Mar Cáspio
Maior corpo de água interior do planeta, com cerca de 371.000 km², superfície 28 m abaixo do nível do mar e estatuto jurídico próprio desde 2018.
O Mar Cáspio é o maior corpo de água interior do planeta, com cerca de 371.000 km² de superfície e 78.200 km³ de volume, mais de um terço de toda a água lacustre da Terra. Alonga-se por cerca de 1.030 km entre a foz do Volga e a costa iraniana do Gilão, sem ligação natural com o oceano, e sua superfície situa-se em torno de 28 m abaixo do nível do mar.
A água é salobra, com salinidade média de 12 a 13, cerca de um terço da oceânica, herança do antigo Mar de Paratétis. Essa origem produziu uma fauna de relíquias com centenas de espécies endêmicas, entre elas a foca-do-cáspio e a maior concentração mundial de esturjões. Ao mesmo tempo, o subsolo guarda algumas das maiores reservas de petróleo e gás fora do Golfo Pérsico, o que faz da natureza jurídica do Cáspio uma das disputas mais consequentes da geografia contemporânea.
Ficha técnica
- Nome
- Mar Cáspio
- Também chamado de
- Cáspio, Kaspiyskoye More, Darya-ye Khazar
- Tipo de formação
- Mar interior
- Localização
- Entre 36,5° N e 47,2° N e entre 46,5° L e 54,5° L, em uma depressão fechada entre a planície russa, o Cáucaso, o planalto iraniano e as estepes da Ásia Central.
- Oceano de referência
- Bacia endorreica
- Continentes próximos
- Europa, Ásia
- Países e territórios
- Rússia, Cazaquistão, Turcomenistão, Irã e Azerbaijão. A bacia de drenagem alcança ainda Geórgia, Armênia, Turquia e Uzbequistão pelo sistema do Volga, do Ural, do Terek e do Kura.
- Área aproximada
- 371.000 km²Valores entre 371.000 km² e 386.400 km² conforme o nível de referência adotado e a inclusão da laguna de Kara-Bogaz-Gol.
- Profundidade média
- 208 m
- Profundidade máxima
- 1.025 mDepressão Sul do Cáspio, ao largo da costa iraniana e turcomena.
- Volume
- 78.200 km³
- Salinidade
- De menos de 1 na foz do Volga a cerca de 13 no sul e mais de 300 em Kara-Bogaz-Gol
- Temperatura da superfície
- De 0 °C com gelo no setor norte, no inverno, a 26 °C a 28 °C na superfície do sul, no verão
- Linha de costa
- Aproximadamente 7.000 km
- Correntes principais
- Circulação ciclônica no setor médio, deriva costeira ocidental, correntes de vento e forte influência da descarga do Volga.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A depressão caspiana é limitada a oeste pelo Grande Cáucaso, ao sul pelo Alborz, a leste pelos platôs de Ustyurt e Mangyshlak e ao norte pela planície do Volga e do Ural. Não há foz oceânica: a bacia é endorreica, e o balanço hídrico depende de rios, chuva e evaporação.
Divide-se em três compartimentos. O Cáspio Norte é raso, com profundidade média em torno de 5 m, e concentra menos de 1% do volume apesar de ocupar um quarto da superfície. O Médio, separado pelo limiar de Mangyshlak, atinge cerca de 788 m; o Sul, delimitado pelo limiar de Apsheron, é o mais fundo e reúne dois terços de toda a água. A leste, a laguna de Kara-Bogaz-Gol funciona como evaporador natural, com salinidade superior a 300.
Continentes e países próximos
Cinco Estados têm costa no Cáspio, três deles surgidos da dissolução da União Soviética em 1991. Até então, o mar era partilhado apenas por Irã e União Soviética, sob tratados de 1921 e 1940 que tratavam do uso comum das águas para navegação e pesca, mas nada diziam sobre recursos do subsolo — tema que se tornaria central quando as reservas de hidrocarbonetos foram dimensionadas.
- Cazaquistão — Maior litoral, cerca de 2.320 km, e os campos gigantes de Tengiz e Kashagan.
- Rússia — Costa do Daguestão, da Calmúquia e de Astracã, com o delta do Volga, que fornece cerca de 80% do aporte fluvial.
- Turcomenistão — Litoral árido oriental, a laguna de Kara-Bogaz-Gol e o porto de Turkmenbashi.
- Azerbaijão — Península de Apsheron e Baku, centro petrolífero desde o século XIX.
- Irã — Cerca de 900 km de costa florestada em Gilão, Mazandarão e Golestão.
Área e profundidade
Com aproximadamente 371.000 km², o Cáspio é maior que o Japão. A profundidade média de 208 m esconde uma assimetria extrema: a Depressão Sul do Cáspio desce a 1.025 m e concentra a maior parte da água, enquanto o setor norte é tão raso que variações de poucos decímetros deslocam a costa por quilômetros.
