Estreito de Ormuz
Passagem de cerca de 33 km no ponto mais estreito, entre o Irã e Omã, por onde sai todo o petróleo embarcado no Golfo Pérsico.
O Estreito de Ormuz é a única saída marítima do Golfo Pérsico para o Oceano Índico, e liga essa bacia semifechada ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Tem cerca de 167 km de extensão e 33 km no ponto mais estreito, entre a costa iraniana e o Cabo Musandam, em Omã. A passagem faz uma curva acentuada em torno da península omanense, e o dispositivo de separação de tráfego reserva a cada sentido de navegação um canal de apenas 3 km de largura, com uma faixa intermediária de igual dimensão.
Nenhuma outra via marítima concentra tanto petróleo. Cerca de um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo e uma parcela próxima de um terço do petróleo transportado por mar atravessam esse corredor, junto a boa parte do gás natural liquefeito exportado no mundo. Ao mesmo tempo, o estreito é o gargalho de uma bacia extraordinariamente salgada: a água que sai pelo fundo, com salinidade acima de 39, é a mais densa produzida em qualquer mar tropical e afunda no Índico como uma camada distinta.
Ficha técnica
- Nome
- Estreito de Ormuz
- Também chamado de
- Tangeh-ye Hormoz, Estreito de Hormuz
- Tipo de formação
- Estreito
- Localização
- Entre 25,5° N e 27° N e entre 55,5° L e 57,5° L, ligando o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.
- Oceano de referência
- Índico
- Continentes próximos
- Ásia
- Países e territórios
- Irã na margem norte e Omã na margem sul, esta na península de Musandam, um exclave omanense cercado por território dos Emirados Árabes Unidos.
- Área aproximada
- Aproximadamente 8.000 km²Estimativa para o corpo do estreito entre Bandar Abbas e o Cabo Musandam.
- Profundidade média
- Cerca de 60 m
- Profundidade máxima
- Cerca de 190 mCanal principal junto à margem iraniana; o Golfo Pérsico, a montante, tem máximos próximos de 90 m.
- Salinidade
- 36,5 a 37 na entrada e acima de 39 na água que sai do Golfo Pérsico pelo fundo
- Temperatura da superfície
- De 21 °C a 24 °C no inverno e de 30 °C a 33 °C no verão à superfície
- Linha de costa
- Cerca de 500 km somando as duas margens, com falésias calcárias em Musandam
- Correntes principais
- Entrada de água do Índico à superfície, saída de água hipersalina do Golfo Pérsico pelo fundo e correntes de maré fortes junto às ilhas.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
A oeste, o estreito começa perto de Bandar Abbas e da Ilha de Queshm, onde as águas do Golfo Pérsico se afunilam; a leste, termina na linha entre o Cabo Musandam e a costa iraniana do Makran. O eixo navegável descreve uma curva de quase noventa graus em torno de Musandam, obrigando os navios a mudar de rumo em espaço apertado e sob correntes de maré variáveis.
A margem sul é marcada por falésias calcárias e fiordes escavados em um bloco de rocha que a colisão entre a Arábia e a Eurásia empurra para baixo. Na margem norte, domos de sal atravessam a cobertura sedimentar e produziram ilhas de morfologia peculiar, como a própria Ilha de Ormuz.
Continentes e países próximos
As duas margens pertencem ao Irã e a Omã, e suas águas territoriais cobrem toda a largura da passagem: não existe corredor de alto-mar através do estreito. A navegação apoia-se no regime de passagem em trânsito da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que o Irã assinou em 1982 sem ratificar, mantendo interpretação própria sobre a extensão desse direito.
- Irã — Margem norte, com Bandar Abbas, Bandar Lengeh e as ilhas de Queshm, Ormuz, Hengam e Larak.
- Omã — Margem sul, na península de Musandam, com o porto de Khasab e os fiordes calcários.
- Emirados Árabes Unidos — Costa próxima da entrada meridional, com Fujairah já do lado do Golfo de Omã.
Área e profundidade
A largura total do estreito é confortável para a navegação, mas a via realmente utilizável é estreita: bancos, ilhas e a curvatura em torno de Musandam limitam o traçado, e o esquema de separação de tráfego concentra o fluxo em duas faixas de cerca de 3 km cada.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Extensão | Cerca de 167 km | De Bandar Abbas ao Golfo de Omã |
| Largura mínima | Cerca de 33 km | Entre a costa iraniana e o Cabo Musandam |
| Canais de tráfego | Cerca de 3 km cada | Um por sentido, com faixa intermediária |
| Profundidade máxima | Cerca de 190 m | Canal principal |
| Petróleo transportado | Cerca de um quinto do consumo mundial | Líquidos de petróleo, estimativa por carga |
| Salinidade da água de saída | Acima de 39 | A mais densa de qualquer mar tropical |
Principais correntes
O estreito abriga uma circulação de duas camadas comparável à de Gibraltar. O Golfo Pérsico perde por evaporação muito mais água do que recebe de rios e chuvas, e o déficit é compensado pela entrada de água do Índico pela superfície. Em profundidade, água hipersalina formada nas áreas rasas do sul do golfo escoa para fora, atravessa a soleira e desce a encosta do Golfo de Omã.
