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Mar interior Oceano Atlântico

Mar Negro

Mar interior de 436.400 km² entre a Europa e a Ásia, com a maior massa de água anóxica do planeta abaixo de cerca de 150 m a 200 m.

Mapa de localização de Mar Negro, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte da bacia pôntica entre o Bósforo, a plataforma noroeste, a Crimeia e a costa do Cáucaso.

O Mar Negro é um mar interior de aproximadamente 436.400 km² entre o sudeste da Europa e a Ásia Menor, ligado ao Mar Mediterrâneo por uma sequência estreita de passagens: o Bósforo, o Mar de Mármara e os Dardanelos. A nordeste, o Estreito de Kerch dá acesso ao raso Mar de Azov. A profundidade média chega a 1.253 m e o ponto mais fundo alcança 2.212 m, valores incomuns para uma bacia de comunicação oceânica tão restrita.

A característica que o define é a estratificação permanente. Abaixo de uma faixa entre 100 m e 200 m, a água não recebe oxigênio e concentra sulfeto de hidrogênio, o que faz da bacia o maior reservatório anóxico do planeta: mais de 90% de seu volume é desprovido de vida animal. Essa mesma condição preserva madeira e cordame de naufrágios milenares em estado que nenhum outro mar reproduz.

Ficha técnica

Nome
Mar Negro
Também chamado de
Ponto Euxino, Karadeniz, Chorne More
Tipo de formação
Mar interior
Localização
Entre 40,9° N e 46,8° N e entre 27,4° L e 41,8° L, encaixado entre a península balcânica, a planície pôntica, o Cáucaso e a Anatólia.
Oceano de referência
Atlântico
Continentes próximos
Europa, Ásia
Países e territórios
Turquia, Bulgária, Romênia, Ucrânia, Rússia e Geórgia. A leste, o território da Abecásia mantém litoral sob administração disputada; o Mar de Azov, ligado pelo Estreito de Kerch, acrescenta costas ucranianas e russas.
Área aproximada
436.400 km²Cerca de 397.000 km² quando se exclui o Mar de Azov, que responde por aproximadamente 39.000 km².
Profundidade média
1.253 m
Profundidade máxima
2.212 mPlanície abissal central, a sudoeste da península da Crimeia.
Volume
547.000 km³
Salinidade
17 a 18 na superfície e cerca de 22 abaixo da haloclina
Temperatura da superfície
De 6 °C a 8 °C no inverno do setor norte a 25 °C a 26 °C no verão da costa anatólica
Linha de costa
Aproximadamente 4.340 km
Correntes principais
Corrente Periférica ciclônica, giros ocidental e oriental, vórtice de Sebastopol e o fluxo bidirecional do Bósforo.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A bacia estende-se por cerca de 1.175 km no sentido leste–oeste e por 610 km no sentido norte–sul, com limite sudoeste na entrada do Bósforo e limite nordeste no Estreito de Kerch. O Bósforo tem cerca de 31 km de extensão, largura mínima próxima de 700 m e soleira de 35 m a 60 m, o que restringe drasticamente a troca com o Mediterrâneo e faz a bacia comportar-se como um estuário gigante, e não como um golfo do Oceano Atlântico, ao qual pertence por conexão.

O relevo submarino divide-se com nitidez. A plataforma noroeste, alimentada pelo Danúbio, pelo Dniepre e pelo Dniestre, ocupa cerca de um quarto da superfície e raramente ultrapassa 200 m. Nas costas turca, caucasiana e sul da Crimeia, ela é estreita, às vezes com menos de 10 km, e o talude mergulha abruptamente até a planície abissal.

Continentes e países próximos

Seis Estados soberanos têm litoral no Mar Negro, mas a bacia de drenagem abrange cerca de 2 milhões de km² e territórios de mais de vinte países, do sul da Alemanha ao norte da Turquia, sobretudo pela extensão do Danúbio. Essa desproporção é a raiz de boa parte dos problemas ambientais.

