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Bacia oceânica Oceano Atlântico

Bacia Argentina

Bacia abissal do Atlântico Sudoeste com fundos próximos de 6.000 m, campos de dunas de sedimento e a Confluência Brasil–Malvinas em sua borda norte.

Mapa de localização de Bacia Argentina, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte da planície abissal ao largo da Patagônia, com a confluência ao norte e o planalto insular ao sul.

A Bacia Argentina é a grande depressão abissal do Oceano Atlântico sudoeste, a leste da plataforma continental patagônica. Como toda bacia oceânica, é feição do leito do mar e não recorte de costa: está limitada ao norte pela Elevação do Rio Grande, ao sul pelo Planalto das Malvinas e a leste pelo flanco da Dorsal Meso-Atlântica. Seu interior é uma planície de relevo suave onde os fundos se aproximam de 6.000 m.

Duas características a tornam singular. A primeira é oceanográfica: em sua borda norte, a Corrente do Brasil, quente e salina, encontra a Corrente das Malvinas, fria e subantártica, na Confluência Brasil–Malvinas, uma das frentes mais energéticas do oceano mundial. A segunda é sedimentar: o fundo é recoberto por campos de ondulações gigantes esculpidas pela corrente profunda, com quilômetros de comprimento de onda.

Ficha técnica

Nome
Bacia Argentina
Também chamado de
Cuenca Argentina
Tipo de formação
Bacia oceânica
Localização
Atlântico Sudoeste, aproximadamente entre 35° S e 50° S e entre 60° O e 35° O, do sopé da margem patagônica até o flanco da Dorsal Meso-Atlântica.
Oceano de referência
Atlântico
Continentes próximos
América do Sul
Países e territórios
Nenhum Estado tem costa na bacia, que é feição do fundo do mar. Alcançam-na a zona econômica exclusiva da Argentina e a do Uruguai, no setor noroeste, e a zona de conservação pesqueira declarada em torno das Ilhas Malvinas/Falkland, cuja soberania é objeto de disputa entre a Argentina e o Reino Unido. O centro e o leste são alto-mar.
Área aproximada
Entre 2.000.000 km² e 3.000.000 km²Variação conforme a inclusão do sopé continental e a posição do limite leste sobre o flanco da dorsal.
Profundidade média
Cerca de 4.700 m
Profundidade máxima
Cerca de 6.000 mPlanície Abissal Argentina; compilações indicam valores entre 5.900 m e 6.200 m.
Salinidade
33,8 na Corrente das Malvinas a 36,2 na Corrente do Brasil
Temperatura da superfície
De 4 °C a 24 °C na superfície, conforme o lado da confluência, e cerca de −0,3 °C no fundo
Correntes principais
Corrente das Malvinas, Corrente do Brasil, Corrente Circumpolar Antártica na borda sul e Água de Fundo Antártica, que sai para norte pelo Canal de Vema.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

O contorno é traçado sobre o relevo. A oeste, o limite é o sopé da margem argentina, próximo da isóbata de 4.000 m, ao longo de um talude cortado por dezenas de cânions, entre eles o de Mar del Plata, com mais de 300 km. A leste, a planície termina no flanco irregular da dorsal. As dimensões máximas aproximam-se de 1.800 km no sentido norte–sul e de 2.000 km no sentido leste–oeste.

Ao norte, a Elevação do Rio Grande a separa da Bacia do Brasil, e a comunicação em profundidade se dá pelo Canal de Vema, em torno de 31° S e 39° O, com 15 km a 20 km de largura no fundo e soleira próxima de 4.600 m, e pelo Canal Hunter. Ao sul, o Planalto das Malvinas e a Dorsal da Escócia do Norte formam barreira parcial em relação ao Oceano Antártico, com a Passagem das Malvinas como corredor remanescente.

