Estreito de Magalhães
Passagem sinuosa de cerca de 570 km no extremo sul do Chile que liga o Atlântico ao Pacífico entre a Patagônia continental e a Terra do Fogo.
O Estreito de Magalhães é a via natural mais abrigada entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, com cerca de 570 km de canais que contornam o extremo meridional do continente americano. Separa a Patagônia continental da Ilha Grande da Terra do Fogo e do arquipélago fueguino, e vai da boca oriental, entre o Cabo Vírgenes e o Cabo Espírito Santo, à saída ocidental junto ao Cabo Pilar, na Ilha Desolación. A largura varia de cerca de 2 km em canais laterais a mais de 30 km no trecho central.
É uma passagem de contrastes acentuados: o trecho oriental corre por estepe seca e ventosa, com marés de vários metros, enquanto o ocidental atravessa um labirinto de fiordes glaciais com chuva abundante e geleiras que descem até o mar. Percorrido por Fernão de Magalhães em 1520, foi por quase quatro séculos a rota interoceânica preferida da navegação a vela e a vapor, papel que perdeu com a abertura do Canal do Panamá, em 1914. Hoje concentra tráfego regional, indústria energética e turismo antártico.
Ficha técnica
- Nome
- Estreito de Magalhães
- Também chamado de
- Estrecho de Magallanes, Estreito de Todos os Santos
- Tipo de formação
- Estreito
- Localização
- Entre 52,3° S e 54,2° S e entre 75° O e 68° O, separando o continente sul-americano da Ilha Grande da Terra do Fogo.
- Oceano de referência
- Atlântico, Pacífico
- Continentes próximos
- América do Sul
- Países e territórios
- Integralmente chileno desde o Tratado de Limites de 1881, que também fixou a boca oriental na linha entre o Cabo Vírgenes, na Argentina, e o Cabo Espírito Santo, na Terra do Fogo.
- Área aproximada
- Aproximadamente 19.000 km²Estimativa para o corpo principal; a inclusão dos canais laterais e senos do trecho ocidental eleva bastante o valor.
- Profundidade média
- Entre 100 m e 300 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 1.170 mBacias glaciais do trecho ocidental; parte das cartas registra máximos próximos de 1.080 m.
- Salinidade
- 29 a 33 nos canais ocidentais e 31 a 33 no trecho oriental
- Temperatura da superfície
- De 4 °C a 6 °C no inverno e de 9 °C a 11 °C no verão à superfície
- Linha de costa
- Muito recortada, com milhares de quilômetros somando canais e senos
- Correntes principais
- Correntes de maré de até 8 nós nas angosturas, encontro das marés atlântica e pacífica perto do Cabo Froward e escoamento de água salobra pelos canais ocidentais.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A boca oriental fica na linha entre o Cabo Vírgenes, na Argentina, e o Cabo Espírito Santo, na Terra do Fogo chilena, com cerca de 30 km de abertura. Dali o canal segue para sudoeste, atravessa a Primeira e a Segunda Angostura, alcança Punta Arenas e faz uma curva acentuada no Cabo Froward, o ponto mais austral do continente americano. A partir dali o eixo vira para noroeste e se desfaz em canais até o Pacífico.
A geografia é herança glacial, e as três seções correspondem a graus diferentes de escavação por gelo: a oriental, ampla e rasa, é uma depressão em sedimentos moles; a central, um vale de fundo plano; a ocidental, um conjunto de fiordes abertos em rocha, com bacias que superam 1.000 m separadas por soleiras rasas.
Continentes e países próximos
Todo o estreito é território chileno, resultado do Tratado de Limites de 1881 entre o Chile e a Argentina, que atribuiu a passagem ao Chile e a declarou neutralizada para sempre, com navegação livre para embarcações de todas as bandeiras. A margem oriental externa, no Cabo Vírgenes, é argentina.
- Chile — Região de Magalhães e da Antártica Chilena; administra o canal, os faros e a praticagem obrigatória.
- Argentina — Costa externa junto ao Cabo Vírgenes e a metade oriental da Ilha Grande da Terra do Fogo.
- Povos originários — Território histórico dos kawésqar e dos aónikenk, com presença selk’nam e yagán nas terras vizinhas.
Área e profundidade
A passagem combina um comprimento considerável com estrangulamentos muito marcados. Os dois mais conhecidos são a Primeira Angostura, com cerca de 3,7 km de largura, e a Segunda Angostura, com cerca de 5 km, onde as correntes de maré são mais fortes e a profundidade navegável é mínima.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Extensão | Cerca de 570 km | Do Cabo Vírgenes ao Cabo Pilar |
| Largura máxima | Mais de 30 km | Trecho central, o Paso Ancho |
| Primeira Angostura | Cerca de 3,7 km | Correntes de maré de até 8 nós |
| Profundidade máxima | Cerca de 1.170 m | Bacias glaciais do trecho ocidental |
| Amplitude de maré | Até cerca de 9 m a leste | Pouco mais de 1 m na saída do Pacífico |
| Travessia de 1520 | 38 dias | De 21 de outubro a 28 de novembro |
Principais correntes
A dinâmica do estreito é dominada pela maré. A onda de maré atlântica entra pela boca oriental com amplitude que chega a cerca de 9 m e propaga-se para o interior, enquanto a maré pacífica, muito menor, entra pelo oeste. As duas se encontram nas proximidades do Cabo Froward, criando uma região de correntes complexas e pequena variação de nível. Nas angosturas, o estrangulamento acelera o fluxo a até 8 nós, obrigando embarcações a esperar a estofa para transitar.
