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Mar interior

Mar Morto

Lago hipersalino do Vale do Jordão cuja superfície, a cerca de 437 m abaixo do nível do mar, é o ponto mais baixo da terra firme exposta.

Mapa de localização de Mar Morto, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte do fundo do Vale do Jordão, com a bacia norte profunda e o setor sul ocupado por tanques de evaporação.

O Mar Morto é um lago hipersalino encaixado no fundo do Vale do Jordão, cuja superfície está em torno de 437 m abaixo do nível do mar, a menor cota de terra firme exposta do planeta. O leito da bacia norte, a 298 m de profundidade, chega a cerca de 730 m abaixo do nível oceânico. Apesar do nome consagrado, não é um mar no sentido hidrográfico: é o ponto terminal de uma bacia endorreica alimentada pelo rio Jordão, por uádis intermitentes e por fontes subterrâneas.

A salinidade, próxima de 342 g por litro, quase dez vezes a oceânica, torna a água tão densa que um corpo humano flutua sem esforço e impede a existência de peixes, moluscos ou plantas submersas: apenas arqueias halofílicas e algas unicelulares resistem. O lago perde mais de um metro de coluna por ano desde a década de 1990, e essa retração transformou suas margens em uma das paisagens de colapso geológico mais ativas do mundo.

Ficha técnica

Nome
Mar Morto
Também chamado de
Yam ha-Melach, Al-Bahr al-Mayyit, Lacus Asphaltites
Tipo de formação
Mar interior
Localização
Entre 31,1° N e 31,8° N e entre 35,3° L e 35,65° L, no fundo do Vale do Jordão, segmento setentrional do sistema de falhas do Mar Morto.
Oceano de referência
Bacia endorreica
Continentes próximos
Ásia
Países e territórios
Israel e Jordânia partilham a bacia norte e a bacia sul; a Cisjordânia ocupa o setor noroeste da margem, ao sul de Jericó, sob administração disputada.
Área aproximada
605 km²Somente a bacia norte, a única ainda naturalmente inundada; a superfície era de cerca de 1.050 km² na década de 1930.
Profundidade média
199 m
Profundidade máxima
298 mCentro da bacia norte; o leito situa-se a cerca de 730 m abaixo do nível do mar.
Volume
Cerca de 114 km³
Salinidade
Aproximadamente 342 g por litro, cerca de 34%
Temperatura da superfície
De 21 °C a 23 °C no inverno a 31 °C a 37 °C na superfície do verão
Linha de costa
Aproximadamente 135 km, em retração contínua
Correntes principais
Sem correntes permanentes de escala; circulação por convecção térmica sazonal e plumas de densidade após chuvas.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

O lago ocupa a parte mais funda da Transformante do Mar Morto, falha de deslizamento horizontal que separa a placa arábica da africana ao longo de cerca de 1.000 km, do Golfo de Ácaba ao sul da Turquia. O movimento entre as placas, da ordem de 5 mm por ano, abriu uma sucessão de bacias em afundamento, das quais a do Mar Morto é a mais profunda.

A superfície alonga-se por cerca de 50 km no sentido norte–sul e por até 15 km no leste–oeste. A península de Lisan divide o lago em duas bacias: a norte é profunda e concentra praticamente toda a água natural remanescente; a sul, que nunca ultrapassou 6 m, secou na década de 1970 e hoje sobrevive apenas como tanques industriais de evaporação. A oeste, o relevo sobe pelas escarpas da Judeia com desnível superior a 1.200 m em poucos quilômetros; a leste, os planaltos de Moabe e Edom formam parede igualmente íngreme.

Continentes e países próximos

Três jurisdições têm margem no Mar Morto. A costa oriental pertence à Jordânia; a ocidental divide-se entre Israel, no setor sul, e a Cisjordânia, ao sul de Jericó. O Tratado de Paz de 1994 entre Israel e Jordânia fixou a fronteira ao longo do eixo do lago, mas o recuo do nível deslocou continuamente a linha de referência.

