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Mar interior

Mar de Aral

Antigo quarto maior lago do mundo, reduzido a menos de um décimo de seu volume após o desvio do Amu Dária e do Sir Dária para irrigação.

Mapa de localização de Mar de Aral, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte da depressão do Aral, com o corpo norte cazaque, os remanescentes do sul e o leito exposto.

O Mar de Aral é um lago salgado endorreico da Ásia Central que, até a década de 1960, cobria cerca de 68.000 km² e era o quarto maior corpo de água interior do mundo, atrás do Mar Cáspio, do Lago Superior e do Lago Vitória. Alimentado pelo Amu Dária e pelo Sir Dária, mantinha-se em equilíbrio precário entre a descarga desses rios e a evaporação do clima desértico que o cerca.

Em pouco mais de meio século, perdeu cerca de 90% do volume e a maior parte da superfície. O desvio maciço das águas dos dois rios para irrigar algodão e arroz nas repúblicas soviéticas rompeu o balanço hídrico e fragmentou o lago em corpos separados por um deserto de sal recém-formado. O caso virou a referência mundial de colapso hidrológico induzido por decisão de gestão e, no norte, um dos raros exemplos de recuperação parcial deliberada.

Ficha técnica

Nome
Mar de Aral
Também chamado de
Aral, Aral Tenizi, Orol dengizi
Tipo de formação
Mar interior
Localização
Entre 43,5° N e 47° N e entre 58° L e 62° L, na depressão de Turã, entre o platô de Ustyurt, a oeste, e o deserto de Kyzylkum, a leste.
Oceano de referência
Bacia endorreica
Continentes próximos
Ásia
Países e territórios
Cazaquistão, ao norte, e Uzbequistão, ao sul, este último pela república autônoma do Caracalpaquistão. A bacia de drenagem alcança ainda Tajiquistão, Quirguistão, Turcomenistão e o norte do Afeganistão.
Área aproximada
Cerca de 8.000 km²Soma aproximada dos corpos remanescentes na década de 2020; a superfície era de cerca de 68.000 km² em 1960.
Profundidade média
16 mValor de 1960; atualmente varia de menos de 10 m no Aral Norte a cerca de 20 m no lobo ocidental do Aral Sul.
Profundidade máxima
69 mMedida em 1960 na fossa ocidental; o remanescente ocidental ainda alcança cerca de 40 m.
Volume
Cerca de 100 km³, contra 1.083 km³ em 1960
Salinidade
Cerca de 10 no Aral Norte e mais de 100 no lobo ocidental do Aral Sul
Temperatura da superfície
De 0 °C com formação de gelo no inverno a 26 °C na superfície do verão
Linha de costa
Radicalmente alterada desde 1960, com recuos superiores a 100 km em alguns setores
Correntes principais
Circulação fraca dominada pelo vento, com plumas de densidade junto às antigas fozes do Sir Dária e do Amu Dária.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

A bacia ocupa uma depressão rasa na planície de Turã, cercada pela escarpa do platô de Ustyurt a oeste, pelas areias do Kyzylkum a leste e pelo delta do Amu Dária ao sul. Não há conexão com o oceano: toda a água que entra sai por evaporação.

O contorno de 1960 formava um corpo único, alongado por cerca de 428 km no sentido norte–sul. A queda do nível desmontou essa unidade em etapas: entre 1987 e 1989 a lâmina separou-se no Aral Norte, cazaque, e no Aral Sul, uzbeque; em 2003, o Aral Sul dividiu-se em um lobo ocidental, estreito e profundo, encostado na escarpa de Ustyurt, e um lobo oriental raso, que secou por completo em agosto de 2014 e desde então alterna entre lâmina fina e leito seco.

Continentes e países próximos

Dois países dividem o que restou da lâmina de água, mas a bacia de drenagem envolve cinco Estados da Ásia Central e o norte do Afeganistão. A partilha das águas é, desde 1991, um dos temas mais sensíveis da diplomacia regional, porque opõe geração de energia no inverno, a montante, e irrigação no verão, a jusante.

