum, dourado e albacora capturados fora da plataforma insular. Não há agricultura significativa nem indústria: praticamente todos os bens de consumo são importados do continente, o que encarece o custo de vida e amplia a geração de resíduos.
A ilha também abriga funções estratégicas que antecedem o turismo. Instalações militares brasileiras ocupam pontos altos do relevo, e a posição no Atlântico equatorial fez do arquipélago escala de rotas aéreas e ponto de apoio de telecomunicações. Durante a Segunda Guerra Mundial, forças dos Estados Unidos operaram na ilha uma base aérea integrada ao corredor de travessia do Atlântico Sul entre Natal e a África Ocidental, e as pistas e estruturas dessa época moldaram a ocupação atual.
Importância ambiental
A importância ambiental do parque decorre da combinação entre isolamento e posição. Situado a mais de 500 km do continente, o arquipélago funciona como ponto de parada e reprodução em uma área do Atlântico onde não há outra terra emersa por centenas de quilômetros. Para tartarugas, aves marinhas e peixes pelágicos, ele é um nó indispensável em rotas que atravessam o oceano.
A proteção também tem valor de referência científica. Como a pesca foi excluída em 1988 de uma área contínua com fundos rochosos e talude adjacente, as densidades de tubarões, garoupas e peixes-papagaio ali medidas servem de linha de base para avaliar o estado dos recifes costeiros do Nordeste, submetidos a pressão bem maior. Comparações desse tipo aparecem em estudos que contrastam Noronha com áreas continentais como a Baía de Todos os Santos.
O conjunto formado pelo parque, pela Área de Proteção Ambiental e pela Reserva Biológica do Atol das Rocas constitui, além disso, o núcleo mais antigo da rede brasileira de áreas marinhas protegidas de proteção integral, criado décadas antes da expansão de 2018. É nele que foram testados os instrumentos hoje aplicados em outras unidades: cobrança de ingresso, capacidade de carga, credenciamento de condutores e monitoramento de longo prazo de fauna.
Problemas de conservação
A pressão da visitação é o problema mais visível. O aumento do número de voos e de leitos tensiona a capacidade de carga fixada no plano de manejo, o abastecimento de água e o sistema de resíduos, cuja destinação final depende de transporte para o continente. Trilhas de acesso a mirantes e praias sofrem erosão, e o pisoteio em piscinas naturais degrada organismos de fundo raso. O debate sobre o limite adequado de pessoas na ilha é permanente e envolve o órgão gestor federal, o governo estadual e a população residente.
A fauna introduzida é a ameaça mais grave à biota terrestre. Ratos, camundongos, gatos domésticos assilvestrados e o teiú Salvator merianae, introduzido na década de 1950, predam ovos e filhotes de aves marinhas e de répteis endêmicos. Um plano de ação para o controle de gatos foi aprovado em 2019, e ações de manejo de roedores e de plantas invasoras — sobretudo a leucena, que forma povoamentos densos em áreas desmatadas — integram o programa de restauração da vegetação nativa.
- Aquecimento e branqueamento — Eventos de temperatura anômala no Atlântico equatorial em 2010, 2019 e 2024 provocaram branqueamento em corais rasos, com recuperação parcial nos anos seguintes.
- Resíduos plásticos — Correntes trazem lixo flutuante de origem oceânica e continental para as praias do Mar de Fora; mutirões de limpeza e o monitoramento de ingestão por tartarugas são atividades regulares.
- Pesca ilegal no entorno — Embarcações que operam sem autorização na Área de Proteção Ambiental capturam peixes recifais e tubarões, cuja abundância dentro do parque as atrai.
- Perturbação de golfinhos — A aproximação irregular de embarcações e de banhistas na área de descanso do golfinho-rotador levou a restrições rígidas de navegação e à proibição de entrada na Baía dos Golfinhos.
- Vazamentos de óleo — O derrame que atingiu o litoral nordestino a partir de 2019 chegou a praias do arquipélago e evidenciou a vulnerabilidade de uma unidade cuja resposta a acidentes depende de logística vinda do continente.
Curiosidades
- O Morro do Pico, com 321 m, é o pescoço de um antigo conduto vulcânico: a rocha mais resistente do interior do vulcão resistiu à erosão que removeu todo o cone ao redor.
- A Baía do Sueste abriga o manguezal mais isolado do Atlântico Sul, com pouco mais de um hectare de Laguncularia racemosa a mais de 500 km da costa continental mais próxima.
- A Baía dos Golfinhos é a única área do arquipélago com proibição total de entrada de pessoas e embarcações; a observação dos golfinhos-rotadores é feita apenas de um mirante na encosta.
- O caranguejo-amarelo Johngarthia lagostoma passa a vida em terra, às vezes centenas de metros acima do mar, e desce ao litoral apenas para liberar as larvas na água.
- Durante a Segunda Guerra Mundial, forças norte-americanas operaram na ilha uma base aérea integrada ao corredor de travessia do Atlântico Sul entre Natal e a África Ocidental, e a pista construída então continua sendo a única do arquipélago.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- ICMBio — Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha: dados da unidade e plano de manejo, 2024. Consultar publicação
- Presidência da República do Brasil. Decreto nº 96.693, de 14 de setembro de 1988, que cria o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, 1988. Consultar publicação
- UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Brazilian Atlantic Islands: Fernando de Noronha and Atol das Rocas Reserves, 2001. Consultar publicação
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, 2025. Consultar publicação
- Marinha do Brasil — Centro de Hidrografia. Cartas náuticas e roteiro da costa nordeste e ilhas oceânicas, 2024. Consultar publicação
- Lista Vermelha da UICN. Stenella longirostris, Chelonia mydas e Negaprion brevirostris, 2024. Consultar publicação
- Protected Planet — PNUMA-WCMC e UICN. Base mundial de áreas protegidas: Fernando de Noronha, 2025. Consultar publicação
Publicado por DatingYes · Atualizado em Sugerir uma correção
Conteúdos relacionados
Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha no conjunto das formações marinhas.
-
Bacia oceânica
Bacia do Brasil
Depressão abissal entre a margem brasileira e a Dorsal Meso-Atlântica, limitada pela Elevação do Rio Grande e pela Cadeia Vitória–Trindade.
Área Entre 3.500.000 km² e 5.000.000 km² Máx. Cerca de 6.000 m
-
Área marinha protegida
Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz
Área protegida criada em 2018 em torno das ilhas oceânicas mais remotas do Brasil, com presença permanente da Marinha desde 1957.
Área 69.155 km² Máx. Cerca de 5.000 m
-
Oceano
Oceano Atlântico
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m
-
Baía
Baía de Todos os Santos
Maior baía navegável do Brasil, com 56 ilhas, recifes de coral, manguezais e os portos de Salvador e Aratu no Recôncavo.
Área 1.100 km² Máx. Cerca de 70 m
-
Área marinha protegida
Grande Barreira de Corais
Maior sistema de recifes de coral do planeta, protegido como parque marinho desde 1975 e hoje marcado por branqueamentos recorrentes.
Área 344.400 km² Máx. Mais de 2.000 m