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Mar Oceano Ártico

Mar de Barents

Plataforma marginal do Ártico com 1.400.000 km², aquecida pela água atlântica, livre de gelo no sudoeste e sede do maior estoque de bacalhau do mundo.

Mapa de localização de Mar de Barents, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte da plataforma ártica entre o Cabo Norte, Svalbard e a Nova Zembla, com a frente polar cruzando o centro da bacia.

O Mar de Barents é a maior e a mais quente das plataformas marginais do Oceano Ártico. Ocupa cerca de 1.400.000 km² entre o norte da Noruega e da Rússia, Svalbard, a Terra de Francisco José e a Nova Zembla, com profundidade média próxima de 230 m e fundos que raramente descem abaixo de 500 m. Toda a bacia repousa sobre a plataforma continental eurasiática, condição que explica a produtividade excepcional de suas águas. O nome homenageia o navegador neerlandês Willem Barentsz, que percorreu a região entre 1594 e 1597.

A feição que define o mar é o encontro entre a água atlântica, quente e salgada, e a água ártica fria que desce do norte. Esse contato, materializado na frente polar, mantém o setor sudoeste livre de gelo o ano inteiro, condição rara nessa latitude e razão de Murmansk operar como o maior porto ártico sem inverno de gelo. Desde o início do século XXI, a influência atlântica avançou para norte e leste no processo descrito como atlantificação, que converte parte da bacia setentrional em ambiente subártico e redistribui os cardumes comerciais.

Ficha técnica

Nome
Mar de Barents
Também chamado de
Mar Murmansco, Barentsevo More
Tipo de formação
Mar
Localização
Entre 67° N e 81° N e entre 16° L e 68° L, limitado pelo norte da Noruega e da Rússia, por Svalbard, pela Terra de Francisco José e pela Nova Zembla.
Oceano de referência
Ártico
Continentes próximos
Europa, Ásia
Países e territórios
Noruega e Rússia, além do arquipélago de Svalbard, sob soberania norueguesa regida pelo Tratado de Espitsbergue.
Área aproximada
1.400.000 km²Estimativas entre 1.400.000 km² e 1.600.000 km², conforme a linha adotada a leste da Nova Zembla.
Profundidade média
230 m
Profundidade máxima
500 mFossa da Ilha dos Ursos, no sudoeste; algumas cartas registram até 600 m no eixo da depressão.
Volume
Aproximadamente 322.000 km³
Salinidade
32 junto à costa russa a 35 na água atlântica do sudoeste
Temperatura da superfície
De -1,8 °C no norte a 6 °C no sudoeste no verão
Linha de costa
Cerca de 6.500 km, somadas as margens continentais e insulares
Correntes principais
Corrente do Cabo Norte, Corrente Norueguesa Costeira, Corrente do Urso Oriental e entrada ártica pela Terra de Francisco José.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A oeste, o mar abre-se para o Mar da Noruega por cerca de 700 km entre o Cabo Norte e a Ilha dos Ursos. Ao norte, a plataforma termina em um talude abrupto que mergulha para a Bacia Eurasiana; a leste, o Estreito de Kara leva ao Mar de Kara; ao sul, a Península de Kola e o litoral nenets fecham a bacia. A Organização Hidrográfica Internacional fixa a fronteira sudoeste na linha do Cabo Norte à Ilha dos Ursos e desta ao Cabo Sul de Spitsbergen.

O relevo submarino é um mosaico de bancos rasos e depressões alongadas herdado da erosão glacial. Os bancos Spitsbergen, Central e Goose têm entre 50 m e 200 m de lâmina; entre eles correm a Depressão Central e a Fossa da Ilha dos Ursos. Essa alternância de soleiras e canais governa o caminho da água atlântica e a posição das áreas de desova.

Continentes e países próximos

Apenas dois Estados têm costa continental na bacia, que abriga um dos arranjos jurídicos mais singulares do planeta. O Tratado de Espitsbergue, assinado em Paris em 9 de fevereiro de 1920 e em vigor desde 14 de agosto de 1925, reconheceu a soberania norueguesa sobre Svalbard, garantiu aos signatários igualdade de acesso econômico e proibiu o uso militar do arquipélago. A Noruega entende que o regime alcança apenas o arquipélago e o mar territorial; Rússia e outros signatários sustentam que ele vale também para a zona pesqueira de 200 milhas criada em 1977.