Continentes e países próximos

Não há costas, portos nem população na bacia: o ponto de terra mais próximo do seu centro está a mais de mil quilômetros. O que se projeta sobre ela são jurisdições marítimas. A Argentina apresentou submissão de plataforma continental estendida em 2009, e em 2016 a Comissão de Limites da Plataforma Continental recomendou parte do pleito, sem se pronunciar sobre os setores em disputa, uma vez que seu mandato não abrange soberania.

  • Argentina — Maior projeção jurisdicional sobre a bacia, a partir da plataforma patagônica, uma das mais largas do mundo.
  • Uruguai — Sua zona econômica exclusiva toca o extremo noroeste, na região de influência da confluência.
  • Ilhas Malvinas/Falkland — Administradas pelo Reino Unido e reivindicadas pela Argentina; a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a disputa na Resolução 2065, de 1965, e recomenda negociação entre as partes.
  • Alto-mar — O centro e o leste ficam fora de jurisdição nacional, com a pesca sujeita apenas ao controle do Estado de bandeira.

Área e profundidade

A Planície Abissal Argentina é uma das mais extensas e fundas do Atlântico, com fundos entre 5.500 m e cerca de 6.000 m em amplas superfícies. Ao contrário do que o nome sugere, o leito não é liso: grande parte dele é recoberta por campos de dunas de sedimento, ondulações com comprimentos de onda de 1 km a 10 km e amplitudes de 10 m a mais de 100 m, formadas pela circulação profunda ao longo de milhares de anos e que migram lentamente contra o sentido da corrente.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
ÁreaDe 2.000.000 km² a 3.000.000 km²Depende do limite leste
Profundidade máximaCerca de 6.000 mSetor central da planície
Dunas de sedimentoDe 1 km a 10 kmAmplitudes de 10 m a mais de 100 m
Corrente das MalvinasDe 30 Sv a 40 SvEstimativas variam com a seção medida

Principais correntes

A borda norte abriga a Confluência Brasil–Malvinas, em média entre 36° S e 39° S. Ali a Corrente do Brasil desce pelo talude com água de 20 °C a 24 °C e a Corrente das Malvinas, ramo da Corrente Circumpolar Antártica com transporte entre 30 Sv e 40 Sv, sobe em sentido contrário com água de 4 °C a 10 °C. O contraste produz gradientes de vários graus em poucas dezenas de quilômetros e uma das maiores energias cinéticas de turbilhão já medidas no oceano.

Em profundidade, a Água de Fundo Antártica, com temperatura potencial em torno de −0,3 °C, entra pela Passagem das Malvinas, circula em sentido anti-horário e escoa para o norte pelos canais de Vema e Hunter. São essas correntes de fundo que esculpem as dunas e provocam as tempestades bênticas, episódios em que a velocidade junto ao leito ultrapassa 0,2 m por segundo e ressuspende nuvens de lama por semanas.

Clima

A bacia situa-se sob o cinturão de ventos de oeste do hemisfério sul, onde as tempestades extratropicais se sucedem sem barreira continental. A frequência de ventos acima de 15 m por segundo e de ondas de mais de 6 m está entre as maiores do Atlântico.

A temperatura da superfície reflete a confluência com nitidez pouco comum: no mesmo mês e em latitudes iguais, a água pode passar de 22 °C a 8 °C ao cruzar a frente. Icebergs desprendidos do Mar de Weddell ocasionalmente derivam até as proximidades do Planalto das Malvinas.

Ecossistemas

O sistema biológico organiza-se em três ambientes. O primeiro é a frente da quebra da plataforma patagônica, onde o encontro com a Corrente das Malvinas sustenta florações de diatomáceas visíveis do espaço. O segundo é a zona da confluência, onde os turbilhões levam organismos de água quente para latitudes altas e vice-versa.

O terceiro é o fundo abissal, com substrato de argila fina modelada em ondulações e comunidade dominada por poliquetas, holotúrias, ofiúros e foraminíferos gigantes, submetida a um regime de perturbação física raro em outras planícies abissais. Nas bordas aparecem os cânions do talude, os corais de água fria do Banco Burdwood e as florestas de Macrocystis das ilhas subantárticas.

