Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz
Unidade brasileira de proteção integral criada em 2018 no arquipélago de Trindade e Martim Vaz, com cerca de 69.155 km² e montes submarinos vizinhos.
O Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz protege o conjunto insular mais remoto do território brasileiro, a cerca de 1.140 km de Vitória, no Oceano Atlântico Sul. Foi criado pelo Decreto nº 9.312, de 19 de março de 2018, com área aproximada de 69.155 km² distribuída em quatro glebas — Trindade, Martim Vaz, Monte Columbia e Parcel das Tartarugas — e em regime de proteção integral. O mesmo decreto criou, ao redor dessas glebas, uma Área de Proteção Ambiental de cerca de 402.377 km², de uso sustentável, que cobre praticamente toda a zona econômica exclusiva em torno do arquipélago.
A criação simultânea das duas unidades, somada às duas equivalentes instituídas no mesmo dia para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, elevou de forma abrupta a proporção de mar protegido pelo Brasil: de cerca de 1,5% para aproximadamente um quarto da zona econômica exclusiva, em um único ato administrativo. O resultado é um dos maiores conjuntos protegidos do Atlântico Sul e, ao mesmo tempo, um dos casos mais discutidos de expansão rápida de área protegida, por concentrar proteção integral em uma fração pequena do total.
Ficha técnica
- Nome
- Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz
- Também chamado de
- Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia, Arquipélago de Trindade e Martim Vaz
- Tipo de formação
- Área marinha protegida
- Localização
- Em torno de 20°30' S e entre 28° O e 33° O, a cerca de 1.140 km de Vitória, no Espírito Santo, na extremidade leste da Cadeia Vitória–Trindade.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- América do Sul
- Países e territórios
- Brasil. As ilhas integram o território nacional sem pertencer a nenhum município, sob administração da Marinha do Brasil, e a unidade de conservação é federal, a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
- Área aproximada
- 69.155 km²Área de 6.915.536,11 ha fixada pelo decreto de criação; o cadastro do órgão gestor registra 6.769.671,75 ha. A Área de Proteção Ambiental vizinha soma outros 402.377 km².
- Profundidade média
- Superior a 3.000 m no conjunto das glebas oceânicas
- Profundidade máxima
- Cerca de 5.000 mAssoalho da Bacia do Brasil ao redor do arquipélago; os montes submarinos da cadeia erguem-se desse fundo até menos de 100 m da superfície.
- Salinidade
- 36,0 a 37,2
- Temperatura da superfície
- De 22 °C no inverno austral a 27 °C no verão, na superfície
- Linha de costa
- Cerca de 22 km somando a Ilha da Trindade e os ilhéus de Martim Vaz
- Correntes principais
- Corrente do Brasil, ramo sul da Corrente Sul-Equatorial e vórtices gerados pelos montes submarinos da Cadeia Vitória–Trindade.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A unidade não é um polígono contínuo, e sim um mosaico de quatro glebas. A gleba Trindade envolve a ilha principal e sua plataforma imediata. A gleba Martim Vaz é um retângulo de 3.368.150 ha entre 19°40' S e 21°20' S e entre 27°15' O e 29° O, centrado nos ilhéus de Martim Vaz. A gleba Monte Columbia, de 3.546.637 ha, ocupa o setor oeste, entre 31° O e cerca de 32°51' O, sobre montes submarinos da cadeia. A gleba Parcel das Tartarugas tem apenas 52,35 ha e protege um banco raso de importância desproporcional ao seu tamanho.
Entre as glebas e ao redor delas estende-se a Área de Proteção Ambiental, que corresponde ao raio de 200 milhas náuticas medido a partir das linhas de base das ilhas. O decreto determina expressamente que as glebas do monumento natural não estão inseridas na área de proteção ambiental: são unidades justapostas, com regras distintas, e não sobrepostas.
A Ilha da Trindade tem cerca de 10 km² e formato aproximadamente triangular, com relevo abrupto que culmina no Pico do Desejado, a 620 m. A 48 km a leste, o grupo de Martim Vaz reúne quatro afloramentos — as ilhas do Norte, do Meio e do Sul e o Rochedo Agulha — que somam menos de 0,3 km² de terra emersa e cujo ponto mais alto chega a cerca de 175 m. Nenhum dos dois grupos tem plataforma insular ampla: em poucos quilômetros, o fundo desce para além de 1.000 m.