  • Noruega — Condados de Troms e Finnmark, com Tromsø, Hammerfest, Vardø e Kirkenes, além de Svalbard.
  • Rússia — Oblast de Murmansk e Nenétsia, com Murmansk, Petchenga e Naryan-Mar, além da Nova Zembla e da Terra de Francisco José.
  • Regime de Svalbard — Soberania norueguesa com acesso econômico aberto aos mais de quarenta Estados signatários e desmilitarização obrigatória.

Área e profundidade

Com aproximadamente 1.400.000 km² e volume estimado em 322.000 km³, o mar é extenso em superfície e modesto em massa de água: a profundidade média equivale a menos de um décimo da média oceânica global. A batimetria plana permite que a coluna se misture por inteiro no inverno, devolvendo nutrientes à superfície.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área1.400.000 km²Até 1.600.000 km² em compilações mais amplas
Volume322.000 km³Menos de 0,03% do volume oceânico mundial
Profundidade média230 mUma das menores entre os mares árticos
Profundidade máxima500 mFossa da Ilha dos Ursos
Entrada de água atlântica2 Sv em médiaEntre o Cabo Norte e a Ilha dos Ursos
Temperatura de fundo-1,8 °C a 4 °CContraste entre os setores ártico e atlântico

Principais correntes

A circulação é comandada pela entrada de água atlântica no sudoeste. O ramo oriental da Corrente Norte-Atlântica contorna o Cabo Norte e penetra na bacia como Corrente do Cabo Norte, com cerca de 2 Sv de água a 4 °C a 6 °C. É esse fluxo, e não a latitude, que define a geografia térmica do mar: ele mantém o litoral de Finnmark e a Baía de Kola livres de gelo e leva calor até quase 78° N. Ao norte, a água ártica desce pela Corrente do Urso Oriental, fria e diluída pelo degelo.

O contato entre as duas massas forma a frente polar, faixa estreita onde a produção biológica alcança máximos. No oeste ela é fixada pela topografia dos bancos; no leste desloca-se dezenas de quilômetros conforme a estação. Com menos gelo importado do Ártico central, a camada de água doce que isolava o norte enfraqueceu e a bacia setentrional perdeu estratificação. Parte da água transformada no interior do mar mergulha pelo talude e alimenta camadas profundas da Bacia Eurasiana.

Clima

O clima é polar marítimo no sudoeste e ártico no restante. Em Vardø, a média de janeiro fica em torno de -4 °C, cerca de 20 °C acima da média da mesma latitude no interior da Sibéria. A precipitação vai de 300 mm a 500 mm anuais, e os ciclones do Atlântico Norte produzem ventos fortes entre outubro e março. As marés são semidiurnas e amplas para um mar ártico, com sizígia acima de 4 m na Baía de Kola.

A cobertura de gelo é sazonal e recua de forma acentuada, com máximo entre março e abril e mínimo em setembro, quando o mar fica quase inteiramente aberto. Este é o setor do Ártico com a perda proporcional de gelo invernal mais rápida já registrada: as séries de satélite iniciadas em 1979 mostram forte redução da área coberta em março e um aquecimento do ar no norte da bacia várias vezes superior à média global.

Ecossistemas

O ciclo biológico organiza-se em torno da luz e do gelo. A floração de primavera começa na borda do gelo em degelo, onde a água de fusão estabiliza a coluna e permite que as diatomáceas se multipliquem, e avança conforme a cobertura recua; nas áreas abertas, é disparada pela radiação de abril e maio.

Duas espécies de copépodes resumem a transformação em curso: Calanus glacialis, ártico e rico em lipídios, e Calanus finmarchicus, atlântico e menos energético. O avanço da água morna desloca o segundo para o norte e altera o alimento disponível ao capelim, aos juvenis de bacalhau e às aves marinhas. No fundo, esponjas e bivalves ocupam os bancos rasos, jardins de Lophelia pertusa crescem no talude norueguês e a face inferior do gelo sustenta uma comunidade própria, das algas ao bacalhau-polar Boreogadus saida.