  • Cazaquistão — Detém o Aral Norte e Aralsk, e financiou com o Banco Mundial a obra que recuperou parte do corpo setentrional.
  • Uzbequistão — Abriga o Aral Sul e o Caracalpaquistão, região mais afetada pelo colapso, com Muynak como símbolo do desastre.
  • Turcomenistão — Retira do Amu Dária o volume que alimenta o canal Karakum, de 1.375 km.
  • Tajiquistão e Quirguistão — Concentram as nascentes de montanha que geram quase toda a vazão.
  • Afeganistão — A margem esquerda do alto Amu Dária é afegã, e a demanda por irrigação ali cresce.

Área e profundidade

Em 1960, o Aral tinha cerca de 68.000 km², volume de 1.083 km³, profundidade média de 16 m e máxima de 69 m, com nível em torno de 53 m acima do nível do mar. A salinidade era de cerca de 10, comparável à de um estuário, e sustentava pesca relevante.

Na década de 2020, os remanescentes somam perto de 8.000 km² e cerca de 100 km³, com nível de 42 m no Aral Norte e abaixo de 27 m no lobo ocidental. A salinidade divergiu de forma extrema: cerca de 10 no norte, graças ao represamento, e mais de 100 a oeste, quase três vezes a oceânica, o que impede a sobrevivência de peixes.

O antes e o depois
Grandeza1960Década de 2020
Área68.000 km²Cerca de 8.000 km²
Volume1.083 km³Cerca de 100 km³
Nível53 m acima do nível do mar42 m no norte e menos de 27 m no oeste
SalinidadeCerca de 1010 no norte e mais de 100 a oeste
Profundidade máxima69 mCerca de 40 m no lobo ocidental

Principais correntes

O Aral nunca teve correntes de grande escala nem marés: a circulação dependia do vento, dominante de nordeste, e das plumas menos densas vindas das fozes. O que definia o sistema era o balanço hídrico. Até os anos 1950, os dois rios entregavam juntos entre 50 km³ e 60 km³ por ano, volume próximo da evaporação. A partir de 1960, a área irrigada passou de cerca de 5 milhões para mais de 7 milhões de hectares e o canal Karakum entrou em operação, reduzindo a chegada a quase zero em anos secos.

A recuperação do norte inverteu localmente essa lógica. Com a barragem de Kokaral, concluída em 2005, o Sir Dária deixou de alimentar o sul e passou a encher apenas o Aral Norte: o nível subiu de cerca de 30 m para 42 m em poucos anos, a área cresceu perto de um quinto e o excedente passa a jusante por vertedouro controlado.

Clima

A região tem clima continental árido, com verões acima de 35 °C, invernos abaixo de 20 °C negativos e precipitação anual entre 100 mm e 150 mm. Até 1960, a massa de água amortecia esses extremos: era um reservatório térmico que suavizava o inverno, retardava as geadas de outono e alongava a estação agrícola em semanas.

A retração eliminou boa parte desse efeito. Estações meteorológicas registram verões mais quentes, invernos mais frios e estação livre de geadas encurtada, o que atinge as culturas do delta. A umidade caiu e a nebulosidade diminuiu, aumentando a insolação e a evaporação nas áreas irrigadas vizinhas, num ciclo em que a demanda de água cresce onde ela é mais escassa. O Aral Norte ainda congela por completo entre dezembro e março.

Ecossistemas

Os deltas eram o coração biológico do sistema. O do Amu Dária cobria cerca de 550.000 hectares de canais, lagos e florestas ribeirinhas de tugai — choupo, tamargueira e junco — com javalis, veados-de-bukhara e densa avifauna, hoje reduzidos a uma fração da área original. Na lâmina de água, a comunidade de água doce cedeu lugar a organismos tolerantes a sal e, no lobo ocidental, restaram o crustáceo Artemia, bactérias halofílicas e algas unicelulares, quadro próximo do de corpos hipersalinos como o Mar Morto.

O leito exposto deu origem ao Aralkum, deserto salino de cerca de 60.000 km² formado inteiramente a partir de 1960, o mais jovem do planeta. A colonização vegetal é lenta e depende do teor de sal: em setores arenosos, o saxaul Haloxylon e o Tamarix se estabelecem sozinhos; nas crostas de sulfato, o solo fica nu por décadas.

