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Região polar Oceano Antártico

Região Antártica

Continente coberto por gelo e mares austrais governados pelo Tratado da Antártida de 1959, sem população permanente e com mineração proibida desde 1998.

Mapa de localização de Região Antártica, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Visão circumpolar do extremo sul, com o continente ao centro e a faixa oceânica de aplicação do tratado.

A Região Antártica é o extremo sul do planeta: um continente de 14.000.000 km² quase inteiramente coberto por gelo, cercado pelo Oceano Antártico e isolado dos demais continentes pela Corrente Circumpolar Antártica. Ao contrário do Ártico, que é um oceano cercado por terras habitadas, a Antártida é uma massa continental sem população permanente, sem Estado soberano reconhecido e sem economia local. As únicas pessoas presentes são as que trabalham em estações de pesquisa e as que chegam em navios de expedição durante o verão austral.

O que torna a região singular não é apenas a geografia, mas o regime jurídico. O Tratado da Antártida, assinado em Washington em 1 de dezembro de 1959 e em vigor desde 23 de junho de 1961, reservou toda a área ao sul de 60° S a fins pacíficos, garantiu liberdade de pesquisa científica, proibiu atividades militares e ensaios nucleares e suspendeu as reivindicações territoriais existentes. O Protocolo de Madri, de 1991, acrescentou a proibição de qualquer atividade relativa a recursos minerais que não seja pesquisa científica. É o exemplo mais duradouro de governança internacional de um continente inteiro.

Ficha técnica

Nome
Região Antártica
Também chamado de
Antártica, Antártida e mares austrais
Tipo de formação
Região polar
Localização
Todo o setor do planeta ao sul de 60° S, área de aplicação do Tratado da Antártida, incluindo o continente antártico, as plataformas de gelo e os mares que o cercam.
Oceano de referência
Antártico
Continentes próximos
Antártida
Países e territórios
Nenhum Estado exerce soberania reconhecida. Sete países mantêm reivindicações territoriais suspensas pelo Tratado da Antártida: Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido. Cerca de trinta Estados operam estações, entre eles o Brasil, parte consultiva desde 1983.
Área aproximada
14.000.000 km²Área do continente; somando os mares ao sul de 60° S, a região de aplicação do tratado supera 50.000.000 km².
Profundidade média
Cerca de 3.270 mReferente ao Oceano Antártico.
Profundidade máxima
8.266 mAbismo Meteor, na Fossa Sandwich do Sul, medido em 2019.
Salinidade
33,5 a 34,7, com valores menores junto às áreas de degelo
Temperatura da superfície
De −10 °C no litoral no verão a −89,2 °C, mínimo registrado em Vostok em 1983
Linha de costa
Aproximadamente 17.968 km, em grande parte formada por frentes de gelo
Correntes principais
Corrente Circumpolar Antártica, Corrente Costeira Antártica, giros de Weddell e de Ross e formação de Água de Fundo Antártica.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

O limite mais usado é o paralelo 60° S, porque é ele que define a área de aplicação do Tratado da Antártida. Trata-se de uma fronteira jurídica, escolhida por conveniência política: passa ao sul das ilhas subantárticas reivindicadas por diversos Estados, o que permitiu deixá-las fora do regime. Não corresponde a nenhuma descontinuidade física do oceano ou da atmosfera.

O limite biológico é outro, e fica mais ao norte: a Convergência Antártica, faixa entre aproximadamente 48° S e 62° S onde as águas frias do sul mergulham sob as subantárticas. É essa linha que a Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos adota como fronteira de sua área de competência, porque é ela que separa de fato os ecossistemas antárticos dos temperados.

O continente propriamente dito divide-se em duas metades muito diferentes, separadas pelas Montanhas Transantárticas, que se estendem por cerca de 3.500 km. A Antártida Oriental é um escudo cratônico antigo, com o manto de gelo mais espesso e mais estável, cuja superfície ultrapassa 4.000 m de altitude no domo Argus. A Antártida Ocidental é um conjunto de blocos crustais com base majoritariamente abaixo do nível do mar, condição que a torna sensível à ação da água oceânica sob as plataformas de gelo flutuantes. A Península Antártica, que se projeta em direção à América do Sul, é a área mais quente e mais visitada.

