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Estreito Oceano Índico

Estreito de Bab el-Mandeb

Passagem de cerca de 30 km entre a Arábia e o Corno de África que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e sustenta a rota de Suez.

Mapa de localização de Estreito de Bab el-Mandeb, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte da passagem entre Ras Menheli e Ras Siyyan, com a Ilha de Perim dividindo o canal em duas vias.

O Estreito de Bab el-Mandeb é a porta sul do Mar Vermelho e sua única ligação natural com o Oceano Índico, através do Golfo de Áden. Tem cerca de 30 km de largura entre Ras Menheli, no Iêmen, e Ras Siyyan, no Djibuti. O nome, em árabe, significa portão das lamentações, e é atribuído aos perigos da navegação na passagem, cercada de recifes, ilhas baixas e correntes variáveis. A Ilha de Perim ocupa o centro do canal e o divide em duas vias de características muito distintas.

A importância do estreito vem de sua posição na rota entre a Ásia e a Europa: quem atravessa o Canal de Suez precisa passar por ali. Do ponto de vista oceanográfico, é a comporta de um mar extremamente salgado. O Mar Vermelho evapora muito mais do que recebe, e a água densa que exporta por essa saída pode ser rastreada como um máximo de salinidade em profundidade intermediária por milhares de quilômetros dentro do Índico.

Ficha técnica

Nome
Estreito de Bab el-Mandeb
Também chamado de
Bab al-Mandab, Portão das Lamentações
Tipo de formação
Estreito
Localização
Entre 12,2° N e 13,2° N e entre 42,8° L e 44° L, no extremo sul do Mar Vermelho, junto à entrada do Golfo de Áden.
Oceano de referência
Índico
Continentes próximos
África, Ásia
Países e territórios
Iêmen na margem asiática e Djibuti e Eritreia na margem africana, com a Ilha de Perim, iemenita, no meio da passagem.
Área aproximada
Aproximadamente 3.500 km²Estimativa para a seção entre Ras Menheli, no Iêmen, e Ras Siyyan, no Djibuti.
Profundidade média
Cerca de 150 m
Profundidade máxima
Cerca de 310 mCanal ocidental; a soleira de Hanish, mais ao norte, limita a troca com o Mar Vermelho a cerca de 137 m.
Salinidade
36 a 37 na entrada do Golfo de Áden e cerca de 40 na água que sai do Mar Vermelho
Temperatura da superfície
De 25 °C a 27 °C no inverno e de 30 °C a 32 °C no verão à superfície
Linha de costa
Cerca de 250 km somando as duas margens, com costas áridas e vulcânicas
Correntes principais
Entrada de água do Golfo de Áden no inverno, inversão parcial no verão com três camadas e saída permanente de água salgada do Mar Vermelho pelo fundo.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A Ilha de Perim divide a passagem em dois canais. O oriental, junto à costa iemenita, chamado Estreito de Alexandre, tem cerca de 3 km de largura e pouco mais de 30 m de profundidade, inadequado para navios de grande calado. O ocidental, com cerca de 25 km de largura e profundidades de até 310 m, concentra praticamente todo o tráfego internacional.

A soleira que realmente controla a troca com o Mar Vermelho não fica no estreito, e sim ao norte, na região das ilhas Hanish, onde a profundidade cai a cerca de 137 m. As margens são áridas e vulcânicas, associadas à junção tripla entre as placas africana, arábica e somali, cujo afastamento abriu o próprio Mar Vermelho.

Continentes e países próximos

Três Estados têm costa no estreito, que é reconhecido como via usada para navegação internacional e sujeito ao regime de passagem em trânsito. O Djibuti converteu essa posição em vocação logística e sedia instalações militares de vários países, ligadas sobretudo às operações de combate à pirataria no Golfo de Áden. A soberania sobre as ilhas Hanish foi objeto de arbitragem internacional concluída em 1998 entre o Iêmen e a Eritreia.

  • Iêmen — Margem asiática, com Ras Menheli, a Ilha de Perim e os portos de Moca e Áden nas proximidades.
  • Djibuti — Margem africana ocidental, com Ras Siyyan, o arquipélago dos Sete Irmãos e o porto de Djibuti.
  • Eritreia — Costa a norte da passagem, com o porto de Assab e as ilhas do sul do Mar Vermelho.

