Estreito de Bering
Passagem rasa de 82 km entre a Ásia e a América do Norte, com cerca de 50 m de profundidade, que liga o Pacífico ao Oceano Ártico.
O Estreito de Bering é a única ligação entre o Oceano Pacífico e o Oceano Ártico, e separa a Ásia da América do Norte por apenas 82 km entre o Cabo Dejnev, na Chukotka russa, e o Cabo Príncipe de Gales, no Alasca. É extremamente raso: a profundidade fica quase toda entre 30 m e 50 m, o que faz dele um limiar mais parecido com uma soleira de plataforma continental do que com um canal oceânico. Ao sul está o Mar de Bering; ao norte, o Mar de Chukchi.
Essa combinação de estreiteza e pouca profundidade dá ao lugar duas funções desproporcionais ao seu tamanho. Do ponto de vista físico, é a única porta por onde água do Pacífico, mais doce e rica em nutrientes, entra no Ártico, alimentando a produtividade de toda a plataforma siberiana e norte-americana. Do ponto de vista humano, foi o corredor por onde as Américas foram povoadas quando o nível do mar mais baixo expôs o istmo da Beríngia, e é hoje uma passagem de importância estratégica crescente.
Ficha técnica
- Nome
- Estreito de Bering
- Também chamado de
- Beringov proliv
- Tipo de formação
- Estreito
- Localização
- Entre 64,5° N e 67° N e entre 172° O e 166° O, no limite entre o Mar de Bering, ao sul, e o Mar de Chukchi, ao norte.
- Oceano de referência
- Ártico, Pacífico
- Continentes próximos
- Ásia, América do Norte
- Países e territórios
- Rússia e Estados Unidos, com a fronteira marítima passando entre a Ilha Grande Diomedes e a Ilha Pequena Diomedes.
- Área aproximada
- Aproximadamente 6.000 km²Estimativa para a seção mais estreita entre o Cabo Dejnev e o Cabo Príncipe de Gales.
- Profundidade média
- Cerca de 50 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 90 mEm canais localizados; a maior parte do estreito fica entre 30 m e 50 m.
- Salinidade
- 31 a 33, com valores menores junto à costa do Alasca
- Temperatura da superfície
- Abaixo de −1 °C no inverno e de 4 °C a 10 °C em agosto e setembro
- Linha de costa
- Costas baixas e sedimentares nas duas margens, com tundra e lagunas
- Correntes principais
- Fluxo médio para norte de 0,8 a 1,2 Sv, com a Corrente de Anadyr a oeste, a Água da Plataforma de Bering ao centro e a Corrente Costeira do Alasca a leste.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A seção mais estreita vai do Cabo Dejnev, ponto mais oriental da Eurásia, ao Cabo Príncipe de Gales, ponto mais ocidental da América continental. As Ilhas Diomedes ocupam o meio da passagem e dividem-na em dois canais de cerca de 35 km cada. Ao sul, o estreito abre-se gradualmente para o Mar de Bering; ao norte, para o Mar de Chukchi. Grande parte das convenções hidrográficas adota a linha do estreito como fronteira meridional do Oceano Ártico.
O fundo é uma planície sedimentar de relevo suave, herdada da plataforma continental exposta durante os máximos glaciais. Correntes fortes mantêm áreas de cascalho e areia limpa, e o gelo que raspa o leito no inverno deixa marcas de arado nos sedimentos.
Continentes e países próximos
Duas potências dividem o estreito, e a fronteira passa pelo canal entre as Ilhas Diomedes. O limite marítimo foi definido por um acordo assinado em 1990 por Estados Unidos e União Soviética, aplicado de forma provisória desde então: ratificado pelos Estados Unidos, permanece sem ratificação pela Rússia, o que não impediu sua observação prática. As comunidades das duas margens mantêm laços culturais antigos, interrompidos durante a Guerra Fria.
- Rússia — Distrito Autônomo de Chukotka, com os povoados de Uelen, Lavrentia e Provideniya.
- Estados Unidos — Península Seward, no Alasca, com Wales, Nome e a aldeia de Inalik, na Pequena Diomedes.
- Povos da passagem — Iupiques siberianos e da ilha, inupiaques e chukchis, com laços familiares nas duas costas.
