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Golfo Oceano Índico

Golfo Pérsico

Golfo raso e hipersalino entre o Irã e a Arábia, com 251.000 km², 50 m de profundidade média e o maior campo de gás natural do mundo sob o leito.

Mapa de localização de Golfo Pérsico, com o corpo de água destacado sobre as terras vizinhas.
Recorte entre o delta do Chate Alárabe e o Estreito de Ormuz, com a plataforma rasa árabe e o canal profundo iraniano.

O Golfo Pérsico é um mar epicontinental raso de aproximadamente 251.000 km², encaixado entre o planalto iraniano e a Península Arábica e ligado ao Oceano Índico pelo Estreito de Ormuz e pelo Golfo de Omã. Tem cerca de 989 km de comprimento, largura que varia de 56 km a 338 km e profundidade média em torno de 50 m, valor que o coloca entre os corpos de água de dimensão comparável mais rasos do planeta.

Essa combinação de pouca profundidade, clima desértico e comunicação estreita com o oceano produz condições extremas. A evaporação supera em muito o aporte de água doce, a salinidade ultrapassa 41 em amplos setores e a temperatura da superfície oscila entre menos de 15 °C no inverno do norte e mais de 35 °C no verão das enseadas. Sob esse leito raso está o maior campo de gás natural já descoberto, e sobre ele passa a maior parte do petróleo comercializado por mar no mundo.

Ficha técnica

Nome
Golfo Pérsico
Também chamado de
Golfo Arábico, o Golfo
Tipo de formação
Golfo
Localização
Entre 24° N e 30,5° N e entre 47,5° L e 57° L, encaixado entre o planalto iraniano, ao norte, e a Península Arábica, ao sul.
Oceano de referência
Índico
Continentes próximos
Ásia
Países e territórios
Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Barein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã, pela península de Musandã.
Área aproximada
251.000 km²Algumas compilações indicam 239.000 km², conforme a linha adotada no Estreito de Ormuz.
Profundidade média
50 m
Profundidade máxima
90 mCanal profundo junto à costa iraniana, próximo à entrada de Ormuz.
Volume
Cerca de 8.630 km³
Salinidade
37 a 41, com mais de 60 nas enseadas de Salwa
Temperatura da superfície
De 12 °C no inverno do norte a mais de 35 °C no verão das águas rasas
Linha de costa
Aproximadamente 5.000 km
Correntes principais
Circulação ciclônica, entrada de água do Índico pela margem iraniana e saída de Água do Golfo Pérsico pelo fundo de Ormuz.
Atualizado em
11 de setembro de 2026

Localização e limites

O limite sudeste é o Estreito de Ormuz, com cerca de 33 km na seção mais estreita, entre a península omanense de Musandã e a costa iraniana. Ao norte, o golfo termina no delta do Chate Alárabe, formado pela confluência do Tigre, do Eufrates e do Carum, único aporte fluvial relevante. A margem árabe é rasa, arenosa e recortada por bancos, recifes e ilhas baixas; a margem iraniana é mais íngreme e concentra o canal profundo.

O golfo é geologicamente muito jovem como corpo de água. Durante o último máximo glacial, com o nível do mar mais de 100 m abaixo do atual, a depressão era um vale fluvial percorrido pelo curso conjunto dos rios mesopotâmicos, e só foi inundada entre cerca de 12.000 e 8.000 anos atrás, à medida que o mar subiu. A bacia continua se fechando pela convergência entre a placa arábica e a Eurásia, responsável pelo soerguimento dos montes Zagros.

Continentes e países próximos

Oito Estados têm costa no golfo, e a concentração de fronteiras marítimas em uma bacia tão pequena gerou disputas duradouras. As ilhas de Abu Musa e as duas Tunbs, na aproximação de Ormuz, são administradas pelo Irã e reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos; a soberania sobre as ilhas Hawar, entre Barein e o Catar, só foi resolvida por decisão da Corte Internacional de Justiça em 2001.