  • Turquia — Litoral mais extenso, cerca de 1.400 km, e controle dos dois estreitos de acesso.
  • Ucrânia — Costa da plataforma noroeste, da foz do Danúbio à Crimeia.
  • Rússia — Litoral do Cáucaso ocidental e margem oriental do Estreito de Kerch.
  • Romênia e Bulgária — Margem ocidental, com o delta do Danúbio e as enseadas de Varna e Burgas.
  • Geórgia — Costa oriental montanhosa, alimentada pelos rios Rioni e Chorokhi.

Área e profundidade

O Mar Negro reúne cerca de 547.000 km³ de água em 436.400 km² de superfície, com profundidade média de 1.253 m e contraste morfológico abrupto: ao largo da Crimeia, o fundo desce de 100 m para mais de 2.000 m em menos de 100 km. O balanço hídrico é positivo, e o excedente escoa para o Mediterrâneo pela superfície do Bósforo, em torno de 300 km³ anuais, enquanto cerca de 175 km³ de água mediterrânea densa entram pelo fundo do mesmo estreito.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área436.400 km²Incluindo o Mar de Azov
Volume547.000 km³Mais de 90% em condição anóxica
Profundidade média1.253 mPlataforma noroeste abaixo de 200 m
Profundidade máxima2.212 mPlanície abissal central
Tempo de renovação profunda400 a 2.000 anosEstimado por traçadores químicos

Principais correntes

A circulação superficial organiza-se em torno da Corrente Periférica, fluxo ciclônico que contorna a bacia no sentido anti-horário a 0,3 m/s a 0,5 m/s. Dois grandes giros dividem o centro do mar, e vórtices anticiclônicos semipermanentes como os de Sebastopol, Batumi e Sinope instalam-se entre a corrente e a costa.

A estratificação é o traço mais marcante. Uma haloclina permanente entre 100 m e 200 m separa a água superficial, com salinidade de 17 a 18, da água profunda de origem mediterrânea, próxima de 22. A diferença de densidade é grande demais para que o resfriamento invernal a vença: não há convecção profunda, e abaixo da interface o oxigênio cede lugar ao sulfeto de hidrogênio de bactérias redutoras de sulfato. Acima dela persiste a Camada Intermediária Fria, lente de 6 °C a 8 °C entre 50 m e 100 m.

Clima

O regime é de transição entre o continental da estepe pôntica e o temperado úmido do litoral anatólico e caucasiano. No inverno, o setor noroeste cai para 0 °C a 3 °C e enseadas rasas congelam parcialmente; no verão, a superfície ultrapassa 25 °C. A costa oriental recebe mais de 2.200 mm anuais de chuva em Batumi, enquanto a margem noroeste fica abaixo de 400 mm.

As marés são imperceptíveis, com amplitudes inferiores a 0,1 m, e o nível responde sobretudo ao vento e à pressão atmosférica. Séries de satélite registram aquecimento superior a 1 °C na média da bacia desde a década de 1990.

Ecossistemas

A vida animal concentra-se na camada de mistura superior, menos de 10% do volume. Sobre a plataforma noroeste, os fundos abrigavam até meados do século XX o campo de Zernov, formação da alga vermelha Phyllophora que cobria mais de 10.000 km² e que a eutrofização reduziu a uma fração disso. Bancos de mexilhão e pradarias de Zostera completam os habitats rasos; abaixo da haloclina o ecossistema é inteiramente microbiano.

O delta do Danúbio, com cerca de 5.800 km² entre Romênia e Ucrânia, é a maior zona úmida contínua da Europa e integra a Lista do Patrimônio Mundial desde 1991. Funciona como filtro de nutrientes, berçário de peixes e parada de milhões de aves migratórias, entre elas a maior colônia mundial de pelicano-crespo.

Biodiversidade

A baixa salinidade e a ausência de habitats profundos limitam a riqueza de espécies: cerca de 2.500 estão registradas no Mar Negro, contra mais de 17.000 no Mediterrâneo. A fauna soma elementos mediterrâneos tolerantes a água salobra, relíquias ponto-cáspias e espécies introduzidas por água de lastro.

