Mar de Mármara
Mar interior turco de 11.350 km² que liga o Mar Negro ao Egeu pelo Bósforo e pelos Dardanelos, com circulação em duas camadas e alto risco sísmico.
O Mar de Mármara é o menor dos mares interiores europeus e um dos mais estratégicos do mundo. Ocupa cerca de 11.350 km² entre a Trácia e a Anatólia, integralmente cercado por território turco, e cumpre a função de câmara intermediária entre o Mar Negro, ao qual se liga pelo Bósforo, e o Mar Egeu, alcançado pelos Dardanelos. Apesar da área reduzida, é um mar fundo: a média chega a 494 m, e a bacia de Çinarcik desce a 1.370 m.
Duas características o definem. A primeira é hidrográfica: o mar recebe água salobra do Mar Negro em superfície e água salgada do Mar Mediterrâneo pelo fundo, e as duas massas permanecem separadas por uma haloclina abrupta e estável. A segunda é geológica: o ramo principal da falha norte-anatoliana atravessa a bacia de leste a oeste, o que faz de suas águas a fonte mais provável do próximo grande terremoto de Istambul.
Ficha técnica
- Nome
- Mar de Mármara
- Também chamado de
- Mármara, Propôntide
- Tipo de formação
- Mar interior
- Localização
- Entre 40,3° N e 41,2° N e entre 26,5° L e 30° L, inteiramente cercado por território turco, entre a Trácia ao norte e a Anatólia ao sul.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- Europa, Ásia
- Países e territórios
- Turquia, único país com costa no mar; as duas margens pertencem a partes europeia e asiática do mesmo Estado.
- Área aproximada
- 11.350 km²Compilações que incorporam os golfos de Izmit e de Gemlik e os estreitos indicam até 11.500 km².
- Profundidade média
- 494 m
- Profundidade máxima
- 1.370 mBacia de Çinarcik, no setor nordeste, sobre a falha norte-anatoliana.
- Volume
- Cerca de 3.378 km³
- Salinidade
- 22 a 26 na camada superior e 38 a 38,5 no fundo
- Temperatura da superfície
- De 8 °C a 10 °C no inverno e de 22 °C a 26 °C em agosto
- Linha de costa
- Aproximadamente 1.400 km
- Correntes principais
- Circulação de duas camadas com saída superficial de água pôntica para sudoeste e entrada profunda de água mediterrânea para nordeste.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O mar estende-se por cerca de 280 km no sentido leste–oeste e por até 80 km na largura máxima. A publicação Limits of Oceans and Seas (S-23), da Organização Hidrográfica Internacional, trata-o como corpo de água distinto, com limite nordeste na entrada sul do Bósforo e limite sudoeste na saída dos Dardanelos, junto ao cabo Helles.
Os dois estreitos são desproporcionalmente importantes para as dimensões que têm. O Bósforo mede cerca de 31 km e estreita-se a pouco mais de 700 m no ponto mais apertado, com soleira em torno de 35 m; os Dardanelos têm aproximadamente 65 km e soleira de cerca de 70 m. Essas soleiras controlam toda a troca de água entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.
O fundo compreende três bacias alongadas — Çinarcik, Central e Tekirdag —, separadas por elevações e alinhadas ao longo do traço da falha. Ao sul, uma plataforma mais rasa acompanha a costa anatoliana e inclui os golfos de Izmit, de Gemlik e de Bandirma.
Continentes e países próximos
O Mar de Mármara está inteiramente contido no território de um só Estado e, ao mesmo tempo, dividido entre dois continentes: suas margens norte e sul pertencem às porções europeia e asiática da Turquia. Não há, portanto, fronteiras marítimas a delimitar, situação oposta à do vizinho Egeu.
Isso não significa ausência de regime internacional. A navegação pelos estreitos é regida pela Convenção de Montreux, de 1936, que devolveu à Turquia o controle das passagens mas garantiu liberdade de trânsito a navios mercantes em tempo de paz e limitou a passagem de navios de guerra de Estados não ribeirinhos do Mar Negro.