Sobreposta a esse regime existe uma circulação estuarina no trecho ocidental: chuva intensa e degelo despejam água doce nos fiordes, formando uma camada superficial de baixa salinidade que escoa para o Pacífico, com entrada compensatória de água salgada mais funda. Fora da passagem, a Passagem de Drake concentra a Corrente Circumpolar Antártica, cuja borda norte alimenta a Corrente do Cabo Horn.
Clima
O estreito atravessa a faixa dos ventos de oeste do hemisfério sul, que sopram todo o ano com médias elevadas e rajadas frequentes acima de 100 km/h no verão. O relevo produz um contraste pluviométrico extremo: as ilhas ocidentais recebem mais de 2.000 mm anuais, enquanto a estepe oriental fica abaixo de 400 mm. As temperaturas são frias e pouco variáveis, entre médias de 2 °C no inverno e 11 °C no verão em Punta Arenas. Rajadas descendentes súbitas, chamadas williwaws, descem das encostas dos fiordes sem aviso e fizeram do estreito uma travessia temida na era da vela.
Ecossistemas
As florestas submarinas de Macrocystis pyrifera são o ecossistema estruturante mais visível da passagem. Fixadas em fundos rochosos até cerca de 20 m, formam dosséis que abrigam invertebrados, peixes juvenis e a centolha, e prosperam nas áreas de corrente forte, onde a água é bem oxigenada. Nos fundos de cascalho batidos por corrente instalam-se filtradores: esponjas, ascídias, briozoários e bancos de mexilhão.
Nos fiordes ocidentais o padrão muda: a camada superficial de água doce reduz luz e salinidade, e nas paredes rochosas abaixo dela aparecem corais de água fria e gorgônias em condições análogas às do mar aberto, a poucas dezenas de metros da superfície. Nas margens orientais, planícies de maré e pradarias salgadas recebem aves limícolas migratórias.
Biodiversidade
A passagem funciona ao mesmo tempo como área de reprodução e como corredor. Cetáceos que se alimentam em águas antárticas usam o estreito e os canais adjacentes no verão austral, e aves marinhas subantárticas nidificam em ilhas de poucos quilômetros quadrados.
- Pinguim-de-magalhães — Spheniscus magellanicus reproduz-se na Ilha Magdalena, onde a colônia é estimada em mais de 100 mil casais.
- Baleia-jubarte — Megaptera novaeangliae alimenta-se no verão nas águas do Parque Marinho Francisco Coloane, junto à Ilha Carlos III.
- Golfinhos austrais — Golfinho-de-peale, golfinho-chileno e o toninha-de-commerson ocorrem nos canais, além de botos e orcas.
- Pinípedes — Colônias de leão-marinho-sul-americano na Ilha Marta e lobos-marinhos nos canais ocidentais.
- Centolha — Lithodes santolla, o caranguejo mais valioso da região, capturado com armadilhas em fundos de até 200 m.
Ilhas
O estreito é definido por ilhas: sua margem sul é formada por elas. A maior é a Ilha Grande da Terra do Fogo, com 47.992 km², dividida entre o Chile e a Argentina. A oeste do Cabo Froward o canal se desfaz entre Santa Inés, Clarence, Desolación e Capitán Aracena; no trecho oriental, ilhas pequenas como Magdalena, Marta e Isabel concentram a fauna reprodutiva.
- Ilha Grande da Terra do Fogo — 47.992 km²; a maior da América do Sul, com a divisa Chile–Argentina no meridiano 68° 36′ O.
- Ilha Dawson — Cerca de 1.290 km², entre o Seno Almirantazgo e o corpo do estreito.
- Ilha Magdalena — Pouco mais de 1 km², sede do monumento natural criado em 1966.
- Ilha Carlos III — Núcleo do Parque Marinho Francisco Coloane, área de alimentação de baleias-jubarte.
- Ilha Desolación — Guarda o Cabo Pilar, marco da saída ocidental.
Portos e rotas relevantes
Punta Arenas, fundada em 1848, é o centro portuário da passagem e a maior cidade da região, com cerca de 140 mil habitantes. Concentra a praticagem, a zona franca, o abastecimento das bases antárticas e o embarque de expedicionários. A norte dela, os terminais de Cabo Negro e da Bahía Gregorio movimentam metanol, petróleo e gás; na margem sul, Porvenir liga a Terra do Fogo chilena ao continente.