  • Irã — Toda a margem norte, com Bandar Abbas, Bushehr e o terminal petrolífero da ilha de Kharg.
  • Arábia Saudita e Kuwait — Margem oeste, com Ras Tanura, Dammã, Jubail e os terminais kuwaitianos do extremo norte.
  • Catar, Barein e Emirados — Margem sul, densamente urbanizada e responsável pela maior expansão portuária e imobiliária da bacia.
  • Iraque e Omã — O primeiro com uma faixa mínima de litoral em Umm Qasr; o segundo apenas pela península de Musandã, na entrada de Ormuz.

Área e profundidade

Com volume estimado em cerca de 8.630 km³, o golfo contém menos água do que muitos lagos continentais profundos, apesar de ocupar área superior à da Grã-Bretanha. Essa desproporção explica a rapidez com que suas propriedades respondem a mudanças: o tempo de renovação completa da água é de apenas três a cinco anos.

Grandezas de referência
GrandezaValorObservação
Área251.000 km²Até o Estreito de Ormuz
Comprimento989 kmDo Chate Alárabe a Ormuz
Profundidade média50 mEntre as mais baixas do mundo para essa área
Profundidade máxima90 mCanal junto à costa iraniana
Volume8.630 km³Renovado a cada três a cinco anos
Salinidade37 a 41Mais de 60 nas enseadas rasas de Salwa

Principais correntes

A circulação é ciclônica e movida pelo desequilíbrio hídrico. A evaporação retira entre 1,4 m e 2 m de coluna de água por ano, muito além do que a chuva e o Chate Alárabe repõem, o que obriga a entrada contínua de água menos salgada do Golfo de Omã. Esse fluxo penetra pela superfície ao longo da margem iraniana, percorre o golfo em sentido anti-horário e vai ganhando sal e densidade à medida que avança para oeste.

A água transformada, conhecida como Água do Golfo Pérsico, retorna pelo fundo do Estreito de Ormuz e mergulha no Golfo de Omã, estabilizando-se entre 200 m e 300 m de profundidade no Mar Arábico, onde permanece identificável a centenas de quilômetros. As marés são mistas, com amplitude de 1 m a 3 m, organizadas em torno de dois sistemas anfidrômicos que tornam a variação quase nula em alguns trechos e apreciável em outros bem próximos.

Clima

O clima é desértico e um dos mais quentes habitados do planeta. A precipitação fica abaixo de 150 mm anuais na maior parte do perímetro, concentrada em poucos episódios de inverno. O vento predominante é o xamal, de noroeste, que sopra ao longo do eixo do golfo, levanta poeira e mar curto e é responsável por boa parte da mistura da coluna de água.

A amplitude térmica anual da superfície é extraordinária para um mar tropical: nas áreas rasas do norte a água pode cair abaixo de 15 °C em janeiro e ultrapassar 35 °C em agosto. Essa variação de mais de 20 °C em poucos meses é maior do que a suportada pela maioria dos organismos recifais no restante do mundo e condiciona toda a ecologia do golfo.

Ecossistemas

Os recifes de coral do golfo são os mais tolerantes ao calor já documentados. Colônias de Porites e Cyphastrea sobrevivem a temperaturas de verão que matariam corais em qualquer outro mar, mas essa resistência tem limite: episódios de branqueamento em massa foram registrados em 1996, 1998, 2002, 2010 e 2017, e a recuperação entre eventos tornou-se insuficiente em várias áreas. A diversidade é baixa se comparada à do Mar Vermelho, reflexo do estresse ambiental permanente.

Pradarias de Halodule uninervis e Halophila cobrem extensos fundos arenosos na margem sul e sustentam a segunda maior população de dugongos do mundo, estimada entre 5 mil e 7 mil animais concentrados nas águas de Barein, do Catar e de Abu Dabi. Manguezais de Avicennia marina ocupam enseadas abrigadas, e as ilhas oferecem sítios de nidificação importantes para a tartaruga-de-pente.

