Golfo de Bengala
Maior golfo do planeta, no nordeste do Índico, com cerca de 2.172.000 km², profundidade máxima de 4.694 m e o maior leque sedimentar submarino do mundo.
O Golfo de Bengala é o maior golfo do mundo. Ocupa cerca de 2.172.000 km² no canto nordeste do Oceano Índico, em forma triangular apoiada na costa oriental da Índia e do Sri Lanka a oeste, no delta do Ganges e do Brahmaputra ao norte e no litoral de Mianmar e no arco de Andamão e Nicobar a leste. A profundidade média é de aproximadamente 2.600 m e o ponto mais fundo registrado chega a 4.694 m.
Nenhum outro golfo recebe tanto sedimento e tanta água doce. Os rios Ganges, Brahmaputra e Meghna despejam ali cerca de 1.000 milhões de toneladas de material sólido por ano e construíram o maior depósito sedimentar submarino do planeta. Essa carga fluvial cobre o leito, achata a batimetria, cria uma tampa de água doce na superfície e sustenta o maior manguezal contínuo do mundo.
Ficha técnica
- Nome
- Golfo de Bengala
- Também chamado de
- Baía de Bengala, Kalinga Sagar
- Tipo de formação
- Golfo
- Localização
- Entre 5° N e 23° N e entre 78° L e 95° L, no nordeste do Oceano Índico, delimitado pela Índia e pelo Sri Lanka a oeste, por Bangladesh ao norte e por Mianmar e o arco de Andamão e Nicobar a leste.
- Oceano de referência
- Índico
- Continentes próximos
- Ásia
- Países e territórios
- Índia, Bangladesh, Mianmar, Sri Lanka e Indonésia, com Tailândia e Malásia banhadas pelos mares adjacentes; Nepal e Butão integram a bacia de drenagem sem ter litoral.
- Área aproximada
- 2.172.000 km²Compilações que somam o Mar de Andamão e o Golfo de Martaban chegam a cerca de 2.600.000 km².
- Profundidade média
- 2.600 m
- Profundidade máxima
- 4.694 mSetor sul da bacia, próximo à saída para o Índico aberto.
- Volume
- Cerca de 5,6 milhões de km³
- Salinidade
- De 28 a 32 no norte e de 33 a 34,5 no sul
- Temperatura da superfície
- Superfície entre 27 °C e 30 °C durante quase todo o ano
- Linha de costa
- Aproximadamente 8.000 km somando as costas indiana, bangladesa, birmanesa e cingalesa
- Correntes principais
- Corrente Costeira da Índia Oriental, que se inverte com as monções, Corrente da Monção de Sudoeste, Corrente da Monção de Nordeste e giro sazonal do golfo.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O golfo mede cerca de 2.090 km de norte a sul e até 1.610 km de largura. O limite meridional adotado pela Organização Hidrográfica Internacional corre de Dondra Head, no sul do Sri Lanka, à ponta noroeste de Sumatra; a leste, a linha acompanha o arco de Andamão e Nicobar, que separa o golfo do Mar de Andamão. A oeste, o Mar Arábico ocupa o flanco oposto do subcontinente.
A morfologia do fundo é quase monótona. O leque submarino do Bengala recobre praticamente todo o embasamento oceânico com sedimento himalaico, apagando as irregularidades do relevo original: estende-se por cerca de 3.000 km de norte a sul e até 1.430 km de largura, com espessura máxima em torno de 16,5 km. A exceção é o Swatch of No Ground, cânion de cerca de 14 km de largura e 1.340 m de profundidade que corta a plataforma de Bangladesh e conduz sedimento ao domínio profundo.
Continentes e países próximos
Cinco Estados têm costa no golfo e outros dois integram a bacia de drenagem sem acesso ao mar. O delta do Ganges e do Brahmaputra é a região deltaica mais povoada do mundo, razão pela qual fenômenos oceanográficos de escala média produzem consequências humanas de escala histórica. A delimitação marítima na cabeceira foi resolvida na justiça: em 2012 o Tribunal Internacional do Direito do Mar traçou a fronteira entre Bangladesh e Mianmar, e em 2014 um tribunal arbitral atribuiu a Bangladesh cerca de 19.467 km² dos 25.602 km² disputados com a Índia.
- Índia — Bengala Ocidental, Odisha, Andhra Pradesh, Tâmil Nadu e Puducherry, além de Andamão e Nicobar.
