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Baía de Hudson

Mar interior epicontinental de 1.230.000 km² no norte do Canadá, congelado metade do ano, com 100 m de profundidade média e rebote pós-glacial ativo.

Mapa de localização de Baía de Hudson, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte do mar interior entre a costa de Manitoba, a Baía James ao sul, a Península de Ungava e a saída pelo Estreito de Hudson.

A Baía de Hudson é o maior mar interior do Ártico americano e ocupa cerca de 1.230.000 km² no coração do escudo canadense. Comunica-se com o Oceano Atlântico pelo Estreito de Hudson, a nordeste, e com o Oceano Ártico pelo Canal de Foxe e pelo Estreito de Fury e Hecla, ao norte. Apesar da extensão, é rasa: a profundidade média não passa de 100 m e o ponto mais fundo conhecido chega a 270 m.

Trata-se de um mar epicontinental em sentido estrito, assentado inteiramente sobre plataforma. Congela por completo entre dezembro e junho, recebe cerca de 700 km³ de água doce por ano e repousa sobre a região onde o manto de gelo Laurentino foi mais espesso, o que faz suas costas continuarem a se erguer milhares de anos após o degelo. Essa combinação produziu um ecossistema tipicamente ártico, semelhante ao da região ártica setentrional, em latitudes comparáveis às do norte da Europa.

Ficha técnica

Nome
Baía de Hudson
Também chamado de
Tasiujarjuaq, Mar de Tyrrell
Tipo de formação
Baía
Localização
Entre 51° N e 65° N e entre 95° O e 75° O, no interior do escudo canadense, ligada ao Atlântico pelo Estreito de Hudson e ao Ártico pelo Canal de Foxe.
Oceano de referência
Ártico, Atlântico
Continentes próximos
América do Norte
Países e territórios
Inteiramente canadense: as costas pertencem a Nunavut, Manitoba, Ontário e Quebec, e as águas são administradas como parte do território de Nunavut.
Área aproximada
1.230.000 km²Sem a Baía James nem a Bacia de Foxe; com elas, o sistema supera 1.400.000 km².
Profundidade média
100 m
Profundidade máxima
270 mDepressão no setor centro-leste da bacia.
Salinidade
28 a 32, valores baixos para um mar aberto ao oceano
Temperatura da superfície
Abaixo de −1,5 °C sob o gelo no inverno e de 8 °C a 12 °C na superfície em agosto
Linha de costa
Cerca de 12.000 km, somando a Baía James
Correntes principais
Giro ciclônico interno, corrente costeira de água doce ao longo da margem oeste e troca com o Atlântico pelo Estreito de Hudson.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A baía mede cerca de 1.370 km de norte a sul e 1.050 km de leste a oeste. Ao sul, prolonga-se na Baía James, um braço estreito e raso que penetra mais de 400 km em direção ao interior do continente. Ao norte, o Canal de Foxe e a Bacia de Foxe fazem a ligação com o arquipélago ártico canadense, e a nordeste o Estreito de Hudson, com cerca de 800 km de extensão, desemboca no Mar do Labrador, ao sul da Baía de Baffin.

O leito é notavelmente plano e recoberto por sedimento glacial e marinho recente. A costa oeste, em Manitoba e Nunavut, é baixa e emoldurada por terraços marinhos escalonados que registram níveis do mar antigos; a costa leste, no Quebec, é mais rochosa e desenha o Arco de Nastapoka, uma curva quase perfeita de cerca de 450 km de raio. A bacia de drenagem da baía cobre 3.861.400 km², mais de um terço do território canadense, e alcança quatro estados norte-americanos.

Continentes e países próximos

Toda a baía é canadense, e suas águas integram o território de Nunavut, criado em 1999. As comunidades costeiras são majoritariamente inuítes no norte e leste e cree no sul, e a gestão dos recursos marinhos passa por conselhos de cogestão previstos em acordos de reivindicação territorial. A ocupação humana é rarefeita: nenhuma cidade do litoral chega a 3.000 habitantes.

