Baía de Todos os Santos
Maior baía navegável do Brasil, com cerca de 1.100 km², 56 ilhas, manguezais extensos e o conjunto portuário e petroquímico do Recôncavo Baiano.
A Baía de Todos os Santos é a maior baía navegável do Brasil, com cerca de 1.100 km² de espelho de água aberto ao Oceano Atlântico no litoral central da Bahia. Sua entrada principal tem cerca de 12 km de largura entre a Ponta de Santo Antônio, em Salvador, e a Ponta dos Garcez, no norte da Ilha de Itaparica, e dá acesso a um interior amplo, recortado por 56 ilhas e enseadas. A profundidade média é de 9,8 m, com máximos próximos de 70 m no canal de entrada.
A baía deu forma ao Recôncavo Baiano, a região que a circunda e que estruturou a economia colonial do açúcar e do fumo. Hoje concentra o maior complexo portuário e petroquímico do Nordeste, ao lado de manguezais extensos, recifes de coral de águas turvas e uma das mais numerosas populações de marisqueiras e pescadores artesanais do país. A sobreposição entre indústria pesada e extrativismo define os principais conflitos ambientais do estuário.
Ficha técnica
- Nome
- Baía de Todos os Santos
- Também chamado de
- Baía de Todos-os-Santos, Kirimurê
- Tipo de formação
- Baía
- Localização
- Entre 12° 35′ S e 13° 07′ S e entre 38° 54′ O e 38° 17′ O, no litoral central da Bahia, aberta ao Oceano Atlântico por uma barra de cerca de 12 km entre Salvador e a Ilha de Itaparica.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- América do Sul
- Países e territórios
- Brasil. A orla e as ilhas pertencem a dez municípios do estado da Bahia, entre eles Salvador, Madre de Deus, Candeias, São Francisco do Conde, Salinas da Margarida, Itaparica, Vera Cruz, Maragogipe e Jaguaripe.
- Área aproximada
- 1.100 km²Estimativas publicadas variam entre 1.052 km² e 1.233 km² conforme se incluam a Baía do Iguape, o Canal de Itaparica e os manguezais.
- Profundidade média
- 9,8 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 70 mNo canal de entrada, entre a Ponta de Santo Antônio, em Salvador, e a Ponta dos Garcez, em Itaparica.
- Volume
- Aproximadamente 11 km³ em preamar de sizígia
- Salinidade
- 32 no interior da Baía do Iguape a 36 na barra
- Temperatura da superfície
- De 24 °C a 30 °C ao longo do ano
- Linha de costa
- Cerca de 300 km, somando o continente e as ilhas
- Correntes principais
- Circulação de maré com amplitudes de até 2,7 m, descarga do rio Paraguaçu e influência externa da Corrente do Brasil.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O corpo de água é limitado a leste pela península onde se ergue Salvador, a sul pela Ilha de Itaparica, a oeste pelo Recôncavo e a norte por Candeias, Madre de Deus e São Francisco do Conde. Há duas comunicações com o oceano: a barra principal, ao norte de Itaparica, e o Canal de Itaparica, estreito e raso, ao sul. O eixo norte–sul mede cerca de 50 km e o leste–oeste aproximadamente 40 km.
O contorno é muito recortado, e enseadas como a Baía de Aratu, a Baía do Iguape e a Enseada dos Tainheiros funcionam como subsistemas com hidrodinâmica própria. A baía ocupa a porção submersa da bacia sedimentar do Recôncavo, um rifte abortado da separação entre a América do Sul e a África — a estrutura que acumulou os hidrocarbonetos explorados desde a década de 1940.
Continentes e países próximos
A baía é inteiramente brasileira e banha dez municípios do estado da Bahia. Salvador concentra a população e o porto de contêineres; o arco norte reúne o parque industrial; a margem oeste mantém cidades do ciclo do açúcar; a porção sul é dominada por Itaparica.
- Margem oriental — Salvador, com o porto, o centro histórico e as enseadas da Cidade Baixa.
- Arco industrial norte — Candeias, Madre de Deus, São Francisco do Conde e Simões Filho, sede da refinaria de Mataripe e do Porto de Aratu.
- Recôncavo ocidental — Maragogipe, Cachoeira e Santo Amaro, ligadas à baía pelos rios Paraguaçu e Subaé.
- Margem meridional — Itaparica, Vera Cruz, Salinas da Margarida e Jaguaripe, de economia pesqueira.