A Depressão Sul é uma das feições geológicas mais notáveis do continente: seu embasamento tem natureza oceânica ou fortemente atenuada e está soterrado por uma pilha sedimentar de mais de 20 km, entre as maiores da Terra. Isso explica a excepcional acumulação de petróleo e gás e a abundância de vulcões de lama em Apsheron.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 371.000 km² | Variável conforme o nível do ano de referência |
| Volume | 78.200 km³ | Cerca de dois terços na bacia sul |
| Profundidade média | 208 m | Apenas 5 m em média no setor norte |
| Profundidade máxima | 1.025 m | Depressão Sul do Cáspio |
| Nível da superfície | 28 m abaixo do nível do mar | Valor aproximado da década de 2020 |
Principais correntes
A circulação é dominada pelo vento e pela descarga fluvial, não por marés. No Cáspio Médio forma-se um giro ciclônico persistente e, ao longo da costa ocidental, uma deriva leva para o sul a água menos salgada do Volga.
O balanço hídrico é a variável decisiva. O Volga contribui com cerca de 80% da entrada fluvial, entre 230 km³ e 250 km³ por ano, e a evaporação retira aproximadamente 1 m de coluna por ano. O nível caiu de cerca de 26 m abaixo do nível do mar na década de 1920 para 29 m em 1977, subiu quase 2,5 m até 1995 e voltou a descer, a taxas que ultrapassaram 6 cm a 7 cm por ano nas duas primeiras décadas do século XXI. Projeções climáticas indicam quedas adicionais de poucos metros a mais de 15 m até o fim do século.
Clima
A bacia atravessa três domínios climáticos. O norte é continental seco: a superfície congela todo ano entre dezembro e março, com gelo de 0,5 m a 1 m em Astracã. A margem oriental é desértica, com precipitação inferior a 150 mm anuais e evaporação intensa.
A costa sul é subtropical úmida: comprimida entre o mar e o Alborz, a faixa iraniana recebe de 1.000 mm a 2.000 mm de chuva por ano e sustenta as florestas hircanianas, remanescentes temperados do Terciário reconhecidos como patrimônio mundial em 2019. Ventos de nordeste em Apsheron geram ondas acima de 10 m e empilham água no litoral raso do norte, com variações de nível superiores a 2 m.
Ecossistemas
O gradiente de salinidade organiza o ecossistema. O delta do Volga, com cerca de 27.000 km² de canais, ilhas e lagos, é a maior zona úmida da Europa oriental e abriga a reserva de Astracã, criada em 1919. É ali que se concentram as áreas de desova de esturjões e o repouso de milhões de aves migratórias.
No mar aberto, o plâncton é dominado por espécies ponto-cáspias, com forte contribuição de misidáceos e anfípodes endêmicos. Abaixo de cerca de 100 m no Cáspio Sul, a renovação de oxigênio é lenta e a hipóxia tornou-se mais frequente desde a década de 1990, à medida que o aquecimento superficial reforça a estratificação — situação semelhante, em escala menor, à do Mar Negro, com o qual o Cáspio compartilha ascendência geológica.
Biodiversidade
Cerca de 400 espécies são endêmicas do Cáspio, resultado de milhões de anos de isolamento após a separação do Paratétis. Muitas são relíquias de linhagens já desaparecidas do oceano aberto.
- Foca-do-cáspio — Pusa caspica, único mamífero marinho da bacia, pare sobre o gelo do setor norte. A população, cerca de 1 milhão de animais no início do século XX, caiu para algo entre 70 mil e 270 mil indivíduos, e a espécie consta como ameaçada na Lista Vermelha.
- Beluga — Huso huso, o maior peixe de água doce do mundo, com registros acima de 1.000 kg; criticamente ameaçado, depende hoje quase só de repovoamento artificial.
- Esturjão-persa e estrelado — Acipenser persicus e Acipenser stellatus sustentaram a maior parte do caviar histórico e também estão criticamente ameaçados.
- Kilka — Clupeídeos do gênero Clupeonella, base da cadeia pelágica e da pesca industrial iraniana e azeri.
- Salmão-do-cáspio — Salmo trutta caspius, forma migratória que subia os rios do sul e hoje sobrevive por reintrodução.
Ilhas
As ilhas caspianas são pequenas e concentram-se em três setores: o litoral raso do norte, o arquipélago diante de Baku e a costa turcomena. Muitas têm origem em vulcões de lama, feição em que o Azerbaijão detém a maior concentração mundial.
- Ogurja Ada — A maior do mar, restinga arenosa de cerca de 37 km ao largo do Turcomenistão.
- Arquipélago de Baku — Ilhotas ao sul de Apsheron, como Bulla e Duvanny, moldadas por vulcanismo de lama.
- Tyuleniy — Ilhas baixas do norte, cujo nome deriva das focas que ali se reuniam em grande número.
- Ilhas efêmeras — Erupções submarinas de lama, como no banco Kumani, já criaram ilhotas removidas depois pela erosão.
Portos e rotas relevantes
Sem saída natural para o oceano, o Cáspio depende de vias artificiais. O Canal Volga–Don, de 1952, liga o Volga ao Mar de Azov e, por ele, ao Mar Negro e ao Mar Mediterrâneo; o sistema Volga–Báltico oferece uma segunda rota, para o norte. Ambas comportam apenas embarcações fluviais e fecham pelo gelo parte do ano.
