Oceano Ártico
O menor e mais raso dos oceanos, com 14,06 milhões de km² cobertos por gelo marinho em retração acelerada e cercados por cinco Estados costeiros.
O Oceano Ártico é o menor e o mais raso dos cinco oceanos. Seus 14.056.000 km² equivalem a menos de um décimo da área do Pacífico, e sua profundidade média, de cerca de 1.205 m, resulta da presença de plataformas continentais excepcionalmente largas: a plataforma siberiana avança mais de 1.000 km mar adentro e é a mais extensa do planeta. No centro da bacia, o Polo Norte geográfico fica sobre água com cerca de 4.260 m de profundidade.
É também o oceano mais transformado pelo aquecimento global. A cobertura de gelo marinho, medida por satélite de forma contínua desde 1978, encolheu de maneira sistemática no fim de cada verão, e a região aquece a um ritmo várias vezes superior à média do planeta. Essa mudança reorganiza ecossistemas, expõe rotas de navegação antes intransitáveis e reacende disputas sobre os limites das plataformas continentais sob o leito polar.
Ficha técnica
- Nome
- Oceano Ártico
- Também chamado de
- Ártico, Mar Glacial Ártico
- Tipo de formação
- Oceano
- Localização
- Ao norte do Círculo Polar Ártico, entre o norte do Canadá e da Groenlândia, a Escandinávia e a costa siberiana, com o Polo Norte geográfico no centro da bacia.
- Oceano de referência
- Ártico
- Continentes próximos
- Europa, Ásia, América do Norte
- Países e territórios
- Canadá, Dinamarca por meio da Groenlândia, Noruega, Rússia e Estados Unidos, pelo Alasca, são os cinco Estados com litoral. Islândia, Suécia e Finlândia integram o sistema político ártico sem costa no oceano propriamente dito.
- Área aproximada
- 14.056.000 km²Cerca de 4% da superfície oceânica mundial. Compilações que incluem o Mar da Noruega e o Mar da Groenlândia chegam a aproximadamente 15.558.000 km².
- Profundidade média
- 1.205 m
- Profundidade máxima
- 5.550 mAbismo de Molloy, no Estreito de Fram, entre a Groenlândia e Svalbard.
- Volume
- Cerca de 18,75 milhões de km³
- Salinidade
- 30 a 34, a mais baixa entre os oceanos
- Temperatura da superfície
- De −1,8 °C sob o gelo a cerca de 6 °C nos setores costeiros no verão
- Linha de costa
- Aproximadamente 45.390 km
- Correntes principais
- Deriva Transpolar, Giro de Beaufort, Corrente da Groenlândia Oriental, Corrente do Atlântico Norte e influxo do Pacífico pelo Estreito de Bering.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A Organização Hidrográfica Internacional delimita o Ártico por linhas que atravessam o Estreito de Bering e que o separam do Atlântico ao longo do Estreito de Fram, do Estreito da Dinamarca e das passagens do arquipélago canadense. Alguns levantamentos incorporam o Mar da Noruega e o Mar da Groenlândia ao Ártico; outros os atribuem ao Atlântico, o que explica boa parte da variação nos números de área publicados.
O oceano é quase inteiramente formado por mares marginais rasos: Barents, Kara, Laptev, Siberiano Oriental, Chukchi, Beaufort, Lincoln e Branco. A porção central divide-se em duas metades por um sistema de cadeias submarinas. A dorsal Lomonossov, com cerca de 1.800 km entre a Sibéria e a Ilha de Ellesmere, eleva-se até 3.700 m acima do leito e separa a Bacia Eurasiana da Bacia Amerasiana. A leste dela corre a dorsal Gakkel, o limite de placas com a menor taxa de expansão conhecida, inferior a 1 cm por ano.
Continentes e países próximos
Cinco Estados têm litoral ártico e, com ele, zonas econômicas exclusivas sobre a bacia. Somam-se Islândia, Suécia e Finlândia no Conselho do Ártico, criado em 1996 como principal foro regional, do qual participam também seis organizações de povos indígenas. Cerca de quatro milhões de pessoas vivem na região circumpolar, entre elas inuítes, sámis, chukchis e nenets, com economias historicamente ligadas ao gelo marinho.
- Rússia — Detém o litoral mais extenso, da península de Kola ao Estreito de Bering, e a mais larga plataforma continental do planeta.