  • Nunavut — Costa norte e oeste, com Kangiqliniq, Arviat, Whale Cove, Coral Harbour e Sanikiluaq, nas Ilhas Belcher.
  • Manitoba — Costa sudoeste, com Churchill, único porto e terminal ferroviário da baía.
  • Ontário — Costa sul, com Fort Severn e Peawanuck, junto às terras baixas turfosas.
  • Quebec — Costa leste, com Inukjuak, Puvirnituq e Kuujjuarapik, na região do Nunavik.

Área e profundidade

Com 1.230.000 km², a Baía de Hudson é o segundo maior corpo de água designado como baía no mundo, atrás apenas do Golfo de Bengala. A comparação, porém, expõe uma diferença radical: enquanto o Bengala tem profundidade média de 2.600 m, a baía canadense fica em 100 m, e nenhum ponto conhecido passa de 270 m.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área1.230.000 km²Sem a Baía James e a Bacia de Foxe
Profundidade média100 mMar inteiramente sobre plataforma
Profundidade máxima270 mSetor centro-leste
Extensão máxima1.370 kmNo sentido norte–sul
Bacia de drenagem3.861.400 km²Mais de um terço do Canadá

Principais correntes

A circulação interna é um giro ciclônico lento, no sentido anti-horário, alimentado pelo aporte de água doce dos rios e mantido pelo vento. Ao longo da margem oeste desenvolve-se uma corrente costeira de baixa salinidade que transporta a descarga dos rios Nelson, Churchill e Severn para o norte e depois para leste, até a saída pelo Estreito de Hudson.

A entrada de água oceânica é modesta e ocorre sobretudo pelo Canal de Foxe. Como a evaporação é pequena e a descarga fluvial grande, a baía comporta-se como um estuário gigantesco: a salinidade da superfície cai a valores entre 28 e 32, bem abaixo dos cerca de 35 do oceano aberto, e a estratificação resultante facilita o congelamento. O tempo de residência da água é estimado em vários anos, o que faz da baía um sistema de resposta lenta.

Clima

O clima é subártico a ártico, com invernos longos e rigorosos. A baía funciona como um reservatório de frio que rebaixa as temperaturas de toda a região: povoações na latitude de Copenhague registram médias de janeiro abaixo de −25 °C. No verão, a água aberta aquece pouco, entre 8 °C e 12 °C na superfície em agosto.

O ciclo do gelo marinho define o ano. O congelamento avança de norte para sul entre novembro e janeiro, cobre toda a baía por vários meses e o degelo se completa entre junho e agosto, deixando cerca de três meses de água aberta. Desde o fim dos anos 1970, o degelo passou a ocorrer mais cedo e o congelamento mais tarde, e a temporada de água aberta na margem oeste alongou-se em algumas semanas — mudança com consequências diretas para a fauna dependente do gelo.

Ecossistemas

Sendo inteiramente rasa, a baía não tem domínio abissal nem talude: toda a sua produção biológica está acoplada ao fundo e ao gelo. Algas que crescem na face inferior do gelo marinho iniciam a produtividade da primavera, seguidas por uma floração de fitoplâncton na borda do gelo em recuo. Estuários, planícies de maré e polínias recorrentes concentram a atividade biológica em pontos previsíveis.

Em terra, o entorno sul abriga as Terras Baixas da Baía de Hudson, um dos maiores complexos contínuos de turfeiras do mundo, com centenas de milhares de quilômetros quadrados e um estoque de carbono de escala global. Esse mosaico de turfa, tundra e floresta boreal é também a maior área de tocas de maternidade de ursos-polares em terra firme conhecida, protegida em parte pelo Parque Nacional Wapusk, com 11.475 km².

Biodiversidade

A fauna é tipicamente ártica, com populações que dependem do gelo para caçar, descansar ou reproduzir, e outras que exploram os estuários durante a curta estação aberta. Vários grupos atingem aqui seu limite meridional de distribuição no continente.