Continentes e países próximos
O arquipélago é território brasileiro sem vinculação municipal, situação incomum no país. A soberania foi contestada em 1895, quando o Reino Unido ocupou a Ilha da Trindade alegando abandono; o impasse foi resolvido no ano seguinte por mediação portuguesa, com reconhecimento da posse brasileira, e desde então a presença nacional nunca foi interrompida por período prolongado. Do ponto de vista jurídico, as ilhas geram mar territorial e zona econômica exclusiva próprios, o que amplia consideravelmente o espaço marítimo brasileiro no Atlântico Sul.
A categoria de proteção do monumento natural pertence ao grupo de proteção integral do sistema nacional de unidades de conservação, definido pela Lei nº 9.985, de 2000: o objetivo é preservar sítios naturais singulares, e o uso dos recursos naturais é indireto, sem pesca comercial nem extração mineral. A Área de Proteção Ambiental vizinha é de uso sustentável e admite atividades econômicas reguladas, inclusive pesca. A gestão de ambas cabe ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, com participação da Marinha do Brasil, responsável pela ocupação da ilha e pelo apoio logístico sem o qual nenhuma fiscalização seria possível.
- Instrumento de criação — Decreto nº 9.312, de 19 de março de 2018, que instituiu simultaneamente o monumento natural e a área de proteção ambiental do arquipélago.
- Categoria de proteção — Monumento natural, de proteção integral, correspondente à categoria III da classificação internacional de áreas protegidas.
- Unidade complementar — Área de Proteção Ambiental do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz, de uso sustentável, com cerca de 402.377 km², justaposta às glebas do monumento.
- Conjunto criado em 2018 — Somadas às duas unidades criadas no mesmo dia para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo pelo Decreto nº 9.313, as quatro áreas totalizam cerca de 926.000 km².
- Compromissos internacionais — A criação atendeu diretamente às metas de cobertura de áreas marinhas protegidas assumidas pelo Brasil na Convenção sobre Diversidade Biológica.
- Presença institucional permanente — A Marinha do Brasil mantém o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade desde 1957, com guarnição em rendição periódica.
Área e profundidade
A área da unidade de proteção integral é de aproximadamente 69.155 km², superfície comparável à do estado do Rio de Janeiro somado ao Espírito Santo. Praticamente tudo é mar: as terras emersas somam pouco mais de 10 km², ou menos de 0,02% do total. As duas glebas oceânicas — Martim Vaz e Monte Columbia — respondem por quase toda a área, com 33.681 km² e 35.466 km², respectivamente.
As profundidades cobertas vão de bancos rasos a planícies abissais. Os cumes dos montes submarinos da Cadeia Vitória–Trindade chegam a menos de 100 m da superfície, e alguns bancos, como o Davis, ficam a poucas dezenas de metros, sustentando fundos de algas calcárias e comunidades recifais isoladas. Entre um monte e outro, o assoalho da Bacia do Brasil desce para cerca de 5.000 m, o que dá à unidade um desnível interno superior a 4.900 m.
A própria Ilha da Trindade é o topo de um edifício vulcânico de cerca de 5.500 m de altura contados do assoalho oceânico, dos quais apenas 620 m emergem. É a formação vulcânica mais jovem do território brasileiro: as rochas mais antigas têm em torno de 3,5 milhões de anos e o Vulcão do Paredão, na costa leste da ilha, registra atividade há aproximadamente 50 mil anos, o episódio eruptivo mais recente conhecido em terras brasileiras.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área do monumento natural | 69.155 km² | 6.915.536,11 ha, conforme o decreto de 2018 |
| Gleba Monte Columbia | 35.466 km² | Setor oeste, sobre montes submarinos da cadeia |
| Gleba Martim Vaz | 33.681 km² | Retângulo em torno dos ilhéus de Martim Vaz |
| Gleba Parcel das Tartarugas | 52,35 ha | Banco raso protegido integralmente |
| Área de proteção ambiental contígua | 402.377 km² | Raio de 200 milhas náuticas ao redor das ilhas |
| Altitude máxima | 620 m | Pico do Desejado, na Ilha da Trindade |
Principais correntes
O arquipélago está na área de influência do ramo sul da Corrente Sul-Equatorial, que atravessa o Atlântico de leste para oeste e alimenta a Corrente do Brasil, formada a oeste da cadeia e responsável pelo transporte de água quente e salina em direção ao sul, ao longo do talude continental brasileiro. As águas em torno de Trindade são, portanto, tropicais e pobres em nutrientes, com salinidade elevada e temperatura entre 22 °C e 27 °C.
