Canal da Mancha
Passagem de 560 km entre a Grã-Bretanha e a França, com 34 km no Estreito de Dover e o esquema de separação de tráfego mais movimentado do mundo.
O Canal da Mancha é a passagem que liga o Oceano Atlântico ao Mar do Norte, separando o sul da Grã-Bretanha do norte da França ao longo de aproximadamente 560 km. Sua largura diminui de mais de 240 km na entrada ocidental para cerca de 34 km no Estreito de Dover, onde as duas costas ficam à vista uma da outra. É uma passagem rasa: a profundidade média é de apenas 63 m, e o ponto mais fundo, a Fossa de Hurd, chega a 172 m.
Essa combinação de estrangulamento e pouca profundidade define tudo o que acontece ali. As correntes de maré alcançam velocidades extremas, o Golfo de Saint-Malo registra uma das maiores amplitudes de maré do planeta e o Estreito de Dover concentra o tráfego marítimo mais denso do mundo. O canal é, além disso, um acidente geológico recente: até cerca de 450 mil anos atrás, um istmo de giz unia as duas margens, e foi sua ruptura por inundações catastróficas que criou a passagem.
Ficha técnica
- Nome
- Canal da Mancha
- Também chamado de
- La Manche, English Channel
- Tipo de formação
- Canal natural
- Localização
- Entre 48° N e 51° N e entre 5,5° O e 2° L, ligando o Atlântico nordeste ao Mar do Norte e separando o sul da Grã-Bretanha do norte da França.
- Oceano de referência
- Atlântico
- Continentes próximos
- Europa
- Países e territórios
- Reino Unido e França, além das dependências da Coroa britânica de Jersey, Guernsey, Alderney e Sark, situadas em águas próximas ao litoral normando.
- Área aproximada
- 75.000 km²Chega a cerca de 90.000 km² quando o limite ocidental é deslocado para a linha entre as Ilhas Scilly e Ushant.
- Profundidade média
- 63 m
- Profundidade máxima
- 172 mFossa de Hurd, depressão alongada ao norte da península de Cotentin.
- Volume
- Aproximadamente 4.700 km³
- Salinidade
- 34,5 a 35,3
- Temperatura da superfície
- De 7 °C a 9 °C no inverno e de 16 °C a 19 °C no verão
- Linha de costa
- Cerca de 1.600 km na margem britânica e 1.400 km na francesa
- Correntes principais
- Correntes de maré alternadas de grande intensidade, com deriva residual para leste rumo ao Mar do Norte.
- Atualizado em
- 11 de setembro de 2026
Localização e limites
O limite oriental é nítido e fixado no Estreito de Dover, entre o cabo Gris-Nez, na França, e o South Foreland, na Inglaterra. O ocidental é convencional: a Organização Hidrográfica Internacional o situa na linha entre a ilha de Ushant, na Bretanha, e a ponta de Land’s End, na Cornualha, mas parte da literatura o desloca para oeste, incluindo as Ilhas Scilly.
O fundo é uma plataforma continental afogada, de relevo suave interrompido por bancos arenosos, paleovales e depressões alongadas. A mais notável é a Fossa de Hurd, calha de mais de 150 km e até 172 m de profundidade ao norte da península de Cotentin, isolada das áreas fundas e interpretada como remanescente da erosão por água de degelo. Os fundos rochosos concentram-se junto à Bretanha, à Normandia e às ilhas do Canal.
Continentes e países próximos
Apenas dois Estados têm costa no canal, mas a fragmentação jurídica é maior do que parece: as ilhas do Canal são dependências da Coroa britânica com estatuto próprio, situadas a poucos quilômetros da costa francesa. A gestão da passagem depende, assim, de acordos bilaterais e de regras internacionais de navegação.
- Reino Unido — Litoral de Cornualha, Devon, Dorset, Hampshire, Sussex e Kent, com Southampton, Portsmouth, Plymouth e Dover.
- França — Litoral da Bretanha, Normandia e Alta França, com Brest, Cherbourg, Le Havre, Dieppe e Calais.
- Dependências da Coroa — Jersey, Guernsey, Alderney e Sark, autônomas e não integradas ao Reino Unido.
- Águas compartilhadas — O regime de pesca e de trânsito decorre de tratados bilaterais e das regras da Organização Marítima Internacional.
Área e profundidade
A área mais citada é de aproximadamente 75.000 km², com volume próximo de 4.700 km³. A passagem é rasa e assimétrica: na entrada ocidental as profundidades ficam entre 100 m e 120 m e a água se estratifica no verão; a leste de Cherbourg, raramente passam de 60 m e as marés mantêm a coluna homogênea o ano inteiro.
| Grandeza | Valor | Observação |
|---|---|---|
| Comprimento | 560 km | Ushant a Dover |
| Largura máxima | 240 km | Entrada ocidental |
| Largura mínima | 34 km | Estreito de Dover |
| Área | 75.000 km² | Até 90.000 km² |
| Profundidade média | 63 m | Menor a leste |
| Profundidade máxima | 172 m | Fossa de Hurd |
Principais correntes
A dinâmica do canal é dominada pela maré. A onda atlântica entra pelo oeste, é amplificada pelo estreitamento progressivo e produz correntes alternadas que superam 5 m/s na Passagem de Alderney, um dos escoamentos de maré mais rápidos da Europa. Sobreposta a esse vaivém existe uma deriva residual para leste, que transfere água atlântica ao Mar do Norte.