Área e profundidade

A passagem é curta e rasa em comparação com os corpos de água que liga, e a repartição do fluxo entre dois canais de tamanhos muito diferentes concentra toda a navegação de porte em uma única via.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Largura mínimaCerca de 30 kmRas Menheli a Ras Siyyan
Canal ocidentalCerca de 25 kmVia principal, até 310 m de profundidade
Canal orientalCerca de 3 kmEstreito de Alexandre, pouco mais de 30 m
Soleira de HanishCerca de 137 mControla a troca com o Mar Vermelho
Saída de água do Mar Vermelho0,3 a 0,6 SvSalinidade próxima de 40
Largura no último máximo glacialPoucos quilômetrosCom nível do mar cerca de 100 m mais baixo

Principais correntes

O regime de correntes muda com as monções. Entre outubro e maio a circulação é de duas camadas: água do Golfo de Áden entra pela superfície e água salgada do Mar Vermelho sai pelo fundo. No verão o padrão se reorganiza em três camadas, com saída superficial, intrusão intermediária de água fria e rica em nutrientes e saída profunda reduzida.

Essa intrusão de verão é decisiva para a produtividade do sul do Mar Vermelho, porque injeta nutrientes em uma bacia pobre neles. Na direção oposta, a água que sai pelo fundo desce a encosta do Golfo de Áden e se estabiliza entre cerca de 500 m e 800 m, formando a Água de Saída do Mar Vermelho, identificável como um máximo de salinidade por milhares de quilômetros dentro do Índico, até as proximidades do Canal de Moçambique.

Clima

O clima é desértico e quente, com precipitação anual inferior a 100 mm nas duas margens e temperaturas do mar que passam de 30 °C no verão. O vento segue o ritmo das monções: de sudeste no verão, quando sopra do Golfo de Áden para o Mar Vermelho, e de noroeste no inverno, quando o eixo do vento inverte no sul da bacia. Tempestades de poeira reduzem a visibilidade, e a região está entre as áreas do planeta com maior estresse térmico combinado de calor e umidade.

Ecossistemas

Os recifes de coral do sul do Mar Vermelho e das ilhas do estreito crescem em temperaturas e salinidades letais para a maioria dos recifes tropicais, e essa tolerância térmica é um dos temas mais estudados na região. Os fundos do arquipélago dos Sete Irmãos, no Djibuti, abrigam recifes bem desenvolvidos, e manguezais de Avicennia marina ocupam enseadas abrigadas das duas margens.

A intrusão sazonal de água do Golfo de Áden cria, no verão, uma faixa fria e fértil que sustenta florações de plâncton e agregações de grandes filtradores. Nos fundos do canal principal, batidos por corrente forte, predominam filtradores fixados em rocha. O estreito é ainda o único caminho de troca de larvas entre a fauna endêmica do Mar Vermelho e a do Índico.

Biodiversidade

A passagem combina fauna recifal do Mar Vermelho, altamente endêmica, com visitantes oceânicos do Golfo de Áden. É também um dos maiores gargalhos de migração de aves do planeta, atravessado por rapinantes que evitam voar longas distâncias sobre o mar aberto.

  • Aves de rapina — Águias-das-estepes, falcões-abelheiros e milhafres cruzam a passagem em centenas de milhares por temporada, com contagens históricas feitas no Djibuti.
  • Tubarão-baleiaRhincodon typus forma agregações sazonais no Golfo de Tadjoura e nas águas próximas ao estreito.
  • Jamantas — Raias do gênero Mobula aproveitam as intrusões férteis do verão para se alimentar de plâncton.
  • Tartarugas marinhas — Tartaruga-verde e tartaruga-de-pente desovam em praias das ilhas djibutianas e eritreias.
  • Peixes recifais endêmicos — Cerca de um sétimo dos peixes de recife do Mar Vermelho não ocorre em nenhum outro lugar, e o estreito é seu limite de distribuição.

Ilhas

A Ilha de Perim, também chamada Mayyun, é o elemento central da passagem: cerca de 13 km² de rocha vulcânica árida, com um porto natural em uma cratera parcialmente inundada, ocupada como estação de carvão e posto de vigilância entre o século XIX e meados do XX, hoje quase desabitada. A oeste, no Djibuti, o arquipélago dos Sete Irmãos reúne sete ilhas baixas cercadas de recifes.

Ao norte, já dentro do Mar Vermelho, ficam as ilhas Hanish e Zuqar, vulcânicas e desabitadas, atribuídas em sua maior parte ao Iêmen por um tribunal arbitral em 1998, com direitos de pesca reconhecidos à Eritreia.

  • Perim (Mayyun) — Cerca de 13 km², iemenita, divide o estreito em dois canais desiguais.
  • Sete Irmãos (Sawabi) — Arquipélago djibutiano de sete ilhas com os recifes mais desenvolvidos da passagem.
  • Hanish e Zuqar — Ilhas vulcânicas ao norte, sobre a soleira que limita a troca com o Mar Vermelho.
  • Doumeira — Ilhotas junto à costa, com soberania disputada entre o Djibuti e a Eritreia.