- Canadá — Controla o arquipélago ártico e as passagens que formam a rota do Noroeste, cuja natureza jurídica contesta com os Estados Unidos.
- Dinamarca e Groenlândia — Respondem pela margem que vai do Mar da Groenlândia à Baía de Baffin e apresentaram reivindicação sobre a dorsal Lomonossov.
- Noruega e Estados Unidos — Ocupam, respectivamente, o setor de Svalbard e do Mar de Barents e a costa norte do Alasca.
Área e profundidade
Nenhum outro oceano tem proporção tão alta de águas rasas: cerca de metade da área do Ártico fica sobre plataforma continental com menos de 200 m de profundidade. O volume total, de aproximadamente 18,75 milhões de km³, corresponde a pouco mais de 1% da água marinha do planeta, mas a bacia recebe cerca de 11% de toda a descarga fluvial mundial, o que explica sua salinidade baixa e a forte estratificação da camada superficial.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 14.056.000 km² | O menor dos cinco oceanos |
| Volume | 18,75 milhões de km³ | Pouco mais de 1% da água marinha |
| Profundidade média | 1.205 m | A menor entre os oceanos |
| Profundidade máxima | 5.550 m | Abismo de Molloy, Estreito de Fram |
| Profundidade no Polo Norte | 4.261 m | Medida na Bacia Eurasiana |
| Linha de costa | 45.390 km | Inclui arquipélagos e mares marginais |
Principais correntes
A circulação superficial do Ártico organiza-se em dois sistemas complementares. O Giro de Beaufort, anticiclônico, gira no sentido horário sobre a bacia canadense e funciona como reservatório: os ventos empurram a água doce superficial para o centro do giro, onde ela se acumula em uma lente que já reteve mais de 20.000 km³ de água doce em excesso.
A Deriva Transpolar atravessa a bacia da plataforma siberiana em direção ao Estreito de Fram, transportando gelo marinho e água doce para fora do oceano. Foi essa corrente que Fridtjof Nansen explorou ao deixar o navio Fram preso no gelo entre 1893 e 1896, deixando-o à deriva pela calota polar. O gelo que sai por Fram deságua na Corrente da Groenlândia Oriental e se desfaz no Atlântico Norte.
Em profundidade, água atlântica quente e salgada entra pelo Estreito de Fram e pelo Mar de Barents e circula sob a camada superficial fria, entre cerca de 200 m e 900 m. Desde a década de 2000 essa camada aproximou-se da superfície no setor eurasiano, fenômeno descrito como atlantificação, que reduz a estratificação e dificulta a formação de gelo.
Clima
A cobertura de gelo marinho é a variável que define o clima ártico. A série contínua de satélites com sensores de micro-ondas passivas, mantida desde novembro de 1978 pelo centro de dados de neve e gelo dos Estados Unidos, mostra que a extensão mínima de setembro recua cerca de 12% por década em relação à média de 1981 a 2010. O mínimo histórico foi registrado em 16 de setembro de 2012, com 3,39 milhões de km². A perda de gelo espesso de vários anos foi ainda mais acentuada que a de área.
Esse recuo alimenta a amplificação ártica: quando o gelo branco, que reflete a maior parte da radiação solar, é substituído por água escura, a absorção de calor aumenta e o aquecimento se retroalimenta. Estudos publicados na década de 2020 estimam que a região aqueceu entre duas e quatro vezes mais rápido que a média global desde 1979. Suspeita-se que o enfraquecimento do contraste térmico com as latitudes médias altere a trajetória da corrente de jato, mas a magnitude do efeito segue em debate.
Ecossistemas
A vida ártica está organizada em torno do gelo. Algas do gênero Melosira e diatomáceas que crescem na face inferior das placas iniciam a produção primária antes mesmo do degelo e sustentam uma cadeia curta e eficiente: microalgas, copépodes ricos em gordura, o bacalhau-polar Boreogadus saida e, no topo, focas, morsas, cetáceos e o urso-polar.
As plataformas siberiana e norte-americana recebem enormes volumes de matéria orgânica dos rios Ob, Ienissei, Lena e Mackenzie, o que torna seus sedimentos particularmente ricos e cria um dos maiores estoques de carbono orgânico costeiro do planeta. Em contraste, a bacia central profunda é um dos ambientes marinhos menos produtivos conhecidos, coberto por gelo durante a maior parte do ano.