Continentes e países próximos

Nenhum Estado tem soberania reconhecida sobre a Antártida. Sete países mantêm reivindicações territoriais formuladas antes de 1959: Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido. As de Argentina, Chile e Reino Unido se sobrepõem na Península Antártica. O artigo IV do tratado congelou a questão: nenhuma reivindicação é reconhecida, nenhuma é renunciada, e nenhum ato praticado enquanto o tratado vigorar pode ser invocado para sustentar ou negar pretensões. A Terra de Marie Byrd é o maior território não reivindicado do planeta. Estados Unidos e Rússia reservam-se o direito de apresentar reivindicações, sem tê-lo exercido.

O sistema conta com 58 partes, das quais 29 são partes consultivas, com direito a voto nas reuniões anuais. Essa condição exige demonstração de atividade científica substancial na região. O Brasil aderiu ao tratado em 1975 e tornou-se parte consultiva em 12 de setembro de 1983, após o início das operações do Programa Antártico Brasileiro, criado em 1982. A primeira expedição brasileira ocorreu no verão de 1982 e 1983, com os navios Barão de Teffé e Professor W. Besnard.

  • Reivindicações suspensas — Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido; as três primeiras do continente americano e europeu se sobrepõem na Península Antártica.
  • Terra de Marie Byrd — Setor entre 90° O e 150° O que nenhum Estado reivindica, o maior território sem pretensão soberana do planeta.
  • Brasil — Parte consultiva desde 1983; opera a Estação Antártica Comandante Ferraz na Baía do Almirantado, Ilha Rei George.
  • Partes consultivas — 29 Estados com direito a voto nas Reuniões Consultivas do Tratado da Antártida, condicionado à manutenção de atividade científica substancial.
  • Estações de pesquisa — Cerca de setenta estações permanentes ou de verão, operadas por aproximadamente trinta países, distribuídas sobretudo pela costa e pela Península.

Área e profundidade

O continente tem cerca de 14.000.000 km², área maior que a da Europa, e apenas algo em torno de 0,2% a 0,4% de sua superfície fica exposta como rocha livre de gelo. O manto de gelo antártico contém aproximadamente 26.500.000 km³ de gelo, o que corresponde a cerca de 60% a 70% de toda a água doce do planeta e a uma elevação potencial do nível do mar de cerca de 58 m, caso derretesse por inteiro.

A espessura média do gelo é de aproximadamente 2.100 m, e os levantamentos por radar indicam máximos próximos de 4.800 m em depressões subglaciais da Antártida Oriental. Sob esse peso, a crosta afundou centenas de metros, e boa parte do leito rochoso do setor ocidental está abaixo do nível do mar. A linha de costa, com cerca de 17.968 km, é formada em sua maior parte por frentes de gelo, não por rocha, e por isso muda de posição de ano para ano.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área do continente14.000.000 km²Cerca de 0,2% a 0,4% livre de gelo
Volume de geloCerca de 26.500.000 km³Aproximadamente 58 m de nível do mar equivalente
Espessura média do geloCerca de 2.100 mMáximos próximos de 4.800 m na Antártida Oriental
Temperatura mínima registrada−89,2 °CEstação Vostok, 21 de julho de 1983
Gelo marinho, máximo anualDe 18.000.000 km² a 19.000.000 km²Atingido em setembro
PopulaçãoDe 1.000 a 5.000 pessoasConforme a estação do ano; nenhuma residência permanente

Principais correntes

A Corrente Circumpolar Antártica é a maior corrente oceânica do planeta e a única que dá a volta completa ao globo sem encontrar barreira continental. Estimativas baseadas em fundeios na Passagem de Drake situam seu transporte em cerca de 173 Sv, volume várias vezes superior ao de qualquer outra corrente. Impulsionada pelos ventos de oeste, ela isola termicamente o continente desde a abertura da Passagem de Drake, há aproximadamente 34 a 30 milhões de anos, evento associado ao início da glaciação antártica.

