Bacia Eurasiana
Metade atlântica do Ártico profundo, partida pela Dorsal Gakkel, a mais lenta do planeta, e dividida nas sub-bacias de Nansen e Amundsen.
A Bacia Eurasiana é a metade atlântica do Oceano Ártico profundo. Separada da Bacia Amerasiana pela Dorsal Lomonossov, vai do Estreito de Fram, entre a Groenlândia e Svalbard, até a plataforma do Mar de Laptev, e alcança o Polo Norte. É uma feição do fundo do mar coberta quase todo o ano por gelo, e sua exploração dependeu de navios aprisionados na deriva, de quebra-gelos nucleares e de submarinos.
O interior é partido em dois pela Dorsal Gakkel, a dorsal meso-oceânica de expansão mais lenta conhecida, com taxas de apenas 6 mm a 13 mm por ano. Ao sul dela fica a sub-bacia de Nansen, voltada para a plataforma de Barents e Kara; ao norte, a de Amundsen, que abriga as maiores profundidades da bacia central. Por ali circula a água atlântica que penetra pelo Estreito de Fram e determina o balanço de calor de todo o Ártico.
Ficha técnica
- Nome
- Bacia Eurasiana
- Também chamado de
- Bacia Eurasiática
- Tipo de formação
- Bacia oceânica
- Localização
- Ártico central, aproximadamente entre 78° N e o Polo Norte e entre o Estreito de Fram, a oeste, e a plataforma do Mar de Laptev, a leste.
- Oceano de referência
- Ártico
- Continentes próximos
- Europa, Ásia
- Países e territórios
- Não há costas na bacia. Alcançam-na as projeções jurisdicionais da Noruega, a partir de Svalbard, e da Rússia, a partir de Terra de Francisco José e Severnaya Zemlya. O centro é alto-mar coberto por gelo, e o leito é objeto de submissões de plataforma continental da Rússia, da Dinamarca e do Canadá.
- Área aproximada
- Cerca de 3.500.000 km²Estimativas variam entre 3.000.000 km² e 4.000.000 km² conforme o traçado sobre a Dorsal Lomonossov.
- Profundidade média
- Entre 3.500 m e 4.000 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 5.550 mAbismo Molloy, no Estreito de Fram; a planície de Amundsen atinge cerca de 4.400 m.
- Salinidade
- 30 a 32 na camada superficial e cerca de 34,9 na água atlântica intermediária
- Temperatura da superfície
- Cerca de −1,8 °C sob o gelo e entre 1 °C e 3 °C na camada atlântica, entre 200 m e 900 m
- Correntes principais
- Corrente de Spitsbergen Ocidental, entrada de água atlântica pelo Estreito de Fram e Corrente Transpolar de Deriva.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A sudoeste, o Estreito de Fram, com cerca de 450 km de largura e soleira próxima de 2.600 m, é a única passagem profunda que liga o Ártico ao restante do oceano mundial. A sul e sudeste, a quebra da plataforma de Barents, Kara e Laptev desce de menos de 200 m para mais de 3.000 m em poucas dezenas de quilômetros. A norte, a Dorsal Lomonossov a separa da Bacia Amerasiana.
A Dorsal Gakkel corre por cerca de 1.800 km em diagonal, do Estreito de Fram ao talude siberiano, com cristas entre 2.000 m e 4.000 m. A Dorsal Lomonossov, ao contrário, é um bloco de crosta continental de cerca de 1.800 km, com cristas entre 400 m e 1.700 m de profundidade, desprendido da margem eurasiana quando a bacia começou a abrir, há aproximadamente 56 milhões de anos.
Continentes e países próximos
Nenhum Estado tem costa na bacia e não existe ali assentamento humano. As projeções jurisdicionais chegam pelas bordas, e o centro é alto-mar. É sobre o leito que se concentra a discussão: a Dorsal Lomonossov é invocada por três Estados como prolongamento natural de suas margens, com áreas pleiteadas que se sobrepõem e incluem o Polo Norte. A Comissão de Limites da Plataforma Continental analisa apenas a consistência científica dos dados, e as sobreposições devem ser resolvidas em negociação bilateral, conforme a Declaração de Ilulissat, de 2008.