O relevo submarino é o que rompe essa monotonia. Ao encontrar os montes submarinos e guyots da Cadeia Vitória–Trindade, o fluxo é desviado e forma vórtices, ressurgências topográficas e colunas de Taylor, mecanismos que trazem nutrientes de camadas mais profundas até os cumes rasos. É por isso que bancos como o Davis, o Dogaressa e o Jaseur sustentam comunidades recifais e agregações de peixes em pleno oceano aberto, e é também por isso que esses cumes atraem embarcações de pesca.
A cadeia funciona ainda como corredor de dispersão. Os montes submarinos, alinhados por cerca de 1.200 km entre a plataforma do Espírito Santo e Trindade, formam uma sequência de habitats rasos que permite a espécies de recife atravessar uma extensão de oceano profundo que, de outro modo, seria intransponível. Modelos de conectividade indicam que essa via explica a composição de fauna de Trindade e sua relação com o litoral brasileiro e com ilhas do Atlântico central.
Clima
O clima é tropical oceânico, com temperatura do ar entre 20 °C e 30 °C e amplitude térmica anual pequena. A precipitação média anual gira em torno de 1.000 mm, distribuída de forma irregular e concentrada entre novembro e abril; a face de barlavento da ilha, exposta aos alísios de sudeste, recebe consideravelmente mais chuva que a de sotavento, o que produz contraste visível na vegetação.
A ausência de barreiras continentais deixa o arquipélago exposto a ondulações de longa distância. Ressacas geradas por sistemas frontais no Atlântico Sul atingem a ilha durante todo o inverno austral e limitam o desembarque a algumas praias em janelas de poucas horas, condição que estrutura toda a operação logística da guarnição naval.
A ilha tem cursos d'água intermitentes e algumas nascentes permanentes, situação incomum entre ilhas oceânicas de área tão reduzida e explicada pelo relevo elevado, que intercepta umidade. Ainda assim, a disponibilidade de água é limitada, e o consumo humano depende de captação combinada com armazenamento e tratamento.
Ecossistemas
Os ambientes marinhos protegidos incluem recifes rochosos costeiros das duas ilhas, fundos de algas calcárias sobre os cumes dos montes submarinos, encostas de guyots com corais de profundidade e a coluna d'água oceânica em que circulam grandes predadores. Os bancos de rodolitos — nódulos livres de algas calcárias — são o habitat mais extenso das áreas rasas e um dos menos estudados: no Atlântico Sul ocidental, formam faixas contínuas que abrigam invertebrados e alevinos.
Em terra, a Ilha da Trindade tem uma história ecológica que a torna caso de estudo. Cabras introduzidas por navegadores no século XVIII, seguidas de porcos e roedores, eliminaram a floresta nativa dominada pela grandiúva-d'anta Colubrina glandulosa e desnudaram encostas inteiras, provocando erosão que alterou até o perfil das praias. A vegetação atual é um mosaico em recuperação, com samambaias arborescentes do gênero Cyathea em altitudes maiores e trechos de replantio de espécies nativas nas encostas.
As ilhas de Martim Vaz, por serem inacessíveis na maior parte do ano e nunca terem sido ocupadas, mantêm condições próximas às originais e servem de referência para avaliar quanto Trindade perdeu. Suas encostas verticais abrigam colônias de aves marinhas em densidade que a ilha principal só voltará a ter após décadas de restauração.