Biodiversidade

Das cerca de 20 espécies de peixe nativas, nenhuma sobreviveu no Aral Sul, e a fauna do norte teve de ser reconstituída após a queda da salinidade. O empobrecimento biológico correu mais rápido que a perda de área, porque a salinidade atuou como filtro sucessivo.

  • Esturjão-do-aralPseudoscaphirhynchus fedtschenkoi, endêmico do Sir Dária e do lago, é considerado extinto; espécies próximas do Amu Dária seguem criticamente ameaçadas.
  • Linguado-do-bálticoPlatichthys flesus, introduzido em 1979 por tolerar sal, virou a base da pesca no período crítico.
  • Espécies do Aral Norte — Com a salinidade de volta a cerca de 10, carpas, siluros, lúcios e o rutilo Rutilus rutilus aralensis formam de novo estoques pescáveis.
  • Artemia — O crustáceo Artemia parthenogenetica domina o lobo ocidental e é colhido para aquicultura.
  • Saiga — O antílope Saiga tatarica, das estepes ao redor, sofreu quedas drásticas e se recupera desde 2015 sob proteção reforçada no Cazaquistão.

Ilhas

O nome Aral significa ilha em línguas túrquicas, referência ao arquipélago de mais de mil ilhas e ilhotas que pontilhava o lago original. A queda do nível transformou quase todas em elevações do leito seco, ligadas ao continente ou cercadas por crosta de sal.

  • Vozrozhdeniya — Sediou o laboratório soviético de armas biológicas de Aralsk-7, desativado em 1992; virou península em 2001 e teve os depósitos de antraz descontaminados no ano seguinte.
  • Barsakelmes — Antiga ilha do norte, hoje planalto em terra firme, com reserva reconhecida pela UNESCO em 2016.
  • Kokaral — Ilha convertida em istmo, que deu nome à barragem de 13 km entre o Aral Norte e o Sul.
  • Sítio de Kerderi — Restos de um mausoléu e de um assentamento medieval revelados no leito seco pela retração.

Portos e rotas relevantes

O Aral sustentou frota pesqueira e de transporte considerável até os anos 1970. Aralsk e Muynak reuniam estaleiros, frigoríficos e fábricas de conserva que processavam dezenas de milhares de toneladas por ano e empregavam cerca de 40 mil pessoas.

O recuo da água deixou ambos em pleno deserto. Muynak ficou a mais de 100 km da margem, e os cascos enferrujados de sua frota, abandonados sobre a areia, viraram o símbolo visual mais reproduzido do episódio. Em Aralsk, Kokaral reaproximou a água a algumas dezenas de quilômetros, o bastante para reativar desembarques, mas não para devolver o antigo cais à beira do lago.

Antigos portos e situação atual
LocalidadePaísSituação
AralskCazaquistãoÁgua a dezenas de quilômetros após Kokaral
MuynakUzbequistãoA mais de 100 km da margem, com cemitério de embarcações
TastubekCazaquistãoAldeia de pescadores reativada no Aral Norte
KazakhdaryaUzbequistãoAntigo entreposto do delta, hoje sem acesso à água

Importância econômica

A pesca comercial, que rendia mais de 40 mil toneladas anuais nos anos 1950, desapareceu do Aral Sul e renasceu em escala reduzida no norte: desde Kokaral, os desembarques cazaques voltaram a superar alguns milhares de toneladas por ano e sustentam aldeias antes abandonadas. A economia regional depende hoje do algodão e do arroz irrigados a montante, exatamente as culturas responsáveis pelo desvio da água.

O Uzbequistão vem reduzindo a área de algodão e reformando as cotas estatais, mas a irrigação segue ineficiente, com perdas em canais sem revestimento. No leito seco, o país autorizou prospecção de petróleo e gás a partir dos anos 2000 e investiu no plantio de saxaul, com mais de 1,7 milhão de hectares informados até 2020. Um turismo de pequeno porte, atraído pelas embarcações encalhadas de Muynak, complementa a renda de algumas comunidades.