- Noruega — Alcança o sudoeste a partir de Svalbard, regido pelo Tratado de Svalbard, de 1920.
- Rússia — Maior projeção sobre a borda sul e sudeste; submissões de plataforma estendida em 2001, 2015 e 2021.
- Dinamarca e Canadá — Submissões de 2014 e de 2019, ambas invocando a Dorsal Lomonossov, com áreas sobrepostas à russa.
- Alto-mar — A superfície do Ártico central está fora de jurisdição nacional e sob moratória de pesca desde 2021.
Área e profundidade
A bacia abrange cerca de 3.500.000 km², um quarto do Oceano Ártico, e mede em torno de 2.700 km por 700 km a 1.000 km. Amundsen é a sub-bacia mais funda, com planícies próximas de 4.400 m; Nansen fica entre 3.600 m e 4.000 m. Não há fossas de subducção, porque a bacia se formou por expansão, e por isso as profundidades máximas são modestas em termos globais.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | Cerca de 3.500.000 km² | Um quarto do Oceano Ártico |
| Profundidade máxima | Cerca de 5.550 m | Abismo Molloy, no Estreito de Fram |
| Planície de Amundsen | Cerca de 4.400 m | Setor mais fundo da bacia central |
| Dorsal Gakkel | De 6 mm a 13 mm por ano | Expansão mais lenta do planeta |
Principais correntes
A engrenagem da bacia é comandada pela entrada de água atlântica. A Corrente de Spitsbergen Ocidental transporta pelo Estreito de Fram cerca de 3 Sv de água acima de 3 °C, que ao encontrar a camada superficial fria do Ártico afunda e circula entre aproximadamente 200 m e 900 m de profundidade. Acima dela, uma camada polar de salinidade entre 30 e 32 é mantida separada por uma haloclina fria muito estável, que impede o calor atlântico de chegar à base do gelo.
Na superfície, a Corrente Transpolar de Deriva arrasta o gelo da plataforma siberiana até o Estreito de Fram em dois a quatro anos. A observação mais relevante das últimas décadas é o enfraquecimento da estratificação na sub-bacia de Nansen, processo chamado de atlantificação: quanto mais a camada atlântica sobe, mais calor escapa para cima e mais se retarda a formação do gelo de inverno, em ciclo de reforço mútuo.
Clima
A parte central é coberta por gelo durante todo o ano, com espessuras de inverno entre 1,5 m e mais de 3 m nas áreas de gelo perene. A temperatura do ar no Polo Norte oscila entre cerca de −30 °C no inverno e valores próximos de 0 °C no verão, quando o derretimento superficial forma lagoas sobre as placas.
O setor sudoeste é a exceção: a entrada de água atlântica mantém a borda oeste de Svalbard livre de gelo em boa parte do ano. A bacia está no centro da amplificação polar — as temperaturas do ar no Ártico subiram em ritmo várias vezes superior à média global desde 1979, com as maiores anomalias sobre o Mar de Barents e a sub-bacia de Nansen.
Ecossistemas
O gelo é o habitat estruturante. Em sua face inferior e nos canais de salmoura desenvolvem-se algas de gelo, entre elas diatomáceas do gênero Melosira, que formam cordões de metros de comprimento sob as placas e sustentam anfípodes e o bacalhau-polar, espécie central da cadeia alimentar ártica.
Quando o gelo se abre, a floração de primavera acontece em poucas semanas e parte da produção afunda rapidamente até o leito: o fundo é pobre em energia mas fortemente pulsado. A Dorsal Gakkel abriga ambientes excepcionais — campanhas de 2001 e de 2007 detectaram atividade hidrotermal e depósitos vulcânicos fragmentados a cerca de 4.000 m, indício de erupções explosivas em pressão onde eram consideradas improváveis.
Biodiversidade
A diversidade de espécies é baixa em comparação com bacias temperadas, resultado da idade geológica recente do Ártico e do isolamento imposto pela soleira de Fram. Em compensação, o grau de especialização é alto, e boa parte das espécies depende do gelo em alguma fase do ciclo de vida.
- Bacalhau-polar — Boreogadus saida abriga-se em cavidades do gelo e converte a produção das algas em alimento para focas e aves.