Área e profundidade
O valor mais citado por instituições brasileiras é de aproximadamente 1.100 km², o que faz da baía o maior corpo de água costeiro navegável do país. O volume é estimado em torno de 11 km³ na preamar de sizígia e o perímetro ultrapassa 300 km. Cerca de dois terços da superfície têm menos de 10 m: o canal de acesso, escavado pelas correntes de maré, é a única parte com dezenas de metros de coluna de água, enquanto a Baía do Iguape raramente ultrapassa 6 m.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 1.100 km² | Entre 1.052 km² e 1.233 km² |
| Eixo norte–sul | 50 km | Barra à Baía do Iguape |
| Largura da barra | 12 km | Salvador a Itaparica |
| Profundidade média | 9,8 m | Dois terços abaixo de 10 m |
| Profundidade máxima | 70 m | Canal de entrada |
| Amplitude de maré | Até 2,7 m | Marés de sizígia |
| Ilhas | 56 | Maior: Itaparica, 239 km² |
Principais correntes
A maré comanda a circulação. O regime é semidiurno, com amplitude média de 1,8 m e máximos de 2,7 m em sizígia — valores altos para um estuário brasileiro, que geram correntes acima de 1 m/s na barra e mantêm o corpo central bem oxigenado.
A descarga fluvial é modesta e concentrada. O rio Paraguaçu responde pela maior parte da água doce, mas seu regime foi alterado pela barragem de Pedra do Cavalo, concluída em 1985, que passou a controlar a vazão que chega à Baía do Iguape. No exterior, a baía é banhada pela Corrente do Brasil, que flui para sul ao longo do talude com águas quentes e pobres em nutrientes rumo à Bacia do Brasil; em consequência, a produtividade da plataforma adjacente é baixa.
Clima
O entorno tem clima tropical úmido, com temperaturas médias entre 24 °C e 27 °C e pouca variação sazonal. A precipitação anual vai de cerca de 1.600 mm em Salvador a mais de 2.000 mm no Recôncavo interior e concentra-se entre abril e julho, quando os ventos de sudeste lançam umidade oceânica contra o relevo costeiro; entre setembro e fevereiro a descarga fluvial diminui e a salinidade dos setores interiores sobe. A água superficial mantém-se entre 24 °C e 30 °C.
Ecossistemas
O manguezal é o ecossistema mais extenso, com cobertura estimada entre 180 km² e 200 km² no arco oeste, na Baía do Iguape, no estuário do Jaguaripe e nas franjas das ilhas. São bosques bem desenvolvidos, com árvores que superam 15 m em setores protegidos, dominados por Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa e Avicennia schaueriana.
Os recifes de coral da baía são um caso incomum, pois se desenvolvem em água turva, com aportes de sedimento que eliminariam a maioria dos recifes oceânicos. Ocorrem em franja e como cabeços isolados junto à Ilha dos Frades, à Ilha de Maré e ao norte de Itaparica, construídos sobretudo pelos corais endêmicos Mussismilia hispida e Mussismilia harttii, com Siderastrea stellata e o hidrocoral Millepora alcicornis.
Biodiversidade
A baía é um dos estuários tropicais mais bem inventariados do Atlântico Sul, com registros que superam 200 espécies de peixes, dezenas de moluscos e crustáceos comerciais e comunidades recifais com corais e esponjas endêmicos.
- Boto-cinza — Sotalia guianensis mantém grupos residentes junto à Ilha dos Frades e ao Canal de Itaparica.
- Baleia-jubarte — Megaptera novaeangliae reproduz-se na plataforma baiana entre julho e novembro e entra ocasionalmente pela barra.
- Moluscos de mariscagem — Sururu Mytella, lambreta Lucina pectinata e ostra-do-mangue Crassostrea sustentam a extração manual das ilhas.
- Corais construtores — Mussismilia harttii e Mussismilia hispida, endêmicos do Brasil, constam de listas nacionais de espécies ameaçadas.
- Peixes comerciais — Robalo, carapeba, xaréu, vermelho e tainha respondem pela maior parte do desembarque artesanal.
Ilhas
As 56 ilhas da baía formam o arquipélago estuarino mais numeroso do litoral brasileiro. Várias são habitadas há séculos por comunidades pesqueiras; outras são apenas lajes que emergem na baixa-mar. O conjunto divide o corpo de água em canais de correntes intensas.
- Itaparica — Cerca de 239 km², a maior ilha marítima do Brasil depois de Marajó e de São Luís; abriga dois municípios e a travessia de ferry-boat.
- Ilha de Maré — Cerca de 14 km² no arco norte, habitada por comunidades quilombolas que vivem da mariscagem, cercada por terminais industriais.
- Ilha dos Frades — Cerca de 11 km², com recifes em franja e capela do século XVI.
- Madre de Deus — Ilha ligada ao continente, sede do maior terminal de petróleo e derivados do Nordeste.
- Ilhotas da barra — Ilha do Medo, Ilha dos Ratos e Bom Jesus dos Passos, com povoados de pescadores.