- Bangladesh — Toda a cabeceira, com litoral quase inteiramente deltaico e a maior parte dos Sundarbans.
- Mianmar — Arracão e Ayeyarwady, incluindo o delta do Irauádi e o Golfo de Martaban.
- Sri Lanka — A costa norte e leste da ilha, com o porto de Trincomalee.
- Bacia de drenagem — Nepal e Butão contribuem pelos afluentes himalaicos do Ganges.
Área e profundidade
A área mais citada, de 2.172.000 km², faz do Bengala o maior golfo do planeta, à frente do Golfo do México e da Baía de Hudson. O volume ronda 5,6 milhões de km³, e a profundidade média de 2.600 m contrasta com uma plataforma setentrional extraordinariamente rasa e larga.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Área | 2.172.000 km² | Maior golfo do mundo |
| Volume | 5,6 milhões de km³ | Cerca de 0,4% do volume oceânico |
| Profundidade média | 2.600 m | Plataforma norte muito rasa |
| Profundidade máxima | 4.694 m | Setor sul da bacia |
| Leque do Bengala | 3.000 km de extensão | Espessura até 16,5 km |
Principais correntes
A circulação inverte-se duas vezes por ano com as monções. A Corrente Costeira da Índia Oriental flui para nordeste entre fevereiro e abril e para sudoeste entre outubro e dezembro; no interior da bacia, um giro sazonal muda de sentido, alimentado pela Corrente da Monção de Sudoeste no verão boreal e pela Corrente da Monção de Nordeste no inverno.
A característica mais peculiar é a tampa de água doce. A descarga fluvial, da ordem de 1.000 km³ por ano nos meses de monção, e a chuva abundante reduzem a salinidade superficial a valores entre 28 e 32 no norte, muito abaixo dos cerca de 35 típicos do oceano aberto. Essa camada leve cria uma barreira de densidade tão estável que a mistura vertical praticamente cessa. O resultado é paradoxal: apesar da imensa carga de nutrientes continentais, o golfo é menos produtivo que o Mar Arábico, e a mesma camada retém calor e mantém a superfície acima de 28 °C quase todo o ano.
Clima
O regime é monçônico. Entre junho e setembro, a monção de sudoeste traz chuvas que superam 2.500 mm em Bangladesh e no litoral de Arracão; entre dezembro e fevereiro, a monção de nordeste é mais seca no norte, mas concentra a estação chuvosa da costa de Coromandel. Os ciclones tropicais formam-se sobretudo de abril a junho e de outubro a dezembro.
Embora responda por uma fração pequena dos ciclones tropicais formados no mundo, o golfo concentrou historicamente a maioria absoluta das mortes causadas por esses sistemas, porque a cabeceira é rasa, afunilada e densamente povoada, o que amplifica a maré de tempestade a alturas que já superaram 9 m. O ciclone de Bhola, que atingiu o então Paquistão Oriental em 12 de novembro de 1970, é o mais letal já registrado, com estimativas entre 300.000 e 500.000 mortos; em 1991 outro ciclone matou cerca de 138.000 pessoas em Bangladesh, e em 2008 o Nargis provocou número semelhante no delta do Irauádi. O programa de preparação criado em Bangladesh em 1972 mobiliza dezenas de milhares de voluntários e milhares de abrigos, e tempestades comparáveis passaram a produzir mortes na casa das dezenas ou centenas.
Ecossistemas
Os Sundarbans formam o maior manguezal contínuo do mundo, com cerca de 10.000 km² repartidos entre Bangladesh e a Índia e atravessados por uma malha densa de canais de maré. Foram reconhecidos como patrimônio mundial em duas inscrições distintas, em 1987 do lado indiano e em 1997 do lado bangladês. Dominada pela árvore sundri, Heritiera fomes, que dá nome à região, a floresta funciona como berçário de camarões, caranguejos e peixes e como anteparo contra marés de tempestade. Fora do delta destacam-se o Lago Chilika, maior lagoa salobra da Ásia, e os recifes de Andamão e Nicobar.
Na coluna d'água, o golfo abriga uma zona de mínimo de oxigênio sem equivalente conhecido: entre cerca de 100 m e 400 m de profundidade, a concentração de oxigênio cai a valores da ordem de dezenas de nanomoles por quilograma, mas permanece um fio acima do limiar que dispararia a desnitrificação em larga escala. É um sistema à beira da anoxia.