Portos e rotas relevantes

O estreito não abriga grandes terminais, mas está cercado por portos cuja função depende inteiramente dele. Djibuti é o mais importante: seu terminal de Doraleh escoa a quase totalidade do comércio exterior da Etiópia, país sem litoral com mais de cem milhões de habitantes. Do lado asiático, Áden tem um dos melhores portos naturais da região, e Moca é um ancoradouro menor. Assab, na Eritreia, opera em escala reduzida.

Nas rotas mundiais, a passagem é o degrau sul do corredor Suez–Mar Vermelho, por onde circula parcela expressiva do comércio entre a Ásia e a Europa e vários milhões de barris de petróleo por dia. A partir do fim de 2023, ataques contra navios mercantes levaram grande parte das companhias a desviar suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança, com aumento de distância e de custos.

Portos do entorno da passagem
PortoPaísFunção predominante
Djibuti / DoralehDjibutiContêineres e trânsito do comércio etíope
ÁdenIêmenPorto natural, combustível e carga geral
MocaIêmenAncoradouro histórico de pequeno porte
AssabEritreiaGranéis e cabotagem
BerberaSomáliaContêineres no Golfo de Áden, fora do estreito
JazanArábia SauditaTerminal no Mar Vermelho, a norte da passagem

Importância econômica

A economia da região é pouco diversificada e muito dependente do trânsito. O Djibuti obtém parcela dominante de sua receita de serviços portuários, ferroviários e logísticos; o Iêmen e a Eritreia exploram pesca artesanal de pequenos pelágicos, atum e lagosta, além de sal. O comércio de cabotagem em embarcações tradicionais atravessa a passagem há séculos.

A vulnerabilidade da rota tem efeito econômico imediato. Como a alternativa a Suez é contornar a África, cada interrupção prolongada eleva fretes, prazos e prêmios de seguro em escala global e reduz a receita de trânsito dos países da região. Essa sensibilidade motivou programas internacionais de escolta e monitoramento de navios no Golfo de Áden desde o auge da pirataria somali.

Importância ambiental

A passagem é a comporta de um dos mares mais salgados do mundo e, por isso, uma peça do balanço de sal do Índico. A água que sai por ali é rastreável como assinatura de salinidade em profundidade intermediária por milhares de quilômetros. Alterações no fluxo, ligadas ao regime de monções, repercutem na produtividade do sul do Mar Vermelho.

Como corredor biológico, o estreito é insubstituível em dois planos: no mar, é o único caminho de intercâmbio entre a fauna endêmica do Mar Vermelho e a do Índico; no ar, é um dos poucos pontos em que aves planadoras cruzam entre a África e a Eurásia sem longos trechos sobre água.

Problemas de conservação

O tráfego intenso de navios-tanque em um canal estreito, cercado de recifes e sem grande capacidade regional de resposta, faz do derramamento de óleo a ameaça mais séria. Somam-se a descarga de água de lastro, os efluentes portuários e o risco associado a embarcações abandonadas ou em más condições de manutenção nas águas da região.

  • Risco de derramamento — Petroleiros em canal estreito, com recifes próximos e resposta limitada a acidentes.
  • Branqueamento de corais — Ondas de calor marinhas atingem recifes já no limite superior de tolerância térmica.
  • Pesca não regulada — Frotas artesanais e industriais atuam com fiscalização escassa sobre tubarões e pelágicos.
  • Perda de manguezal — Corte para lenha, pastoreio e obras costeiras reduzem os bosques das duas margens.
  • Instabilidade regional — Conflitos e insegurança marítima interromperam programas de monitoramento e de conservação.

Curiosidades

  1. O nome árabe da passagem significa portão das lamentações, referência atribuída aos perigos da navegação entre recifes, ilhas baixas e correntes variáveis.
  2. A Ilha de Perim divide o estreito em um canal ocidental de cerca de 25 km, usado por praticamente todo o tráfego, e um canal oriental de apenas 3 km e pouco mais de 30 m de profundidade.
  3. A hipótese da rota meridional propõe que a saída humana da África para a Eurásia passou por essa região, quando o nível do mar cerca de 100 m mais baixo reduzia a travessia a poucos quilômetros com ilhas intermediárias.
  4. A água que o Mar Vermelho exporta pelo fundo do estreito tem salinidade próxima de 40 e permanece identificável entre 500 m e 800 m de profundidade em boa parte do Oceano Índico.
  5. A partir do fim de 2023, ataques contra navios mercantes levaram grande parte das companhias a desviar suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança, com queda acentuada nas travessias do Canal de Suez.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  2. Organização Marítima Internacional. Ships routeing e segurança da navegação no Mar Vermelho e Golfo de Áden, 2024. Consultar publicação
  3. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação
  4. PNUMA. Regional Seas Programme — Mar Vermelho e Golfo de Áden, 2023. Consultar publicação
  5. NOAA. World Ocean Atlas — temperatura e salinidade, 2023. Consultar publicação
  6. União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, 2025. Consultar publicação

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