Biodiversidade

Cerca de 200 espécies de peixes foram registradas na bacia, mas menos de duas dezenas sustentam as pescarias. Mamíferos e aves aparecem em concentrações sazonais ligadas à borda do gelo, e a proporção entre fauna ártica e boreal muda de década em década.

  • Bacalhau do Ártico NordesteGadus morhua, o maior estoque de bacalhau do mundo; desova em Lofoten e cresce no Mar de Barents.
  • CapelimMallotus villosus, forrageiro cuja biomassa oscila em ciclos curtos e determina a condição do bacalhau.
  • Urso-polar — A subpopulação de Barents, estimada em cerca de 3.000 animais, está entre as mais afetadas pela retração do gelo de inverno.
  • Aves marinhas — Airo-de-brünnich, torda-anã e gaivota-tridáctila formam colônias de centenas de milhares de casais na Ilha dos Ursos.
  • Caranguejos exóticosParalithodes camtschaticus, introduzido do Pacífico na década de 1960, e Chionoecetes opilio, detectado em 1996.

Ilhas

As ilhas do mar são altas, glaciadas e pouco povoadas. Três conjuntos dominam: Svalbard, a oeste; a Terra de Francisco José, ao norte; e a Nova Zembla, que separa esta bacia do Mar de Kara.

  • Spitsbergen — 37.673 km², a maior ilha de Svalbard, com Longyearbyen, o principal assentamento civil permanente em latitude tão alta.
  • Nova Zembla — Cerca de 83.000 km² em duas ilhas separadas pelo Estreito de Matochkin; área de testes nucleares soviéticos entre 1955 e 1990.
  • Terra de Francisco José — 191 ilhas russas e cerca de 16.100 km², cobertos por geleiras em mais de 80%.
  • Ilha dos Ursos — 178 km² a meio caminho do Cabo Norte, com estação meteorológica em operação contínua desde 1923.
  • Vaigatch — 3.383 km² no setor russo, santuário tradicional do povo nêntsi.

Portos e rotas relevantes

A ausência de gelo permanente no sudoeste deu ao mar uma função logística que nenhum outro setor ártico possui. Murmansk, fundada em 1916 na Baía de Kola, é a maior cidade do mundo ao norte do Círculo Polar Ártico, com cerca de 270 mil habitantes, e opera o ano inteiro sem quebra-gelo como terminal ocidental da Rota Marítima do Norte. Do lado norueguês, a rede é menor e especializada: Hammerfest processa o gás de Snøhvit desde 2007 e Tromsø concentra pesquisa polar.

Principais portos e terminais
PortoPaísFunção predominante
MurmanskRússiaPorto ártico livre de gelo e Rota Marítima do Norte
HammerfestNoruegaTerminal de gás liquefeito do campo de Snøhvit
TromsøNoruegaPesquisa polar e apoio a expedições
KirkenesNoruegaComércio transfronteiriço e minério
Naryan-MarRússiaCampos petrolíferos do Timan-Petchora

Importância econômica

A pesca é a atividade mais antiga e mais sólida da bacia. O estoque de bacalhau do Ártico Nordeste é gerido em conjunto por Noruega e Rússia desde 1976, com parecer anual do Conselho Internacional para a Exploração do Mar. A quota conjunta chegou a 1.000.000 t em 2013, a maior em quatro décadas, e caiu de forma escalonada a cerca de 340.000 t em 2025, acompanhando a biomassa reprodutora. Cortar quotas sem crise política fez desse estoque uma referência mundial, em contraste com o colapso do bacalhau do Atlântico noroeste.

O capelim é o segundo pilar e o mais instável: por ser alimento direto do bacalhau, sua pesca é suspensa quando a biomassa cai abaixo do limiar de precaução, o que ocorreu entre 2019 e 2021 e em 2024. Nos hidrocarbonetos, Snøhvit produz desde 2007 e Goliat desde 2016, enquanto o campo russo de Shtokman, com reservas em torno de 3,9 trilhões de m³, teve o desenvolvimento adiado em 2012.