Biodiversidade
O número de espécies é baixo em comparação com os oceanos tropicais, mas o grau de especialização é extremo: muitos organismos árticos dependem diretamente da presença de gelo em alguma fase do ciclo de vida, o que os torna particularmente vulneráveis à retração da cobertura.
- Urso-polar — Ursus maritimus, com população global estimada entre 22.000 e 31.000 indivíduos, caça focas a partir do gelo marinho e é classificado como vulnerável.
- Baleia-da-groenlândia — Balaena mysticetus vive exclusivamente em águas árticas e subárticas e figura entre os mamíferos mais longevos conhecidos, com indivíduos que passam de 200 anos.
- Narval — Monodon monoceros, cujo dente canino esquerdo forma uma presa espiralada de até 3 m, concentra-se na Baía de Baffin e no leste da Groenlândia.
- Morsa — Odobenus rosmarus alimenta-se de bivalves na plataforma e usa o gelo como plataforma de descanso, o que a obriga a agrupamentos costeiros massivos quando o gelo recua.
- Bacalhau-polar — Boreogadus saida é a espécie-chave da cadeia alimentar ártica, com proteínas anticongelantes que permitem viver em água abaixo de zero.
Ilhas
O Ártico é cercado por arquipélagos extensos, quase todos de origem continental e cobertos por calotas glaciais ou tundra, que servem de bases de pesquisa e de referência para a delimitação de zonas econômicas exclusivas.
- Ilha de Baffin — 507.451 km², a maior do arquipélago ártico canadense e a quinta maior do mundo.
- Ilha de Ellesmere — 196.236 km², a terra mais setentrional do Canadá, ponto de apoio das reivindicações sobre a dorsal Lomonossov.
- Svalbard — Arquipélago norueguês regido por tratado de 1920 que garante direitos econômicos a dezenas de Estados signatários.
- Nova Zembla — Arquipélago russo que separa o Mar de Barents do Mar de Kara, usado como área de testes nucleares entre 1955 e 1990.
- Ilha Wrangel — Reserva russa no Mar Siberiano Oriental, sítio do Patrimônio Mundial e principal área de reprodução de ursos-polares da região.
Portos e rotas relevantes
A retração do gelo abriu duas rotas historicamente inviáveis. A Rota Marítima do Norte, ao longo da costa siberiana, encurta a viagem entre o noroeste europeu e o Leste Asiático de cerca de 21.000 km, pelo Canal de Suez, para aproximadamente 13.000 km, e passou a receber tráfego comercial regular no verão, com apoio de uma frota russa de quebra-gelos nucleares. A Passagem do Noroeste, pelo arquipélago canadense, é mais rasa e sinuosa e permanece de uso marginal.
A navegação polar é regulada desde 2017 pelo Código Polar da Organização Marítima Internacional, que impõe exigências de casco, treinamento e gestão de resíduos. Murmansk, livre de gelo o ano inteiro graças à água atlântica, é o maior porto ártico; Sabetta, na península de Yamal, foi construída para exportar gás natural liquefeito.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Murmansk | Rússia | Maior porto ártico, livre de gelo o ano inteiro |
| Sabetta | Rússia | Exportação de gás natural liquefeito |
| Dudinka | Rússia | Escoamento de níquel e cobre de Norilsk |
| Arkhangelsk | Rússia | Madeira e carga geral no Mar Branco |
| Longyearbyen | Noruega | Base logística e científica em Svalbard |
| Nuuk | Groenlândia | Principal terminal groenlandês |
Importância econômica
A pesca ártica concentra-se nas bordas mais quentes da bacia. O Mar de Barents abriga o maior estoque de bacalhau do mundo, gerido conjuntamente por Noruega e Rússia, e o Mar de Bering sustenta pescarias de escamudo de grande volume. Na bacia central, um acordo assinado em 2018 e em vigor desde 2021 proíbe a pesca comercial em cerca de 2,8 milhões de km² de alto-mar por um período inicial de dezesseis anos, medida preventiva adotada antes que a atividade se torne viável.
O subsolo é a principal fonte de interesse econômico. Uma avaliação geológica publicada em 2008 estimou que a região ao norte do Círculo Polar Ártico poderia conter cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural ainda não descobertos do planeta, a maior parte em águas com menos de 500 m. Somam-se a mineração de níquel, cobre e diamantes no norte russo e canadense e um turismo de expedição em crescimento.
