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Canal de Beagle

Passagem glacial de cerca de 240 km na Terra do Fogo, entre a Argentina e o Chile, com geleiras suspensas, florestas de Macrocystis e os portos mais austrais do mundo.

Mapa de localização de Canal de Beagle, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte do canal entre os braços ocidentais, junto à Cordilheira Darwin, e a saída oriental para o Atlântico.

O Canal de Beagle é uma passagem de cerca de 240 km que atravessa o arquipélago da Terra do Fogo de oeste para leste, ligando águas do Oceano Pacífico às do Oceano Atlântico. Sua largura varia entre pouco mais de 1 km, nos estreitamentos, e cerca de 13 km na porção central. Separa a Ilha Grande da Terra do Fogo, ao norte, do conjunto formado por Navarino, Hoste, Picton, Nueva e Lennox, ao sul, e corre encaixado entre montanhas que descem diretamente até a água.

A passagem é de origem glacial: um vale escavado por gelo e invadido pelo mar após o recuo das geleiras, com bacias profundas separadas por soleiras rochosas. No braço noroeste, geleiras da Cordilheira Darwin ainda alcançam as proximidades do canal e formam o trecho conhecido como Avenida das Geleiras. Nas margens ficam Ushuaia, na Argentina, e Puerto Williams, no Chile — os dois núcleos urbanos permanentes mais austrais do planeta e principal porta de saída para a Antártida.

Ficha técnica

Nome
Canal de Beagle
Também chamado de
Canal Beagle, Onashaga
Tipo de formação
Canal natural
Localização
Entre 54,6° S e 55,2° S e entre 70,5° O e 66,4° O, separando a Ilha Grande da Terra do Fogo, ao norte, das ilhas Navarino, Hoste, Picton, Nueva e Lennox, ao sul.
Oceano de referência
Atlântico, Pacífico
Continentes próximos
América do Sul
Países e territórios
Argentina e Chile. A margem norte é argentina em seu trecho central e chilena a oeste; toda a margem sul é chilena.
Área aproximada
Cerca de 1.000 km²Estimativa a partir de cartas náuticas; não há um valor oficial único, porque o limite oriental do canal é convencional.
Profundidade média
Cerca de 200 m
Profundidade máxima
Entre 300 m e 400 mNas bacias glaciais dos braços ocidentais, separadas por soleiras rochosas mais rasas.
Salinidade
29 nos braços com aporte de degelo a 32 na saída oriental
Temperatura da superfície
De 4 °C no inverno a 9 °C no verão austral
Linha de costa
Cerca de 600 km, somando as duas margens e as ilhas interiores
Correntes principais
Fluxo residual para leste, correntes de maré nos estreitamentos e camada superficial diluída por água de degelo.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A extremidade ocidental fica na confluência com o canal Ballenero e o braço noroeste, e a oriental abre-se para o Atlântico entre a Ilha Nueva e a península Mitre. O traçado é quase retilíneo no sentido leste–oeste, característica incomum que decorre de uma zona de falha ativa que atravessa a Terra do Fogo e marca o limite entre as placas Sul-Americana e de Scotia.

O relevo das margens é abrupto: ao norte erguem-se os montes da Cordilheira Darwin, com cumes acima de 2.000 m a menos de 30 km da água; ao sul, as ilhas são mais baixas, cobertas de turfeiras e florestas de Nothofagus. O interior é pontilhado por ilhotas, entre elas os Ilhotes Les Éclaireurs, onde um farol marca a aproximação de Ushuaia.

Continentes e países próximos

O canal é compartilhado por Argentina e Chile, e seu traçado fronteiriço foi objeto de uma das disputas territoriais mais prolongadas da América do Sul. O litígio girou em torno da soberania sobre as ilhas Picton, Nueva e Lennox, na saída oriental, e da linha divisória no próprio canal.

  • Argentina — Margem norte do trecho central e oriental, na província da Terra do Fogo, com Ushuaia e Puerto Almanza.
  • Chile — Toda a margem sul e o setor ocidental, na região de Magalhães, com Puerto Williams.
  • A disputa das ilhas — Uma arbitragem concluída em 1977 atribuiu Picton, Nueva e Lennox ao Chile; a Argentina declarou o laudo nulo em 1978 e os dois países chegaram a mobilizar forças.
  • Mediação e tratado — A Santa Sé aceitou mediar em dezembro de 1978. O Tratado de Paz e Amizade, assinado em 29 de novembro de 1984 e submetido a consulta popular na Argentina, confirmou as ilhas como chilenas e fixou a delimitação marítima a leste.