Biodiversidade

A fauna do golfo é um subconjunto empobrecido da fauna indo-pacífica, filtrado pela salinidade e pela temperatura extremas, mas inclui populações de importância global para algumas espécies.

  • Dugongo — Entre 5 mil e 7 mil indivíduos, a maior concentração fora da Austrália, dependente das pradarias da margem sul.
  • Tartaruga-de-pente — Nidifica em ilhas iranianas e sauditas; o aquecimento da areia vem enviesando a proporção de sexos dos filhotes.
  • Corais termotolerantes — Cerca de sessenta espécies construtoras, estudadas como referência de adaptação a mares mais quentes.
  • Pérola natural — A ostra Pinctada radiata sustentou a economia do golfo até a década de 1930, quando a pérola cultivada japonesa derrubou o mercado.
  • Camarão e peixes demersais — O camarão-tigre e espécies de garoupa e pargo respondem pela maior parte do valor desembarcado.

Ilhas

As ilhas do golfo são baixas e pequenas, com exceção de Qeshm, e muitas delas concentram terminais petrolíferos, bases militares ou disputas de soberania.

  • Qeshm — 1.491 km² junto à costa iraniana, a maior ilha do golfo, com geoparque reconhecido internacionalmente.
  • Barein — Arquipélago de cerca de 786 km² que forma um Estado independente, ampliado por aterros sucessivos.
  • Bubiyan — 863 km² de planícies de maré no extremo norte, a maior ilha do Kuwait.
  • Kharg — Ilhota iraniana que abriga o principal terminal de exportação de petróleo do país.
  • Abu Musa e as Tunbs — Administradas pelo Irã e reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos desde 1971.

Portos e rotas relevantes

O golfo concentra ao mesmo tempo o maior terminal petrolífero e um dos maiores portos de contêineres do mundo. Ras Tanura, na Arábia Saudita, embarca petróleo em escala sem paralelo; Jebel Ali, em Dubai, é o maior porto de contêineres do Oriente Médio e um dos dez maiores do planeta. Shahid Rajaee, junto a Bandar Abbas, concentra o comércio marítimo iraniano, e Hamad, inaugurado pelo Catar em 2017, reduziu a dependência de transbordo em portos vizinhos.

Principais portos e terminais
PortoPaísFunção predominante
Jebel AliEmirados Árabes UnidosMaior terminal de contêineres do Oriente Médio
Ras TanuraArábia SauditaMaior terminal de exportação de petróleo do mundo
Shahid RajaeeIrãPrincipal porto comercial iraniano
HamadCatarPorto de águas profundas aberto em 2017
Umm QasrIraqueÚnica saída marítima relevante do país

Importância econômica

A estrutura econômica do golfo é indissociável dos hidrocarbonetos. O campo compartilhado que o Catar chama de Domo Norte e o Irã de Pars Sul é o maior depósito de gás natural convencional já identificado, com cerca de 9.700 km² e reservas recuperáveis da ordem de 51 trilhões de m³. Descoberto em 1971, sustenta a posição do Catar entre os maiores exportadores mundiais de gás liquefeito, com expansão de capacidade programada para o fim desta década.

O Estreito de Ormuz é o gargalo que dá escala global a tudo isso. Estima-se que cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passem por ali todos os dias, aproximadamente um quinto do consumo mundial de líquidos, além de parcela comparável do comércio internacional de gás liquefeito. Não há rota alternativa de capacidade equivalente: os oleodutos que contornam o estreito escoam apenas uma fração do volume, o que mantém o preço internacional do petróleo sensível a qualquer tensão na região.

