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Região polar Oceano Ártico

Região Ártica

Extremo norte do planeta, definido por círculo polar, isoterma de julho ou limite arbóreo, com oito Estados, cerca de 4 milhões de habitantes e gelo em recuo.

Mapa de localização de Região Ártica, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Visão circumpolar do extremo norte, com o oceano central cercado pelas margens da Eurásia e da América do Norte.

A Região Ártica é o conjunto formado pelo Oceano Ártico, pelos mares marginais que o cercam e pelas terras circumpolares da Eurásia e da América do Norte. Ao contrário da Antártida, que é um continente cercado por oceano, o Ártico é um oceano cercado por continentes, e essa inversão explica quase tudo o que distingue os dois polos: no norte há povos originários, Estados soberanos, cidades, estradas, minas e portos; no sul, nenhuma população permanente. A superfície marinha é coberta por gelo flutuante que se expande no inverno e recua no verão, e as terras em volta são dominadas por tundra e permafrost.

A definição de onde o Ártico começa não é única. O Círculo Polar Ártico, a 66°34′ N, é o limite astronômico; a isoterma de 10 °C do mês mais quente é o limite climático; o limite da vegetação arbórea é o limite biológico. As três linhas não coincidem, e por isso a área atribuída à região varia entre cerca de 14 e mais de 30 milhões de quilômetros quadrados. Oito Estados a compartilham, cerca de quatro milhões de pessoas vivem nela, e nas últimas décadas ela aqueceu várias vezes mais rápido que o restante do planeta.

Ficha técnica

Nome
Região Ártica
Também chamado de
Ártico, Alto Norte
Tipo de formação
Região polar
Localização
Todo o setor do planeta ao norte de aproximadamente 60° N a 66°34′ N, conforme a definição adotada, incluindo o Oceano Ártico, a Groenlândia, o norte da Escandinávia, da Sibéria, do Alasca e do Canadá.
Oceano de referência
Ártico
Continentes próximos
Europa, Ásia, América do Norte
Países e territórios
Oito Estados árticos: Canadá, Dinamarca com a Groenlândia e as Ilhas Faroé, Estados Unidos pelo Alasca, Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia e Suécia. Cinco deles têm costa no Oceano Ártico: Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Noruega e Rússia.
Área aproximada
Cerca de 21.000.000 km²Conjunto de mar e terra ao norte do Círculo Polar Ártico; delimitações biogeográficas chegam a mais de 30.000.000 km².
Profundidade média
Cerca de 1.200 mReferente ao Oceano Ártico, cuja área é dominada por plataformas rasas.
Profundidade máxima
Cerca de 5.550 mAbismo Molloy, no Estreito de Fram; a bacia central ártica atinge cerca de 4.400 m.
Salinidade
30 a 34 na camada superficial, muito influenciada pelo aporte fluvial
Temperatura da superfície
De cerca de −40 °C no inverno continental a mais de 20 °C no verão de setores subárticos
Linha de costa
Aproximadamente 45.000 km, a maior parte em ilhas e deltas
Correntes principais
Corrente Transpolar de Deriva, Giro de Beaufort, entrada de água atlântica pelo Estreito de Fram e pelo Mar de Barents e entrada de água do Pacífico pelo Estreito de Bering.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

O Círculo Polar Ártico marca a latitude a partir da qual existe pelo menos um dia por ano em que o Sol não se põe e um em que não nasce. Sua posição não é fixa: oscila alguns metros por ano com a inclinação do eixo terrestre, e em 2026 encontra-se em torno de 66°33′ N. É o critério mais simples, e o que delimita a área frequentemente citada de cerca de 21 milhões de quilômetros quadrados entre mar e terra, mas é puramente geométrico e não tem relação com clima ou vegetação.

A isoterma de 10 °C de julho, proposta como critério climático, contorna uma área muito diferente. Desce até cerca de 53° N na Baía de Hudson e no Mar de Bering, onde correntes frias empurram o clima ártico para o sul, e sobe acima de 70° N no norte da Noruega, onde a Corrente Norueguesa mantém a costa amena e sem gelo. É por isso que Murmansk, a 68°58′ N, é um porto livre de gelo o ano inteiro, enquanto localidades bem mais ao sul do Canadá vivem cercadas de gelo por meses.