Biodiversidade
A transição contínua entre água doce, água salobra e mar aberto ao longo do delta produz comunidades que não existem em costas de aporte fluvial modesto, reunindo fauna indo-pacífica e espécies especializadas em ambientes estuarinos.
- Tigre-de-bengala — Panthera tigris tigris mantém nos Sundarbans a única população adaptada a manguezais; levantamentos por câmeras estimam entre 100 e 125 indivíduos do lado bangladês e número semelhante do lado indiano.
- Hilsa — Tenualosa ilisha, peixe anádromo que sobe o Padma e o Meghna para desovar, é o peixe nacional de Bangladesh.
- Tartaruga-oliva — Lepidochelys olivacea realiza em Gahirmatha e Rushikulya, em Odisha, desovas coletivas com centenas de milhares de fêmeas em poucas noites.
- Golfinho-do-ganges — Platanista gangetica, cetáceo de rio quase cego, ocorre até a zona de maré; o golfinho-do-irauádi ocupa os canais salobros.
- Crocodilo-de-água-salgada — Crocodylus porosus mantém em Bhitarkanika a maior população da Índia.
Ilhas
As únicas ilhas verdadeiramente oceânicas do golfo são as de Andamão e Nicobar, arco tectônico indiano com 572 ilhas, ilhotas e rochedos. Todas as demais são deltaicas: bancos de lama e areia consolidados pelos rios, de posição instável, que crescem e desaparecem em escalas de décadas.
- Andamão e Nicobar — Cerca de 8.250 km² de terras emersas, incluindo Grande Nicobar e a Ponta Indira, extremo sul do território indiano.
- Bhola, Hatiya e Sandwip — Grandes ilhas deltaicas de Bangladesh, com centenas de milhares de habitantes.
- Ilha de São Martinho — Cerca de 8 km² no sudeste de Bangladesh, único recife coralino do país.
- Nova Moore — Banco emerso no estuário do Hariabhanga, reivindicado por Índia e Bangladesh nos anos 1980 e submerso no fim da década de 2000.
Portos e rotas relevantes
A costa oriental indiana concentra a maior parte do movimento portuário. Visakhapatnam, Paradip, Chennai e Ennore operam minério, carvão, granéis e contêineres, e o porto de Kolkata é o mais antigo ainda em operação na Índia: instalado a cerca de 200 km da foz, no Rio Hooghly, depende de dragagem permanente, o que levou à criação do complexo de Haldia.
Em Bangladesh, Chattogram responde por cerca de nove décimos do comércio externo do país e movimenta em torno de 3 milhões de TEU por ano, apesar das restrições de calado do Rio Karnaphuli; os projetos de Matarbari e Payra visam criar o primeiro terminal de águas profundas nacional. O golfo integra rotas de longo curso que ligam o Estreito de Malaca ao Canal de Suez.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Chattogram | Bangladesh | Contêineres e comércio externo |
| Visakhapatnam | Índia | Granéis, minério e siderurgia |
| Chennai | Índia | Contêineres e veículos |
| Kolkata e Haldia | Índia | Carga fluvial e petroquímica |
| Trincomalee | Sri Lanka | Porto natural de águas profundas |
Importância econômica
A pesca é a atividade que ocupa mais gente: milhões de pescadores artesanais dependem do golfo em embarcações pequenas, e a hilsa, o camarão e a sardinela sustentam mercados regionais de grande porte. A carcinicultura de camarão-tigre transformou a economia do sudoeste de Bangladesh, ao custo de conversão de manguezais e salinização de solos agrícolas.
A extração de gás natural cresceu nas três margens: Bangladesh explora a plataforma rasa, Mianmar produz nos campos de Shwe e Yadana e a Índia desenvolveu a bacia de Krishna-Godavari em águas profundas. Chattogram abriga também um dos maiores centros mundiais de desmonte de navios, em Sitakunda, que fornece a maior parte do aço reciclado consumido no país e é uma das atividades mais críticas quanto a segurança do trabalho e contaminação do litoral.