Junto à costa, a Corrente Costeira Antártica corre em sentido oposto, de leste para oeste, empurrada pelos ventos catabáticos que descem do planalto. Entre as duas, dois grandes giros ciclônicos dominam os mares marginais: o de Weddell, no setor atlântico, e o de Ross, no pacífico. É neles que se forma a Água de Fundo Antártica, a massa de água mais densa do oceano mundial, produzida quando o congelamento em polínias costeiras expulsa sal e torna a água residual pesada o bastante para afundar pelo talude.

Essa água escorre pelo fundo em direção ao norte e preenche as camadas mais profundas do Atlântico, do Índico e do Pacífico, alcançando o hemisfério norte após séculos de percurso. Medições feitas desde a década de 1990 indicam que ela vem se tornando menos densa e ocupando um volume menor, o que sugere uma desaceleração do ramo inferior da circulação oceânica global.

Clima

A Antártida é o continente mais frio, mais seco e mais ventoso do planeta. O interior do planalto oriental registra médias anuais abaixo de −50 °C, e o recorde de superfície, −89,2 °C, foi medido em Vostok em 21 de julho de 1983. A precipitação é tão baixa que grande parte do continente se qualifica tecnicamente como deserto: menos de 50 mm de equivalente em água por ano no planalto. Ventos catabáticos, ar denso e frio que escorre do interior elevado em direção à costa, atingem rotineiramente mais de 200 km/h em setores como a Terra de Adélia.

A Península Antártica é a exceção. Sua latitude mais baixa e a influência oceânica produzem verões acima de 0 °C, e ela foi uma das áreas de aquecimento mais rápido do planeta na segunda metade do século XX. O recorde de temperatura do continente, 18,3 °C, foi registrado na base argentina Esperanza em 6 de fevereiro de 2020.

A camada de ozônio estratosférica sobre a região é objeto de um dos episódios mais bem documentados da ciência ambiental. A perda sazonal de ozônio na primavera austral foi identificada a partir de dados de longo prazo coletados na estação britânica Halley e publicada em 1985. A resposta foi o Protocolo de Montreal, adotado em 1987 e em vigor desde 1989, que eliminou progressivamente as substâncias responsáveis. O buraco atingiu extensão recorde de cerca de 29.600.000 km² em setembro de 2006 e, desde então, mostra sinais consistentes de recuperação, com retorno aos níveis de 1980 projetado para meados do século.

Ecossistemas

Em terra, a vida é escassa e concentrada nas franjas livres de gelo. Apenas duas plantas vasculares nativas ocorrem no continente, a gramínea Deschampsia antarctica e a cariofilácea Colobanthus quitensis, ambas restritas à Península e a ilhas próximas. O restante é domínio de líquens, musgos, algas de neve e de uma fauna de invertebrados microscópicos. Os Vales Secos de McMurdo, sem chuva significativa há milhares de anos, abrigam comunidades microbianas no interior de rochas porosas e são usados como análogo terrestre de ambientes marcianos.

Sob o gelo existe um segundo mundo. Levantamentos por radar identificaram mais de 600 lagos subglaciais, entre eles o Vostok, com cerca de 15.700 km² e isolado da atmosfera por milhões de anos sob quase 4.000 m de gelo. Perfurações que alcançaram o Lago Whillans em 2013 recuperaram comunidades microbianas ativas, confirmando a existência de biosfera sob o manto de gelo.

No mar está a maior parte da biomassa. A plataforma continental antártica é profunda, entre 400 m e 800 m, por causa do afundamento crustal, e abriga comunidades bentônicas de esponjas, briozoários, crinoides e estrelas-do-mar de crescimento muito lento. Na coluna de água, o sistema gira em torno de uma única espécie: o krill antártico, Euphausia superba, que converte a produção do fitoplâncton em alimento para praticamente todos os predadores da região.

Biodiversidade

A cadeia alimentar antártica é curta e concentrada. Poucos elos separam o fitoplâncton dos grandes predadores, e a maior parte do fluxo de energia passa pelo krill, cuja biomassa é estimada em centenas de milhões de toneladas. Essa simplicidade estrutural torna o sistema produtivo, mas também vulnerável: mudanças na abundância de uma única espécie propagam-se rapidamente por todos os níveis.