As amplitudes de maré atingem valores excepcionais no Golfo de Saint-Malo: na baía do Monte Saint-Michel e em Granville, a diferença entre a baixa-mar e a preamar de sizígia ultrapassa 13 m, deixando a descoberto planícies de maré que se estendem por quilômetros. Essa energia foi aproveitada na usina maremotriz do estuário do Rance, inaugurada em 1966 com 240 MW, por décadas a maior instalação do tipo em operação no mundo.
A mistura provocada pelas marés cria, no verão, uma frente térmica marcada ao largo de Ushant, onde a água homogênea do canal encontra a água estratificada do Atlântico e a produtividade se concentra.
Clima
O clima é temperado oceânico, com invernos amenos, verões frescos e chuvas distribuídas ao longo do ano. A temperatura da superfície varia entre 7 °C e 9 °C em fevereiro e entre 16 °C e 19 °C em agosto. As depressões atlânticas atravessam a região de oeste para leste durante todo o inverno, gerando ventos fortes que, em uma passagem rasa e estreita, produzem ondas curtas e íngremes. O nevoeiro é frequente na primavera e figura entre os fatores de risco à navegação no Estreito de Dover.
Ecossistemas
Predominam fundos móveis de areia e cascalho, mantidos em movimento pelas correntes de maré, com campos de dunas submarinas e bancos como o Varne e o Ridens. Sobre esses substratos vivem bivalves, ofiúros e anelídeos que sustentam a pesca demersal; onde a rocha aflora, junto à Bretanha e às ilhas do Canal, instalam-se florestas de algas laminárias, esponjas e corais moles.
Os estuários da margem francesa — Sena, Somme, Rance e a baía do Monte Saint-Michel — formam planícies de maré que servem de invernada a aves limícolas do Atlântico oriental. Na margem britânica, os penhascos de giz de Sussex e Kent e a costa jurássica de Dorset combinam habitat de aves marinhas com um dos registros fósseis mais completos da Europa.
Biodiversidade
A fauna do canal é de transição entre as províncias lusitânica e boreal, e o aquecimento recente da água tem deslocado para o norte espécies de afinidade meridional, processo acompanhado por séries de monitoramento de longa duração nas duas margens.
- Boto-comum — Phocoena phocoena é o cetáceo mais abundante e sua presença aumentou desde a década de 1990.
- Golfinhos-roazes — Um grupo residente de Tursiops truncatus ocupa as águas normandas do Golfo de Saint-Malo o ano todo.
- Focas — A foca-cinzenta Halichoerus grypus reproduz-se na Bretanha, na Cornualha e nas ilhas do Canal.
- Tubarão-frade — Cetorhinus maximus aparece na entrada ocidental entre maio e agosto, atraído pelas frentes ricas em plâncton.
- Aves marinhas — Alderney e as Sept-Îles abrigam colônias de alcatraz-comum Morus bassanus com milhares de casais.
Ilhas
As ilhas do canal são pequenas e concentram-se junto à costa francesa ou nas extremidades da passagem. Sua posição, entre correntes intensas e rotas movimentadas, deu-lhes papel desproporcional na navegação e na história militar da região.
- Ilhas do Canal — Jersey, Guernsey, Alderney e Sark, no Golfo de Saint-Malo, sujeitas a marés superiores a 10 m.
- Ilha de Wight — Cerca de 380 km² diante de Southampton, separada do continente pelo estreito do Solent.
- Ushant — Ilha bretã na entrada ocidental, cercada por correntes violentas e pelo farol de Créac’h.
- Ilhas Chausey — Arquipélago granítico de centenas de ilhotas que emergem e submergem conforme a maré.
- Ilhas Scilly — Conjunto a sudoeste da Cornualha, no limite ocidental convencional do canal.