Biodiversidade

A bacia e sua borda continental formam um dos ecossistemas temperados mais ricos do hemisfério sul, alimentado pela ressurgência na quebra da plataforma e pelo transporte de nutrientes da Corrente das Malvinas. Concentram-se ali populações de importância global de aves oceânicas e cetáceos.

  • Lula-argentinaIllex argentinus sustenta uma das maiores pescarias de cefalópodes do mundo, com desembarques entre 100.000 t e mais de 1.000.000 t por temporada.
  • MerluzasMerluccius hubbsi domina a plataforma e o talude; Dissostichus eleginoides é pescada por espinhel entre 700 m e 2.000 m.
  • Albatroz-de-sobrancelha-negraThalassarche melanophris mantém nas Malvinas/Falkland a maior colônia mundial, com centenas de milhares de casais que forrageiam sobre a bacia.
  • Baleia-franca-australEubalaena australis reproduz-se nos golfos patagônicos e alimenta-se na borda oeste.

Ilhas

O interior da bacia não tem ilhas: sobre fundos de 5.000 m a 6.000 m, nenhuma elevação chega perto da superfície, e as feições positivas conhecidas são montes submarinos isolados e os grandes platôs que a cercam. As terras emersas mais próximas ficam nas bordas, sobre crosta continental ou sobre a Dorsal da Escócia.

  • Ilhas Malvinas/Falkland — Cerca de 12.200 km² sobre o Planalto das Malvinas, na borda sudoeste; soberania disputada entre a Argentina e o Reino Unido, que as administra.
  • Geórgia do Sul — 3.528 km² a sudeste, sobre a Dorsal da Escócia do Norte, além do limite sul e cercada por águas de origem antártica.
  • Banco Burdwood — Elevação submersa de topo entre 50 m e 200 m, protegida pela área marinha Namuncurá, criada em 2013 e ampliada em 2018.

Portos e rotas relevantes

Não existem portos na bacia. Os terminais que operam sobre ela ficam na costa continental e nas ilhas: Buenos Aires e Bahía Blanca concentram granéis; Mar del Plata, Puerto Deseado e Ushuaia servem à pesca e à logística antártica; Montevidéu é base de transbordo da frota estrangeira; e Stanley/Puerto Argentino atende à pescaria de lula no setor sudoeste.

As rotas comerciais que cruzam a bacia ligam o Atlântico Sul ao Cabo Horn, ao Estreito de Magalhães e ao Cabo da Boa Esperança. Sobre o fundo passam cabos submarinos que chegam ao litoral argentino, com aterragem concentrada em Las Toninas, ligando o país ao Brasil, ao Uruguai e ao hemisfério norte.

Acessos, bases e infraestrutura
ElementoNaturezaFunção
Mar del PlataPorto continentalBase da frota de pesca de altura
MontevidéuPorto continentalTransbordo da frota de alto-mar
Stanley / Puerto ArgentinoPorto insularBase pesqueira no setor sudoeste
Las ToninasEstação de cabosAterragem dos cabos que cruzam a bacia rumo ao norte

Importância econômica

A pesca é a principal atividade econômica associada à bacia, e seu centro é a lula-argentina. De ciclo anual, Illex argentinus produz safras muito variáveis e concentra jigueiros no talude entre janeiro e junho. Somam-se a merluza-argentina, o camarão-rosa patagônico e a merluza-negra de profundidade.

Parte expressiva do esforço ocorre fora da zona econômica exclusiva argentina, na linha conhecida como milha 201, onde centenas de embarcações de bandeiras asiáticas e europeias operam. Como o estoque se desloca entre águas jurisdicionais e o alto-mar, o mesmo recurso é explorado sob dois regimes, e não há organização regional de ordenamento pesqueiro com competência sobre a área. Atividades secundárias incluem a perfuração exploratória em águas profundas ao largo de Mar del Plata e o corredor de cabos submarinos.