Importância ambiental
O delta do Ganges e do Brahmaputra é o maior do mundo, com cerca de 100.000 km², e sua estabilidade depende do equilíbrio entre a chegada de sedimento novo, que eleva o terreno, e a compactação das camadas profundas, que o rebaixa. Medições de subsidência em Bangladesh indicam taxas de cerca de 1 mm a 18 mm por ano segundo o local, valores que, somados à elevação global do nível do mar, produzem localmente aumentos relativos de vários milímetros anuais. A retenção de sedimento por barragens, a extração de água subterrânea e os diques que impedem a inundação natural agravam o problema, e a salinização de solos e aquíferos no sudoeste do país é a consequência mais imediata.
Em escala de bacia, o golfo é um dos maiores receptores mundiais de resíduos plásticos de origem fluvial. Em 26 de dezembro de 2004, o terremoto de magnitude 9,1 ao largo de Sumatra gerou o tsunami que matou cerca de 228.000 pessoas nas margens do Índico e levou à criação do sistema de alerta de tsunamis do Oceano Índico em 2006.
Problemas de conservação
A gestão é fragmentada entre muitos países e milhões de operadores de pequena escala, o que dificulta a fiscalização; o programa regional dedicado ao grande ecossistema marinho do Bengala buscou construir avaliações conjuntas, e vários dos estoques costeiros avaliados aparecem plenamente explorados ou sobre-explorados. A defesa dos Sundarbans concentra as controvérsias mais visíveis, entre redução do aporte de água doce, salinização e usinas termelétricas a carvão nas proximidades.
- Vedas de pesca — Bangladesh adota períodos anuais de proibição para proteger a desova e os juvenis da hilsa, com compensação alimentar às comunidades afetadas.
- Desova de tartarugas — O santuário marinho de Gahirmatha restringe o arrasto durante a temporada de desovas coletivas em Odisha.
- Derramamentos internos — O naufrágio de um petroleiro no Rio Shela, em 2014, espalhou centenas de toneladas de óleo dentro da área protegida dos Sundarbans.
Curiosidades
- O leque submarino do Bengala é o maior depósito sedimentar isolado da Terra e registra a erosão do Himalaia por milhões de anos.
- A Ponta Indira, extremo sul do território indiano, afundou cerca de 4 m no terremoto de 26 de dezembro de 2004, e seu farol passou a ficar parcialmente submerso na maré alta.
- Os tigres dos Sundarbans nadam entre ilhas e bebem água salobra, comportamento sem paralelo nas demais populações da espécie.
- A ilha de Nova Moore apareceu no estuário do Hariabhanga após um ciclone em 1970, foi reivindicada por Índia e Bangladesh e submergiu antes que a disputa fosse resolvida.
- A zona de mínimo de oxigênio do golfo mantém concentrações da ordem de dezenas de nanomoles por quilograma; esgotado esse resíduo, a bacia se tornaria uma das maiores áreas de remoção de nitrogênio do oceano.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- FAO. Bay of Bengal Large Marine Ecosystem — avaliações regionais de pesca, 2023. Consultar publicação
- UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. The Sundarbans e Sundarbans National Park, 2024. Consultar publicação
- COI — UNESCO. Indian Ocean Tsunami Warning and Mitigation System, 2024. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Ganges-Brahmaputra Delta e sedimentação do Golfo de Bengala, 2023. Consultar publicação
- IUCN — Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Panthera tigris, Platanista gangetica e Lepidochelys olivacea, 2024. Consultar publicação
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Outros verbetes do acervo que ajudam a situar Golfo de Bengala no conjunto das formações marinhas.
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Mar
Mar de Andamão
Mar entre Mianmar, a Tailândia e o arco de Andamão e Nicobar, com vulcão ativo, marés amplas e ondas internas gigantes.
Área 797.700 km² Máx. 4.198 m
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Mar
Mar Arábico
Mar de monções entre a Arábia, a África e a Índia, com ressurgência intensa e uma enorme camada de água sem oxigênio.
Área 3.862.000 km² Máx. 4.652 m
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Oceano Índico
Terceiro maior oceano do planeta, governado pelas monções, pelo Dipolo do Índico e pela poderosa Corrente das Agulhas.
Área 70.560.000 km² Máx. 7.290 m
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Estreito de Malaca
A rota marítima mais movimentada do planeta: 900 km de canal raso entre a Malásia, a Indonésia e Singapura.
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Golfo raso e quentíssimo entre o Irã e a Arábia, gargalo do petróleo mundial e centro da dessalinização do planeta.
Área 251.000 km² Máx. 90 m