A função de rota interoceânica caiu drasticamente após 1914, quando o Canal do Panamá encurtou em milhares de milhas a ligação entre os dois oceanos. O tráfego atual é sobretudo regional, somado a navios de expedição que usam o estreito e o Canal de Beagle como aproximação para a Antártica. Navios ainda preferem a passagem ao Cabo Horn quando o mau tempo aconselha águas abrigadas.
| Local | Margem | Função predominante |
|---|---|---|
| Punta Arenas | Continental | Carga geral, cruzeiros e apoio antártico |
| Cabo Negro | Continental | Metanol, combustíveis e granéis industriais |
| Bahía Gregorio | Continental | Terminal petrolífero e de gás |
| Porvenir | Terra do Fogo | Balsas e pesca |
| Punta Delgada–Bahía Azul | Primeira Angostura | Travessia de balsas com veículos |
| Puerto del Hambre | Continental | Sítio histórico e fundeadouro abrigado |
Importância econômica
A economia regional apoia-se em quatro pilares: energia, pesca, criação de ovinos e turismo. A Bacia de Magalhães produz petróleo e gás desde 1945, com indústria química associada, e projetos de hidrogênio a partir de energia eólica vêm sendo avaliados para aproveitar os ventos permanentes. A pesca de centolha e de merluza-austral abastece exportação de alto valor, e a salmonicultura instalou-se nos canais em meio a controvérsia ambiental.
O turismo cresceu com a posição de porta de entrada da Antártica e com as áreas protegidas próximas. Punta Arenas mantém uma zona franca criada em 1977 e concentra serviços logísticos, reparação naval e apoio a operações científicas de vários países.
Importância ambiental
O estreito é uma das poucas passagens interoceânicas naturais do planeta e, por isso, um ponto de intercâmbio biológico entre o Atlântico sul-ocidental e o Pacífico sudeste. É também um arquivo climático: os sedimentos de seus fiordes registram o avanço e o recuo das geleiras patagônicas com resolução fina, e as que ainda descem ao mar na margem ocidental são monitoradas como indicadores de aquecimento.
A criação do Parque Marinho Francisco Coloane, em 2003, deu ao Chile sua primeira área marinha protegida desse tipo, voltada ao habitat de alimentação da baleia-jubarte. Em 2019 foi estabelecido o Parque Nacional Kawésqar, que com sua reserva nacional associada cobre dezenas de milhares de quilômetros quadrados de terras e canais no setor ocidental.
Problemas de conservação
A navegação é o risco central. Correntes de até 8 nós, canais estreitos e mau tempo persistente tornam o encalhe e o derramamento de hidrocarbonetos ameaças concretas, agravadas pela dificuldade de resposta em uma região remota e pouco povoada. O naufrágio do petroleiro Metula, em 1974, na Primeira Angostura, derramou dezenas de milhares de toneladas de óleo e deixou resíduos detectáveis nas marismas por décadas.
- Risco de derramamento — Petroleiros e terminais de combustível em canais de manobra difícil e resposta lenta.
- Salmonicultura — Concessões nos canais geram matéria orgânica no fundo, uso de antibióticos e escapes de peixes exóticos.
- Perturbação de cetáceos — Aproximação de embarcações e ruído afetam as jubartes do parque marinho.
- Espécies invasoras — O visão americano e o castor, introduzidos na Terra do Fogo, alteram margens e aves nidificantes.
- Recuo glacial — As geleiras dos fiordes ocidentais perdem massa e alteram o aporte de água doce.
Curiosidades
- Fernão de Magalhães entrou na passagem em 21 de outubro de 1520 e saiu no Pacífico em 28 de novembro, após 38 dias. Batizou o canal de Estreito de Todos os Santos, nome depois substituído pelo do navegador.
- O Cabo Froward, na margem norte do trecho central, é o ponto mais austral do continente americano; tudo o que fica ao sul dele são ilhas.
- A amplitude de maré cai de cerca de 9 m na boca atlântica para pouco mais de 1 m na saída do Pacífico, e as duas ondas se encontram perto do Cabo Froward.
- O Monumento Natural Los Pingüinos, criado em 1966 na Ilha Magdalena, protege mais de 100 mil casais de pinguins-de-magalhães em pouco mais de 1 km².
- O Parque Marinho Francisco Coloane, estabelecido em 2003 em torno da Ilha Carlos III, foi a primeira área marinha protegida dessa categoria no Chile, criada por causa das baleias-jubarte que se alimentam nos canais.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Strait of Magellan and Tierra del Fuego, 2023. Consultar publicação
- FAO. Fishery and Aquaculture Country Profiles — Chile, 2023. Consultar publicação
- União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação
- Protected Planet / PNUMA-WCMC. Base mundial de áreas protegidas — Parque Marino Francisco Coloane, 2025. Consultar publicação
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