Área e profundidade
A soma de largura reduzida e profundidade mínima cria uma seção transversal muito pequena, estimada em cerca de 4 km², o que limita fisicamente o volume de água capaz de passar entre os dois oceanos.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Largura mínima | 82 km | Cabo Dejnev a Cabo Príncipe de Gales |
| Profundidade típica | 30 m a 50 m | Planície sedimentar de plataforma |
| Canal entre as Diomedes | Cerca de 3,8 km | Fronteira Rússia–Estados Unidos |
| Transporte para o norte | 0,8 a 1,2 Sv | 1 Sv equivale a 1 milhão de m³/s |
| Cobertura de gelo | Novembro a maio | Gelo sazonal, não permanente |
| Diferença de fuso | 21 horas | Entre Grande e Pequena Diomedes |
Principais correntes
O escoamento médio é para o norte, do Pacífico para o Ártico, sustentado por uma diferença de nível do mar de algumas dezenas de centímetros entre os dois oceanos. Três massas de água atravessam a passagem em faixas paralelas: a Corrente de Anadyr, fria, salgada e muito rica em nutrientes, no canal ocidental; a Água da Plataforma de Bering, ao centro; e a Corrente Costeira do Alasca, mais doce e mais quente, junto à margem oriental. Ventos de norte no inverno podem inverter momentaneamente o fluxo.
A água que entra pelo estreito define o funcionamento do Ártico ocidental. Seus nutrientes sustentam uma das maiores taxas de produção primária de qualquer plataforma polar, e o calor que transporta contribui para a fusão do gelo no Mar de Chukchi. A entrada de água pacífica representa ainda parcela significativa do balanço de água doce do Ártico, com efeitos sobre a estratificação superficial.
Clima
O clima é subártico marítimo, com invernos longos e verões curtos e frios. O gelo marinho forma-se em novembro e persiste até maio ou junho, e o recuo do gelo na região tem sido dos mais rápidos: os invernos de 2018 e 2019 registraram as menores extensões já observadas na região de Bering desde o início do monitoramento por satélite, em 1979. Nevoeiros densos são frequentes no verão, e tempestades de outono inundam costas baixas sem a proteção do gelo costeiro.
Ecossistemas
Os ecossistemas do estreito são bentônicos e dependem da corrente. Fundos de areia e cascalho lavados por fluxo constante abrigam comunidades densas de bivalves, anfípodes, poliquetas e ouriços, e é essa biomassa que sustenta morsas e baleias que se alimentam no sedimento. Em água de poucas dezenas de metros, boa parte da matéria orgânica produzida no verão chega ao leito antes de ser consumida na coluna.
A oeste, o eixo da Corrente de Anadyr concentra os nutrientes e produz florações intensas de diatomáceas assim que o gelo se retira. As bordas de gelo sazonal funcionam como habitat móvel: algas crescem na face inferior do gelo, alimentam crustáceos e peixes, e o gelo serve de plataforma de descanso para morsas e focas. Nas falésias da passagem, as colônias de aves marinhas contam-se em milhões.
Biodiversidade
A passagem é um gargalho migratório de mamíferos marinhos. Populações inteiras atravessam o estreito duas vezes por ano, seguindo o avanço e o recuo do gelo, e a previsibilidade desses movimentos sustenta há milênios a caça de subsistência das comunidades das duas margens.
- Morsa do Pacífico — Odobenus rosmarus divergens usa o gelo sazonal como plataforma e come bivalves nos fundos rasos.
- Baleia-da-groenlândia — Balaena mysticetus do estoque Bering–Chukchi–Beaufort cruza o estreito na primavera e no outono.
- Baleia-cinzenta — Eschrichtius robustus faz uma das maiores migrações conhecidas, da Baixa Califórnia aos mares árticos.
- Focas de gelo — Foca-anelada, foca-barbuda, foca-de-fita e foca-manchada dependem do gelo para parir.
- Aves marinhas — Tordas-anãs, airos e gaivotas nidificam por milhões nas falésias das Diomedes.
Ilhas
As ilhas do estreito são poucas e muito conhecidas. As Diomedes, no meio da passagem, são dois blocos de rocha separados por 3,8 km de água por onde correm a fronteira internacional e a Linha Internacional de Data: a Grande Diomedes, russa, opera 21 horas à frente da Pequena Diomedes, norte-americana, o que lhes rendeu os apelidos de ilha do amanhã e ilha do ontem. A sudeste ergue-se o Rochedo Fairway, um afloramento granítico de encostas verticais, e mais ao sul ficam a Ilha do Rei e a Ilha Sledge.
- Grande Diomedes — Cerca de 29 km², território russo, com posto de fronteira e sem população civil permanente.
- Pequena Diomedes — Cerca de 7 km², território norte-americano, com a aldeia inupiaque de Inalik.
- Rochedo Fairway — Afloramento granítico de paredes verticais a sudeste das Diomedes, com colônias de aves.
- Ilha do Rei — Ilha rochosa ao sul da passagem, ocupada até 1970 e hoje desabitada.
Portos e rotas relevantes
O estreito não tem grandes portos, e essa ausência define sua logística: em centenas de quilômetros não existe terminal capaz de receber navios de calado elevado. Do lado norte-americano, Nome é o principal ponto de apoio, com obras de aprofundamento para torná-lo o primeiro porto de águas profundas do Ártico dos Estados Unidos. Do lado russo, Provideniya e Lavrentia oferecem abrigo e serviços limitados.