- Anfípodes do gelo — Gammarus wilkitzkii e Apherusa glacialis vivem colados à face inferior das placas.
- Algas de gelo — Diatomáceas de Melosira respondem por parcela expressiva da produção primária.
- Esponjas de montes submarinos — Jardins densos descritos em elevações da Dorsal Gakkel em 2020.
Ilhas
Não há ilhas na Bacia Eurasiana. Sobre fundos de 3.500 m a 4.400 m, nem a Dorsal Gakkel nem a Dorsal Lomonossov chegam perto da superfície: a crista mais rasa de Lomonossov fica cerca de 400 m submersa. As terras emersas mais próximas estão nas bordas, sobre as plataformas continentais.
- Svalbard — 61.022 km² de arquipélago norueguês na borda sudoeste, com população permanente em Longyearbyen.
- Terra de Francisco José — Arquipélago russo de cerca de 16.100 km² e 191 ilhas; a Ilha Rudolf, a 81°48′ N, é o ponto de terra mais setentrional da Eurásia.
- Severnaya Zemlya — Cerca de 37.000 km² entre os mares de Kara e de Laptev; só foi cartografada na década de 1930.
- Montes submarinos — Elevações da Dorsal Gakkel sobem centenas de metros acima da planície, sem se aproximar da superfície.
Portos e rotas relevantes
Nenhum porto existe ou poderia existir na bacia: não há terra, e a superfície fica coberta por gelo em quase todo o ano. As bases logísticas ficam nas margens — Longyearbyen e Ny-Ålesund, em Svalbard, Murmansk, Arkhangelsk e os terminais siberianos de Dikson, Sabetta e Tiksi —, e delas partem quebra-gelos e navios de pesquisa.
As grandes rotas árticas contornam a bacia: a Rota Marítima do Norte segue pelas plataformas rasas da costa siberiana. A alternativa que de fato a cruzaria é a rota transpolar, viável apenas para quebra-gelos de grande potência. No fundo, a infraestrutura é nula, mas há projetos de cabos transárticos entre o norte da Europa e o Japão, que reduziriam a latência em relação às rotas pelo Mar Vermelho; os obstáculos são a janela de instalação curtíssima e o risco de raspagem do leito por quilhas de gelo.
| Elemento | Natureza | Função |
|---|---|---|
| Longyearbyen | Base insular | Apoio na borda sudoeste |
| Ny-Ålesund | Estação científica | Pesquisa internacional a 78°55′ N |
| Murmansk | Porto continental | Frota de quebra-gelos nucleares |
| Rota transpolar | Rota em estudo | Travessia do Ártico profundo |
Importância econômica
A bacia não tem exploração econômica: a profundidade, o gelo e a distância inviabilizam a pesca comercial e a extração mineral. A pesca está ainda juridicamente vedada — o Acordo para Prevenir a Pesca Não Regulamentada em Alto-Mar no Oceano Ártico Central, assinado em 2018 e em vigor desde junho de 2021, impôs moratória de dezesseis anos sobre cerca de 2.800.000 km².
O valor econômico concentra-se nas bordas, com os campos de gás da plataforma de Barents e Kara e o transporte pela Rota Marítima do Norte. A atividade mais característica da bacia é a pesquisa: a Dorsal Lomonossov só é pleiteada como plataforma continental estendida porque campanhas custosas de sísmica e batimetria, conduzidas por quebra-gelos, produziram os dados exigidos pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Importância ambiental
A bacia é o termostato do hemisfério norte. A entrada de água atlântica pelo Estreito de Fram e a saída de água doce e de gelo pelo mesmo estreito controlam o balanço de sal do Atlântico Norte e influenciam a formação de água profunda nos mares nórdicos. O gelo que a cobre reflete até 80% da radiação solar incidente, contra menos de 10% da água aberta.
A Dorsal Gakkel guarda valor científico próprio: por ser ultralenta, expõe manto terrestre no fundo do mar e permite estudar a camada de onde vem todo o magma oceânico. Suas fontes hidrotermais, isoladas pela barreira da soleira de Fram, são laboratórios de evolução de fauna quimiossintética.
