Baía de Baffin
Braço de mar de 689.000 km² entre o Canadá e a Groenlândia, com 861 m de profundidade média, rota de icebergs e a maior polínia do Ártico.
A Baía de Baffin é o braço de mar que separa a Ilha de Baffin, no Ártico canadense, da costa oeste da Groenlândia. Cobre cerca de 689.000 km², estende-se por 1.450 km no sentido norte–sul e tem largura variável entre 110 km e 650 km. Ao contrário de outros mares árticos, é profunda: a média fica em 861 m e a bacia central alcança 2.136 m.
A baía funciona como corredor entre o Oceano Ártico, ao norte, e o Oceano Atlântico, ao sul, através do Estreito de Davis. Por ela passa a maior parte dos icebergs que atingem o Atlântico Norte, e nela se forma a maior e mais produtiva polínia do Ártico. Essas duas características — fábrica de gelo e oásis de vida — resumem sua importância na região ártica.
Ficha técnica
- Nome
- Baía de Baffin
- Também chamado de
- Pikialasorsuaq (região da polínia), Baffin Bugt
- Tipo de formação
- Baía
- Localização
- Entre 66° N e 78° N, delimitada a oeste pela Ilha de Baffin e pelo arquipélago ártico canadense e a leste pela Groenlândia.
- Oceano de referência
- Ártico, Atlântico
- Continentes próximos
- América do Norte, Europa
- Países e territórios
- Canadá, no flanco ocidental, e Reino da Dinamarca, por meio da Groenlândia, no flanco oriental.
- Área aproximada
- 689.000 km²Sem o Estreito de Davis, que é contado separadamente.
- Profundidade média
- 861 m
- Profundidade máxima
- 2.136 mBacia central, isolada por uma soleira rasa no Estreito de Davis.
- Volume
- Cerca de 593.000 km³
- Salinidade
- 31 na camada superficial e cerca de 34,5 na água profunda
- Temperatura da superfície
- Perto de −1,8 °C na superfície no inverno; entre 0 °C e 5 °C em agosto, conforme o setor
- Linha de costa
- Litorais recortados por fiordes de mais de 8.000 km somados
- Correntes principais
- Corrente da Groenlândia Ocidental, quente e salina, para o norte; Corrente de Baffin, fria e diluída, para o sul.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
Ao norte, a baía comunica-se com o Oceano Ártico pelo Estreito de Smith e pelo Canal de Nares, uma passagem estreita entre a Ilha de Ellesmere e a Groenlândia. A oeste, os Estreitos de Lancaster e de Jones abrem caminho para o arquipélago ártico canadense e, por ele, para a Passagem do Noroeste. Ao sul, o Estreito de Davis liga a baía ao Mar do Labrador, que recebe também a descarga da Baía de Hudson.
A geometria do fundo é decisiva. A bacia central, com mais de 2.000 m, está separada do Atlântico por uma soleira de cerca de 640 m no Estreito de Davis, o que impede a renovação eficiente da água profunda. A Água Profunda da Baía de Baffin fica assim relativamente isolada, envelhece e acumula dióxido de carbono dissolvido — condição que ajuda a explicar por que a região é um dos pontos do planeta onde a acidificação do oceano avançou mais rápido.
Continentes e países próximos
Duas jurisdições dividem a baía: o Canadá, a oeste, e o Reino da Dinamarca, por meio da Groenlândia, a leste. A fronteira marítima entre elas foi acordada em 1973 e é uma das mais antigas delimitações de plataforma continental do Ártico. As populações das duas margens são majoritariamente inuítes e mantêm laços culturais e linguísticos antigos, além de compartilharem os mesmos estoques de narval, beluga e morsa.
- Canadá (Nunavut) — Mittimatalik, Kanngiqtugaapik, Qikiqtarjuaq, Pangnirtung e Arctic Bay, na Ilha de Baffin e adjacências.
- Groenlândia — Ilulissat, Uummannaq, Upernavik e Qaanaaq, ao longo da costa oeste e do distrito de Thule.
- Fronteira marítima — Acordo de 1973 entre Canadá e Dinamarca, ajustado em 2022 com a partilha da Ilha Hans, no Canal de Nares.
