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Estreito de Malaca

Corredor de cerca de 900 km entre a Península Malaia e Sumatra, o mais movimentado do mundo, com apenas 2,8 km no trecho mais estreito.

Mapa de localização de Estreito de Malaca, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte do canal entre Sumatra e a Península Malaia, da entrada no Mar de Andamão até a área de Singapura.

O Estreito de Malaca liga o Oceano Índico ao Oceano Pacífico ao longo de cerca de 900 km entre a ilha indonésia de Sumatra e a Península Malaia. Tem forma de funil: abre-se com mais de 200 km de largura junto ao Mar de Andamão e afunila-se até menos de 40 km no extremo sudeste, onde os canais navegáveis se reduzem a poucos quilômetros. No prolongamento do Canal Phillips, junto a Singapura, a via útil chega a cerca de 2,8 km de largura.

É a passagem marítima mais movimentada do planeta. Cerca de um quarto de todas as mercadorias comercializadas por mar atravessa o corredor, e com elas a maior parte do petróleo destinado à China, ao Japão e à Coreia do Sul. Também é raso: a profundidade útil de cerca de 25 m no setor sudeste define um limite de calado que deu nome a uma classe de navios. Essa combinação de tráfego intenso, canal apertado e fundo baixo faz do estreito um dos pontos mais sensíveis da economia mundial.

Ficha técnica

Nome
Estreito de Malaca
Também chamado de
Selat Melaka, Estreito de Malaca e Singapura
Tipo de formação
Estreito
Localização
Entre 1° N e 6,5° N e entre 98° L e 104° L, orientado de noroeste para sudeste entre Sumatra e a Península Malaia.
Oceano de referência
Índico, Pacífico
Continentes próximos
Ásia
Países e territórios
Indonésia, Malásia e Singapura, com a Tailândia próxima da entrada noroeste; a gestão da segurança da navegação é feita por acordo entre os três Estados costeiros.
Área aproximada
Aproximadamente 65.000 km²Estimativa para o corpo do estreito; a inclusão do Estreito de Singapura eleva o valor.
Profundidade média
Cerca de 45 m
Profundidade máxima
Cerca de 200 mSetor noroeste, junto à abertura para o Mar de Andamão; no sudeste a profundidade útil cai a cerca de 25 m.
Salinidade
30 a 33, com forte diluição pelos rios de Sumatra
Temperatura da superfície
Entre 28 °C e 31 °C ao longo de todo o ano
Linha de costa
Cerca de 2.000 km somando as duas margens, em grande parte de manguezal
Correntes principais
Escoamento médio para sudeste, inversão sazonal pelas monções, correntes de maré fortes no setor sudeste e grande carga de sedimentos fluviais.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A entrada noroeste é fixada convencionalmente entre a ponta norte de Sumatra e a Ilha de Phuket, na Tailândia. No extremo sudeste, o corpo principal termina perto da Ilha Karimun e do Cabo Piai, ponto mais austral da Ásia continental, e dá lugar ao Estreito de Singapura, que conduz ao Mar da China Meridional.

O fundo é uma plataforma continental muito rasa, parte da antiga plataforma da Sonda, exposta durante os máximos glaciais. Os rios de Sumatra despejam grande quantidade de sedimento, o que mantém bancos móveis e obriga a levantamentos batimétricos frequentes: o Banco de Uma Braça, no eixo central, tem poucos metros de água.

Continentes e países próximos

Três Estados costeiros dividem a responsabilidade sobre a passagem: Indonésia, Malásia e Singapura. Nenhum cobra pedágio pelo trânsito, e a manutenção da sinalização, dos levantamentos hidrográficos e do combate à poluição é feita por um mecanismo de cooperação criado em 2007, com contribuições voluntárias de Estados usuários e da indústria naval.

  • Indonésia — Margem sudoeste, ao longo de Sumatra, das províncias de Aceh a Riau.
  • Malásia — Margem nordeste, de Perlis a Johor, com Penang, Port Klang e Malaca.
  • Singapura — Extremo sudeste, no encontro com o Estreito de Singapura.

Área e profundidade

O que define o estreito não é o comprimento, e sim a seção útil. A profundidade mínima ao longo da rota recomendada é de cerca de 25 m, e por isso o setor limita navios a um calado próximo de 20 m, padrão conhecido como classe Malaccamax, com porte bruto em torno de 300 mil toneladas.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
ExtensãoCerca de 900 kmDa entrada no Mar de Andamão ao Cabo Piai
Largura máximaMais de 200 kmEntrada noroeste
Largura mínima da viaCerca de 2,8 kmCanal Phillips, junto a Singapura
Profundidade mínima útilCerca de 25 mLimite da classe Malaccamax
Profundidade máximaCerca de 200 mSetor noroeste
Travessias anuaisAcima de 90 mil naviosContra cerca de 26 mil em Suez

Principais correntes

O escoamento médio é para sudeste, mas o estreito responde de forma direta às monções: entre novembro e março predomina a monção de nordeste e entre maio e setembro a de sudoeste, com inversão parcial das correntes superficiais e mudança no padrão de ondas. No setor sudeste, mais estreito, as correntes de maré dominam e podem alcançar 3 nós, com sentido alternado ao longo do dia.