A bacia ganhou peso logístico como elo do corredor entre a China e a Europa que evita o território russo, com balsas entre Aktau, Baku e Turkmenbashi em volumes que cresceram muito a partir de 2022.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Baku e Alat | Azerbaijão | Contêineres, balsas e base da indústria de petróleo |
| Aktau e Kuryk | Cazaquistão | Corredor transcaspiano e exportação de petróleo |
| Turkmenbashi | Turcomenistão | Balsas e carga geral |
| Astracã e Olya | Rússia | Terminal fluvial-marítimo do Volga |
| Makhachkala | Rússia | Único porto russo livre de gelo na bacia |
| Bandar Anzali | Irã | Principal acesso marítimo do norte iraniano |
Importância econômica
O petróleo e o gás dominam a economia caspiana. Baku foi o centro da primeira indústria petrolífera industrial do mundo, responsável por cerca de metade da produção global no início do século XX. Hoje, os principais ativos são o complexo Azeri–Chirag–Gunashli e o campo de gás de Shah Deniz, no Azerbaijão, e os campos de Tengiz e Kashagan, no Cazaquistão, este descoberto em 2000 e considerado a maior descoberta mundial em três décadas.
A pesca, outrora sinônimo de caviar, encolheu drasticamente: na década de 1970 a bacia fornecia mais de 80% do caviar de esturjão selvagem do mundo, e a captura comercial está hoje suspensa nos cinco países. Completam o quadro a extração de sulfato de sódio em Kara-Bogaz-Gol, o turismo litorâneo iraniano e projetos de energia eólica em Apsheron.
Importância ambiental
A bacia concentra, em espaço fechado, quase todos os processos que definem a crise dos mares interiores: variação rápida de nível, poluição industrial, sobre-exploração e invasão biológica. Sem troca com o oceano, nada é diluído para fora.
A queda do nível é a ameaça mais consequente. Cada metro perdido expõe milhares de quilômetros quadrados no setor norte, cuja profundidade média é de apenas 5 m: cenários de redução de 9 m a 18 m implicariam o desaparecimento quase completo desse compartimento, com perda das áreas de reprodução da foca sobre o gelo e dos berçários de esturjão. O precedente do Mar de Aral tornou esse debate especialmente sensível.
Problemas de conservação
A Convenção de Teerã, assinada em 2003 e em vigor desde 2006, foi o primeiro acordo ambiental regional a reunir os cinco Estados. Protocolos posteriores trataram de poluição terrestre, derramamentos e biodiversidade, mas a implementação avança de forma desigual.
A pressão sobre os esturjões é o caso mais grave. A pesca ilegal cresceu na década de 1990 com o fim da fiscalização soviética, e a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas restringiu severamente a exportação de caviar selvagem a partir de 1998. As barragens do Volga e do Kura bloquearam a maior parte das rotas de desova.
- Invasão de ctenóforo — Mnemiopsis leidyi, o mesmo organismo que devastou o Mar Negro, foi detectado no Cáspio em 1999 e derrubou as populações de Clupeonella.
- Mortalidades de focas — Mortandades em massa, atribuídas a morbilivírus e agravadas por organoclorados, mataram milhares de animais em 1997, 2000 e 2020.
- Poluição por hidrocarbonetos — Áreas históricas de extração em Apsheron e Cheleken têm solos e sedimentos contaminados, e campos como Kashagan exigem tratamento de grandes volumes de gás sulfídrico.
- Contaminantes persistentes — Metais pesados trazidos pelo Volga acumulam-se em focas e esturjões, espécies longevas no topo da cadeia alimentar.
- Áreas protegidas — A reserva do delta do Volga, a de Gizilagaj e as florestas hircanianas iranianas formam o núcleo da proteção formal.
Curiosidades
- A Convenção de Aktau, de 12 de agosto de 2018, evitou classificar o Cáspio como mar ou lago e criou para ele um estatuto jurídico próprio, sem equivalente em nenhum outro corpo de água.
- A superfície está cerca de 28 m abaixo do nível do mar, o que faz de suas margens uma das maiores depressões continentais expostas, atrás apenas da bacia do Mar Morto.
- A laguna de Kara-Bogaz-Gol foi isolada por um dique em 1980 para conter a queda do nível; secou em poucos anos e a ligação teve de ser restabelecida em 1992.
- O Azerbaijão concentra a maior densidade de vulcões de lama do mundo, com aparelhos ativos também no leito do mar.
- A foca-do-cáspio é o único pinípede que completa todo o ciclo de vida em um corpo de água sem ligação com o oceano.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- PNUMA — Convenção de Teerã. Framework Convention for the Protection of the Marine Environment of the Caspian Sea, 2006. Consultar publicação
- União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha — Pusa caspica e Huso huso, 2022. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. The Shrinking Caspian Sea, 2023. Consultar publicação
- FAO. Fishery and Aquaculture Country Profiles — Caspian basin, 2022. Consultar publicação
- USGS. Assessment of Undiscovered Oil and Gas Resources of the South Caspian Basin Province, 2010. Consultar publicação
- UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Hyrcanian Forests, 2019. Consultar publicação
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