  • Esturjões — Seis espécies ocorriam na bacia, entre elas a beluga Huso huso, hoje criticamente ameaçadas; a reprodução natural persiste quase apenas no baixo Danúbio.
  • Cetáceos — Três subespécies endêmicas: a toninha Phocoena phocoena relicta, o roaz Tursiops truncatus ponticus e o golfinho-comum Delphinus delphis ponticus; a caça comercial foi proibida em 1966 no norte e em 1983 na Turquia.
  • Anchova e espadilhaEngraulis encrasicolus ponticus e Sprattus sprattus sustentam a maior parte dos desembarques regionais.
  • Foca-mongeMonachus monachus desapareceu do Mar Negro na segunda metade do século XX, com últimos registros confiáveis na costa búlgara.
  • Invasoras estabelecidas — O caramujo Rapana venosa, chegado do noroeste do Pacífico na década de 1940, dizimou os bancos naturais de ostra e hoje é alvo de pesca comercial.

Ilhas

O Mar Negro é pobre em ilhas, consequência de margens que ou são planícies fluviais ou frentes montanhosas mergulhando direto na água. Não há arquipélagos, e todas as ilhas somadas não chegam a 100 km².

  • Dzharylhach — Cerca de 62 km², a maior do mar, restinga arenosa junto à costa de Kherson, na Ucrânia, integrada a um parque nacional.
  • Ilha das Serpentes — Zmiinyi, com 0,17 km², a 35 km da foz do Danúbio; em 2009 a Corte Internacional de Justiça decidiu que o rochedo não gera plataforma continental própria.
  • Berezan — Ilhota junto ao estuário do Dniepre, sítio de uma das mais antigas colônias gregas do norte do mar.
  • Giresun Adası — Única ilha da costa turca.

Portos e rotas relevantes

O Mar Negro é a saída marítima natural de uma vasta região continental sem outro acesso ao oceano, e concentra terminais de grãos, minério, petróleo e contêineres muito acima do que sua área sugeriria. O corredor do Danúbio, navegável até a Alemanha, prolonga essa função para o interior da Europa.

Todo o tráfego passa pelos estreitos turcos, regidos pela Convenção de Montreux, de 1936, que devolveu à Turquia o controle do Bósforo e dos Dardanelos, garantiu a livre passagem mercante em tempo de paz e limitou a vinte e um dias a permanência de navios de guerra de países sem litoral no mar. Cerca de 40 mil travessias anuais cruzam o Bósforo, via que corta uma cidade de mais de 15 milhões de habitantes.

Principais portos
PortoPaísFunção predominante
ConstançaRomêniaMaior porto da bacia, grãos e contêineres
NovorossiyskRússiaPetróleo, cereais e carga geral
OdessaUcrâniaGrãos e contêineres da bacia do Dniepre
BurgasBulgáriaRefino e carga a granel
Poti e BatumiGeórgiaCorredor de trânsito para o Cáucaso e a Ásia Central
SamsunTurquiaCabotagem anatólica

Importância econômica

A pesca movimenta a economia costeira sobretudo na Turquia, responsável por cerca de dois terços dos desembarques, com a anchova como espécie dominante. A produção regional oscila entre 300 mil e 500 mil toneladas anuais, muito abaixo do pico de cerca de 850 mil toneladas do início da década de 1980, antes do colapso provocado pela soma de sobrepesca, eutrofização e invasão biológica.

O transporte de hidrocarbonetos é a segunda atividade em valor: oleodutos vindos do Cáspio terminam em Novorossiysk e Supsa, e gasodutos submarinos como o Blue Stream, de 2003, e o TurkStream, de 2020, cruzam a planície abissal. A prospecção turca revelou em 2020 o campo de gás de Sakarya. Somam-se o turismo litorâneo e o trânsito de cereais, que fez do mar uma das principais rotas mundiais de trigo, milho e óleo de girassol.

Importância ambiental

O Mar Negro funciona como laboratório natural de anoxia em escala de bacia. A interface entre a água oxigenada e a sulfídica responde ao aporte de água doce e ao aquecimento, o que faz da bacia um análogo moderno dos oceanos anóxicos do passado geológico e das zonas de mínimo oxigênio em expansão em outros mares.