  • Krill antárticoEuphausia superba, base da cadeia alimentar; levantamentos sinópticos estimaram mais de 60 milhões de toneladas apenas no setor atlântico.
  • Pinguim-imperadorAptenodytes forsteri reproduz-se sobre o gelo marinho durante o inverno; a perda de gelo antes da emancipação dos filhotes causou falhas reprodutivas totais em colônias do Mar de Bellingshausen em 2022.
  • Pinguins-de-adélia e papuaPygoscelis adeliae e Pygoscelis papua mostram tendências opostas na Península: o primeiro recua, o segundo avança para o sul.
  • Foca-de-weddell e foca-caranguejeiraLeptonychotes weddellii mantém buracos de respiração no gelo com os dentes; Lobodon carcinophaga filtra krill com dentes multilobados e é uma das focas mais numerosas do mundo.
  • Baleia-azul e baleia-jubarte — A caça comercial reduziu a população antártica de Balaenoptera musculus intermedia a poucos milhares; jubartes vêm se recuperando de forma mais rápida.
  • Peixes com anticongelante — Nototéniídeos produzem glicoproteínas que impedem o crescimento de cristais de gelo no sangue, adaptação que permitiu a ocupação de águas a −1,9 °C.

Ilhas

As ilhas antárticas dividem-se em dois conjuntos. O primeiro é o das ilhas costeiras e continentais, muitas delas cercadas por gelo permanente, como as Shetland do Sul, as Órcades do Sul, a Ilha Alexandre I e a Ilha de Ross. O segundo é o das ilhas subantárticas, situadas ao norte de 60° S e portanto fora da área do tratado, sob soberania de diversos Estados.

  • Ilha Rei George — 1.150 km², a maior das Shetland do Sul; concentra estações de mais de dez países, entre elas a brasileira Comandante Ferraz, e é o principal ponto de entrada aérea da região.
  • Ilha Alexandre I — 49.070 km², a maior da Antártida e a segunda maior ilha desabitada do mundo, ligada à Península por uma plataforma de gelo.
  • Ilha de Ross — Abriga o vulcão ativo Erebus, com 3.794 m e um lago de lava persistente, além das estações McMurdo e Scott.
  • Ilhas Órcades do Sul — Local da estação Orcadas, da Argentina, em operação contínua desde 1904, a mais antiga da Antártida.
  • Ilha Decepção — Caldeira vulcânica inundada nas Shetland do Sul, com erupções registradas em 1967, 1969 e 1970 que destruíram estações ali instaladas.
  • Ilhas subantárticas — Geórgia do Sul, Sandwich do Sul, Bouvet, Heard e McDonald, Kerguelen, Crozet e Macquarie, todas ao norte de 60° S e fora da área do tratado.

Portos e rotas relevantes

Não existem portos comerciais na Antártida, nem cidades portuárias. O acesso se dá por fundeadouros, píeres improvisados, descarga sobre o gelo marinho e pistas de pouso em neve compactada ou em cascalho. Os principais pontos de atracação ficam na Ilha Rei George, na Baía do Almirantado e em Maxwell, na Ilha de Ross, junto a McMurdo, e na Baía Prydz, no setor australiano.

A logística depende de portas de entrada situadas fora da região: Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile, servem à Península e ao setor atlântico; Hobart, na Austrália, e Christchurch, na Nova Zelândia, ao setor do Mar de Ross; e Cidade do Cabo, na África do Sul, ao setor índico. É desses portos que partem os navios de pesquisa, os cargueiros de reabastecimento e a quase totalidade dos cruzeiros de expedição.

O Brasil opera a Estação Antártica Comandante Ferraz, inaugurada em 6 de fevereiro de 1984 na Baía do Almirantado, Ilha Rei George. Um incêndio em 25 de fevereiro de 2012 destruiu a maior parte das instalações e matou dois militares; a nova estação, com cerca de 4.500 m² e capacidade para 64 pessoas, foi inaugurada em 15 de janeiro de 2020. O apoio naval é prestado pelo navio polar Almirante Maximiano e pelo navio de apoio oceanográfico Ary Rongel, no âmbito do Programa Antártico Brasileiro.