Importância ambiental

O golfo abriga a maior concentração de dessalinização do planeta, responsável por cerca de metade da capacidade mundial instalada. As usinas devolvem ao mar uma salmoura mais quente e mais salgada do que a água captada, e a circulação lenta faz com que esse efluente se acumule em faixas costeiras já hipersalinas. O resultado documentado inclui aumento local de salinidade e temperatura, perda de pradarias e alteração das comunidades bentônicas junto às tomadas de água.

A poluição por petróleo é o segundo passivo estruturante. Em janeiro de 1991, durante a Guerra do Golfo, a liberação deliberada de óleo de terminais e navios kuwaitianos provocou o maior derramamento até então registrado, com estimativas que vão de 4 a 11 milhões de barris e cerca de 800 km de litoral saudita atingidos. Manguezais e marismas afetados levaram décadas para se recuperar, e resíduos permanecem detectáveis em sedimentos. Somam-se a isso os aterros para expansão urbana, que eliminaram recifes e pradarias inteiras na margem sul.

Problemas de conservação

A cooperação ambiental é conduzida pela Organização Regional para a Proteção do Ambiente Marinho, criada pela Convenção do Kuwait de 1978 e sediada na capital kuwaitiana, que reúne os oito ribeirinhos e utiliza a designação neutra área marítima da ROPME justamente para contornar a disputa de nomenclatura. Seu programa cobre monitoramento de poluição, resposta a derramamentos e avaliação periódica do estado do ambiente marinho.

  • Reserva de Marawah — Área protegida de Abu Dabi que abriga a maior concentração de dugongos e pradarias marinhas do golfo.
  • Ilhas de nidificação — Vários ilhéus iranianos e sauditas têm acesso restrito nas temporadas de postura de tartarugas.
  • Caminho da Pérola — O conjunto de bancos de ostras e edificações de Barein foi inscrito como Patrimônio Mundial em 2012, registro de uma economia extinta.
  • Aterros costeiros — A expansão de ilhas artificiais em Dubai, Barein e no Catar é apontada como a principal causa recente de perda direta de habitat raso.

Curiosidades

  1. Durante o último máximo glacial, o Golfo Pérsico não existia: a depressão era um vale percorrido pelo curso conjunto do Tigre e do Eufrates, e só foi inundada pelo mar entre cerca de 12.000 e 8.000 anos atrás.
  2. Os corais do golfo suportam variações anuais de temperatura superiores a 20 °C e verões acima de 35 °C, condições que matariam a maioria das espécies recifais do mundo.
  3. O campo de gás partilhado entre Catar e Irã ocupa cerca de 9.700 km² sob o leito e é o maior depósito convencional de gás natural já identificado no planeta.
  4. Cerca de metade de toda a água dessalinizada produzida no mundo sai de usinas instaladas nas margens deste golfo, cujo volume total de água se renova em apenas três a cinco anos.
  5. O derramamento provocado em janeiro de 1991 foi o maior já registrado até então, com estimativas entre 4 e 11 milhões de barris e cerca de 800 km de costa saudita atingidos.

Fontes

As informações deste verbete foram conferidas nas publicações abaixo. Sempre que os valores divergem entre elas, a divergência está registrada no próprio texto.

  1. Organização Hidrográfica Internacional. Limits of Oceans and Seas, Special Publication 23, 1953. Consultar publicação
  2. Grupo de Especialistas das Nações Unidas em Nomes Geográficos. Padronização de nomes geográficos e uso do topônimo Golfo Pérsico, 2023. Consultar publicação
  3. PNUMA. Regional Seas Programme — ROPME Sea Area, 2023. Consultar publicação
  4. Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos. World Oil Transit Chokepoints — Strait of Hormuz, 2024. Consultar publicação
  5. União Internacional para a Conservação da Natureza. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas — dugongo, 2022. Consultar publicação
  6. UNESCO — Centro do Patrimônio Mundial. Pearling, Testimony of an Island Economy, 2012. Consultar publicação
  7. GEBCO. General Bathymetric Chart of the Oceans — grade batimétrica global, 2024. Consultar publicação

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