Importância ambiental
A dorsal Lomonossov está no centro da principal disputa jurídica do oceano. Rússia, Dinamarca e Canadá sustentam perante a Comissão de Limites da Plataforma Continental das Nações Unidas que a cadeia é o prolongamento natural de seus territórios, o que lhes daria direitos sobre o leito e o subsolo muito além das 200 milhas náuticas. As reivindicações se sobrepõem no setor polar, e a Comissão avalia apenas o mérito geológico, sem decidir limites entre Estados. O plantio de uma bandeira russa no leito do Polo Norte, em 2007, deu visibilidade política à questão sem efeito jurídico.
A costa ártica é a que mais rapidamente recua no mundo. O degelo do permafrost costeiro remove a coesão do solo e, combinado à ausência de gelo marinho que antes amortecia as ondas de outono, provoca erosão de vários metros por ano em trechos do Alasca e da Sibéria, com deslocamento de comunidades inteiras.
O Ártico é ainda sumidouro de poluentes emitidos longe dali: correntes atmosféricas e marinhas trazem mercúrio e poluentes orgânicos persistentes que se acumulam na cadeia alimentar rica em gordura, e populações dependentes de caça marinha tradicional estão entre as mais expostas do planeta a esses compostos.
Problemas de conservação
A retração do gelo é ao mesmo tempo causa e sintoma. A perda de plataforma de caça reduz a condição corporal e o sucesso reprodutivo de ursos-polares em várias subpopulações, sobretudo no Mar de Beaufort meridional e na Baía de Hudson, enquanto o avanço de espécies subárticas, como o bacalhau-do-atlântico e a cavala, reorganiza as comunidades do Mar de Barents em um processo de borealização.
A governança avançou por instrumentos setoriais, e não por um tratado abrangente como o do sistema antártico: o Conselho do Ártico coordena avaliações científicas e acordos de busca e salvamento, a Organização Marítima Internacional regula a navegação, e a moratória de pesca no alto-mar central é o exemplo mais citado de precaução em escala oceânica.
- Derramamentos em gelo — Não há tecnologia comprovada para conter óleo sob cobertura de gelo, o que torna a resposta a acidentes especialmente difícil na região.
- Ruído e tráfego — O aumento da navegação eleva o ruído submarino em uma bacia historicamente silenciosa, com efeitos sobre narvais e baleias-da-groenlândia.
- Carbono do permafrost — O degelo do permafrost submarino e costeiro libera carbono acumulado por milênios, com contribuição ainda mal quantificada para o balanço climático.
- Áreas protegidas — A reserva de Wrangel, o Parque Nacional do Nordeste da Groenlândia e áreas marinhas canadenses cobrem parte da bacia, mas o alto-mar central segue sem proteção espacial formal.
Curiosidades
- A dorsal Gakkel expande-se a menos de 1 cm por ano, a taxa mais lenta conhecida entre limites divergentes de placas, e por isso expõe rochas do manto diretamente no leito oceânico.
- Entre 1893 e 1896, Fridtjof Nansen deixou deliberadamente o navio Fram ser aprisionado pelo gelo ao norte da Sibéria para comprovar a Deriva Transpolar, que o levou às proximidades do Polo Norte.
- Em 2012, a extensão de gelo marinho no fim do verão caiu a 3,39 milhões de km², cerca de metade da média registrada nas décadas de 1980 e 1990.
- O Polo Norte geográfico não fica sobre terra firme: abaixo do gelo há 4.261 m de água, profundidade medida durante campanhas de pesquisa na Bacia Eurasiana.
- O Tratado de Svalbard, assinado em 1920, reconhece a soberania norueguesa sobre o arquipélago, mas garante a dezenas de Estados signatários direitos iguais de exploração econômica, condição sem paralelo no direito internacional.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- National Snow and Ice Data Center. Arctic Sea Ice News and Analysis — série de extensão de gelo marinho, 2026. Consultar publicação
- NOAA — Arctic Program. Arctic Report Card, 2025. Consultar publicação
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- GEBCO. International Bathymetric Chart of the Arctic Ocean, 2024. Consultar publicação
- USGS. Circum-Arctic Resource Appraisal: estimativas de petróleo e gás não descobertos, 2008. Consultar publicação
- Organização Marítima Internacional. International Code for Ships Operating in Polar Waters, 2017. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Arctic amplification e monitoramento do gelo marinho, 2025. Consultar publicação
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