O limite da vegetação arbórea, a faixa de transição entre a taiga e a tundra, aproxima-se bastante da isoterma de julho, porque árvores não conseguem completar o ciclo onde o verão é curto e frio demais. Os programas de trabalho da região usam recortes próprios: o grupo de monitoramento ambiental do Conselho do Ártico adota uma delimitação que combina critérios físicos e administrativos, e o programa de conservação da flora e da fauna emprega um limite biogeográfico mais amplo, que ultrapassa 30 milhões de quilômetros quadrados. Nenhuma dessas fronteiras é jurídica: no mar, quem define direitos é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Continentes e países próximos

Oito Estados possuem território ao norte do Círculo Polar Ártico ou dentro das delimitações usuais da região. Cinco deles têm costa no Oceano Ártico e, por isso, plataforma continental e zona econômica exclusiva no oceano central: Canadá, Dinamarca em nome da Groenlândia, Estados Unidos pelo Alasca, Noruega e Rússia. Finlândia, Islândia e Suécia integram a região sem costa ártica direta. A Rússia detém, sozinha, cerca de metade da linha de costa ártica.

A Declaração de Ottawa, de 19 de setembro de 1996, criou o Conselho do Ártico como foro intergovernamental de alto nível para cooperação em desenvolvimento sustentável e proteção ambiental, excluindo expressamente questões de segurança militar. Sua característica mais distintiva é a figura dos Participantes Permanentes: seis organizações de povos indígenas com assento à mesa e direito de participar plenamente das deliberações, arranjo sem paralelo em organismos intergovernamentais. Cerca de 10% da população ártica, algo em torno de 500 mil pessoas, pertence a povos originários.

  • Rússia — Metade da costa ártica e a maior população regional, com cidades como Murmansk e Norilsk, cada uma com mais de 100 mil habitantes.
  • Canadá — O arquipélago ártico canadense, com mais de 36 mil ilhas, e o território de Nunavut, criado em 1999 a partir de acordo com os inuítes.
  • Dinamarca e Groenlândia — A maior ilha do mundo, com 2.166.000 km², cerca de 80% coberta por manto de gelo e com autonomia ampliada desde 2009.
  • Estados Unidos — Presença ártica pelo Alasca, com Utqiaġvik como localidade mais setentrional e o campo petrolífero de Prudhoe Bay.
  • Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia — Setor nórdico com as maiores densidades populacionais árticas, sustentadas pelo calor trazido pela Corrente Norueguesa.
  • Participantes Permanentes — Conselho Circumpolar Inuíte, Conselho Saami, Associação Internacional Aleúte, Conselho Ártico Atabascano, Conselho Internacional Gwich'in e a associação dos povos indígenas do norte da Rússia.

Área e profundidade

O Oceano Ártico, núcleo da região, tem cerca de 14.056.000 km², o que faz dele o menor e o mais raso dos cinco oceanos. Mais da metade de sua área corresponde a plataformas continentais com menos de 200 m de profundidade, entre elas a plataforma siberiana, a mais extensa do mundo, com mais de 1.500 km de largura em alguns setores. A profundidade média fica em torno de 1.200 m, valor muito inferior ao dos demais oceanos.

Somando terras emersas, a região ao norte do Círculo Polar aproxima-se de 21 milhões de quilômetros quadrados. A cobertura de gelo marinho varia entre um máximo de cerca de 15 milhões de km² em março e um mínimo de 4 a 5 milhões de km² em setembro, com o recorde mínimo de 3.410.000 km² registrado em setembro de 2012. O manto de gelo da Groenlândia acrescenta 1.710.000 km² de gelo terrestre, com volume equivalente a cerca de 7,4 m de elevação do nível do mar.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área ao norte do Círculo PolarCerca de 21.000.000 km²Mar e terra somados
Área do Oceano Ártico14.056.000 km²O menor dos cinco oceanos
Profundidade média do oceanoCerca de 1.200 mMais da metade da área é plataforma rasa
Mínimo de gelo marinho3.410.000 km²Recorde registrado em setembro de 2012
Manto de gelo da Groenlândia1.710.000 km²Equivalente a cerca de 7,4 m de nível do mar
PopulaçãoCerca de 4.000.000 de pessoasAproximadamente 10% de povos indígenas

Principais correntes

O Ártico recebe água de dois lados e devolve por um. Pelo Estreito de Bering, com apenas 85 km de largura e 50 m de profundidade, entra cerca de 1 Sv de água relativamente doce vinda do Pacífico. Pelo Estreito de Fram e pelo Mar de Barents entram cerca de 6 Sv a 8 Sv de água atlântica quente e salina. A saída principal também é por Fram, sob a forma de água fria, pouco salgada e de gelo à deriva.