Essa água de saída estabiliza-se entre cerca de 200 m e 300 m de profundidade no Golfo de Omã e é rastreável como uma língua salgada por centenas de quilômetros dentro do Mar Arábico. Junto às ilhas e nos canais entre elas, as correntes de maré produzem redemoinhos e linhas de convergência visíveis à superfície.
Clima
O clima é árido e muito quente, com verões entre os mais severos do planeta na combinação de temperatura e umidade: a água superficial passa de 32 °C em agosto, e a evaporação é intensa todo o ano. O vento predominante é o shamal, de noroeste, que sopra em rajadas por dias, levanta poeira e reduz a visibilidade no canal. Ciclones tropicais do Mar Arábico raramente entram no estreito, mas atingem a entrada oriental, como o ciclone Gonu em 2007.
Ecossistemas
Os manguezais de Avicennia marina de Queshm e de Bandar Khamir formam o ecossistema costeiro mais extenso da passagem. A área protegida de Hara, reconhecida como sítio de importância internacional para aves aquáticas desde 1975, abriga bosques que resistem a salinidade e calor extremos e servem de berçário para camarões e peixes. Ao lado deles há planícies de maré e bancos de fanerógamas.
Recifes de coral crescem em torno das ilhas de Larak, Hengam e Ormuz, sempre em condições limite: as espécies locais toleram temperaturas e salinidades letais para corais de outras regiões, o que fez do golfo um laboratório natural de resistência térmica. Nos fundos do canal, onde a corrente é forte, dominam filtradores fixados em rocha e cascalho.
Biodiversidade
A fauna combina espécies tolerantes a condições extremas com visitantes do Mar Arábico que usam o estreito como entrada. A passagem é também a única rota de intercâmbio genético entre as populações marinhas do Golfo Pérsico e as do Índico.
- Tubarão-baleia — Rhincodon typus forma agregações sazonais no estreito e no Golfo de Omã.
- Baleia-jubarte do Mar Arábico — População não migratória de Megaptera novaeangliae, das menores e mais ameaçadas do mundo.
- Golfinho-corcunda — Sousa plumbea ocupa águas rasas junto a manguezais e estuários.
- Tartaruga-de-pente — Eretmochelys imbricata desova em ilhas do golfo e come nos recifes da passagem.
- Peixe-boi-marinho — Dugong dugon mantém no golfo a segunda maior população mundial.
Ilhas
As ilhas da margem iraniana são parte essencial da geografia do estreito. Queshm, com cerca de 1.491 km², é a maior do Golfo Pérsico e abriga um geoparque reconhecido pela Unesco, com desfiladeiros de sal, cavernas e os manguezais de Hara. A Ilha de Ormuz, com cerca de 42 km², é um domo de sal aflorante cujas camadas de óxido de ferro produzem solos vermelhos e deram nome à passagem. Larak e Hengam completam o conjunto, e a Ilha Grande Quoin baliza o lado omanense.
A norte, já dentro do golfo, ficam a Grande Tunb, a Pequena Tunb e Abu Musa, administradas pelo Irã e reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos desde 1971, questão tratada por via diplomática.
- Queshm — Cerca de 1.491 km², a maior do Golfo Pérsico, com geoparque da Unesco e zona franca.
- Ormuz — Cerca de 42 km², domo de sal com solos vermelhos e sítio histórico português.
- Larak e Hengam — Ilhas rochosas com recifes junto ao canal mais profundo.
- Grande Tunb — Cerca de 10 km², administrada pelo Irã e reivindicada pelos Emirados Árabes Unidos.
- Ilha Grande Quoin — Rochedo omanense no extremo do dispositivo de separação de tráfego.
Portos e rotas relevantes
A passagem não tem grandes portos em si: seu papel é dar acesso aos terminais das duas bacias que separa. Na margem iraniana, Bandar Abbas concentra o terminal de contêineres de Shahid Rajaee, e Bandar Lengeh atende comércio regional. Na omanense, Khasab é um porto pequeno de pesca, cabotagem e turismo, encaixado entre falésias. Já do lado do Golfo de Omã, Fujairah figura entre os maiores centros mundiais de abastecimento de combustível marítimo.