O papel do estreito nas rotas mundiais é o de portal: toda a navegação que atravessa o Ártico pelo lado do Pacífico passa por ali, seja pela Rota Marítima do Norte, ao longo da costa siberiana, seja pela Passagem do Noroeste. Em 2018 a Organização Marítima Internacional aprovou para a região seus primeiros esquemas de rotas de duas vias e áreas a evitar no Ártico, em resposta ao aumento do tráfego.
| Local | País | Função |
|---|---|---|
| Nome | Estados Unidos | Principal porto regional, em aprofundamento |
| Provideniya | Rússia | Abrigo natural e apoio à navegação |
| Lavrentia | Rússia | Povoado costeiro e base administrativa |
| Wales | Estados Unidos | Aldeia junto ao Cabo Príncipe de Gales |
| Inalik | Estados Unidos | Aldeia da Pequena Diomedes, sem porto |
| Pevek | Rússia | Terminal da Rota Marítima do Norte, a oeste |
Importância econômica
A economia local combina caça e pesca de subsistência, serviços públicos, mineração de ouro na região de Nome e um turismo pequeno e caro. A caça iupique e inupiaque é atividade central e legalmente reconhecida: a captura de baleia-da-groenlândia ocorre sob quotas de subsistência aborígene definidas pela Comissão Internacional da Baleia, e a caça de morsa abastece alimentação e artesanato.
No plano internacional, o interesse pelo estreito cresce com a redução do gelo. Projetos de travessia fixa entre os continentes, na forma de um túnel de cerca de 100 km, são discutidos desde o fim do século XIX e nenhum passou da fase de estudo. O tráfego pela Rota Marítima do Norte cresceu, embora a maior parte do volume russo circule a oeste e não atravesse a passagem.
Importância ambiental
A importância ambiental do estreito está no que ele injeta no Ártico. O fluxo pacífico traz nutrientes, calor e água relativamente doce, e alterações nesse aporte se propagam por toda a plataforma ártica ocidental, com efeitos sobre gelo, produtividade e distribuição de espécies. Por isso a passagem é um dos pontos de monitoramento oceanográfico mais valiosos do hemisfério norte.
A região preserva também o registro da Beríngia: do lado norte-americano, a Reserva Nacional da Ponte Terrestre de Bering protege cerca de 11.000 km² de tundra com vestígios paleontológicos e arqueológicos do antigo istmo.
Problemas de conservação
A perda de gelo marinho é o problema central, porque desmonta o próprio habitat de morsas, focas e ursos-polares e altera a cadeia alimentar bentônica. Ao mesmo tempo, o mar mais aberto por mais meses do ano amplia o tráfego de navios em uma área sem capacidade de resposta a derramamentos, o que torna a prevenção o único instrumento realmente disponível.
- Recuo do gelo — Morsas passam a formar aglomerações em terra, com mortes por atropelamento no pânico das manadas.
- Risco de derramamento — Não há infraestrutura de contenção de óleo em água fria em centenas de quilômetros de costa.
- Ruído e colisões — O aumento do tráfego coincide com os corredores migratórios de baleias e com temporadas de caça.
- Erosão costeira — Sem gelo costeiro no outono, tempestades atacam aldeias de tundra e forçam relocações.
- Segurança alimentar — A alteração na distribuição das presas afeta diretamente a caça de subsistência das comunidades das duas margens.
Curiosidades
- A Grande Diomedes e a Pequena Diomedes estão separadas por 3,8 km de água, mas a Linha Internacional de Data passa entre elas: a diferença de calendário e fuso chega a 21 horas.
- Durante os máximos glaciais, com o nível do mar até 120 m mais baixo, o estreito era terra firme e integrava a Beríngia, uma planície que ligou a Ásia à América e por onde se deu o povoamento do continente americano.
- O afogamento definitivo do istmo ocorreu no início do Holoceno, com estimativas concentradas entre 13.000 e 11.000 anos atrás, conforme os indicadores de nível do mar utilizados.
- A Corrente de Anadyr, no canal ocidental da passagem, transporta água tão rica em nutrientes que sustenta uma das maiores taxas de produção primária registradas em qualquer plataforma polar.
- Em 2018 a região do estreito recebeu os primeiros esquemas de rotas de duas vias e áreas a evitar aprovados pela Organização Marítima Internacional para o Ártico.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- NOAA — Pacific Marine Environmental Laboratory. Bering Strait mooring program, 2025. Consultar publicação
- National Snow and Ice Data Center. Arctic Sea Ice News and Analysis, 2025. Consultar publicação
- Organização Marítima Internacional. Ships routeing measures in the Bering Sea and Bering Strait, 2018. Consultar publicação
- USGS. Pacific Walrus Research, Alaska Science Center, 2024. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação
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Mar
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Área 2.300.000 km² Máx. 4.097 m
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Menor e mais raso dos oceanos, coberto por gelo marinho em retração e disputado por reivindicações de plataforma continental.
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