- Margem europeia — Províncias de Istambul, Tekirdag e Çanakkale, na Trácia oriental.
- Margem asiática — Províncias de Kocaeli, Yalova, Bursa e Balikesir, na Anatólia.
- Regime dos estreitos — Convenção de Montreux, com restrições a navios de guerra.
- Região metropolitana — A bacia concentra mais de 25 milhões de habitantes e o núcleo industrial turco.
Área e profundidade
Com cerca de 11.350 km² e volume próximo de 3.378 km³, o mar é pequeno em superfície mas profundo: a média de 494 m supera a do Mar do Norte, que tem cinquenta vezes mais área. A desproporção decorre da origem tectônica das bacias, escavadas por movimentação de falha e não por erosão glacial.
As três bacias profundas ocupam a porção norte e central; ao sul, a plataforma raramente passa de 100 m. Como a soleira do Bósforo tem apenas 35 m e a dos Dardanelos cerca de 70 m, a água profunda não escoa livremente para nenhum dos lados: o fundo é um reservatório praticamente fechado.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 11.350 km² | Até 11.500 km² com golfos e estreitos |
| Volume | 3.378 km³ | Três bacias profundas ao norte |
| Profundidade média | 494 m | Alta para a área ocupada |
| Profundidade máxima | 1.370 m | Bacia de Çinarcik |
| Soleira do Bósforo | Cerca de 35 m | Controla a troca com o Mar Negro |
Principais correntes
A circulação é o exemplo didático de fluxo estuarino de duas camadas. Pela superfície do Bósforo entram por ano cerca de 600 km³ de água pôntica com salinidade entre 17 e 20, que atravessam o mar rumo a sudoeste e saem pelos Dardanelos. Pelo fundo dos Dardanelos penetram, em sentido inverso, aproximadamente 300 km³ de água mediterrânea com salinidade próxima de 38,5, que preenchem as bacias profundas e escapam em parte para o Mar Negro.
A fronteira entre as duas massas é uma haloclina extraordinariamente nítida, entre 20 m e 25 m de profundidade, com salto de salinidade de mais de quinze unidades em poucos metros. A interface é tão estável que impede quase por completo a mistura vertical.
A consequência é a lentidão da renovação do fundo. O tempo de residência da camada inferior é estimado entre seis e sete anos, contra poucos meses para a superior. O oxigênio consumido na decomposição da matéria orgânica que afunda não é reposto na mesma velocidade, e as bacias profundas mantêm concentrações muito baixas de oxigênio dissolvido.
Clima
O clima é de transição entre o mediterrâneo e o temperado continental dos Bálcãs, com verões quentes e secos e invernos frescos e chuvosos. A temperatura da superfície varia de 8 °C a 10 °C em fevereiro a 22 °C a 26 °C em agosto, enquanto a camada profunda mantém-se praticamente constante em torno de 14 °C durante todo o ano, herança térmica da água mediterrânea que a alimenta.
Ventos de nordeste, canalizados pelo Bósforo, dominam a maior parte do ano e podem gerar mar agitado em poucas horas nas bacias abertas. As marés são desprezíveis, quase sempre inferiores a 0,2 m, e as variações de nível respondem sobretudo ao vento e à diferença de pressão entre o Mar Negro e o Egeu, que é a força motriz do fluxo superficial nos estreitos.
Ecossistemas
A estrutura de duas camadas divide o mar em dois ambientes biológicos superpostos. Acima da haloclina prevalecem organismos tolerantes à água salobra, de afinidade pôntica; abaixo dela, espécies plenamente marinhas de origem mediterrânea. Essa separação faz do Mármara um dos poucos lugares onde comunidades de dois mares distintos convivem verticalmente no mesmo ponto.