Importância ambiental

A confluência é um dos pontos de maior troca de calor entre oceano e atmosfera do hemisfério sul: ao colocar lado a lado massas de água com mais de 15 °C de diferença, gera perda de calor oceânico de centenas de watts por metro quadrado no inverno e influencia a trajetória dos ciclones extratropicais. É também região de absorção intensa de dióxido de carbono.

O fundo guarda um arquivo climático excepcional: as camadas depositadas sob a influência alternada da Água de Fundo Antártica e da Água Profunda do Atlântico Norte registram mudanças na circulação oceânica ao longo de milhões de anos. O Buraco Azul, setor de alto-mar sobre a plataforma continental argentina além das 200 milhas náuticas, é fundo raso em área internacional e por isso acessível ao arrasto de frotas estrangeiras, enquanto o leito é tratado pela Argentina como parte de sua plataforma continental.

Problemas de conservação

A sobrepesca e a pesca não regulada no alto-mar são os problemas centrais. O caráter anual da lula-argentina significa que uma safra mal conduzida não deixa estoque reprodutor para a seguinte, e a ausência de organização regional impede fixar cotas aplicáveis a todas as frotas. A captura incidental é a segunda ameaça mais documentada, e medidas como linhas espanta-pássaros e lançamento noturno reduziram a mortalidade apenas nas frotas que as adotaram.

  • Pesca ilegal e não declarada — A borda externa da zona econômica exclusiva concentra transbordos em alto-mar que dificultam a rastreabilidade da captura.
  • Arrasto no Buraco Azul — A pesca de arrasto sobre fundos rasos de alto-mar remove comunidades bênticas de recuperação lenta em área sem gestão internacional.
  • Mortalidade de aves oceânicas — O albatroz-de-sobrancelha-negra e o petrel-de-óculos estão entre as espécies mais afetadas pelo espinhel na região.
  • Áreas protegidas insuficientes — As áreas Namuncurá e Yaganes cobrem parcela reduzida do sistema, e o interior abissal permanece sem proteção espacial.

Curiosidades

  1. O fundo da Bacia Argentina é coberto por ondulações de lama com comprimentos de onda de 1 km a 10 km e alturas de mais de 100 m: campos de dunas em escala quilométrica, a mais de 5.000 m de profundidade.
  2. Na Confluência Brasil–Malvinas, a temperatura da superfície pode cair mais de 10 °C em poucas dezenas de quilômetros, e a frente aparece como uma linha sinuosa nas imagens térmicas de satélite.
  3. Toda a água de fundo que sai da bacia rumo ao hemisfério norte passa pelo Canal de Vema, garganta de 15 km a 20 km de largura com soleira próxima de 4.600 m.
  4. Em temporadas de pico, mais de 400 embarcações operam ao longo da milha 201, e as luzes dos jigueiros de lula formam um alinhamento contínuo nas imagens noturnas de satélite.
  5. A lula-argentina vive apenas doze meses. Por isso os desembarques variam de menos de 100.000 t a mais de 1.000.000 t entre temporadas, sem estoque acumulado para amortecer a oscilação.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  2. NOAA — National Ocean Service. Ocean currents and western boundary current systems, 2024. Consultar publicação
  3. FAO — Fisheries and Aquaculture. Review of the state of world marine fishery resources, Southwest Atlantic, Área 41, 2022. Consultar publicação
  4. Comissão de Limites da Plataforma Continental das Nações Unidas. Submissions, through the Secretary-General of the United Nations, 2016. Consultar publicação
  5. IUCN Red List. Thalassarche melanophris e Eubalaena australis, 2023. Consultar publicação
  6. Protected Planet. Área Marina Protegida Namuncurá — Banco Burdwood, 2024. Consultar publicação
  7. Copernicus Marine Service. Global Ocean Physics Reanalysis — Atlântico Sudoeste, 2025. Consultar publicação

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