Essa mesma química explica um patrimônio arqueológico sem paralelo: sem oxigênio e sem perfuradores de madeira, cascos e cargas permanecem intactos por milênios. Entre 2015 e 2017, um levantamento geofísico na plataforma búlgara localizou mais de sessenta naufrágios, do período romano ao otomano.

A bacia é ainda peça central do debate sobre a inundação do Mar Negro. Em 1997, os geólogos William Ryan e Walter Pitman propuseram que, por volta de 7.500 anos atrás, a subida do nível do Mediterrâneo rompeu o Bósforo e converteu abruptamente um lago de água doce, então dezenas de metros abaixo do nível oceânico, no mar salgado atual.

Problemas de conservação

A eutrofização é o problema estrutural da bacia. Entre as décadas de 1970 e 1980, o Danúbio e os demais rios do noroeste passaram a despejar cargas maciças de nitrogênio e fósforo, e a plataforma desenvolveu hipóxia sazonal em áreas que chegaram a 40.000 km². A queda no uso de fertilizantes nos anos 1990 trouxe recuperação parcial, sem retorno ao estado anterior.

A introdução do ctenóforo Mnemiopsis leidyi, trazido em água de lastro do Atlântico ocidental por volta de 1982, produziu um dos colapsos ecológicos mais bem documentados do século XX: sem predadores locais e favorecido pelo excesso de nutrientes, alcançou biomassa estimada em cerca de um bilhão de toneladas úmidas em 1989 e derrubou a pesca de anchova e espadilha. A situação só se estabilizou após 1997, com a chegada acidental de Beroe ovata, ctenóforo que se alimenta especificamente do primeiro.

  • Esturjões — Todas as espécies da bacia são criticamente ameaçadas; a captura foi proibida na Romênia e na Bulgária em 2006 e tornou-se permanente na Romênia em 2021.
  • Barragens fluviais — As represas das Portas de Ferro, no Danúbio, concluídas em 1972 e 1984, bloquearam rotas de desova e retiveram sedimentos e silício.
  • Erosão costeira — A retenção de sedimentos e a extração de areia reduziram o aporte às praias do delta, que recuam mais de 10 m por ano em alguns setores.
  • Capturas acidentais — Redes de emalhe dirigidas ao rodovalho matam milhares de toninhas e roazes por ano.
  • Governança regional — A Convenção de Bucareste, em vigor desde 1994, reúne os seis Estados costeiros, mas a proteção marinha efetiva permanece escassa.

Curiosidades

  1. O navio mercante grego localizado a cerca de 2.000 m de profundidade ao largo da Bulgária foi datado em torno de 400 a.C. e conserva mastro, leme e bancos de remadores no lugar, condição impossível em águas oxigenadas por causa do molusco Teredo navalis.
  2. A hipótese da inundação do Mar Negro encontra resistência de pesquisadores como Ali Aksu, Richard Hiscott e Valentina Yanko-Hombach, que apontam evidências sedimentares de fluxo contínuo do mar para o Mediterrâneo no mesmo período.
  3. Bolhas de metano que sobem do leito ao largo do delta do Danúbio formam campos com centenas de fontes ativas, e parte do gás é consumida por micróbios que constroem chaminés de carbonato.
  4. A Convenção de Montreux vigora sem alterações desde 1936 e fixa tonelagem máxima agregada para navios de guerra de países sem litoral no mar.
  5. A camada entre 50 m e 100 m mantém 6 °C a 8 °C mesmo quando a superfície ultrapassa 25 °C.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  2. FAO — Comissão Geral de Pesca do Mediterrâneo. The State of Mediterranean and Black Sea Fisheries, 2023. Consultar publicação
  3. PNUMA. Black Sea — regional seas and transboundary waters assessments, 2022. Consultar publicação
  4. UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Danube Delta, 1991. Consultar publicação
  5. União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha — Huso huso e Phocoena phocoena relicta, 2022. Consultar publicação
  6. Copernicus Marine Service. Black Sea Physics Analysis and Forecast, 2025. Consultar publicação
  7. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação

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