A plataforma sul abriga bancos de moluscos, fundos de areia e restos de pradarias muito reduzidas pela urbanização, e as bacias profundas, pobres em oxigênio, sustentam comunidades bentônicas empobrecidas. O mar funciona sobretudo como corredor: anchova, cavala, bonito e anchova-do-mar atravessam-no duas vezes por ano entre as áreas de desova do Mar Negro e as de invernada no Egeu, migração que sustentou a pesca de Istambul por séculos.
Biodiversidade
O Mármara reúne espécies mediterrâneas e pônticas, com riqueza específica intermediária entre os dois mares que conecta e forte predomínio de peixes pelágicos migratórios.
- Bonito-do-atlântico — Sarda sarda, cuja passagem pelos estreitos no outono organiza o calendário pesqueiro local.
- Anchova-do-mar — Pomatomus saltatrix, predador que acompanha os cardumes migratórios entre o Mar Negro e o Egeu.
- Golfinhos e marsuínos — Roaz, golfinho-comum e o marsuíno-comum Phocoena phocoena ocorrem no mar e atravessam o Bósforo.
- Foca-monge-do-mediterrâneo — Monachus monachus habitou as ilhas do mar até o século XX e hoje só aparece em registros esporádicos.
- Invertebrados de fundo — Corais moles, esponjas e bancos de Modiolus subsistem na borda da plataforma.
Ilhas
As ilhas do Mármara são pequenas e concentradas em dois grupos. A sudoeste situa-se o arquipélago de Mármara, de rochas metamórficas, cujo mármore branco deu nome ao mar e abasteceu os monumentos de Constantinopla. A nordeste, junto a Istambul, estão as Ilhas dos Príncipes, nove ilhotas que serviram de exílio a membros da corte bizantina e hoje são distrito da metrópole.
- Ilha de Mármara — 117 km², a maior do mar, com as pedreiras históricas de mármore de Proconeso.
- Avsa e Pasalimani — Ilhas vizinhas, de vocação vitícola e turística.
- Büyükada — 5,4 km², a maior das Ilhas dos Príncipes, com circulação de veículos restrita.
- Heybeliada e Burgazada — Também no grupo dos Príncipes, densamente arborizadas.
- Imrali — Cerca de 10 km², ilha-prisão de acesso proibido no setor sul.
Portos e rotas relevantes
O Mármara é o eixo logístico da Turquia, com cerca de metade da movimentação portuária do país: o terminal de Ambarli, em Istambul, o Asyaport, em Tekirdag, e os complexos industriais dos golfos de Izmit e de Gemlik.
O tráfego pelos estreitos é o traço mais notável. Pelo Bósforo passam cerca de 38 mil embarcações por ano — quase o dobro do Canal de Suez —, entre elas petroleiros com carga procedente do Mar Negro e do Cáspio. A curvatura do canal, as correntes fortes e a travessia perpendicular de milhares de balsas urbanas diárias fazem dele uma das passagens mais difíceis do mundo, e motivaram a proposta turca de abrir um canal artificial paralelo.
| Instalação | Localização | Função |
|---|---|---|
| Ambarli | Istambul | Maior terminal de contêineres do mar |
| Asyaport | Tekirdag | Transbordo de contêineres |
| Izmit e Derince | Golfo de Izmit | Granéis e carga industrial |
| Bósforo | Entrada nordeste | Cerca de 38 mil passagens anuais |
Importância econômica
A bacia do Mármara é o coração econômico da Turquia. Suas margens reúnem mais de 25 milhões de habitantes e a maior concentração industrial do país, com montadoras, refinarias, petroquímica e siderurgia em torno dos golfos de Izmit e de Gemlik, além da navegação e da construção naval.
A pesca, historicamente central para o abastecimento de Istambul, encolheu de forma acentuada: capturas que chegavam a dezenas de milhares de toneladas anuais na metade do século XX reduziram-se a uma fração desse volume, por efeito de sobrepesca, poluição e perda de habitat. O turismo costeiro é intenso mas local, voltado aos moradores da metrópole, que ocupam as praias do sul e as ilhas nos fins de semana de verão.