A grande carga de sedimento trazida pelos rios de Sumatra é redistribuída por essas correntes e forma bancos e barras que se deslocam, motivo pelo qual a rota recomendada para navios de grande calado é revista periodicamente pelos serviços hidrográficos dos três países costeiros.

Clima

O clima é equatorial, quente e húmido todo o ano, com temperaturas do mar entre 28 °C e 31 °C e chuvas abundantes em dois picos ligados às transições de monção. Trovoadas são diárias em muitas épocas, e as linhas de instabilidade chamadas sumatras, formadas sobre o estreito de madrugada, produzem rajadas súbitas. Ciclones tropicais praticamente não ocorrem, pela proximidade do equador.

Um fenômeno de origem humana marca a região: a névoa de queimadas. A drenagem e a queima de turfeiras e florestas em Sumatra e em Bornéu produzem episódios de fumaça densa que reduzem a visibilidade no canal a menos de um quilômetro e afetam a saúde pública em vários países. Os eventos de 1997, 2013, 2015 e 2019 foram os mais severos, e levaram os países da região a firmar em 2002 um acordo sobre poluição atmosférica transfronteiriça.

Ecossistemas

O manguezal é o ecossistema dominante das duas margens. A Reserva Florestal de Manguezais de Matang, em Perak, com cerca de 400 km², é manejada de forma contínua desde 1902 e figura entre os bosques de mangue mais bem documentados do mundo; do lado indonésio, extensões maiores ocupam a costa baixa e lamacenta de Riau. Esses bosques retêm sedimento, protegem a costa e servem de berçário para camarões e peixes explorados comercialmente.

Nas planícies de lama entre marés vivem comunidades densas de invertebrados que alimentam aves limícolas migratórias. Bancos de fanerógamas ocorrem em enseadas abrigadas e sustentam o peixe-boi-marinho. Recifes de coral são limitados pela turbidez e restringem-se a ilhas afastadas da costa, como Payar e as Sembilan; nos fundos batidos por corrente, esponjas e gorgônias substituem os corais.

Biodiversidade

A biodiversidade do estreito é tropical e costeira, adaptada a água turva e fundos moles. Várias das espécies mais emblemáticas estão em situação frágil justamente por dependerem de habitats rasos que coincidem com as áreas de maior atividade humana.

  • Peixe-boi-marinhoDugong dugon pasta em bancos de fanerógamas, em populações pequenas e fragmentadas.
  • Golfinho-corcundaSousa chinensis ocupa águas costeiras turvas e é sensível a dragagem e ruído.
  • Golfinho-do-irrawaddyOrcaella brevirostris ocorre em estuários e baías rasas.
  • Tartarugas marinhas — Tartaruga-verde e tartaruga-de-pente desovam em praias de ilhas e da costa malaia.
  • Pequenos pelágicos — Sardinelas, anchovas e cavalinhas sustentam frotas nos três países.

Ilhas

O estreito é ladeado por ilhas de tamanhos muito distintos. Na margem malaia destacam-se Langkawi, com cerca de 478 km², e Penang, com cerca de 293 km², onde está George Town. Na margem indonésia, ilhas baixas de manguezal como Rupat, Bengkalis e Rangsang acompanham a costa de Sumatra. No eixo do canal, o que importa para a navegação não são ilhas, e sim bancos: o de Uma Braça e os rochedos de Batu Berhanti balizam os trechos críticos.

  • Langkawi — Cerca de 478 km² na entrada noroeste, com geoparque reconhecido pela Unesco em 2007.
  • Penang — Cerca de 293 km², sede de George Town e de um dos portos históricos da rota.
  • Pulau Payar — Pequena ilha com parque marinho que protege os recifes mais desenvolvidos do estreito.
  • Banco de Uma Braça — Baixio de poucos metros no eixo do canal, sinalizado por farol desde o século XIX.
  • Arquipélago de Karimun — Ilhas indonésias que balizam a transição para o Estreito de Singapura.

Portos e rotas relevantes

As duas margens têm perfis portuários opostos. A malaia concentra terminais de contêineres de grande escala, com Port Klang e Tanjung Pelepas entre os mais movimentados da Ásia, e Singapura, no extremo sudeste, é ao mesmo tempo o segundo maior porto de contêineres do mundo e o maior porto de abastecimento de combustível marítimo do planeta, com vendas anuais acima de 50 milhões de toneladas. A margem indonésia é dominada por terminais de granéis e de petróleo, como Dumai e Belawan.