  • Urso-polarUrsus maritimus; o levantamento aéreo de 2021 estimou 618 indivíduos na subpopulação do oeste da baía, contra cerca de 1.200 na década de 1980.
  • BelugaDelphinapterus leucas; a população do oeste, estimada em cerca de 54.000 animais, é a maior agregação da espécie no mundo e passa o verão nos estuários dos rios Churchill, Seal e Nelson.
  • Baleia-da-groenlândiaBalaena mysticetus voltou a frequentar o noroeste da baía após a interrupção da caça comercial.
  • Foca-anelada e morsaPusa hispida é a base da dieta do urso-polar; a morsa-do-atlântico mantém colônias nas ilhas de Coats e Southampton.
  • Ganso-das-neves — A colônia de Cabo Henrietta Maria, na costa sul, é uma das maiores concentrações reprodutivas de aves aquáticas do Ártico.

Ilhas

Cerca de 1.500 ilhas e ilhotas ocorrem na baía, quase todas rochosas, baixas e resultado direto da erosão glacial seguida do soerguimento do terreno. Muitas emergiram nos últimos milênios e continuam a crescer à medida que a costa se levanta.

  • Ilha Southampton — Cerca de 41.200 km² na entrada norte, com a comunidade de Coral Harbour.
  • Ilhas Belcher — Arquipélago de faixas rochosas dobradas no sudeste, sede de Sanikiluaq.
  • Ilhas Coats e Mansel — Ilhas desabitadas do norte, importantes para morsas e aves marinhas.
  • Ilha Akimiski — A maior ilha da Baía James, área de muda de gansos.
  • Ilha Marble — Pequena ilha de quartzito onde uma expedição britânica pereceu no início do século XVIII.

Portos e rotas relevantes

A baía tem um único porto de porte: Churchill, em Manitoba, o único porto marítimo ártico do Canadá com águas profundas. Inaugurado em 1931 e ligado ao sul do país pela Ferrovia da Baía de Hudson, exporta grãos, concentrado de zinco e potassa em uma janela de navegação de poucos meses. A linha ficou interrompida por inundações entre 2017 e 2018, e desde então o porto e a ferrovia pertencem a um consórcio de comunidades indígenas e locais do norte de Manitoba.

As demais povoações são abastecidas por transporte aéreo e por comboios de reabastecimento anuais que descarregam em fundeadouros, sem cais. O alongamento da estação sem gelo tem aumentado o tráfego, o que levanta questões de segurança da navegação, de resposta a derramamentos e de perturbação de belugas e morsas em áreas até há pouco praticamente sem embarcações.

Acessos e rotas
PontoTipoObservação
ChurchillPorto de águas profundasGrãos, potassa e concentrado de zinco
Estreito de HudsonRota de entradaLigação com o Mar do Labrador
Canal de FoxeRota de entradaConexão com o arquipélago ártico
Baía JamesNavegação costeiraReabastecimento de comunidades cree

Importância econômica

A economia da região é pequena em valor e decisiva em subsistência. A caça de focas, belugas, morsas e caribus e a pesca de salmonídeos como o Salvelinus alpinus sustentam a alimentação das comunidades, e não há pescaria industrial de grande porte na baía. O turismo de observação de ursos-polares e belugas em Churchill é a atividade comercial mais visível, com temporada concentrada entre julho e novembro.

O impacto econômico mais profundo, porém, vem de fora da baía: os grandes complexos hidrelétricos da bacia de drenagem. O aproveitamento do Rio La Grande, no Quebec, e dos rios Nelson e Churchill, em Manitoba, regularizou a vazão que chega ao mar, transferindo água do verão para o inverno e alterando a salinidade e o gelo dos estuários. A transposição do Rio Churchill, concluída em 1976, é um dos exemplos mais estudados desse efeito.