Problemas de conservação
A ameaça dominante é climática e chega de fora. A atlantificação de Nansen e a substituição de gelo de vários anos por gelo de primeiro ano reorganizam a base do sistema biológico: onde o gelo espesso desaparece, vão-se as algas de gelo, os anfípodes e a cadeia que se apoia neles, substituídos por espécies atlânticas. A moratória de 2021 impede a pesca comercial, mas não existe área marinha protegida no Ártico central.
- Perda de gelo perene — A proporção de gelo com mais de quatro anos caiu de cerca de um terço da cobertura de inverno na década de 1980 para uma fração mínima.
- Atlantificação — O enfraquecimento da haloclina permite que o calor atlântico alcance a superfície e retarde a formação do gelo de inverno.
- Microplástico no gelo — Núcleos de gelo extraídos da bacia contêm milhares de partículas por metro cúbico, liberadas na água quando o gelo derrete.
- Ruído e tráfego crescentes — A expansão da navegação nas bordas eleva o ruído de baixa frequência em um oceano historicamente silencioso.
Curiosidades
- A Dorsal Gakkel afasta-se a apenas 6 mm a 13 mm por ano. Em vários segmentos quase não se forma crosta basáltica, e o que aflora no fundo é peridotito, rocha do manto exposta diretamente.
- Perfurações na Dorsal Lomonossov em 2004 recuperaram sedimentos do Eoceno com restos de samambaias de água doce: há cerca de 50 milhões de anos, o Ártico central era um mar quente e pouco salgado.
- O valor de 5.449 m atribuído durante décadas à Fossa de Litke nunca foi confirmado. Levantamentos modernos encontram cerca de 4.000 m naquela posição, e a carta batimétrica do Ártico o trata como erro.
- A expedição do navio Fram, entre 1893 e 1896, deixou-se aprisionar no gelo para atravessar a bacia à deriva. Foi ali que se mediu pela primeira vez a camada de água atlântica quente sob a superfície fria do Ártico.
- Em 2020, levantamentos em montes submarinos ligados à Dorsal Gakkel encontraram jardins densos de esponjas sob gelo permanente, sustentados por restos fósseis de comunidades quimiossintéticas extintas.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- GEBCO e IBCAO. International Bathymetric Chart of the Arctic Ocean, 2024. Consultar publicação
- NSIDC — National Snow and Ice Data Center. Arctic Sea Ice News and Analysis, 2025. Consultar publicação
- NOAA — Arctic Program. Arctic Report Card, 2024. Consultar publicação
- Comissão de Limites da Plataforma Continental das Nações Unidas. Submissions of the Russian Federation, Denmark and Canada concerning the Arctic Ocean, 2021. Consultar publicação
- FAO. Agreement to Prevent Unregulated High Seas Fisheries in the Central Arctic Ocean, 2021. Consultar publicação
- Earth Observatory — NASA. Arctic sea ice and Fram Strait ice export, 2024. Consultar publicação
- Copernicus Marine Service. Arctic Ocean Physics Analysis and Forecast, 2025. Consultar publicação
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Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Bacia Eurasiana no conjunto das formações marinhas.
-
Oceano
Oceano Ártico
Menor e mais raso dos oceanos, coberto por gelo marinho em retração e disputado por reivindicações de plataforma continental.
Área 14.056.000 km² Máx. 5.550 m
-
Região polar
Região Ártica
Conjunto de mar, gelo e terras circumpolares que aquece várias vezes mais rápido que a média global e abriga oito Estados árticos.
Área Cerca de 21.000.000 km² Máx. Cerca de 5.550 m
-
Mar
Mar de Barents
Mar de plataforma no Ártico europeu, aquecido pela água atlântica e palco da atlantificação e da pesca de bacalhau mais bem gerida do planeta.
Área 1.400.000 km² Máx. 500 m
-
Baía
Baía de Baffin
Corredor de icebergs entre Baffin e a Groenlândia, com narvais, morsas e a polínia mais produtiva de todo o Ártico.
Área 689.000 km² Máx. 2.136 m
-
Estreito
Estreito de Bering
Corredor de 82 km entre a Chukotka e o Alasca, único acesso do Pacífico ao Ártico e antigo istmo da Beríngia.
Área Aproximadamente 6.000 km² Máx. Cerca de 90 m