A montante estão os terminais que explicam seu peso: Ras Tanura, na Arábia Saudita, a ilha iraniana de Kharg, o complexo de gás liquefeito de Ras Laffan, no Catar, e Jebel Ali, nos Emirados. Rotas alternativas por terra existem, mas com capacidade limitada: um oleoduto liga campos dos Emirados a Fujairah e outro atravessa a Arábia Saudita até o Mar Vermelho.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Bandar Abbas | Irã | Contêineres e carga geral, terminal de Shahid Rajaee |
| Bandar Lengeh | Irã | Cabotagem e comércio regional |
| Khasab | Omã | Pesca, cabotagem e turismo em Musandam |
| Fujairah | Emirados Árabes Unidos | Abastecimento de combustível, fora do estreito |
| Kharg | Irã | Terminal de exportação de petróleo, no golfo |
| Ras Laffan | Catar | Exportação de gás natural liquefeito |
Importância econômica
A economia do estreito é a economia da energia. Dezenas de navios-tanque atravessam a passagem por dia, e a interrupção do fluxo, mesmo parcial, tem efeito imediato sobre preços internacionais. Somam-se a pesca artesanal de camarão e pequenos pelágicos, o comércio de cabotagem em embarcações tradicionais entre Musandam, Queshm e os Emirados e um turismo de natureza crescente nos fiordes omanenses.
A vulnerabilidade da rota já se manifestou de forma extrema. Entre 1984 e 1988, durante a guerra entre o Irã e o Iraque, a Guerra dos Petroleiros levou a ataques contra centenas de navios mercantes no golfo e na região do estreito, com minagem de águas e escolta de comboios. O episódio mudou de forma duradoura os seguros marítimos e as estratégias de estocagem dos países importadores.
Importância ambiental
A importância ambiental da passagem vem de sua função de comporta de uma bacia extrema. Todo o balanço de sal e de calor do Golfo Pérsico depende do que entra e do que sai por Ormuz, e o tempo de renovação da bacia é curto o bastante para que alterações no aporte se reflitam rapidamente na salinidade interna. A água hipersalina exportada é componente reconhecível da estrutura de densidade do Mar Arábico.
Os corais e os manguezais que persistem nessas condições térmicas têm valor científico particular, porque vivem em temperaturas que outros mares tropicais só devem alcançar décadas adiante. O geoparque de Queshm protege tanto os domos de sal quanto os bosques de mangue de Hara, e é o principal instrumento de conservação da margem norte.
Problemas de conservação
A concentração de navios-tanque em canais de poucos quilômetros faz do derramamento de óleo o risco ambiental central, agravado por um mar semifechado, quente e de renovação lenta, onde os hidrocarbonetos persistem. A descarga de água de lastro, os efluentes urbanos e industriais das duas bacias e as salmouras devolvidas por um dos maiores parques de dessalinização do mundo somam-se a essa pressão.
- Risco de derramamento — Petroleiros em canais estreitos, com curva acentuada em torno de Musandam.
- Salmoura de dessalinização — As plantas do golfo devolvem água muito salgada e quente, elevando a salinidade local.
- Branqueamento de corais — Ondas de calor marinhas provocaram mortalidades repetidas nos recifes do golfo.
- Aterros costeiros — Obras reduzem bosques de mangue e planícies de maré.
- Captura acidental — Redes de emalhe e arrasto de camarão capturam tartarugas e golfinhos.
Curiosidades
- A Ilha de Ormuz é um domo de sal que empurra para a superfície camadas ricas em óxido de ferro; o solo vermelho resultante é explorado como pigmento e chega a colorir a água junto à praia.
- A Ilha de Queshm, com cerca de 1.491 km², é a maior do Golfo Pérsico e integra a rede mundial de geoparques da Unesco.
- A água que sai do Golfo Pérsico pelo fundo do estreito tem salinidade acima de 39 e é a mais densa formada em qualquer mar tropical, afundando até cerca de 300 m no Golfo de Omã.
- Entre 1984 e 1988, a Guerra dos Petroleiros levou a ataques contra centenas de navios mercantes na região, com minagem de águas e escolta de comboios.
- Os canais de tráfego reservados a cada sentido de navegação têm cerca de 3 km de largura, separados por uma faixa intermediária semelhante.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Marítima Internacional. Ships routeing — dispositivos de separação de tráfego, 2023. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- Unesco. Qeshm Island UNESCO Global Geopark, 2017. Consultar publicação
- PNUMA. Regional Seas Programme — ROPME Sea Area, 2023. Consultar publicação
- União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação
- NOAA. World Ocean Atlas — temperatura e salinidade, 2023. Consultar publicação
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