Importância ambiental

A atlantificação é o processo ambiental dominante e é cumulativo: menos gelo significa mais absorção de calor solar, o que retarda o congelamento do outono seguinte. A borealização acompanha a mudança física, com espécies atlânticas deslocadas centenas de quilômetros para nordeste em duas décadas, o que desafia um arranjo de quotas construído sobre a premissa de estoques estáveis em suas águas jurisdicionais.

Somam-se passivos herdados do século XX. A Nova Zembla foi área de testes nucleares entre 1955 e 1990, e o naufrágio do submarino Kursk, em 12 de agosto de 2000, deu visibilidade ao material radioativo perdido no Ártico russo. O monitoramento conjunto não detectou contaminação relevante no pescado, mas as séries são mantidas como condição de acesso ao mercado europeu.

Problemas de conservação

A governança do mar avançou mais do que a de qualquer outro setor ártico. O Tratado de Delimitação Marítima e Cooperação no Mar de Barents e no Oceano Ártico, assinado em Murmansk em 15 de setembro de 2010 e em vigor desde 7 de julho de 2011, encerrou uma disputa de quatro décadas sobre cerca de 175.000 km², divididos em duas porções quase iguais, com regras conjuntas para depósitos de hidrocarbonetos que cruzem a nova linha.

  • Plano integrado norueguês — Desde 2006, restringe a exploração de petróleo junto à borda do gelo e às áreas de desova.
  • Parque Nacional do Ártico Russo — Ampliado em 2016 para cerca de 88.000 km², abrange a Terra de Francisco José e o norte da Nova Zembla.
  • Reserva da Ilha dos Ursos — Protege 2.805 km² de mar e terra desde 2002.
  • Espécies introduzidas — O caranguejo-real é gerido como recurso comercial a leste do Cabo Norte e como espécie a erradicar a oeste.
  • Monitoramento conjunto — Um cruzeiro norueguês-russo percorre a bacia todo outono desde 2004.

Curiosidades

  1. Vardø fica a leste de Istambul e ainda assim raramente congela: a água atlântica da Corrente do Cabo Norte mantém a média de janeiro perto de -4 °C.
  2. A expedição de Willem Barentsz de 1596 descobriu Spitsbergen e acabou presa no gelo da Nova Zembla; a tripulação passou o inverno em uma cabana de madeira recolhida na praia e Barentsz morreu na viagem de volta.
  3. O caranguejo-real do Pacífico foi solto por cientistas soviéticos nos fiordes de Murmansk entre 1961 e 1969; espalhou-se sozinho até o Cabo Norte e hoje rende uma das capturas mais valiosas por quilo da Noruega.
  4. A detonação nuclear mais potente da história ocorreu sobre a Nova Zembla em 30 de outubro de 1961, com rendimento estimado em cerca de 50 megatons.
  5. O bacalhau do Ártico Nordeste desova quase inteiramente fora do mar que lhe dá nome: os adultos migram cerca de 1.000 km até Lofoten e as larvas retornam levadas pelas correntes.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. NOAA — Arctic Program. Arctic Report Card, 2024. Consultar publicação
  2. National Snow and Ice Data Center. Sea Ice Index e séries de extensão do gelo marinho, 2025. Consultar publicação
  3. Instituto de Pesquisa Marinha da Noruega. Barents Sea ecosystem survey e avaliação de recursos, 2024. Consultar publicação
  4. Conselho Internacional para a Exploração do Mar. Advice on fishing opportunities — Northeast Arctic cod and capelin, 2024. Consultar publicação
  5. Instituto Polar Norueguês. Environmental monitoring of Svalbard and Jan Mayen, 2024. Consultar publicação
  6. Nações Unidas — Divisão de Assuntos Oceânicos e Direito do Mar. Treaty between Norway and the Russian Federation concerning Maritime Delimitation and Cooperation in the Barents Sea and the Arctic Ocean, 2010. Consultar publicação
  7. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação

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