Acessos, bases e portas de entrada
ElementoLocalizaçãoFunção
UshuaiaArgentinaPrincipal porta de entrada para a Península e para os cruzeiros de expedição
Punta ArenasChileApoio logístico e aéreo ao setor da Península
HobartAustráliaBase logística para o setor do Mar de Ross e da Terra de Wilkes
ChristchurchNova ZelândiaPonte aérea para McMurdo e Scott, na Ilha de Ross
Comandante FerrazIlha Rei GeorgeEstação brasileira reinaugurada em 2020, com 4.500 m² e capacidade para 64 pessoas
McMurdoIlha de RossMaior base do continente, com mais de mil pessoas no verão austral

Importância econômica

Não há economia interna na Antártida: nenhuma moeda circula, nenhuma empresa se estabelece e nenhum recurso mineral pode ser explorado. O Protocolo de Madri, assinado em 4 de outubro de 1991 e em vigor desde 14 de janeiro de 1998, designa a região como reserva natural dedicada à paz e à ciência e, em seu artigo 7, proíbe qualquer atividade relativa a recursos minerais que não seja pesquisa científica. A proibição é indefinida; a partir de 2048 qualquer parte consultiva pode solicitar uma conferência de revisão, mas a modificação exigiria maioria qualificada e a adoção de um regime jurídico substitutivo, condições que tornam a alteração improvável.

As duas atividades econômicas permitidas ocorrem no mar e na superfície. A pesca é regulada pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, criada por convenção de 1980 e em funcionamento desde 1982, com sede em Hobart. As capturas concentram-se em krill, com desembarques da ordem de 400 a 500 mil toneladas anuais no setor atlântico, e em merluza-negra, pescada por espinhel. A comissão foi pioneira na adoção de uma abordagem de ecossistema: as cotas consideram as necessidades dos predadores, e não apenas a biomassa do recurso.

O turismo cresceu de forma acelerada. Operado quase inteiramente por navios de expedição saídos de Ushuaia, levou mais de 100 mil visitantes por temporada a partir de 2022 e 2023, número que era de poucos milhares na década de 1990. A atividade é autorregulada pela associação internacional de operadores, com limites de desembarque simultâneo, protocolos de bioerradicação e distâncias mínimas da fauna, mas não há teto global de visitantes fixado pelo sistema do tratado.

Importância ambiental

O manto de gelo antártico é a maior reserva de água doce do planeta e o principal fator de incerteza nas projeções de elevação do nível do mar. As perdas concentram-se no setor ocidental, sobretudo nas geleiras Thwaites e Pine Island, que drenam bacias com leito abaixo do nível do mar e estão expostas à água oceânica relativamente quente que circula sob suas plataformas flutuantes. A desintegração da plataforma Larsen B, em 2002, em pouco mais de um mês, mostrou que essas estruturas podem colapsar em escalas de tempo muito curtas.

O gelo marinho antártico teve comportamento distinto do ártico até meados da década de 2010: sua extensão oscilava sem tendência clara e chegou a um máximo recorde em 2014. A partir de 2016, a situação mudou de forma abrupta, com mínimos anuais sucessivamente mais baixos, incluindo os de 2017, 2022 e o recorde de fevereiro de 2023, quando a extensão caiu abaixo de 1.800.000 km². O máximo de inverno de 2023 também foi o menor já observado. A causa exata da mudança de regime ainda é discutida.

A região é, além disso, um arquivo climático de primeira ordem. Testemunhos de gelo extraídos em Vostok e no domo C forneceram registros contínuos de temperatura e de composição atmosférica de até 800 mil anos, e foi a partir deles que se estabeleceu a relação entre dióxido de carbono e temperatura ao longo dos ciclos glaciais. Perfurações em busca de gelo com mais de um milhão de anos estão em andamento na Antártida Oriental.