- Cooperação bilateral — Iniciativas conjuntas para a gestão da polínia e dos estoques compartilhados de mamíferos marinhos.
Área e profundidade
A baía combina grande área com profundidade considerável, o que lhe dá um volume da ordem de 593.000 km³ — maior que o de mares como o Báltico ou o do Norte, muitas vezes mais conhecidos. Sua bacia é uma depressão alongada de origem tectônica, formada pela separação da Groenlândia do arquipélago canadense no Cretáceo e no Paleógeno.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 689.000 km² | Sem o Estreito de Davis |
| Profundidade média | 861 m | Bacia predominantemente profunda |
| Profundidade máxima | 2.136 m | Depressão central |
| Comprimento | 1.450 km | Do Estreito de Davis ao Estreito de Smith |
| Soleira de Davis | Cerca de 640 m | Barreira à renovação da água profunda |
Principais correntes
A circulação é um giro ciclônico bem definido, montado sobre duas correntes de sinais opostos. A Corrente da Groenlândia Ocidental sobe pelo flanco leste levando água relativamente quente e salina de origem atlântica, que mantém a costa groenlandesa mais acessível e alimenta a produtividade do norte da baía. A Corrente de Baffin desce pelo flanco oeste com água fria e diluída vinda do Ártico, carregada de gelo.
Esse arranjo cria um contraste térmico marcante entre as duas margens na mesma latitude. Ao sair pelo Estreito de Davis, a Corrente de Baffin transforma-se na Corrente do Labrador, que transporta gelo e água fria ao longo da costa canadense até os Grandes Bancos da Terra Nova. É por esse caminho que os icebergs formados na Groenlândia chegam às rotas de navegação do Atlântico Norte.
Clima
O clima é ártico, com inverno longo e escuro e verão curto e frio. O gelo marinho cobre quase toda a baía entre janeiro e maio, e o degelo, que começa pelo sudeste, deixa uma faixa navegável ao longo da Groenlândia bem antes de a costa canadense abrir. Ventos catabáticos descem do manto de gelo groenlandês e influenciam a formação de gelo perto da costa.
A feição climática mais notável é a Polínia da Água do Norte, chamada Pikialasorsuaq em groenlandês, uma área de mar aberto no extremo norte da baía que se mantém livre de gelo mesmo no inverno. Com extensão que pode aproximar-se de 80.000 km², é a maior polínia do Ártico. Mantém-se aberta pela combinação de ventos persistentes, correntes e maré com uma ponte de gelo que se forma ao norte, no Canal de Nares, e bloqueia a entrada de gelo à deriva.
Ecossistemas
A polínia é o coração ecológico da baía. Como a água permanece exposta à luz no fim do inverno, a floração de fitoplâncton começa semanas antes do que nas áreas cobertas, sustentando uma cadeia alimentar densa de copépodes, bacalhau-polar, aves marinhas e mamíferos. Registros sedimentares indicam que a polínia existe há pelo menos 9.000 anos, o que explica a antiguidade da ocupação humana no seu entorno.
Os fiordes profundos das duas margens formam um segundo tipo de ambiente, onde a água de degelo glacial encontra a água marinha e gera plumas de sedimento e circulação estuarina intensa. Já a bacia profunda, isolada pela soleira de Davis, abriga uma fauna de fundo adaptada a água fria, escura e pobre em renovação, incluindo o tubarão-da-groenlândia, a espécie vertebrada de maior longevidade conhecida.
Biodiversidade
A baía é a principal área de verão de vários mamíferos marinhos árticos e concentra colônias de aves marinhas de milhões de indivíduos. Boa parte dessas populações é compartilhada por Canadá e Groenlândia e se desloca sazonalmente entre as duas margens, acompanhando a formação e o recuo do gelo.
- Narval — Monodon monoceros; o dente canino esquerdo do macho cresce em espiral e pode passar de 3 m; agrupa-se no verão em Eclipse Sound, Admiralty Inlet e Inglefield Bredning.
- Morsa-do-atlântico — Odobenus rosmarus rosmarus usa bancos rasos das duas margens, e a caça de subsistência é regulada por quotas conjuntas.