Biodiversidade
A biota é pobre em número de espécies e rica em endemismos, padrão típico de ilhas oceânicas isoladas. O arquipélago é o único sítio de reprodução no Brasil de uma ave marinha de distribuição restrita e concentra a maior agregação reprodutiva de tartaruga-verde entre as ilhas oceânicas brasileiras, além de abrigar peixes recifais e invertebrados que não ocorrem no litoral continental.
- Tartaruga-verde — Chelonia mydas desova nas praias da Ilha da Trindade em números que a colocam entre os principais sítios reprodutivos do Atlântico Sul ocidental; o monitoramento é feito pelo Projeto Tamar em convênio com a Marinha desde 1982.
- Grazina-de-trindade — Pterodroma arminjoniana reproduz-se apenas neste arquipélago no território brasileiro, em ninhos escavados nas encostas altas.
- Aves marinhas — Atobás Sula, viuvinhas, trinta-réis e fregatas nidificam nas encostas de Martim Vaz e em pontos da Trindade; a fregata-de-trindade é considerada localmente extinta.
- Caranguejo-amarelo — Johngarthia lagostoma ocorre em terra por toda a ilha e depende do mar apenas para liberar larvas; sua população cresceu após a retirada dos herbívoros introduzidos.
- Peixes recifais — Espécies endêmicas ou de distribuição restrita ao arquipélago e aos montes submarinos vizinhos, entre elas donzelas do gênero Stegastes e budiões de linhagem própria.
- Grandes predadores oceânicos — Atum-albacora, dourado, agulhão e tubarões pelágicos usam a coluna d'água acima dos montes submarinos como área de alimentação.
Ilhas
Duas formações emersas compõem o arquipélago. A Ilha da Trindade, com cerca de 10 km², é a única habitada e a única com relevo capaz de sustentar vegetação arbórea: o Pico do Desejado, a 620 m, e as agulhas de fonólito conhecidas como Monumento e Crista do Galo dão à ilha um perfil abrupto reconhecível a grande distância. Suas praias — Cabritos, Tartarugas, Andradas, Príncipe — concentram a desova de tartarugas-verdes.
As Ilhas Martim Vaz, 48 km a leste, são o oposto: quatro afloramentos de encostas verticais, sem praias abrigadas e sem água doce, cercados por profundidades que passam de 1.000 m em poucas centenas de metros. O desembarque exige mar excepcionalmente calmo e é raro, o que preservou suas colônias de aves e faz delas um dos poucos pontos do território brasileiro praticamente livre de espécies exóticas.
- Ilha da Trindade — Cerca de 10 km² e 620 m de altitude; sede do Posto Oceanográfico da Marinha do Brasil e das praias de desova de tartaruga-verde.
- Ilha do Norte (Martim Vaz) — A maior do grupo oriental, com cerca de 175 m de altitude e encostas ocupadas por aves marinhas.
- Ilha do Meio e Ilha do Sul — Afloramentos menores do grupo de Martim Vaz, sem desembarque praticável na maior parte do ano.
- Rochedo Agulha — Pináculo isolado a sul do grupo, referência de navegação e ponto de mergulho de acesso muito difícil.
- Montes submarinos da cadeia — Vitória, Montague, Jaseur, Davis, Dogaressa e Columbia formam a sequência de guyots que liga o arquipélago à plataforma do Espírito Santo.
Portos e rotas relevantes
Não há porto, cais ou pista de aviação em nenhuma das ilhas. Todo o acesso depende de navios da Marinha do Brasil que partem de Vitória e levam de três a quatro dias de viagem, e o desembarque é feito por embarcações miúdas ou por helicóptero, sempre condicionado ao estado do mar. A Enseada do Príncipe e a Praia dos Andradas são os pontos de aproximação mais usados; nenhum deles oferece abrigo confiável, e a operação de rendição da guarnição pode ser postergada por dias à espera de janela de tempo.