Nas rotas mundiais, o estreito é o atalho entre o Índico e o Pacífico: contorná-lo pelo Estreito de Lombok ou de Sunda acrescenta milhares de quilômetros a cada viagem. Em número de travessias supera com folga os dois grandes canais artificiais: mais de 90 mil navios por ano contra cerca de 26 mil em Suez e pouco mais de 12 mil no Panamá.

Principais terminais das duas margens
PortoPaísFunção predominante
SingapuraSingapuraContêineres, transbordo e combustível marítimo
Port KlangMalásiaContêineres e carga geral
Tanjung PelepasMalásiaTransbordo de contêineres
PenangMalásiaContêineres e carga regional
BelawanIndonésiaContêineres e granéis de Sumatra do Norte
DumaiIndonésiaPetróleo, óleo de palma e granéis líquidos

Importância econômica

O valor econômico do estreito vem do trânsito e dos serviços associados: abastecimento de combustível, transbordo, reparação naval, seguros e armazenagem. Somam-se a pesca das duas margens, o escoamento de óleo de palma, borracha e minérios e um turismo concentrado em Langkawi, Penang e Malaca, cujo centro histórico integra a lista do patrimônio mundial desde 2008.

A dependência do corredor originou uma preocupação estratégica conhecida como Dilema de Malaca, expressão associada à liderança chinesa no início dos anos 2000: a constatação de que uma fração dominante das importações de energia do país passa por uma via estreita e controlada por terceiros. Dessa preocupação derivaram projetos de rotas alternativas, como oleodutos e portos no Paquistão e em Myanmar e a proposta recorrente de um canal através do istmo de Kra, na Tailândia, nunca executada.

Importância ambiental

O estreito é um corredor biogeográfico entre o Índico e o Pacífico, e sua plataforma rasa integra o centro de maior diversidade marinha do planeta. Os manguezais das duas margens armazenam grandes quantidades de carbono no solo, contêm a erosão e sustentam a pesca costeira de que dependem milhões de pessoas. As planícies de maré integram uma das principais rotas migratórias de aves limícolas do mundo.

A passagem também é um caso de estudo sobre gestão compartilhada: combina o direito de passagem em trânsito com a responsabilidade dos três Estados costeiros pela segurança e pela proteção ambiental, arranjo que serve de referência para outras vias congestionadas.

Problemas de conservação

A pirataria e o roubo armado a navios foram o problema de segurança mais visível do estreito no início dos anos 2000, com dezenas de ataques anuais e sequestros de tripulações. A partir de 2004, patrulhas navais coordenadas entre Malásia, Indonésia e Singapura, somadas a patrulhas aéreas conjuntas iniciadas em 2005 e a um sistema regional de troca de informações, reduziram drasticamente o número de incidentes, embora furtos a navios fundeados persistam.

  • Poluição por óleo — Colisões e encalhes em canal estreito e raso já produziram derramamentos de grande porte na região.
  • Perda de manguezal — Conversão para aquicultura, plantações e áreas urbanas reduziu a cobertura original nas duas margens.
  • Névoa de queimadas — A fumaça de turfeiras drenadas prejudica a visibilidade da navegação e a saúde pública.
  • Sedimentação e dragagem — O aporte fluvial exige dragagem contínua, com impacto sobre fundos moles e água turva.
  • Sobrepesca — Frotas numerosas e uso de arrasto de fundo pressionam estoques costeiros e capturam fauna acompanhante.

Curiosidades

  1. A classe Malaccamax deve o nome à profundidade útil do estreito: navios com calado acima de cerca de 20 m precisam desviar pelo Estreito de Lombok ou de Sunda.
  2. O trecho mais estreito da rota, o Canal Phillips, tem cerca de 2,8 km de largura útil, menos de um terço da distância percorrida por um navio de contêineres em dez minutos de navegação.
  3. Singapura vende mais de 50 milhões de toneladas de combustível marítimo por ano, o que a torna o maior ponto de abastecimento de navios do mundo.
  4. O Banco de Uma Braça, no meio do canal, tem apenas alguns metros de água e recebeu um dos primeiros faróis permanentes da região, ainda no século XIX.
  5. A expressão Dilema de Malaca surgiu no debate estratégico chinês no início dos anos 2000 para descrever a dependência do país em relação a uma única via marítima estreita.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  2. Organização Marítima Internacional. Straits of Malacca and Singapore — cooperative mechanism, 2024. Consultar publicação
  3. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  4. FAO. The State of World Fisheries and Aquaculture, 2024. Consultar publicação
  5. União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação
  6. NASA Earth Observatory. Haze over the Strait of Malacca, 2019. Consultar publicação
  7. Unesco. Melaka and George Town, Historic Cities of the Straits of Malacca, 2008. Consultar publicação

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