- Torda-anã — As colônias do distrito de Thule reúnem milhões de casais e são sustentadas pelos copépodes da polínia.
- Beluga e urso-polar — A beluga inverna na polínia e os ursos-polares caçam nas bordas de gelo, sobretudo ao longo da Corrente de Baffin.
- Tubarão-da-groenlândia — Somniosus microcephalus; datações por radiocarbono no cristalino indicaram longevidade de cerca de 270 a 390 anos.
Ilhas
A margem oeste da baía é formada por algumas das maiores ilhas do planeta, todas de relevo alto e recortado, com campos de gelo e fiordes profundos. Do lado groenlandês, arquipélagos de centenas de ilhotas orlam a costa e abrigam as comunidades da região.
- Ilha de Baffin — Cerca de 507.000 km², a quinta maior ilha do mundo, com montanhas que passam de 2.000 m.
- Ilha Devon — Cerca de 55.000 km²; é a maior ilha desabitada do planeta.
- Ilha Bylot — Protegida no Parque Nacional Sirmilik, é um dos maiores sítios de nidificação de aves marinhas do Ártico canadense.
- Qeqertarsuaq (Disko) — Cerca de 8.600 km² de planaltos basálticos junto à Baía de Disko, na Groenlândia.
- Arquipélago de Upernavik — Centenas de ilhas e ilhotas na costa noroeste groenlandesa.
Portos e rotas relevantes
Não há portos de grande calado na baía. Do lado groenlandês, Ilulissat é o centro mais movimentado, com pesca industrial de camarão e de alabote-da-groenlândia e um fluxo crescente de navios de expedição atraídos pelo fiorde de gelo. Upernavik, Uummannaq e Qaanaaq operam terminais menores, atendidos por navios de cabotagem durante a estação aberta.
Do lado canadense, as comunidades da Ilha de Baffin recebem carga por comboios anuais que descarregam em praias e fundeadouros. A baía é também o trecho inicial obrigatório de qualquer travessia da Passagem do Noroeste no sentido leste–oeste, e o aumento do tráfego de cruzeiros e de navios de carga por essa rota tornou-se tema recorrente nas discussões sobre segurança marítima ártica.
| Ponto | Tipo | Observação |
|---|---|---|
| Ilulissat | Porto pesqueiro | Camarão, alabote e navios de expedição |
| Estreito de Davis | Entrada sul | Ligação com o Mar do Labrador |
| Estreito de Lancaster | Entrada oeste | Acesso à Passagem do Noroeste |
| Canal de Nares | Entrada norte | Passagem para o Mar de Lincoln |
Importância econômica
A pesca é a principal atividade comercial. O camarão-boreal e o alabote-da-groenlândia sustentam a economia exportadora da costa oeste groenlandesa, e o aquecimento das águas trouxe também o bacalhau-do-atlântico a latitudes onde antes era raro. Do lado canadense, a pesca de alabote na plataforma é menor, mas representa uma das poucas fontes de renda monetária de várias comunidades.
A caça de subsistência de narval, beluga, morsa e foca permanece central para a alimentação e a organização social inuíte nas duas margens. A prospecção de petróleo, ao contrário, nunca se firmou: os blocos oferecidos na plataforma groenlandesa foram devolvidos sem descobertas comerciais, e no lado canadense a exploração sísmica ao largo de Kanngiqtugaapik foi barrada em 2017 por decisão da Suprema Corte do Canadá, que reconheceu falha na consulta à comunidade inuíte.
Importância ambiental
A baía é a via de saída dos icebergs da Groenlândia. A geleira Sermeq Kujalleq, conhecida também como Jakobshavn Isbræ, drena cerca de 6,5% do manto de gelo groenlandês e produz da ordem de um décimo de todos os icebergs da ilha, algo próximo de 35 bilhões de toneladas de gelo por ano. Os blocos ficam meses encalhados na soleira do fiorde de Ilulissat, declarado Patrimônio Mundial em 2004, antes de alcançar a baía.