Na superfície, dois sistemas organizam o movimento do gelo. O Giro de Beaufort gira no sentido horário sobre a bacia canadense e acumula água doce — em anos de giro intenso, mais de 20.000 km³ de água doce ficam retidos nele, reserva cuja liberação súbita pode afetar a salinidade do Atlântico Norte. A Corrente Transpolar de Deriva arrasta gelo da plataforma siberiana até o Estreito de Fram em dois a quatro anos.

O Ártico é o oceano mais influenciado por rios do planeta: Ienissei, Lena, Ob, Mackenzie e outros despejam cerca de 3.300 km³ de água doce por ano em uma bacia que representa apenas 1% do volume oceânico mundial. Esse aporte cria a camada superficial de baixa salinidade que isola o gelo do calor das águas profundas, e é a peça que torna o sistema ártico tão sensível a mudanças no ciclo hidrológico continental.

Clima

O traço mais marcante do clima ártico contemporâneo é a amplificação ártica: a região aquece em ritmo muito superior à média global. Análises de séries de temperatura desde 1979 indicam que o Ártico aqueceu cerca de três a quatro vezes mais rápido que o planeta como um todo, com valores ainda maiores no setor de Barents e Kara. Os mecanismos combinam a retroalimentação do albedo, a menor eficiência de perda de calor por radiação em ar frio e o transporte de calor pelo oceano.

A perda de gelo marinho é a expressão mais visível desse processo. A extensão de setembro diminui em torno de 12% por década desde o início das medições por satélite, em 1979, e todos os dez menores mínimos já registrados ocorreram a partir de 2007. A espessura também caiu: o gelo com mais de quatro anos, que representava cerca de um terço da cobertura de inverno na década de 1980, hoje é uma fração mínima, e o Ártico passou a ser dominado por gelo de primeiro ano, mais fino e mais móvel.

Em terra, o permafrost responde ao aquecimento com degradação progressiva. Solos permanentemente congelados cobrem aproximadamente 15 milhões de km² no hemisfério norte e armazenam entre 1.400 e 1.600 Gt de carbono orgânico, cerca do dobro do que existe hoje na atmosfera. O descongelamento libera dióxido de carbono e metano, provoca colapsos de terreno conhecidos como termocarste e compromete estradas, oleodutos e edificações construídos sobre solo antes estável.

Ecossistemas

Em terra, a tundra domina: vegetação rasteira de musgos, líquens, gramíneas e arbustos anões sobre solo congelado, com estação de crescimento de poucas semanas. Ao sul dela estende-se a taiga, a maior floresta contínua do planeta. A transição entre as duas vem se deslocando para o norte, e o avanço de arbustos lenhosos sobre a tundra, processo chamado de arbustização, altera o albedo, a profundidade da neve e o regime térmico do solo.

No mar, o gelo é o habitat estruturante. Algas crescem em sua face inferior e nos canais de salmoura, sustentam anfípodes e o bacalhau-polar, e este alimenta focas, aves e cetáceos. A borda do gelo, onde a luz penetra e a estratificação favorece a floração, concentra produtividade em faixas estreitas e móveis que percorrem milhares de quilômetros a cada primavera.

As polínias são o terceiro elemento decisivo: áreas de água aberta que persistem em meio ao gelo por ação do vento ou por afloramento de água mais quente. A Polínia das Águas do Norte, entre a Groenlândia e a Ilha de Ellesmere, na Baía de Baffin, é a maior do hemisfério norte e funciona como refúgio de inverno para milhões de aves marinhas, morsas, narvais e belugas, além de ter sustentado ocupação humana por milênios.