Portos e rotas relevantes
O Estreito de Dover comporta o esquema de separação de tráfego mais movimentado do mundo, com faixas de sentido único adotadas em 1967, as primeiras aprovadas pela Organização Marítima Internacional, e monitoramento por radar nas duas margens. Estima-se que entre 400 e 500 embarcações mercantes cruzem o estreito por dia, mais do que no Estreito de Gibraltar, além de centenas de travessias de balsas entre Dover, Calais e Dunquerque. Le Havre e Southampton concentram os contêineres; Portsmouth, Brest e Cherbourg mantêm funções navais.
| Porto | País | Função predominante |
|---|---|---|
| Le Havre | França | Contêineres e eixo do Sena |
| Southampton | Reino Unido | Contêineres e cruzeiros |
| Dover e Calais | Reino Unido e França | Balsas e carga rodoviária |
| Cherbourg | França | Base naval |
| Portsmouth | Reino Unido | Base naval e balsas |
Importância econômica
O canal é antes de tudo um corredor de transporte, e a travessia transversal movimenta milhões de passageiros e parcela expressiva do comércio entre as ilhas britânicas e o continente. O Túnel do Canal, inaugurado em 1994, tem 50,45 km de extensão, dos quais 37,9 km sob o leito marinho. Por correr dezenas de metros abaixo do fundo, no interior da camada de giz, não altera a batimetria, a circulação nem o regime jurídico da passagem, que segue sujeita às regras de navegação internacional.
A pesca é a segunda atividade em importância. A vieira Pecten maximus, capturada sobretudo na baía do Sena, é a espécie de maior valor, seguida por linguado, robalo, caranguejo e lagostim; as diferenças entre as regras francesas de defeso e as britânicas de acesso geraram atritos recorrentes entre frotas, o mais conhecido em 2018. Somam-se a extração de areia e cascalho, os cabos submarinos e um parque crescente de geração eólica marinha.
Importância ambiental
O canal deve sua existência a um dos episódios geológicos mais dramáticos do noroeste europeu. Durante as glaciações, um lago proglacial ocupou o sul do atual Mar do Norte, represado por uma crista de giz que unia o Weald, na Inglaterra, ao Artois, na França. Levantamentos batimétricos de alta resolução revelaram no fundo do canal vales escavados, ilhas residuais e bacias de erosão compatíveis com megainundações: a ruptura da crista, ocorrida há cerca de 450 mil anos e repetida por volta de 160 mil anos atrás, esvaziou o lago em descargas catastróficas que abriram a passagem e separaram a Grã-Bretanha do continente.
Do ponto de vista ecológico, a passagem é um corredor entre o Atlântico e o Mar do Norte para larvas, peixes migratórios e cetáceos, e a frente de Ushant sustenta produtividade elevada em uma plataforma de outro modo pobre em nutrientes.
Problemas de conservação
A densidade de tráfego é a principal fonte de risco. O canal tem uma das maiores concentrações de naufrágios do mundo, acumulados desde a Antiguidade e multiplicados pelas duas guerras mundiais: em 6 de junho de 1944, o desembarque da Normandia mobilizou milhares de embarcações e deixou no leito uma extensa camada de destroços, em parte protegida como patrimônio subaquático. O petroleiro que se partiu ao largo de Ushant em 1978 fixou a região como referência no debate sobre transporte de hidrocarbonetos.
- Microplásticos — Amostragens nas duas margens registram concentrações elevadas na água e no sedimento, favorecidas pela circulação confinada e pela densidade populacional costeira.
- Pressão sobre a vieira — A gestão do estoque de Pecten maximus depende de regras de defeso distintas nos dois países, o que dificulta a avaliação conjunta.
- Extração de sedimento — A retirada de areia e cascalho altera bancos que servem de habitat e de proteção à costa.
- Ruído e colisões — O tráfego contínuo eleva o ruído submarino e o risco de choque com cetáceos.
- Aquecimento da água — A temperatura da superfície subiu nas últimas décadas e espécies meridionais avançaram para o norte.
Curiosidades
- Até cerca de 450 mil anos atrás, uma crista de giz unia o sudeste da Inglaterra ao norte da França; sua ruptura por inundações glaciais abriu o canal e transformou a Grã-Bretanha em ilha.
- A Passagem de Alderney registra correntes de maré superiores a 5 m/s, entre as mais rápidas da Europa.
- A usina maremotriz do Rance, em funcionamento desde 1966 com 240 MW, foi por quase cinco décadas a maior instalação do gênero em operação no mundo.
- O Túnel do Canal tem 37,9 km escavados sob o leito marinho, o trecho submarino mais longo de qualquer túnel já construído.
- Na baía do Monte Saint-Michel, a diferença entre a baixa-mar e a preamar de sizígia ultrapassa 13 m, uma das maiores amplitudes de maré do planeta.
Fontes
As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.
- Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
- Organização Marítima Internacional. Ships’ routeing and traffic separation schemes, 2024. Consultar publicação
- GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
- Agência Europeia do Ambiente. Marine messages II: navigating the course towards clean, healthy and productive seas, 2020. Consultar publicação
- Copernicus Marine Service. North West European Shelf Physics Analysis and Forecast, 2025. Consultar publicação
- FAO. Fishery and Aquaculture Statistics — Atlântico nordeste, 2024. Consultar publicação
- NASA Earth Observatory. Imagens e séries de temperatura da superfície do mar do noroeste europeu, 2024. Consultar publicação
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