Portos e rotas relevantes
A baía reúne o principal complexo portuário do Nordeste. O Porto de Salvador, na Cidade Baixa, opera contêineres, carga geral e navios de passageiros; o Porto de Aratu-Candeias, no arco norte, foi projetado na década de 1970 para atender ao parque industrial e movimenta granéis sólidos e líquidos. Completam o sistema o Terminal de Madre de Deus, ligado por dutos à refinaria de Mataripe, e uma navegação interna intensa — a travessia de ferry-boat para Bom Despacho e dezenas de linhas entre ilhas e povoados, como na Baía de Guanabara.
| Instalação | Localização | Função |
|---|---|---|
| Porto de Salvador | Cidade Baixa, Salvador | Contêineres, carga geral e cruzeiros |
| Porto de Aratu-Candeias | Baía de Aratu | Granéis sólidos e líquidos |
| Terminal de Madre de Deus | Ilha de Madre de Deus | Petróleo e derivados |
| Travessia Salvador–Bom Despacho | Barra da baía | Veículos e passageiros |
Importância econômica
O petróleo definiu a economia do Recôncavo no século XX. O campo de Candeias, aberto em 1941, foi o primeiro campo comercial do Brasil, e em 1947 o campo de Dom João, dentro da própria baía, inaugurou a exploração em ambiente marinho no país. A refinaria de Mataripe entrou em operação em 1950; na década de 1970 somou-se o Polo Petroquímico de Camaçari, que usa a baía como porta de insumos.
Em paralelo, e à margem desse circuito, opera uma economia extrativista de escala social ampla: estimativas de órgãos estaduais apontam dezenas de milhares de pescadores artesanais e marisqueiras vivendo do estuário, com predomínio do trabalho feminino na mariscagem, a coleta manual de bivalves nas planícies de maré.
Importância ambiental
A baía é área prioritária para a conservação da biodiversidade marinha brasileira: seus manguezais são berçário de espécies que sustentam a pesca de toda a plataforma adjacente. Os recifes internos têm valor científico particular, pois, ao prosperarem em água turva e com variação térmica alta, ajudam a entender a resistência de corais a condições letais em recifes oceânicos como os do arquipélago de Fernando de Noronha.
A Reserva Extrativista Marinha da Baía do Iguape, criada em 2000 e administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, protege cerca de 80 km² no extremo noroeste e assegura o uso pelas comunidades tradicionais; uma área de proteção ambiental estadual abrange praticamente todo o restante do espelho de água. Séries de monitoramento reunidas por universidades federais desde a década de 1970 dão ao estuário uma das maiores profundidades históricas de dados do Hemisfério Sul.
Problemas de conservação
A contaminação por metais é o passivo mais documentado. Sedimentos da Baía de Aratu e do estuário do rio Subaé registram concentrações elevadas de chumbo, cádmio e zinco, associadas à atividade industrial e, no caso do Subaé, aos rejeitos de uma metalurgia de chumbo que operou em Santo Amaro entre as décadas de 1960 e 1990. Análises em moluscos coletados por marisqueiras já detectaram acúmulo desses elementos, o que liga o problema à segurança alimentar local.
- Metais em sedimento — Chumbo, cádmio e zinco acima dos valores de referência na Baía de Aratu e no estuário do Subaé.
- Esgoto urbano — As enseadas de Salvador recebem efluentes com tratamento parcial e balneabilidade comprometida em períodos de chuva.
- Perda de manguezal — Aterros para indústria, portos e ocupação urbana reduziram a cobertura original, sobretudo no arco norte.
- Branqueamento de corais — Episódios de aquecimento anômalo desde a década de 1990 afetaram recifes internos já próximos ao limite térmico.
- Alteração do Paraguaçu — A regulação da vazão por Pedra do Cavalo mudou a salinidade e o aporte de sedimento na Baía do Iguape.
Curiosidades
- O nome vem da data da chegada: uma expedição portuguesa avistou a entrada da baía em 1º de novembro de 1501, dia de Todos os Santos, e transferiu a data ao acidente geográfico.
- Antes da colonização, o corpo de água era chamado pelos tupinambás de Kirimurê, nome registrado em crônicas do século XVI.
- O campo de Dom João, descoberto em 1947 dentro da baía, deu origem à primeira produção de petróleo em ambiente marinho do Brasil.
- O Forte de São Marcelo, erguido no século XVII sobre um banco de areia diante do porto de Salvador, é a única fortificação de planta circular construída em mar aberto no Brasil.
- A Ilha de Itaparica, com 239 km², é a maior ilha marítima brasileira depois de Marajó e de São Luís, e comporta dois municípios.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Reserva Extrativista Marinha da Baía do Iguape, 2024. Consultar publicação
- Marinha do Brasil — Centro de Hidrografia. Cartas náuticas e tábuas de maré da Baía de Todos os Santos, 2025. Consultar publicação
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Áreas prioritárias para a conservação da zona costeira e marinha, 2023. Consultar publicação
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Panorama dos municípios do Recôncavo e da Região Metropolitana de Salvador, 2024. Consultar publicação
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Mapeamento de manguezais e da zona costeira por sensoriamento remoto, 2024. Consultar publicação
- FAO. Fishery and Aquaculture Country Profiles — Brasil, 2023. Consultar publicação
- IUCN. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas — corais do Atlântico Sul-Ocidental, 2022. Consultar publicação
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