Biodiversidade

A fauna ártica é composta por poucas espécies, mas com populações grandes e adaptações extremas: gordura subcutânea espessa, pelagem ou plumagem isolante, ciclos reprodutivos comprimidos em semanas, migrações de escala continental e, em vários peixes, proteínas anticongelantes no sangue. A dependência do gelo é o traço comum a boa parte delas e a principal fonte de vulnerabilidade.

  • Urso-polarUrsus maritimus, distribuído em 19 subpopulações e estimado entre 22.000 e 31.000 indivíduos; classificado como vulnerável e protegido por acordo internacional desde 1973.
  • Rena e caribuRangifer tarandus forma os maiores rebanhos terrestres do hemisfério norte; monitoramentos indicam queda superior a 50% na maioria dos rebanhos selvagens desde a década de 1990.
  • MorsaOdobenus rosmarus depende de gelo sobre plataformas rasas para descansar entre mergulhos de alimentação; onde o gelo recua, forma aglomerações em terra com risco de esmagamento.
  • Narval e belugaMonodon monoceros e Delphinapterus leucas invernam em fendas e polínias e são particularmente sensíveis ao ruído submarino.
  • Bacalhau-polarBoreogadus saida é a espécie que converte a produção das algas de gelo em alimento para quase todos os predadores do sistema.
  • Aves migratórias — Gansos, maçaricos e a andorinha-do-ártico, que realiza a maior migração conhecida entre os dois polos, nidificam na tundra durante o verão.

Ilhas

O Ártico é dominado por ilhas. A Groenlândia é a maior do mundo, com 2.166.000 km², e o arquipélago ártico canadense é o maior conjunto insular do planeta, com mais de 36 mil ilhas, entre elas Baffin, Ellesmere, Victoria e Banks. Do lado eurasiano, arquipélagos como Svalbard, Terra de Francisco José, Nova Zembla, Severnaya Zemlya e as Ilhas da Nova Sibéria delimitam os mares marginais.

  • Groenlândia — 2.166.000 km², cerca de 80% cobertos por manto de gelo com até 3.000 m de espessura; população em torno de 56 mil habitantes.
  • Ilha de Baffin — 507.451 km², a maior do Canadá e a quinta do mundo, separada da Groenlândia pela Baía de Baffin.
  • Ilha de Ellesmere — 196.236 km², a mais setentrional do Canadá; abriga Alert, o assentamento permanente mais ao norte do planeta.
  • Svalbard — 61.022 km² sob soberania norueguesa, regidos pelo Tratado de Svalbard de 1920; sedia o depósito global de sementes em Longyearbyen.
  • Nova Zembla — 83.000 km² entre os mares de Barents e de Kara; foi área de testes nucleares soviéticos entre 1955 e 1990.
  • Ilha Wrangel — 7.600 km² no Mar da Sibéria Oriental, Patrimônio Mundial Natural desde 2004 e último refúgio conhecido do mamute-lanoso, extinto ali há cerca de 4.000 anos.

Portos e rotas relevantes

Diferentemente do Antártico, o Ártico tem portos de verdade, alguns deles de porte industrial. Murmansk, com mais de 260 mil habitantes, é o maior da região e permanece livre de gelo o ano inteiro graças ao calor trazido pela Corrente Norueguesa; abriga a frota russa de quebra-gelos nucleares. Sabetta, na Península de Yamal, foi construído para exportar gás natural liquefeito; Dudinka escoa o níquel e o paládio de Norilsk; Arkhangelsk, Dikson, Pevek e Tiksi completam a rede siberiana. Do lado ocidental, Tromsø, Hammerfest, Kirkenes, Reykjavík, Nuuk, Iqaluit e Utqiaġvik atendem a populações menores.

Duas rotas marítimas atravessam a região e ganharam relevância com o recuo do gelo. A Rota Marítima do Norte, ao longo da costa siberiana, reduz o trajeto entre o norte da Europa e o nordeste da Ásia de cerca de 21.000 km, pelo Canal de Suez, para aproximadamente 13.000 km. A Passagem do Noroeste, pelo arquipélago canadense, foi vencida pela primeira vez por Roald Amundsen entre 1903 e 1906, em uma travessia que levou três invernos, e observações por satélite registraram sua abertura completa no verão pela primeira vez em 2007.