Área e profundidade

O canal tem cerca de 240 km de comprimento e largura entre 1 km e 13 km, o que resulta em uma superfície aproximada de 1.000 km². As profundidades mais comuns situam-se entre 100 m e 250 m, com bacias que ultrapassam 300 m nos braços ocidentais e soleiras rasas que as isolam parcialmente umas das outras — configuração típica de fiordes glaciais e determinante para a renovação das águas de fundo.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Comprimento240 kmEstimativas entre 240 km e 300 km
Largura mínimaCerca de 1 kmNos estreitamentos centrais
Largura máxima13 kmTrecho central
Profundidade usual100 m a 250 mBacias separadas por soleiras
Profundidade máxima300 m a 400 mBraços ocidentais
Amplitude de maréCerca de 1,5 mRegime semidiurno

Principais correntes

A circulação combina maré, vento e água de degelo. O regime de maré é semidiurno, com amplitude média em torno de 1,5 m, e as correntes se intensificam nos estreitamentos, onde o fluxo é canalizado entre paredes rochosas. O resultado líquido é uma deriva para leste, que transfere ao Atlântico a água de origem pacífica que entra pelo oeste.

Sobre esse fluxo instala-se uma camada superficial de baixa salinidade, alimentada pelo degelo das geleiras e pela precipitação elevada dos braços ocidentais. A estratificação resultante é forte no verão e mais fraca no inverno, e a diferença de salinidade entre o setor ocidental e a saída oriental chega a vários pontos na escala prática. As bacias profundas, isoladas por soleiras, renovam-se lentamente, o que as torna sensíveis ao acúmulo de matéria orgânica.

Do lado de fora, o canal sofre a influência da Corrente Circumpolar Antártica, que passa ao sul pela Passagem de Drake, vizinhança que explica as temperaturas baixas e estáveis registradas o ano inteiro.

Clima

O clima é subpolar oceânico, com amplitude térmica anual pequena: as médias vão de cerca de 1 °C em julho a 10 °C em janeiro, e o vento de oeste sopra o ano todo, com rajadas acima de 100 km/h nos trechos abertos. A precipitação é desigual — em torno de 550 mm anuais em Ushuaia, na sombra de chuva da cordilheira, e mais de 2.000 mm nos braços ocidentais expostos ao Pacífico. A água superficial permanece entre 4 °C e 9 °C, e a formação de gelo marinho é rara.

Ecossistemas

As florestas submarinas de Macrocystis pyrifera, a alga-gigante, estruturam o ecossistema costeiro. Fixadas em fundos rochosos até cerca de 30 m, formam dosséis que chegam à superfície e abrigam centenas de espécies de invertebrados e peixes. Ao contrário do que ocorre em outras regiões, mantiveram-se estáveis nas últimas décadas, o que fez do extremo sul americano uma referência em estudos de resiliência.

Em terra, as margens são cobertas por florestas de Nothofagus, turfeiras de Sphagnum e matagais que descem até a linha da maré. Os fundos moles do interior abrigam esponjas, briozoários e corais de água fria, e as soleiras rochosas concentram bancos de mexilhões e da centolha, o caranguejo-rei da região.

Biodiversidade

A fauna combina espécies subantárticas e magalhânicas, com forte dependência do ciclo produtivo curto e intenso do verão austral. Colônias reprodutivas ocupam ilhotas do interior do canal, protegidas do acesso terrestre.

  • Pinípedes — O leão-marinho-sul-americano Otaria flavescens mantém colônias permanentes em ilhotas do canal.
  • Pinguins — A Ilha Martillo abriga uma colônia reprodutiva de pinguim-de-magalhães Spheniscus magellanicus.
  • Cetáceos — Golfinho-de-peale e golfinho-de-Commerson são residentes; baleias-francas-austrais aparecem na saída oriental.
  • Aves marinhas — Biguás-de-face-branca, albatrozes-de-sobrancelha-negra e o pato-vapor-austral, que não voa, ocupam os costões.
  • CentolhaLithodes santolla sustenta a principal pescaria do canal, capturada com armadilhas nos dois lados da fronteira.

Ilhas

As ilhas do canal dividem-se entre as grandes massas que formam sua margem sul e um conjunto de ilhotas interiores, muitas delas sem ocupação humana permanente e de acesso restrito. As três ilhas da saída oriental foram o objeto central do litígio de fronteira encerrado em 1984.

  • Navarino — Cerca de 2.470 km² na margem sul, com Puerto Williams e os Dientes de Navarino, palco da invasão por castores.
  • Hoste — Ilha recortada a sudoeste, com a península Hardy e fiordes que se abrem para o canal.
  • Picton, Nueva e Lennox — Ilhas baixas da boca oriental, sob soberania chilena desde o tratado de 1984.
  • Ilha Martillo — Ilhota próxima à Estância Harberton, com a colônia de pinguins visitada sob controle de acesso.
  • Ilhotes Les Éclaireurs — Grupo rochoso a leste de Ushuaia, com farol de 1920 e colônias de leões-marinhos.