  • Jordânia — Margem oriental completa, com a planta da Arab Potash Company em Safi e o complexo turístico de Sweimeh.
  • Israel — Margem sul-ocidental, com Ein Bokek, Ein Gedi e a indústria mineral de Sodoma.
  • Cisjordânia — Setor noroeste, entre Qumran e a foz do Jordão, sem instalações industriais e com acesso restrito.
  • Bacia de drenagem — Cerca de 40.000 km², incluindo Líbano e Síria.

Área e profundidade

A bacia norte cobre hoje cerca de 605 km², contra aproximadamente 1.050 km² na década de 1930, e seu volume é estimado em 114 km³. A grandeza mais expressiva, porém, não é a área, e sim a cota: a superfície passou de cerca de 390 m abaixo do nível do mar em 1930 para 437 m na década de 2020, queda de quase 50 m em menos de um século, com taxas acima de 1 m por ano desde os anos 1990. Cada metro perdido expõe quilômetros quadrados de fundo e faz a margem recuar centenas de metros em setores planos.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Cota da superfície437 m abaixo do nível do marDécada de 2020
Área605 km²Somente a bacia norte
Volume114 km³Reduzido em cerca de um terço desde 1960
Profundidade máxima298 mLeito a cerca de 730 m abaixo do nível do mar
Salinidade342 g por litroCerca de dez vezes a média oceânica
Densidade da água1,24 kg por litroPermite flutuação passiva

Principais correntes

Por ser pequeno e fechado, o Mar Morto não tem correntes de escala nem marés perceptíveis: a dinâmica da coluna é governada pela densidade. Até 1979 o lago era meromítico, com uma camada superficial menos salgada isolada de uma massa profunda saturada. A redução do aporte do Jordão eliminou essa distinção, e desde a primeira mistura completa o lago é holomítico, o que faz precipitar cloreto de sódio no fundo a uma taxa da ordem de 10 cm por ano.

O balanço hídrico é integralmente negativo. A evaporação retira entre 1.100 mm e 1.600 mm de coluna por ano. Do lado das entradas, o Jordão despejava historicamente entre 1.200 milhões e 1.300 milhões de m³ anuais; após o canal nacional israelense, as barragens jordanas no Yarmouk e a captação síria, restam menos de 200 milhões de m³, boa parte deles efluentes tratados e drenagem agrícola.

Clima

O clima é desértico quente e extremamente seco. A precipitação anual varia entre 50 mm e 100 mm, concentrada em poucos eventos de inverno que descem pelos uádis em enxurradas súbitas. As médias de verão superam 38 °C, com máximas acima de 50 °C, e a umidade relativa fica entre 25% e 45%.

A profundidade da depressão produz efeitos atmosféricos peculiares. A pressão barométrica ao nível do lago é a maior registrada de forma permanente em terra firme, e a coluna de ar adicional filtra parte da radiação ultravioleta de onda curta. Essa combinação de sol intenso, ar seco e ultravioleta atenuada é a base do turismo médico local.

Ecossistemas

Não existe vida macroscópica na água. Peixes trazidos pelo Jordão morrem em minutos ao atingir a foz, e nenhuma planta submersa se estabelece. O ecossistema aquático é inteiramente microbiano e só se manifesta quando as condições afrouxam: após invernos muito chuvosos, como em 1980 e 1992, a diluição da camada superficial permitiu florações da alga verde Dunaliella, que alimentaram arqueias pigmentadas e tingiram a água de vermelho por semanas.

A vida concentra-se nas margens, onde nascentes de água doce criam oásis abruptos no deserto: Ein Gedi e Ein Feshkha sustentam tamargueiras, canaviais, íbex-da-núbia e damão-das-rochas. No leito, mergulhos feitos a partir de 2011 revelaram crateras de nascentes submarinas cercadas por espessos biofilmes microbianos.