O tráfego cresce, mas de forma desigual: a Rota Marítima do Norte movimenta sobretudo carga de origem ou destino russo, e não tráfego de trânsito entre continentes. A Passagem do Noroeste permanece de difícil previsibilidade, porque o recuo do gelo perene liberou blocos espessos que derivam para dentro dos canais. O Código Polar, adotado pela Organização Marítima Internacional e em vigor desde 2017, fixa exigências de casco, tripulação e equipamento para navios que operam nas duas rotas.

Principais portos e rotas
ElementoLocalizaçãoFunção
MurmanskRússiaMaior porto ártico, livre de gelo e sede da frota de quebra-gelos nucleares
SabettaRússiaTerminal de gás natural liquefeito na Península de Yamal
DudinkaRússiaEscoamento de níquel, cobre e paládio de Norilsk pelo Ienissei
HammerfestNoruegaTerminal de gás do campo de Snøhvit, no Mar de Barents
NuukGroenlândiaPrincipal porto e capital do território
Rota Marítima do NorteCosta siberianaCerca de 13.000 km entre o norte da Europa e o nordeste da Ásia
Passagem do NoroesteArquipélago canadenseTravessia inaugural entre 1903 e 1906; abertura completa observada em 2007

Importância econômica

A economia ártica assenta-se em recursos naturais. Estima-se que a região concentre parcela expressiva das reservas mundiais de gás natural ainda não descobertas, sobretudo na plataforma russa, e a maior parte da produção atual vem de campos terrestres ou de águas rasas: Prudhoe Bay, no Alasca, em produção desde 1977; Snøhvit, no Mar de Barents; e os campos de Yamal, que alimentam o terminal de Sabetta. A mineração acrescenta o níquel e o paládio de Norilsk, o zinco de Red Dog, no Alasca, e o minério de ferro de Kiruna, na Suécia.

A pesca é o segundo pilar. O Mar de Barents abriga o maior estoque de bacalhau-do-atlântico do mundo, gerido conjuntamente por Noruega e Rússia desde a década de 1970 e frequentemente citado como caso de ordenamento bem-sucedido. Somam-se a ele o arenque, a juba-negra, o caranguejo-real e, no Mar de Bering, a pescada-do-alasca, que sustenta uma das maiores pescarias de peixe branco do planeta.

A economia de subsistência tem peso desproporcional à sua expressão monetária. Caça de mamíferos marinhos, pesca, criação de renas e colheita de frutos silvestres sustentam comunidades inuítes, iúpiques, saami, nenets e chukchi, e estruturam calendário, língua e organização social. O turismo de expedição, a pesquisa científica e o transporte marítimo completam o quadro, com crescimento acentuado desde a década de 2010.

Importância ambiental

O que acontece no Ártico não fica no Ártico. O gelo marinho reflete até 80% da radiação solar incidente; a água aberta absorve mais de 90%. Cada verão com menos gelo aumenta o calor armazenado no oceano, e esse desequilíbrio se soma ao balanço energético global. O derretimento do manto de gelo da Groenlândia, que perdeu massa de forma sustentada nas últimas décadas, contribui de maneira crescente para a elevação do nível do mar em todo o planeta.

A região é também um arquivo. Testemunhos de gelo da Groenlândia registram a composição da atmosfera dos últimos 120 mil anos com resolução anual em parte do período, e foram eles que documentaram as oscilações climáticas abruptas do último período glacial. O permafrost guarda material orgânico e biológico preservado por dezenas de milhares de anos, inclusive carcaças completas de megafauna extinta.

A contaminação por poluentes de longo alcance é um problema específico do Ártico. Mercúrio e poluentes orgânicos persistentes emitidos em latitudes médias são transportados pela atmosfera, condensam no frio e se acumulam nas cadeias alimentares locais. Como a dieta tradicional de vários povos originários é rica em gordura de mamíferos marinhos, as concentrações medidas em populações humanas do Ártico estão entre as mais altas do mundo, situação que motivou a inclusão de substâncias específicas na Convenção de Estocolmo.