Uma vez livres, os icebergs sobem com a Corrente da Groenlândia Ocidental, atravessam o norte da baía e descem com a Corrente de Baffin e a do Labrador, num percurso que pode levar dois ou três anos até os Grandes Bancos. Foi esse trajeto que motivou a criação, em 1914, da patrulha internacional de gelo do Atlântico Norte, após o naufrágio do Titanic. A outra grande transformação em curso é química: a acidificação avança na baía mais rápido que na maior parte dos oceanos, e a subsaturação de aragonita já foi medida em suas camadas profundas.
Problemas de conservação
A proteção da polínia é a prioridade regional. Uma comissão criada por organizações inuítes das duas margens recomendou em 2017 o estabelecimento de uma área de gestão binacional com governança indígena, proposta que avançou com um documento de intenções entre Canadá e Groenlândia. A preocupação imediata é a ponte de gelo do Canal de Nares, que deixou de se formar em vários anos recentes, alterando o comportamento da polínia.
- Tallurutiup Imanga — Área nacional de conservação marinha de 108.000 km² criada em 2019 no Estreito de Lancaster, com acordo de benefícios inuítes.
- Fiorde de Gelo de Ilulissat — Patrimônio Mundial desde 2004, referência mundial para o monitoramento da perda de massa glacial.
- Ruído submarino — Levantamentos sísmicos e tráfego crescente afetam narvais, animais especialmente sensíveis a som de baixa frequência.
- Quotas compartilhadas — Uma comissão conjunta Canadá–Groenlândia estabelece limites de captura para narval, beluga e morsa.
- Acidificação — A baía é monitorada como um dos casos mais avançados de acidificação oceânica no hemisfério norte.
Curiosidades
- A latitude de 78° N alcançada por William Baffin e Robert Bylot no Estreito de Smith em 1616 permaneceu como recorde de penetração ao norte por 236 anos.
- Em 1818 John Ross relatou uma cadeia de montanhas fechando o Estreito de Lancaster; no ano seguinte William Parry navegou pelo mesmo estreito e demonstrou que as montanhas não existiam.
- Os navios de John Franklin foram vistos por baleeiros na Baía de Baffin em julho de 1845 e nunca mais avistados; os destroços só foram localizados no Ártico canadense em 2014 e 2016.
- Baleeiros de língua inglesa batizaram a polínia do norte da baía de "North Water" no século XVIII, ao perceber que sempre encontravam mar aberto onde esperavam gelo.
- A Ilha Hans, um afloramento rochoso de pouco mais de 1 km² no Canal de Nares, foi disputada por Canadá e Dinamarca por quase cinco décadas até ser dividida ao meio em 2022.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- NSIDC. Séries de gelo marinho do Ártico e da Baía de Baffin, 2025. Consultar publicação
- UNESCO. Ilulissat Icefjord — World Heritage List, 2004. Consultar publicação
- Nielsen, J. e colaboradores — Science. Eye lens radiocarbon reveals centuries of longevity in the Greenland shark, 2016. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Nares Strait ice arch and the North Water Polynya, 2022. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- Protected Planet. Tallurutiup Imanga National Marine Conservation Area, 2024. Consultar publicação
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Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Baía de Baffin no conjunto das formações marinhas.
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Baía
Baía de Hudson
Maior mar interior do Ártico canadense, com ursos-polares em Churchill, dezenas de milhares de belugas e costas que ainda se erguem.
Área 1.230.000 km² Máx. 270 m
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Oceano
Oceano Ártico
Menor e mais raso dos oceanos, coberto por gelo marinho em retração e disputado por reivindicações de plataforma continental.
Área 14.056.000 km² Máx. 5.550 m
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Região polar
Região Ártica
Conjunto de mar, gelo e terras circumpolares que aquece várias vezes mais rápido que a média global e abriga oito Estados árticos.
Área Cerca de 21.000.000 km² Máx. Cerca de 5.550 m
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Mar
Mar de Barents
Mar de plataforma no Ártico europeu, aquecido pela água atlântica e palco da atlantificação e da pesca de bacalhau mais bem gerida do planeta.
Área 1.400.000 km² Máx. 500 m
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Oceano
Oceano Atlântico
Segundo maior oceano, em forma de S, sede da Corrente do Golfo, da circulação de revolvimento meridional e de toda a costa do Brasil.
Área 106.460.000 km² Máx. 8.376 m