A infraestrutura em terra é o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, mantido pela Marinha do Brasil de forma contínua desde 1957, quando foi instalado no contexto do Ano Geofísico Internacional. O posto abriga uma guarnição reduzida em rendição periódica e concentra as funções de soberania, meteorologia, apoio à pesquisa e fiscalização ambiental. Sem ele, a área protegida seria inspecionável apenas por meios remotos.
A fiscalização combina patrulha naval, rastreamento por satélite das embarcações de pesca licenciadas e monitoramento por imagens. O tráfego no entorno tem três componentes: navios mercantes em rota entre o Atlântico Sul e o Cabo da Boa Esperança, que passam ao largo sem escala; embarcações de pesca oceânica que perseguem atum e dourado nas proximidades dos montes submarinos, dentro e nas bordas da área de proteção ambiental; e um número pequeno de veleiros e navios de pesquisa que solicitam autorização para permanência. A distância de 1.140 km até a costa é, na prática, o principal instrumento de proteção — e também o principal obstáculo à fiscalização efetiva.
| Ponto | Função | Observação |
|---|---|---|
| Vitória, Espírito Santo | Porto de origem das viagens | Cerca de 1.140 km e três a quatro dias de navegação |
| Enseada do Príncipe | Fundeadouro e desembarque | Operação por embarcação miúda, dependente de mar calmo |
| Praia dos Andradas | Desembarque alternativo | Usada quando a ondulação impede a face oeste |
| Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade | Base permanente da Marinha do Brasil | Em operação contínua desde 1957 |
| Montes submarinos da cadeia | Área de pesca oceânica no entorno | Atrai frota de atum e dourado às bordas da unidade |
Importância econômica
Não existe atividade econômica nas ilhas. Não há população civil, comércio, agricultura, pesca comercial autorizada nas glebas de proteção integral nem visitação turística regular: o acesso depende de autorização e, na prática, restringe-se a militares, pesquisadores e tripulações de apoio. Esse isolamento absoluto é raro entre áreas marinhas protegidas de grande porte e explica por que o custo de gestão é dominado por logística naval.
O valor econômico associado à unidade é indireto e considerável. A existência das ilhas projeta mar territorial, zona econômica exclusiva e plataforma continental brasileiros por centenas de quilômetros para o interior do Atlântico Sul, ampliando o espaço de jurisdição sobre recursos vivos e minerais. Os montes submarinos da cadeia despertam interesse por crostas de ferro-manganês e por seus estoques de peixes, e o mapeamento dessa área integra o esforço brasileiro de levantamento da plataforma continental estendida.
A pesca oceânica praticada no entorno, sobretudo de atuns e afins, é a atividade comercial mais próxima e o principal ponto de contato entre a economia e a unidade. Dentro da Área de Proteção Ambiental, essa pesca é permitida sob regulação; nas glebas do monumento natural, é proibida, o que torna a demarcação clara das fronteiras uma questão prática para as frotas.
Importância ambiental
A relevância ambiental do arquipélago decorre de ser o único conjunto insular do Atlântico Sul ocidental nessa latitude. Para aves marinhas, tartarugas e peixes pelágicos que atravessam o oceano, Trindade e Martim Vaz são o único ponto de reprodução e descanso em uma extensão de mais de mil quilômetros de mar aberto — condição que confere a 10 km² de terra uma importância biogeográfica desproporcional.
A Cadeia Vitória–Trindade, por sua vez, é um dos sistemas de montes submarinos mais bem posicionados do mundo para o estudo de conectividade marinha. Seus cumes formam uma escada de habitats rasos entre o continente e a ilha, e a comparação entre a fauna de cada monte permite testar como espécies de recife se dispersam através do oceano profundo. Vários desses cumes têm bancos de rodolitos e comunidades recifais em condições próximas ao natural, sem paralelo em áreas rasas continentais, mais expostas à pesca e ao turismo — situação que também distingue Trindade do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, protegido desde 1988 mas visitado por cerca de cem mil pessoas por ano.
A ilha oferece ainda um dos experimentos de restauração ecológica mais longos do país. Com a erradicação das cabras concluída em 2005, após mais de dois séculos de herbivoria, tornou-se possível acompanhar em tempo real a recolonização de encostas por vegetação nativa, a estabilização de solos erodidos e a resposta de populações animais que dependiam dessa vegetação.