Portos e rotas relevantes

Ushuaia é o principal porto do canal e a mais movimentada porta de entrada da Antártida: a maior parte dos navios de expedição que cruzam a Passagem de Drake a cada temporada austral parte de seus cais. Opera ainda carga geral, combustíveis e a frota pesqueira local. Puerto Williams, na margem chilena, é base naval, sede administrativa da província Antártica Chilena e apoio à navegação rumo ao Cabo Horn. A passagem funciona como alternativa abrigada ao Estreito de Magalhães para embarcações de menor porte.

Portos e instalações
InstalaçãoPaísFunção predominante
UshuaiaArgentinaCruzeiros antárticos, pesca e carga
Puerto WilliamsChileBase naval e apoio logístico
Puerto AlmanzaArgentinaPesca artesanal e maricultura
Puerto NavarinoChileTravessia de passageiros e controle fronteiriço

Importância econômica

O turismo é a atividade dominante. Ushuaia recebe centenas de escalas de navios por temporada e concentra a logística das expedições antárticas, além do turismo terrestre ligado ao Parque Nacional Terra do Fogo. Puerto Williams desenvolveu, em escala menor, um circuito de trekking e de navegação de vela rumo ao Cabo Horn.

A pesca tem peso econômico relevante, com a centolha como espécie principal, seguida por ouriço-do-mar e mexilhões. A aquicultura de salmão, presente em áreas chilenas próximas, é objeto de controvérsia ambiental; do lado argentino, a província da Terra do Fogo aprovou em 2021 uma lei que proíbe a criação de salmonídeos em suas águas marinhas.

Importância ambiental

O canal está inserido na Reserva da Biosfera Cabo de Hornos, reconhecida pela UNESCO em 2005 e uma das áreas com menor grau de alteração humana do Hemisfério Sul. O reconhecimento apoiou-se na diversidade de briófitas e liquens das florestas subantárticas, descrita como excepcional em escala mundial.

Do lado argentino, o Parque Nacional Terra do Fogo, criado em 1960, protege a margem noroeste. O conjunto dessas áreas preserva um dos poucos sistemas de fiorde temperado do mundo sem represamento, mineração de grande porte ou indústria pesada nas bacias contribuintes, condição que dá valor de referência às séries de monitoramento ali obtidas.

Problemas de conservação

A ameaça mais estudada é a invasão pelo castor norte-americano Castor canadensis. Cerca de vinte casais foram soltos na Terra do Fogo em 1946, na expectativa de gerar uma indústria de peles; sem predadores naturais, a população passou de cem mil animais e alcançou as ilhas do canal, inclusive Navarino. Seus diques alagam bosques ribeirinhos de Nothofagus, que não rebrotam após a inundação, e alteram o aporte de matéria orgânica ao canal. Argentina e Chile mantêm desde 2008 um programa binacional de erradicação.

  • Outras espécies introduzidas — Visão-americano, rato-almiscarado e coelho contribuem para a alteração dos ecossistemas costeiros.
  • Pressão sobre a centolha — A captura intensa reduziu os rendimentos e motivou restrições de tamanho e defeso nos dois países.
  • Esgoto urbano — O crescimento acelerado de Ushuaia pressiona o tratamento de efluentes e afeta a baía adjacente.
  • Recuo das geleiras — As geleiras da Cordilheira Darwin perderam massa nas últimas décadas, alterando o aporte de água doce e sedimento.
  • Tráfego de embarcações — O aumento das escalas antárticas eleva o risco de introdução de organismos por água de lastro.

Curiosidades

  1. O canal foi reconhecido em 1830 pela primeira expedição hidrográfica do HMS Beagle e recebeu o nome do navio; Charles Darwin percorreu-o em janeiro de 1833, na segunda viagem da embarcação.
  2. O trecho noroeste é chamado Avenida das Geleiras porque nele desembocam, em poucos quilômetros, geleiras da Cordilheira Darwin que descem de mais de 1.000 m de altitude.
  3. Ushuaia e Puerto Williams são os núcleos urbanos permanentes mais austrais do mundo, e a maior parte das expedições à Antártida parte do porto argentino.
  4. O povo iagã, que navegava o canal em canoas de casca e mantinha fogueiras acesas a bordo, chamava a passagem de Onashaga; a última falante nativa dessa língua morreu em 2022.
  5. Vinte casais de castores soltos na Terra do Fogo em 1946 originaram uma população superior a cem mil animais, a maior alteração ecológica já introduzida na região.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  2. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  3. UNESCO. Reserva da Biosfera Cabo de Hornos, 2005. Consultar publicação
  4. PNUMA. Invasive alien species and island ecosystems, 2023. Consultar publicação
  5. IUCN. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas — fauna subantártica sul-americana, 2023. Consultar publicação
  6. FAO. Fishery and Aquaculture Country Profiles — Argentina e Chile, 2023. Consultar publicação
  7. NASA Earth Observatory. Séries de imagens das geleiras da Cordilheira Darwin, 2023. Consultar publicação

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