Importância ambiental

A baía é o melhor laboratório natural do mundo para o estudo do rebote pós-glacial. No auge da última glaciação, o manto de gelo Laurentino tinha ali seu centro e vários quilômetros de espessura, e afundou a crosta o suficiente para que, após o degelo, o mar invadisse a depressão e formasse o Mar de Tyrrell, muito mais extenso que a baía atual. Medições geodésicas indicam que o terreno continua a subir a cerca de 10 mm por ano nas áreas de maior soerguimento.

O mesmo processo produz uma anomalia gravitacional negativa notável: a gravidade medida sobre a região é menor que a esperada, porque falta massa no manto sob a crosta ainda deprimida. Dados do experimento gravimétrico por satélite levaram a uma conclusão inesperada em 2007: apenas entre 25% e 45% do déficit gravitacional se explica pelo ajuste glacial, e o restante decorre de variações de densidade do manto e da litosfera, muito mais antigas que a glaciação.

Problemas de conservação

A perda de gelo marinho é a ameaça central. Ursos-polares do oeste da baía dependem do gelo para caçar focas e passam o verão em jejum na costa; cada semana adicional de água aberta reduz a reserva de gordura acumulada e afeta sobretudo fêmeas adultas e jovens, exatamente as classes em que os levantamentos detectaram as quedas mais acentuadas. A subpopulação do oeste é, por isso, uma das mais monitoradas do Ártico.

  • Regulação de fluxos fluviais — A inversão sazonal da descarga por hidrelétricas altera a formação de gelo e a salinidade dos estuários usados por belugas.
  • Contaminantes de longa distância — Mercúrio e poluentes orgânicos persistentes chegam pela atmosfera e concentram-se em focas, belugas e ursos-polares.
  • Conflitos com ursos — Churchill mantém um programa de detenção e translocação de ursos que se aproximam da povoação, referência para outras comunidades árticas.
  • Parque Nacional Wapusk — Protege 11.475 km² de terras baixas turfosas e a principal área de tocas de maternidade de ursos-polares em terra.
  • Cogestão indígena — Conselhos previstos em acordos territoriais definem quotas de caça de beluga, morsa e urso-polar com base em ciência e conhecimento inuíte.

Curiosidades

  1. A costa da baía ergue-se cerca de 1 cm por ano nas áreas de maior soerguimento; comunidades da margem leste registram que fundeadouros usados por seus avós hoje estão em terra firme.
  2. A gravidade medida sobre a região da baía é menor que a de qualquer área comparável do continente, e apenas entre 25% e 45% desse déficit é atribuído ao rebote pós-glacial.
  3. O Arco de Nastapoka, na costa leste, é uma curva tão regular que já foi interpretado como a borda de uma cratera de impacto gigante; a explicação hoje aceita o atribui a um cinturão orogênico pré-cambriano.
  4. A expedição do dinamarquês Jens Munk passou o inverno de 1619 e 1620 na foz do Rio Churchill; de 64 tripulantes, apenas três sobreviveram e conseguiram levar um navio de volta à Europa.
  5. A Companhia da Baía de Hudson, fundada por carta régia em 2 de maio de 1670, recebeu direitos exclusivos sobre toda a bacia de drenagem da baía, cerca de 3,9 milhões de km², território transferido ao Canadá apenas em 1870.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. NSIDC. Sea Ice Index e séries de gelo marinho da Baía de Hudson, 2025. Consultar publicação
  2. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  3. IUCN — Grupo de Especialistas em Ursos-Polares. Status report on the world's polar bear subpopulations, 2024. Consultar publicação
  4. Sella, G. F. e colaboradores — Geophysical Research Letters. Observation of glacial isostatic adjustment in "stable" North America with GPS, 2007. Consultar publicação
  5. NASA Earth Observatory. Hudson Bay sea ice, peatlands and post-glacial rebound, 2023. Consultar publicação
  6. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  7. Protected Planet. Wapusk National Park e áreas protegidas do norte de Manitoba, 2024. Consultar publicação

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