Biodiversidade

A biodiversidade aquática resume-se a microrganismos extremófilos, mas justamente por isso a bacia é referência internacional em microbiologia de ambientes hipersalinos. Várias espécies foram descritas a partir de amostras coletadas ali.

  • Arqueias halofílicas — Organismos dos gêneros Haloarcula, Halobacterium e Halorubrum prosperam em salinidade próxima da saturação e devem a cor avermelhada a carotenoides.
  • Haloferax volcanii — Descrita a partir de sedimentos do lago e batizada em homenagem ao microbiologista Benjamin Volcani, é hoje organismo modelo no estudo das arqueias.
  • Dunaliella — Alga verde unicelular tolerante a sal, principal produtora primária nos raros períodos de diluição.
  • Fauna das margens — Íbex-da-núbia, damão-das-rochas e hiena-listrada ocorrem nos uádis adjacentes.
  • Corredor de migração — O vale integra a rota do Rift entre Europa, Ásia e África, por onde passam centenas de milhares de aves planadoras.

Ilhas

O Mar Morto não possui ilhas permanentes. A única feição que interrompe a lâmina de água é a península de Lisan, promontório de margas, argilas e sal na margem jordana, formado por sedimentos do antigo Lago Lisan, que ocupou o vale entre 70 mil e 15 mil anos atrás e chegou a quase 200 m acima do nível atual.

A retração criou, no entanto, feições temporárias: bancos de sal e blocos de gesso emergem à medida que o fundo é exposto.

  • Península de Lisan — Promontório de sedimentos lacustres que separa a bacia norte da sul; o nome significa língua em árabe.
  • Monte Sodoma — Cadeia de 11 km na margem sudoeste, diapiro de sal recoberto por sedimentos, com cavernas de halita.
  • Bancos de sal — Cristas de halita expostas pelo recuo do nível, que viram ilhotas durante enchentes de inverno.

Portos e rotas relevantes

Não há navegação comercial no Mar Morto nem portos no sentido convencional. A densidade da água exige cascos e lastros específicos, e a falta de saída para o oceano elimina qualquer transporte de longa distância: as embarcações do lago são pequenas e servem a pesquisa, monitoramento industrial e resgate.

A logística é integralmente terrestre. A rodovia 90, do lado israelense, e a estrada do Mar Morto, do lado jordano, escoam a produção mineral para Ashdod e Ácaba; é por Ácaba, no Mar Vermelho, que a potassa jordana chega ao mercado asiático.

Acessos e terminais de escoamento
InstalaçãoPaísFunção
SodomaIsraelComplexo industrial de extração mineral e ferrovia para Ashdod
Safi e Ghor al-SafiJordâniaPlantas de potassa e bromo com escoamento rodoviário para Ácaba
Ein BokekIsraelPolo hoteleiro e de turismo médico
SweimehJordâniaPolo hoteleiro da margem nordeste
Porto de ÁcabaJordâniaSaída marítima da produção mineral pelo Mar Vermelho

Importância econômica

A economia do lago apoia-se em dois pilares. O primeiro é a indústria mineral: a salmoura é bombeada para tanques rasos no setor sul, onde a evaporação solar concentra os sais e permite a colheita de cloreto de sódio, carnalita e, a partir dela, de cloreto de potássio. Israel e Jordânia estão entre os maiores exportadores mundiais de potassa, e a bacia responde por parcela expressiva da produção global de bromo, extraído das águas-mãe residuais.

O segundo pilar é o turismo, concentrado em Ein Bokek e Sweimeh, que combina balneários, tratamento dermatológico e visitação a Massada, inscrita na Lista do Patrimônio Mundial em 2001, e às grutas de Qumran. As duas atividades conflitam com a conservação: o bombeamento industrial responde por um quarto a um terço da perda anual de volume, e a hotelaria ocupa margens onde os sumidouros avançam mais rápido.