Problemas de conservação

A mudança climática é a pressão dominante e chega principalmente de fora da região, o que limita a eficácia de medidas puramente locais. Mesmo assim, decisões tomadas no Ártico reduziram riscos concretos. A mais significativa em escala oceânica foi o Acordo para Prevenir a Pesca Não Regulamentada em Alto-Mar no Oceano Ártico Central, assinado em Ilulissat em outubro de 2018 por dez partes e em vigor desde 25 de junho de 2021, que estabeleceu moratória de dezesseis anos sobre cerca de 2.800.000 km² de alto-mar, até que haja base científica para eventual exploração.

Outras medidas atuam sobre a navegação. O Código Polar, obrigatório desde 2017, impõe padrões de construção e operação, e a proibição do uso e do transporte de óleo combustível pesado nas águas árticas, adotada pela Organização Marítima Internacional, entrou em vigor em 2024, com isenções transitórias para alguns Estados costeiros até 2029. A redução de carbono negro emitido por navios e por queima de gás é outra frente, porque partículas depositadas sobre neve e gelo aceleram o derretimento localmente.

  • Perda de habitat de gelo — Ursos-polares, morsas e focas dependentes de gelo enfrentam períodos de jejum mais longos e deslocamentos maiores à medida que a plataforma de gelo recua das áreas rasas produtivas.
  • Degradação do permafrost — O descongelamento libera carbono e metano, provoca colapsos de terreno e compromete infraestrutura construída sobre solo antes estável.
  • Contaminantes de longo alcance — Mercúrio e poluentes orgânicos persistentes concentram-se nos predadores de topo e na dieta tradicional de povos originários.
  • Riscos da navegação — O aumento do tráfego eleva a probabilidade de derramamentos em águas onde a resposta é dificultada por gelo, escuridão e ausência de bases próximas.
  • Ruído submarino — Hélices, sísmica e quebra-gelos introduzem ruído em um oceano historicamente silencioso, com efeito documentado sobre narvais e belugas.
  • Espécies em avanço para o norte — Bacalhau, arenque e crustáceos de águas mais quentes deslocam-se para latitudes altas e competem com a fauna ártica, processo chamado de borealização.

Curiosidades

  1. O Círculo Polar Ártico não é uma linha fixa: sua latitude oscila alguns metros por ano conforme a inclinação do eixo terrestre varia em ciclos de aproximadamente 40 mil anos. Marcos instalados no terreno para assinalá-lo precisam ser deslocados periodicamente.
  2. Murmansk, a 68°58′ N, é um porto livre de gelo durante todo o ano, enquanto localidades canadenses situadas bem mais ao sul ficam bloqueadas por meses. A diferença é o calor trazido pela Corrente Norueguesa, prolongamento do sistema da Corrente do Golfo.
  3. A Declaração de Ottawa, de 1996, criou o Conselho do Ártico com uma característica sem paralelo entre foros intergovernamentais: seis organizações de povos indígenas têm assento permanente à mesa e participam plenamente das deliberações, ao lado dos oito Estados membros.
  4. O permafrost do hemisfério norte armazena entre 1.400 e 1.600 Gt de carbono orgânico, aproximadamente o dobro de todo o carbono presente hoje na atmosfera terrestre.
  5. O acordo de 2018 que suspendeu a pesca comercial no alto-mar do Ártico Central foi firmado antes que qualquer pescaria comercial existisse na área. É um dos pouquíssimos casos em que a proibição precedeu a atividade, em vez de reagir a ela.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. NSIDC — National Snow and Ice Data Center. Arctic Sea Ice News and Analysis, 2025. Consultar publicação
  2. NOAA — Arctic Program. Arctic Report Card, 2024. Consultar publicação
  3. Conselho do Ártico. Declaração de Ottawa e Participantes Permanentes, 1996. Consultar publicação
  4. FAO. Agreement to Prevent Unregulated High Seas Fisheries in the Central Arctic Ocean, 2021. Consultar publicação
  5. IUCN Red List. Ursus maritimus e Rangifer tarandus, 2023. Consultar publicação
  6. Organização Marítima Internacional. International Code for Ships Operating in Polar Waters, 2017. Consultar publicação
  7. Earth Observatory — NASA. Greenland ice sheet mass balance and Arctic amplification, 2024. Consultar publicação

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