Importância ambiental
O mar é um dos laboratórios naturais mais estudados para o entendimento de bacias estratificadas. Como a haloclina é rasa, nítida e estável, é possível medir com precisão incomum as trocas entre camadas, e as séries do Bósforo estão entre as mais bem documentadas do mundo no estudo de fluxos de dois sentidos em estreitos.
A bacia é também um arquivo paleoceanográfico. Sondagens de sedimento registram a transição, há cerca de nove a dez mil anos, em que a subida do nível do mar após a última glaciação transpôs a soleira do Bósforo e converteu o então lago do Mar Negro em mar salgado ligado ao Mediterrâneo.
Problemas de conservação
O risco sísmico domina qualquer discussão sobre o Mármara. O ramo norte da falha norte-anatoliana atravessa o mar, e os terremotos de Izmit, de magnitude 7,6, e de Düzce, de magnitude 7,2, ambos em 1999, romperam os segmentos a leste, matando mais de 17.000 pessoas. O trecho submarino em frente a Istambul não rompe desde 1766 e é tratado como lacuna sísmica, com chance elevada de um sismo de magnitude 7 ou superior nas próximas décadas.
A degradação da água é o segundo eixo. O esgoto de uma das maiores aglomerações urbanas da Europa, o escoamento agrícola e os efluentes industriais elevaram a carga de nutrientes, e a estratificação impede que o fundo se renove. Entre abril e junho de 2021, o mar foi coberto pela maior proliferação de mucilagem marinha já registrada na região: uma camada espessa de material gelatinoso produzido por fitoplâncton em resposta ao excesso de nutrientes, ao aquecimento e à circulação lenta, que asfixiou fundos, obstruiu redes e paralisou a pesca. O governo turco respondeu com um plano de ação.
- Observatórios sísmicos — Poços profundos em torno do mar e sensores no leito acompanham a deformação do segmento submarino da falha.
- Mucilagem recorrente — Episódios menores em 2007 e 2008 indicam um problema estrutural, e não um evento isolado.
- Hipoxia de fundo — As bacias profundas têm oxigênio próximo do limite de tolerância da fauna bentônica.
- Risco de derramamento — O tráfego de petroleiros por um canal urbano sinuoso mantém permanente a ameaça de acidente junto a uma cidade de milhões de habitantes.
- Patrimônio ameaçado — As áreas históricas de Istambul, Patrimônio Mundial desde 1985, estão na margem do mar e na zona de maior risco sísmico.
Curiosidades
- O nome do mar vem do mármore branco extraído na Ilha de Mármara, conhecido na Antiguidade como mármore de Proconeso; na Grécia antiga o mar era chamado Propôntide, ou seja, antes do Ponto.
- A haloclina do Mármara é tão abrupta que mergulhadores a atravessam como se fosse uma superfície: a salinidade salta de cerca de 22 para 38 em poucos metros.
- Pelo Bósforo passam cerca de 38 mil embarcações por ano, aproximadamente o dobro do tráfego do Canal de Suez, em um canal que em certo ponto tem pouco mais de 700 m de largura.
- O segmento submarino da falha norte-anatoliana em frente a Istambul não produz um grande terremoto desde 1766, intervalo bem superior ao tempo médio de recorrência estimado.
- A mucilagem que cobriu o mar em 2021 formou camadas de vários metros de espessura sobre o fundo e foi visível em imagens de satélite ao longo de centenas de quilômetros de costa.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- USGS. Falha norte-anatoliana e avaliação de risco sísmico em Istambul, 2023. Consultar publicação
- Organização Marítima Internacional. Regras de navegação nos estreitos turcos e prevenção de poluição, 2022. Consultar publicação
- PNUMA / Plano de Ação para o Mediterrâneo. State of the Environment and Development in the Mediterranean, 2020. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Imagens de satélite da mucilagem no Mar de Mármara, 2021. Consultar publicação
- UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Áreas históricas de Istambul, 1985. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
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Mar interior
Mar Negro
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