Importância ambiental

As tempestades de sal são a herança mais nociva do leito exposto. Estima-se que entre 15 milhões e 75 milhões de toneladas de poeira e sal sejam erguidas por ano do Aralkum e depositadas num raio de centenas de quilômetros, alcançando geleiras do Pamir e do Tien Shan, campos irrigados e áreas urbanas. O material carrega resíduos de pesticidas e desfolhantes acumulados por décadas de algodão, e os efeitos sobre a saúde no Caracalpaquistão estão entre os mais documentados de qualquer desastre ambiental: doenças respiratórias crônicas, anemia, problemas renais e câncer de esôfago aparecem em taxas elevadas.

Ao mesmo tempo, o Aral Norte tornou-se caso de referência sobre reversibilidade parcial. Kokaral mostrou que uma intervenção modesta, de custo na casa das dezenas de milhões de dólares, pode recuperar salinidade, pesca e clima local em poucos anos, algo que não se observou no Mar Negro nem em outros sistemas degradados de escala comparável.

Problemas de conservação

A governança cabe ao Fundo Internacional para Salvar o Mar de Aral, criado em 1993 pelos cinco Estados da Ásia Central, e à comissão interestatal que coordena a partilha das águas. O arranjo funciona melhor para a alocação anual entre países do que para a destinação de água ao lago, que recebe apenas o que sobra das demandas agrícolas.

A restauração completa é tida como inviável pelos próprios órgãos regionais, pois exigiria interromper a irrigação de milhões de hectares dos quais dependem dezenas de milhões de pessoas. O que resta é mitigar: eficiência dos canais, menos algodão, reflorestamento do leito seco e proteção dos deltas.

  • Segunda fase de Kokaral — Estuda-se elevar a crista da barragem para levar a água de volta às proximidades de Aralsk.
  • Plantio de saxaul — A fixação do leito com Haloxylon e outras halófitas busca reduzir a poeira salina, com baixa sobrevivência das mudas nos setores mais salgados.
  • Deltas protegidos — Lagos artificiais e diques no delta do Amu Dária, como o sistema de Sudochye, mantêm zonas úmidas para aves.
  • Reserva de Barsakelmes — Protege a estepe salina da antiga ilha, com populações de kulan e de gazela-persa.
  • Passivo químico — Depósitos de agrotóxicos e o antigo sítio de Vozrozhdeniya exigem monitoramento permanente do solo e da água subterrânea.

Curiosidades

  1. O lobo oriental do Aral Sul secou por completo pela primeira vez em agosto de 2014, sem registro anterior em séculos.
  2. A barragem de Kokaral, de 13 km, concluída em 2005, elevou o nível do Aral Norte de cerca de 30 m para 42 m e derrubou a salinidade de mais de 20 para cerca de 10, permitindo o retorno da pesca comercial.
  3. A retração expôs no leito seco os restos do mausoléu de Kerderi, obra medieval que comprova que o lago já estivera muito baixo por causas naturais entre os séculos XIV e XVI.
  4. A antiga ilha de Vozrozhdeniya abrigou o laboratório soviético de armas biológicas de Aralsk-7; após ligar-se ao continente em 2001, seus depósitos de esporos de antraz foram descontaminados.
  5. O canal Karakum, aberto no Turcomenistão a partir dos anos 1950, tem cerca de 1.375 km e desviava do Amu Dária mais de 10 km³ por ano, com infiltração que chegou a metade do volume captado.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. NASA Earth Observatory. World of Change: Shrinking Aral Sea, 2023. Consultar publicação
  2. PNUMA. Aral Sea basin — environment and development assessment, 2021. Consultar publicação
  3. Banco Mundial. Syr Darya Control and Northern Aral Sea Project, 2010. Consultar publicação
  4. UNESCO — Programa o Homem e a Biosfera. Barsakelmes Biosphere Reserve, 2016. Consultar publicação
  5. FAO. AQUASTAT — Aral Sea basin water resources profile, 2022. Consultar publicação
  6. USGS. Land cover change in the Aral Sea region, 2019. Consultar publicação

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