Importância ambiental

O fenômeno mais visível da retração são os sumidouros. Quando o nível da salmoura desce, água doce subterrânea passa a circular por camadas de sal soterradas junto à antiga linha de costa e as dissolve, criando cavidades que desabam de forma súbita. Contam-se hoje mais de 6.000 sumidouros nas duas margens, alguns com dezenas de metros de diâmetro, que já engoliram trechos de estrada, plantações e instalações turísticas.

A bacia é também um arquivo climático de primeira ordem: os sedimentos laminados do leito registram os ciclos de cheia e seca do Levante ao longo de centenas de milhares de anos. É ainda referência no estudo de ambientes hipersalinos, ao lado das lagunas do Mar Cáspio, e o contraste com o Mar de Aral é recorrente nos debates regionais sobre gestão de água.

Problemas de conservação

A resposta institucional mais ambiciosa foi o projeto de canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, formalizado em memorando assinado em 2013 por Israel, Jordânia e Autoridade Palestina após estudos apoiados pelo Banco Mundial: previa captar água em Ácaba, dessalinizar parte dela para abastecer a Jordânia e conduzir a salmoura residual por cerca de 200 km até o Mar Morto.

O projeto foi abandonado. A Jordânia retirou-se em 2021 e passou a desenvolver um sistema próprio de dessalinização entre Ácaba e Amã. Pesaram o custo, estimado em cerca de 10 bilhões de dólares, as tensões políticas e, sobretudo, as objeções ambientais: a mistura da água do Mar Vermelho, rica em sulfato, com a salmoura do Mar Morto tenderia a precipitar gesso branco em suspensão e a favorecer florações de algas em um sistema que nunca recebeu água oceânica.

  • Desvio do Jordão — A vazão que chega ao lago caiu de cerca de 1.300 milhões de m³ por ano para menos de 200 milhões, principal causa isolada da retração.
  • Bombeamento industrial — Os tanques de evaporação do setor sul retiram volume adicional e respondem por parcela relevante da perda anual.
  • Sumidouros — Mais de 6.000 cavidades de colapso tornaram inseguras faixas inteiras do litoral, com fechamento de acessos e balneários.
  • Baixo Jordão — O trecho entre o Mar da Galileia e a foz recebe efluentes e drenagem agrícola, com vegetação ribeirinha muito reduzida.
  • Proteção formal — A reserva de Ein Gedi e a jordana do uádi Mujib protegem os oásis das margens; a lâmina de água não tem estatuto equivalente.

Curiosidades

  1. A pressão atmosférica ao nível do lago, próxima de 1.065 hPa, é a maior registrada de forma permanente em terra firme, e a camada extra de ar filtra parte da radiação ultravioleta de onda curta.
  2. Desde a mistura completa da coluna de água no inverno de 1978 para 1979, o lago precipita cloreto de sódio no fundo a uma taxa da ordem de 10 cm por ano, elevando o próprio leito.
  3. Os manuscritos do Mar Morto foram encontrados a partir de 1947 nas grutas de Qumran, a poucos quilômetros da margem noroeste, e devem sua conservação ao clima seco da depressão.
  4. O nome latino Lacus Asphaltites deriva dos blocos de betume que emergiam do leito e eram recolhidos na Antiguidade, prática registrada por autores romanos.
  5. Uma perfuração científica feita no centro da bacia entre 2010 e 2011 recuperou um testemunho de cerca de 460 m que documenta secas em interglaciais anteriores, quando o lago quase desapareceu.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. USGS. Sinkhole hazards and Dead Sea level decline studies, 2021. Consultar publicação
  2. NASA Earth Observatory. The Shrinking Dead Sea, 2022. Consultar publicação
  3. UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Masada, 2001. Consultar publicação
  4. PNUMA. Dead Sea basin — environmental assessment of west Asia water resources, 2020. Consultar publicação
  5. Banco Mundial. Red Sea–Dead Sea Water Conveyance Study Program, relatório final, 2014. Consultar publicação
  6. International Continental Scientific Drilling Program. Dead Sea Deep Drilling Project, 2011. Consultar publicação

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