Problemas de conservação

A proteção marinha avançou pela via da comissão de conservação. Em 2009 foi criada a primeira área marinha protegida inteiramente em alto-mar do mundo, na plataforma sul das Órcades do Sul, com cerca de 94.000 km². Em 2016, após anos de negociação, foi adotada a Área Marinha Protegida da Região do Mar de Ross, com 1.550.000 km², a maior do planeta à época de sua criação, vigente desde dezembro de 2017. Novas propostas para o Mar de Weddell, a Península Antártica e o setor leste tramitam há anos sem alcançar o consenso exigido.

Em terra, o Protocolo de Madri estabelece um regime de avaliação de impacto para toda atividade, obriga à remoção de resíduos e proíbe a introdução de espécies não nativas. Áreas especialmente protegidas e áreas especialmente geridas, designadas em anexos ao protocolo, restringem o acesso a locais de valor científico, histórico ou ecológico particular.

  • Instabilidade do manto ocidental — As geleiras Thwaites e Pine Island drenam bacias com leito abaixo do nível do mar e concentram a maior parte da perda de massa do continente.
  • Queda do gelo marinho desde 2016 — Mínimos recordes sucessivos alteraram o habitat reprodutivo de pinguins-imperadores e a área de floração na borda do gelo.
  • Pesca de krill concentrada — A captura se agrupa em poucas áreas da Península, justamente onde predadores se alimentam durante a criação dos filhotes.
  • Espécies introduzidas — Sementes, invertebrados e microrganismos transportados em roupas, calçados e cargas ameaçam ambientes sem defesas contra competidores.
  • Pressão do turismo — Mais de 100 mil visitantes por temporada concentram-se em poucos sítios de desembarque da Península, sem limite global fixado pelo sistema do tratado.
  • Poluentes de longo alcance — Microplástico e poluentes orgânicos persistentes foram detectados em neve, água e fauna do continente mais isolado do planeta.

Curiosidades

  1. A temperatura mais baixa já medida na superfície do planeta, −89,2 °C, foi registrada na estação russa Vostok em 21 de julho de 1983. Medições indiretas por satélite chegaram a valores próximos de −98 °C em depressões do planalto oriental, mas não são comparáveis a leituras instrumentais abrigadas.
  2. A perda sazonal de ozônio sobre a Antártida foi identificada a partir de séries de longo prazo medidas na estação britânica Halley e publicada em 1985. Dois anos depois foi adotado o Protocolo de Montreal, e o buraco atingiu extensão recorde de cerca de 29.600.000 km² em setembro de 2006.
  3. Existem mais de 600 lagos de água líquida sob o manto de gelo antártico. O maior deles, o Vostok, tem cerca de 15.700 km² e permaneceu isolado da atmosfera por milhões de anos sob quase 4.000 m de gelo.
  4. A estação Orcadas, da Argentina, nas Ilhas Órcades do Sul, opera de forma contínua desde 1904 e é a mais antiga em funcionamento na Antártida. A brasileira Comandante Ferraz foi inaugurada em 1984, destruída por incêndio em 2012 e reinaugurada em 15 de janeiro de 2020.
  5. Em fevereiro de 2023, a extensão do gelo marinho antártico caiu abaixo de 1.800.000 km², o menor valor de toda a série de medições por satélite iniciada em 1979. O máximo de inverno daquele mesmo ano também foi o menor já observado.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Secretaria do Tratado da Antártida. Antarctic Treaty e Protocolo de Proteção Ambiental, 1991. Consultar publicação
  2. CCAMLR. Conservation measures and marine protected areas, 2024. Consultar publicação
  3. NSIDC — National Snow and Ice Data Center. Antarctic Sea Ice News and Analysis, 2025. Consultar publicação
  4. Marinha do Brasil. Programa Antártico Brasileiro e Estação Antártica Comandante Ferraz, 2024. Consultar publicação
  5. PNUMA — Secretaria do Ozônio. Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, 2023. Consultar publicação
  6. Earth Observatory — NASA. Antarctic ice sheet mass balance and ozone hole monitoring, 2024. Consultar publicação
  7. IUCN Red List. Aptenodytes forsteri e Balaenoptera musculus intermedia, 2023. Consultar publicação

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