Problemas de conservação
A crítica mais reiterada às unidades de 2018 é a distribuição do rigor. Das cerca de 926.000 km² protegidos naquele ano em torno de Trindade e de São Pedro e São Paulo, apenas cerca de 116.000 km² — pouco mais de 12% — ficaram sob proteção integral, e boa parte dessas glebas foi traçada em setores de menor interesse pesqueiro. O restante está em áreas de proteção ambiental, categoria de uso sustentável que admite pesca comercial. Pesquisadores e organizações apontaram que o desenho permitiu ao país cumprir metas internacionais de percentual de mar protegido sem restringir de forma significativa a atividade extrativa, e cobraram planos de manejo, conselhos gestores e zoneamento efetivo, cuja elaboração avançou lentamente.
A fiscalização é o segundo gargalo. Uma área de 471.000 km² somando as duas unidades, a 1.140 km da costa, sem pista de aviação e com um único ponto de apoio ocupado por guarnição reduzida, depende de meios navais escassos e de monitoramento remoto. Embarcações de pesca que operam nas bordas dos montes submarinos e a possibilidade de incursões dentro das glebas de proteção integral permanecem difíceis de coibir em tempo real.
- Espécies exóticas remanescentes — As cabras foram erradicadas em 2005 e os porcos, antes disso, mas roedores e algumas plantas invasoras persistem na Ilha da Trindade e continuam a pressionar aves nidificantes e o replantio de espécies nativas.
- Erosão herdada — Dois séculos de herbivoria removeram solo de encostas inteiras; a recuperação da vegetação avança, porém em ritmo condicionado pela perda prévia de substrato.
- Pesca sobre montes submarinos — Cumes rasos concentram biomassa e são alvos preferenciais de frotas oceânicas, com risco de esgotamento local de estoques de vida longa.
- Resíduos plásticos — Correntes depositam lixo flutuante de origem remota nas praias da Trindade, inclusive em áreas de desova de tartaruga-verde, sem qualquer fonte local que o explique.
- Mudanças no oceano — Aquecimento e acidificação afetam diretamente os bancos de rodolitos e as comunidades recifais dos montes submarinos, cuja capacidade de recuperação em ilhas isoladas é limitada pela ausência de populações vizinhas.
Curiosidades
- O Vulcão do Paredão, na costa leste da Ilha da Trindade, registra atividade há cerca de 50 mil anos e é a formação vulcânica mais recente do território brasileiro.
- A Ilha da Trindade é o topo de um edifício vulcânico de cerca de 5.500 m de altura medidos do assoalho oceânico, dos quais apenas 620 m ficam acima da água.
- Em 1895, o Reino Unido ocupou a ilha alegando que estava abandonada; a disputa foi resolvida no ano seguinte por mediação portuguesa, com reconhecimento da soberania brasileira.
- A gleba Parcel das Tartarugas, com apenas 52,35 ha, é a menor das quatro áreas de proteção integral da unidade e protege um banco raso isolado em pleno oceano.
- A erradicação das cabras introduzidas no século XVIII foi concluída em 2005, e a recolonização das encostas por vegetação nativa desde então é acompanhada como um dos experimentos de restauração de longa duração do país.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Presidência da República do Brasil. Decreto nº 9.312, de 19 de março de 2018, que cria o Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia e a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz, 2018. Consultar publicação
- ICMBio — Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia: dados da unidade, 2025. Consultar publicação
- Marinha do Brasil — Centro de Hidrografia. Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade e cartas náuticas do arquipélago, 2024. Consultar publicação
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação e áreas marinhas protegidas brasileiras, 2025. Consultar publicação
- Serviço Geológico do Brasil. Geologia e vulcanismo do arquipélago de Trindade e Martim Vaz, 2023. Consultar publicação
- Protected Planet — PNUMA-WCMC e UICN. Base mundial de áreas protegidas: Trindade e Martim Vaz, 2025. Consultar publicação
- Lista Vermelha da UICN. Chelonia mydas e Pterodroma arminjoniana, 2024. Consultar publicação
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